Archive for the ‘teatro’ Category

Plínio Marcos Por Eduardo Spósito

janeiro 18, 2010

Dentro de nossa “política editorial” de publicar os comentários mais relevantes dos nossos  leitores, postamos a seguir comentário de Eduardo Spósito sobre o texto  de Juvenal Alvarenga: Plínio Marcos, O Rebelde.

Não resisti. Dentro do espírito deste Arquivo, que é o relato do que vivenciamos naquele período, preciso falar de minha relação com o Plínio Marcos. (Devo adiantar que – como dizem os acadêmicos babacas atuais – não foi presencial).

A única vez que o vi de perto, ele estava vendendo seus livros colocados em cima de uns caixotes, lá nos barracos da Ciências Sociais da USP. E minha timidez me impediu de ir falar com ele.

Mas gostaria de contar o que ele representou para mim naquele momento da vida brasileira.

Começa pela televisão: o personagem que ele representou em “Beto Rockefeller”, novela em que fazia o amigo do personagem do Luiz Gustavo, indicava um tremendo de um ator, com uma nova linguagem, no tom da novela; seus debates com a Conceição da Costa Neves, talvez no programa chamado “Pinga Fogo’ foram memoráveis- discutia-se o uso de palavrão no teatro, por exemplo, a corrupção política, a marginalidade…

Nessa época eu era seminarista, fazendo filosofia num convento católico, mexia com teatro e me veio a idéia de fazer uma auto de natal, na linha da participação popular. Era só um esqueleto de idéias, mas não consegui escrever uma linha. Um amigo, padre Zanella diz ter levado a idéia para o Plínio e ele teria feito um texto chamado “Um dia virá”. Nunca soube se isso foi verdade e nem sei se houve esse texto do Plínio. Mas isso foi me amarrando mais à sua história.

Acho que assisti na época apenas duas peças: “Quando as máquinas param” e “Abajur Lilás”. Mas lí quase tudo que ele escrevia, inclusive seus artigos em jornais e revistas alternativas da época.Um texto seu que muito me impressionou e que acho profético sobre a marginalidade, foi “Querô”.

Um lado pouco comentado sobre Plínio foi sobre o seu humor: amargo pela vida que se vivia, mas sempre presente. Lembro sobre isso o texto sobre a Figurinha Difícil, que o vi contando várias vezes, mostrando o grande ator que era.

Para alegria minha, tenho uma filha que, ficando  grávida, reservou o nome de Plinio, se fosse menino, em homenagem ao grande autor. Parece que é uma menina, então ela vai ter que tentar de novo.

A qualidade maior na pessoa Plinio Marcos para mim é a autenticidade, o fato de não ter feito concessões e arcado com as consequências.

Eduardo Sposito

Plinio Marcos

dezembro 12, 2009

Em 1996, quando publiquei pela Editora Senac o Figurinha difícil – Pornografando e subvertendo, livro de histórias do Plínio, acabei abrindo o volume, por sugestão dele próprio, com um texto que eu já tinha pronto porque pretendia que tivesse sido a Introdução da biografia dele que anos antes, em 1993, eu tentara escrever.

Agora que você me pede um texto sobre o Plínio, cheguei à conclusão de que não seria necessário escrever de novo, porque já estava escrito.

Encaminho a você, portanto, o prefácio Assim é, se lhe parece, que é composto pelo texto de 1993 mais uma atualização que fiz por ocasião do lançamento do livro, em 1996. Se você achar que é muito longo, meta a tesoura à vontade. O Oswaldo Mendes usou trechos desse prefácio na biografia do Plínio que acaba de ser publicada.

Para ler o texto integral do prefácio mencionado que está em Página 43 clique aqui

Alberto Parahyba Quartim de Moraes
Dezembro de 2009

Nara: o pássaro e o leão

junho 13, 2009

naraopiniao

por Augusto Buonicore( Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp)

No último dia 7 de junho completaram-se vinte anos da morte da cantora Nara Leão. Ela foi uma das pessoas mais importantes na configuração do que conhecemos hoje como Música Popular Brasileira (MPB). Participou da criação da Bossa Nova, da “música de protesto”, do tropicalismo etc. Foi também uma artista engajada nas lutas do seu tempo pela liberdade e pelos direitos do povo. Era um bichinho estranho: meio pássaro e meio leão.
A matéria completa pode ser lida na Página 40.

Ainda mais uma vez Boal

junho 3, 2009

boal02

Tempos atrás decidimos transformar os comentários mais significativos dos leitores em posts do blog. É uma forma de destacar o comentário e torná-lo mais acessível. É o que fazemos, a seguir, com o comentário de Romario José Borrelli feito a respeito do post de Antonio Morales sobre Augusto Boal.

