Posts Tagged ‘atos de resistência’

Plínio Marcos Por Eduardo Spósito

janeiro 18, 2010

Dentro de nossa “política editorial” de publicar os comentários mais relevantes dos nossos  leitores, postamos a seguir comentário de Eduardo Spósito sobre o texto  de Juvenal Alvarenga: Plínio Marcos, O Rebelde.

Não resisti. Dentro do espírito deste Arquivo, que é o relato do que vivenciamos naquele período, preciso falar de minha relação com o Plínio Marcos. (Devo adiantar que – como dizem os acadêmicos babacas atuais – não foi presencial).

A única vez que o vi de perto, ele estava vendendo seus livros colocados em cima de uns caixotes, lá nos barracos da Ciências Sociais da USP. E minha timidez me impediu de ir falar com ele.

Mas gostaria de contar o que ele representou para mim naquele momento da vida brasileira.

Começa pela televisão: o personagem que ele representou em “Beto Rockefeller”, novela em que fazia o amigo do personagem do Luiz Gustavo, indicava um tremendo de um ator, com uma nova linguagem, no tom da novela; seus debates com a Conceição da Costa Neves, talvez no programa chamado “Pinga Fogo’ foram memoráveis- discutia-se o uso de palavrão no teatro, por exemplo, a corrupção política, a marginalidade…

Nessa época eu era seminarista, fazendo filosofia num convento católico, mexia com teatro e me veio a idéia de fazer uma auto de natal, na linha da participação popular. Era só um esqueleto de idéias, mas não consegui escrever uma linha. Um amigo, padre Zanella diz ter levado a idéia para o Plínio e ele teria feito um texto chamado “Um dia virá”. Nunca soube se isso foi verdade e nem sei se houve esse texto do Plínio. Mas isso foi me amarrando mais à sua história.

Acho que assisti na época apenas duas peças: “Quando as máquinas param” e “Abajur Lilás”. Mas lí quase tudo que ele escrevia, inclusive seus artigos em jornais e revistas alternativas da época.Um texto seu que muito me impressionou e que acho profético sobre a marginalidade, foi “Querô”.

Um lado pouco comentado sobre Plínio foi sobre o seu humor: amargo pela vida que se vivia, mas sempre presente. Lembro sobre isso o texto sobre a Figurinha Difícil, que o vi contando várias vezes, mostrando o grande ator que era.

Para alegria minha, tenho uma filha que, ficando  grávida, reservou o nome de Plinio, se fosse menino, em homenagem ao grande autor. Parece que é uma menina, então ela vai ter que tentar de novo.

A qualidade maior na pessoa Plinio Marcos para mim é a autenticidade, o fato de não ter feito concessões e arcado com as consequências.

Eduardo Sposito

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Mestra no ofício de cantar a vida

outubro 6, 2009

 

Do blog Prosa e Verso de Boteco, extraímos o seguinte excerto de um texto da Professora Aracéli Zampronha:

“Realizar o ofício tira você de cena e introduz o maior que você naquele lugar; e aquele lugar passa a unir a mente, o coração e o corpo da gente a um domínio maior e mais rico. Abre uma porta e uma janela para a vastidão do horizonte onde antes só havia uma sala fechada. Quem realiza esse ofício traz o fogo do sagrado para o mundo. A exigência dos seres de ofício está unida ao amor que professam. Quando trabalham, realizam o ofício de amar o mundo, celebram a possibilidade de encontro  humano mais verdadeiro.

E partiu para sempre, neste domingo, 4 de outubro de 2009, nossa Mercedes Sosa, a que melhor representou esse amor.”

E para matar saudades, postamos Gracias a la Vida!

Outra vez BOAL

maio 21, 2009

 

Por Eduardo Sposito

Quero aproveitar pra contar mais alguma de minha relação a distância com o Boal. Queria até chamar de “Canto do exílio” ou o Exílio no meu canto, já que nós que não saímos do país porque não éramos tão importantes para a ditadura, tivemos que amargar o nosso cantinho dentro da pátria.