Por Romario José Borelli

Augusto Boal estava no auge de sua efervescência criativa quando foi preso pela ditadura no Brasil, em 1971. Havíamos chegado havia pouco da Argentina, onde tínhamos feito uma longa temporada de sucesso com Arena Conta Zumbi.

Para a viagem a Buenos Aires, Boal já fizera questão de levar, com o elenco do Zumbi, seu grupo experimental Teatro Jornal. Era o momento no qual ele começara a romper com as formas clássicas de teatro e com seus próprios ajustes ao teatro brechtiano. Surgiam assim formas de trabalho teatral menos comprometidas com o espetáculo tradicional, menos formais, ajustadas a qualquer espaço e realizadas por qualquer pessoa que quisesse ou precisasse se expressar. Ou seja, os recursos teatrais usados por “não atores”, de onde surgiram os seus Teatro Jornal e Teatro Invisível, que finalmente desaguaram no Teatro do Oprimido.

Mas Augusto Boal foi muito mais que o criador dessas formas teatrais. Ele foi um agitador cultural como ninguém, que via em tudo uma possibilidade de expressão e a implementava com celeridade e precisão. Sua fala sempre ligeira quase não dava conta de seu raciocínio ainda mais rápido. Ele era sempre guiado pelo visionarismo, no bom sentido da palavra, e sempre dirigia seu foco para onde outros ainda não tinham percebido que havia alguma coisa. Foi assim com o show Opinião (1964), onde brilharam Nara Leão, Maria Bethânia, Zé Keti e João do Vale (com texto de Paulo Pontes, Oduvaldo Vianna Filho e Jaime Costa), que se tornou um marco na cultura brasileira e abriu caminho para os musicais; foi assim com Arena Conta Bahia, onde lançou Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa. Foi assim com o “sistema coringa”, em que adaptava a estrutura do “corifeu” e do próprio “coro” do teatro grego a uma busca de expressão do teatro brasileiro. Lançou toda uma teoria a respeito, que estruturava a dramaturgia de Arena Conta Tiradentes, escrito com Gianfrancesco Guarnieri, seu grande parceiro. Também escreveram juntos Arena Conta Zumbi, que fez enorme sucesso no Brasil e no exterior. Os espetáculos se tornaram marcos na luta contra a ditadura.

Seu teatro invisível era uma forma de teatro relâmpago, em que um ou mais atores realizavam, num espaço público, uma performance não revelada como teatro. Por exemplo: dois atores conversavam num balcão de café e um começava a contar como tinha acabado de passar por uma ação truculenta da polícia, enquanto os demais frequentadores do café ouviam, mesmo disfarçadamente. Isso servia como denúncia da truculência policial.

Um caso famoso do teatro invisível deu-se em Milão, onde um casal de atores do grupo do Boal saiu desfilando pelas galerias de um shopping center e o ator puxava a atriz por uma coleira. Outros atores, disfarçados como frequentadores do shopping, fizeram uma intervenção, provocando uma discussão com aquele que puxava a coleira. Isso envolveu mais frequentadores, veio a polícia e armou-se uma grande polêmica, que serviu para trazer à tona o debate sobre a sujeição e a humilhação das mulheres.


O próprio Augusto Boal acabou sendo “vítima” do teatro invisível, quando atores suecos fizeram uma intervenção em um de seus seminários em Estocolmo e, vestidos como policiais, o “prenderam”. Depois de muita discussão, que culminou com a violência da polícia e a burocracia do Estado que não tinha liberado o seminário, eles se identificaram e o “soltaram”.

Esse era o Augusto Boal, cidadão brasileiro conhecido e respeitado em todos os países, dramaturgo, teórico de teatro, diretor, poliglota.

Escrevi-lhe algumas vezes quando ele estava na cadeia. Era uma situação estranha, pois não sabia o que escrever e o pouco que tinha para lhe dizer tinha de passar por minha própria censura, antecipando a leitura dos carcereiros que lhe entregariam a carta. Então, já mandava a carta aberta para não lhes dar trabalho. Eu não tinha que esconder que era do Teatro de Arena, o que provavelmente eles sabiam. Como sabiam também que eu não representava nada, que não era ninguém senão um jovem perplexo (22 anos), que demonstrava respeito e solidariedade por alguém que sofria. Dizia-lhe apenas que confiasse que estávamos levando o Zumbi e o Teatro de Arena da melhor forma e contávamos com sua volta quanto antes.

Não foi tão fácil. Boal continuou preso e o Arena saiu do Brasil com passaportes alterados para não chamar atenção para nossa condição de artistas de teatro, com a agravante de sermos do Teatro de Arena. No espaço para profissão dos antigos passaportes, tínhamos profissões diversas. Eu era “comerciário” num passaporte triste que ainda tenho. Note-se que a informatização e unificação das informações do Estado ocorreu bem depois; na época, era mais fácil burlar as cancelas da ditadura.

Na França, começamos uma campanha pela libertação de Boal aproveitando o Festival de Nancy, em 1971. Duas pessoas se destacaram nessa luta: o ator Antonio Pedro, que, além da militância política, tinha um ótimo domínio do francês; e Jacques Langue, que era diretor do Departamento de Cultura da Universidade de Nancy e anos depois foi ministro da Cultura de François Mitterrand e ministro da Educação de Jacques Chirac.


Boal foi solto e foi nos encontrar em Paris. Não é necessário dizer o que isso significou. Um dos momentos mais especiais de minha vida foi quando me sentei com ele num café de Montmartre. Ele pediu “deux balons rouges, s?il vous plaît”. Não tínhamos nada a dizer. Restava degustar a taça de vinho tinto.

Boal seguiu sua trajetória brilhante pelo mundo, abrindo caminhos, iluminando cantos escuros de nossas mentes. Visionário, não poderia deixar de ser socialista, sempre comprometido com a libertação do homem. Sabendo que o sistema opressor, este sim, é invisível, quando não é uma ditadura escancarada, criou formas e técnicas para denunciá-lo. Criou um método para que o homem usasse os elementos básicos dessa arte milenar que é o teatro para libertar-se do sistema econômico, dos tabus dos sexo, da opressão da convivência com os demais, da religião, da burocracia e de qualquer humilhação. Ao contrário do que muitos pensam, sua vida não foi dedicada ao teatro. Usou o teatro para dedicar-se aos direitos humanos.

Isso vale à pena mais que tudo no mundo. Foi o que Boal nos ensinou. Essa foi sua missão.

 

Romario José Borelli é dramaturgo, musicista e historiador. Autor, entre outras, da peça O Contestado. Músico do Teatro de Arena, fez as peças Arena Conta Zumbi, Arena Conta Tiradentes e Feira Paulista de Opinião. Também como músico, trabalhou em Roda Viva, de Chico Buarque

Outra vez BOAL

maio 21, 2009

 

Por Eduardo Sposito

Quero aproveitar pra contar mais alguma de minha relação a distância com o Boal. Queria até chamar de “Canto do exílio” ou o Exílio no meu canto, já que nós que não saímos do país porque não éramos tão importantes para a ditadura, tivemos que amargar o nosso cantinho dentro da pátria.

No ano da desgraça de 69, acabei ficando desempregado. Consegui em 1970 algumas aulas de Português num curso de madureza em Vila Galvão, Guarulhos. Acontece que o curso estava que só dava prejuizo, por isso os sócios abandonaram o barco. Eu não pude porque tinha casado e morava no prédio onde funcionava o dito curso. Acabei herdando o prejuizo e virei proprietário da dívida. Tive sorte pois aumentou o número de alunos e eu conseguia pagar o aluguel e às vezes os professores.

A coisa era braba. De manhã eu ia pra faculdade e voltava para casa à tarde, sem café da manhã e sem dinheiro pro pastel de palmito nos barracos da Usp. Alguém aí já andou na rua olhando pro chão pra ver se alguem possa ter perdido dinheiro… já passei por essa no trajeto pelo vale do Anhangabau. Quando sobrava uns trocos, comprava aquela Paçoca da Confiança – era uma delicia: sem muito açúcar e feita mesmo de amendoim, sequinha sem ser esfarelenta. Tão boa, que logo tiraram de circulação.

Mas o que tem a ver o Boal com isso? É que no curso de madureza, assumimos o papel de promover o que na época se chamava conscientização dos alunos. Tínhamos até assessoria do PC do B pra isso. Então fizemos um grupo de teatro e fomos assistir um espetáculo no Arena, especial para estudantes. Aí nos encontramos (não presencialmente, como se diria hoje) através dos textos. E o nosso contato foi através do texto do Espetáculo “Chiclete & Banana”, de Boal e Chico de Assis, cujo LP tenho até hoje.