No ano da desgraça de 69, acabei ficando desempregado. Consegui em 1970 algumas aulas de Português num curso de madureza em Vila Galvão, Guarulhos. Acontece que o curso estava que só dava prejuizo, por isso os sócios abandonaram o barco. Eu não pude porque tinha casado e morava no prédio onde funcionava o dito curso. Acabei herdando o prejuizo e virei proprietário da dívida. Tive sorte pois aumentou o número de alunos e eu conseguia pagar o aluguel e às vezes os professores.

A coisa era braba. De manhã eu ia pra faculdade e voltava para casa à tarde, sem café da manhã e sem dinheiro pro pastel de palmito nos barracos da Usp. Alguém aí já andou na rua olhando pro chão pra ver se alguem possa ter perdido dinheiro… já passei por essa no trajeto pelo vale do Anhangabau. Quando sobrava uns trocos, comprava aquela Paçoca da Confiança – era uma delicia: sem muito açúcar e feita mesmo de amendoim, sequinha sem ser esfarelenta. Tão boa, que logo tiraram de circulação.

Mas o que tem a ver o Boal com isso? É que no curso de madureza, assumimos o papel de promover o que na época se chamava conscientização dos alunos. Tínhamos até assessoria do PC do B pra isso. Então fizemos um grupo de teatro e fomos assistir um espetáculo no Arena, especial para estudantes. Aí nos encontramos (não presencialmente, como se diria hoje) através dos textos. E o nosso contato foi através do texto do Espetáculo “Chiclete & Banana”, de Boal e Chico de Assis, cujo LP tenho até hoje.

É um texto altamente didático sobre o imperialismo cultural através da música, mostrando o samba que sai do morro e entra no circuito Miami-Copacabana, fazendo a trilha sonora da política da boa vizinhança e voltando “pro morro, onde está o meu cachorro vira-lata, minha cuica, meu ganzá.” Mostra a exploração via mambo, rumba, bolero “made in USA”. E introduzindo o famoso samba de Jackson do Pandeiro, conclui: “só iremos mascar o seu chiclete, no dia em que eles comerem a nossa banana.”

 E como dizia o texto do Arena conta Zumbi: “Assim passei os dias que me deram pra viver…

Obrigado, Boal

maio 11, 2009

por Eduardo Sposito

Todos os que naqueles tempos ousamos mexer com teatro tinhamos uma profunda admiração pelo Boal e aprendemos muito com ele. No meu caso pessoal, o “tema” do meu casamento foi buscado no “Arena conta Zumbi”, de Boal e Guarnieri, em especial o texto inspirado em “Na selva das cidades” do Brecht.

Além disso, ainda no seminário católico onde fazia filosofia, numa exibição no palco do teatro paroquial na Igreja Santa Terezinha no Jaçanã, ousamos reproduzir um trecho do “Revolução na América do Sul” do Boal. Vou tentar reproduzir o conteúdo do texto, que foi onde recebi minha primeira aula de sociologia sobre o funcionamento do sistema capitalista.

Era a história de um operário – José da Silva( se não me engano) – que vai pedir um aumento ao patrão, pois seu filho “que nasceu ontem” estava chorando de fome e ele não tinha como comprar o leite. O patrão bonzinho resolve atender o pedido.

O Zé, todo feliz, resolve passar no açougue pra comprar um pedaço de carne, no lugar do osso que ele sempre comprava para a sopa. Aí começa o drama: a carne tinha aumentado de preço. Ele reclama com o açougueiro, que manda ele reclamar com o dono do caminhão, que era o culpado, porque aumentou o frete. O dono do caminhão diz que o culpado era o dono pneu, que tinha aumentado o preço do pneu.