É um texto altamente didático sobre o imperialismo cultural através da música, mostrando o samba que sai do morro e entra no circuito Miami-Copacabana, fazendo a trilha sonora da política da boa vizinhança e voltando “pro morro, onde está o meu cachorro vira-lata, minha cuica, meu ganzá.” Mostra a exploração via mambo, rumba, bolero “made in USA”. E introduzindo o famoso samba de Jackson do Pandeiro, conclui: “só iremos mascar o seu chiclete, no dia em que eles comerem a nossa banana.”

 E como dizia o texto do Arena conta Zumbi: “Assim passei os dias que me deram pra viver…

1969 – O Teatro perde Cacilda Becker

maio 5, 2009

 

Parece que nos útimos dias, o blog inclina-se para o teatro. Também está de luto com a morte de Boal. Coisas fortes como essa parecem criar um viés imaginativo, senão energético. Procurando por um registro do dia 6 de maio de 1969, deparo-me com um texto que fala da morte de Cacilda Becker. Já que o tema é teatro e o penúltimo registro de morte, vai lá:

14 June, 2008 | Posted by: lucyannemano

Jornal do Brasil: Sábado, 21 de junho de 1969 - página 5

Cacilda morreu. O teatro, aqui mais do que qualquer das outras artes, é ingrato, pois não nos oferece sequer a possibilidade da retrospectiva que o cinema usa para honrar seus mortos. A cada um de nós, individualmente, a lembrança de Cacilda no palco poderá enriquecer ainda, e por muito tempo. Mas não poderemos oferecer às novas gerações a mesma experiência. E elas serão mais pobres por isso…
Não nos será mais possível, em nossos momentos de luta, contar com seu entusiasmo, com o brilho de seu olhar ou com o calor de sua emoção, ou a força de sua coragem. E nós seremos mais pobres por isso
“.
Barbara Heliodora

O teatro brasileiro perdeu um de seus maiores expoentes de todos os tempos. A atriz paulista Cacilda Becker Yáconis, 48 anos, saiu prematuramente de cena, no auge da sua capacidade criadora, quando tudo levava a crer que ultrapassaria, nos futuros desempenhos, tudo que havia feito até então. Morreu após 38 dias de internação num quadro irreversível de derrame cerebral.

Primeira página do Jornal do Brasil: Quinta-feira, 8 de maio de 1969.

Quando tudo parecia definitivo, Cacilda Becker surpreendia com uma atitude inovadora, uma posição vanguardista, uma interpretação inesperada. Assim firmou-se fazendo da sua vida o teatro, e do teatro a sua vida. Exemplo de coragem, lucidez e intrépido espírito em defesa da cultura brasileira, atuou incansavelmente. Nem tudo foi fácil, nem tudo foi certo. Apenas verdadeiro. Se para o grande público o reconhecimento advinha da excelência da sua interpretação, ela foi decisiva para o amadurecimento da consciência profissional da classe teatral. Colocou-se aguerrida a serviço da arte dramática. Desgastou-se fisicamente, prejudicou-se economicamente, mas foi audaz até o fim na integridade e na dignificação do teatro brasileiro.

 

Jornal do Brasil: Espetáculo Esperando Godot. Caderno B, página 5

O súbito fim do último espetáculo
Uma Cacilda Becker maltrapilha, ou Estragon, personagem de Samuel Beckett, olha para seus pés machucados e geme, e a dor que quer transmitir parece ser sentida por todo o público. Walmor Chagas, ou Wladimir, também um mendigo, aparece, e se une a ela para juntos fazerem o que a platéia do teatro sabe ser absurdo, mas que não deixa de comovê-la, todas as noites: Esperar Godot. No fim do primeiro ato do espetáculo, no dia 6 de maio de 1969, Vladimir pergunta: “Então, vamos?” Estragon responde: “Vamos”. E a luz se apaga. Cacilda sai de cena para o intervalo, sente-se mal, e não volta mais aos palcos.

Augusto Boal

maio 2, 2009

boal

O dramaturgo e diretor teatro Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado- 02 de maio, aos 78 anos.

O trabalho do carioca Boal, que também era ensaísta e teórico do teatro, ganhou destaque nos anos 1960 e 1970, quando esteve à frente do Teatro de Arena de São Paulo e criou o Teatro do Oprimido,
pelo qual foi internacionalmente reconhecido por aliar arte dramática à ação social. Para ler mais sobre Augusto Boal
clique aqui

Veja aqui vídeo mostrando homenagem a Augusto Boal, por ocasião de seu aniversário em 24 de março de 2009.

Leia também: CARTA DO MST A AUGUSTO BOAL.

Entrevista com Augusto Boal em Página 38

Roda Viva – um olhar de 1968

setembro 27, 2008

 

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A cortina já está aberta quando você chega: enormes rosas à esquerda, enorme garrafa de Coca-Cola à direita, enorme tela de TV no fundo, uma passarela branca avançando até a metade da platéia. (…) A campainha toca três vezes, a platéia faz silêncio, ruídos estranhos saem dos alto-falantes, na tela de TV aparece uma frase: “Estamos à toa na vida”. (…)

Entra o coro, com longas túnicas vermelhas e mantilhas pretas. Canta um triste Aleluia, rodeia Benedito. Aparece o Anjo da Guarda (Antônio Pedro), o empresário de TV, com asas negras, cassetete de policial na cintura, maquiagem de palhaço de circo: “Benedito não serve, nós precisamos de um ídolo! Você será Ben Silver!”

O Coro joga para trás as túnicas e mantilhas, é agora um grupo de jovens do iê-iê-iê que canta: “Aleluia, temos feijão na cuia!” (…) O espetáculo não está somente no palco, o Coro invade a platéia, conversa com ela, e o empresário pede um minuto de silêncio em homenagem ao ídolo: cada participante do Coro olha fixamente um espectador (agora todos já entendem porque a bilheteria insistiu em vender ingressos da primeira fila).

O minuto termina, Ben Silver é carregado para o palco num grotesco andor feito de long-plays e fotos de cantores, conduzido por grotescas caricaturas das “macacas de auditório”, que no fim do primeiro ato o levam embora, deitado sobre uma cruz de madeira, nu, cansado sob o peso do próprio sucesso.

Ben Silver, esgotado pelo sucesso, procura o consolo de sua mulher (…) para uma linda cena de amor que é repentinamente interrompida pela câmera (sic) de TV e pelo Capeta (o jornalista desonesto) (…). E juntos, o jornalista e o Ibope, decretam o fim da carreira de Ben Silver: “O ídolo é casado! E além de tudo, é bêbado!”

Uma procissão de três matronas antipáticas tenta salvar o ídolo exigindo que ele faça caridade. Mas nada adianta, Ben Silver acabou. Só há uma solução: transformá-lo em Benedito Lampião. Para manter o prestígio ele deve suicidar-se. (…) a platéia sai do teatro evitando sujar os saltos dos sapatos Chanel nos restos do fígado de Benedito Silva que o Coro das fãs devora no final. (…) tudo é caricatura do religioso no espetáculo, que, como atividade religiosa, se desenvolve em todo teatro, palco, galerias, platéia. (O teatro com que sonhava Antonin Artaud).

Para criar o ídolo, ele é liturgicamente paramentado, peça por peça de seu ridículo traje prateado. (…) os atores se dirigem agressivamente à platéia, fazem perguntas, pedem assinaturas em manifestos, sacodem e encaram os espectadores (a censura de 14 anos me parece muito pouco severa para o espetáculo).

Ben Silver se encontra com a esposa coroado de espinhos, nu, como o Cristo. A tentativa de salvar o ídolo em decadência é encenada como uma procissão, liderada pelo capeta (seria a peça toda uma Missa Negra?) – que satiriza o jornalista marrom – usando como cruz o conhecido “X” de lâmpadas em pregado pelos fotógrafos. E a primeira cena entre Benedito e sua mulher é uma caricatura da Visão de Nossa senhora. (…) Elementos cristãos, aliás, são misturados com rituais pagãos (o fígado de Prometeu, as orgias de Dionísio), até com rituais políticos (a foice-e-martelo no chapéu do nordestino de Benedito Lampião).”

 IN: MENEZES, Marco Antônio. Roda Viva, de Francisco Buarque de Hollanda. Jornal da tarde, São Paulo, 2 fev. 1968. Divirta-se, pág. 01.

 

 

Para uma análise da peça teatral Roda Viva, ver mais em: A encenação no Brasil entre os anos de 1967 e 1974 – O tropicalismo no teatro. Ver mais sobre o teatro em 1968 em http://www.40anosde68.ufrj.br/pesq_teatro.htm e 68 –http://sessentaeoito.blogspot.com/
 

Por fim, encerre ouvindo a música e vendo um panorama dos acontecimentos de 1968 e dos últimos quarenta anos.

Roda Viva – A historicidade da cena teatral

julho 5, 2008

Küller
Espero tenha gostado (e chorado) com o Liberdade, Liberdade.
Tô enviando mais um texto pro Arquivo68. Espero que você goste também.
Abraço.

Zeca

O referido texto, de Jacques Elias de Carvalho, foi publicado em Páginas 31. Roda Viva – A historicidade da cena teatral.