O dono do pneu era seu patrão então ele vai reclamar dizendo que ele era o culpado pelo aumento do preço da carne. O patrão então lhe diz:”O culpado é você que pediu aumento e eu tive que aumentar o preço do pneu.” Aí o Zé conclui: “O culpado não sou eu. O culpado é meu filho que nasceu ontem e estava chorando de fome. Moleque safado: tão novo e já está desorganizando a economia do país.” (Mais tarde o Chico desenvolve o mesmo tema em “Opera do Malandro”).

A imagem que eu tenho do Boal está marcada pelo texto acima. E no curso de Ciências Sociais que fiz depois, pouca coisa foi acrescentada ao que está dito aí. Na hora que estou escrevendo este texto, recebo uma ligação dizendo que a Sheila, do grupo de teatro Desafio daqui de São José do Rio Preto, está muito triste com a morte do Boal. E a Sheila tem só 21 anos. Acho que é a melhor homenagem que o mestre poderia receber.

Obrigado, Boal.

Ato contra a ditabranda

março 6, 2009

 

Você corta um verso

Eu escrevo outro.
Você me prende vivo

Eu escapo morto.
De repente, olha eu de novo.

Perturbando a paz
Exigindo o troco.”
(Pesadelo – Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Só para não esquecer que a dita também foi "branda "com os jornalistas.

  

Dentre as muitas manifestações contra o editorial da Folha de São Paulo, para acompanhar o convite para o ato público contra a Ditabranda, escolhemos, por suscinto e adequado ao espírito de 68, o do Fupoca – Futebol, Política e Cachaça, cujo original pode ser visto em A ditabranda do Otavinho na Folha de S.Paulo.

Em 18 de fevereiro, a Folha de S.Paulo, mais uma vez, soltou um editorial raivoso contra Chavez chamando-o de ditador etc… pelo resultado do plebiscito em que poderá se reeleger quantas vezes quiser (e o povo deixar, óbvio). Até aí nada demais, Estadão e o Globo fazem o mesmo cotidianamente.

O pior foi a comparação: “Mas, se as chamadas “ditabrandas”  -caso do Brasil entre 1964 e 1985 – partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça -, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.”

Ok, dá vontade de perguntar ao Otavinho (publisher do jornal) quem mais chama de Ditabranda a ditadura brasileira. Até onde sei, a Folha inventou essa agora. 

Não vou me estender muito em comentários, mas publicar as cartas enviadas pelos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, por coincidência dois personagens que já entrevistei e dos quais tenho as melhoes impressões possíveis.

Cartas

Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!” MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP) ”

O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.” FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP) 

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa. 

Dizer que as indignações de Comparato e Benevides são obviamente cínicas e mentirosas… O que foi então esse editorial e a resposta da Folha, que não teriam saído sem a aprovação do dono do jornal, ou seja, Otávio Frias Filho?

Cabem as perguntas, o que eles beberam, fumaram ou cheiraram antes de tanta bobagem? Essas acho que nem Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi publicariam na Veja. Ou publicariam?

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Por fredi às 10:27

Mais sobre Ditadura, Folha de S.Paulo, Fábio Konder Comparato, Maria Victoria Benevides, Otavio Frias Filho

 

Para quem quiser ouvir Pesadelo, postamos um vídeo recente do MPB4:

Ginásios Vocacionais

janeiro 22, 2009

Por Sandra Machado Lunardi Marques

A propósito do post 68 – Dezembro, em Brasília!!, de Olga Maria Salati Marcondes de Moraes, recebi por e.mail o seguinte texto de Sandra Lunardi Machado, também colega do Curso de Pedagogia, turma de 68, da FAFI de Rio Claro (hoje UNESP).

Alga Marinha, por que eu não fui? 6 caipiras em Brasília?

Ainda  bem que foi documentado!

A proposta era avançadíssima – conteúdos nucleados ao eixo – vida/trabalho, ser acolhido na casa dos professores. Perda inestimável!

Mas, esse fato me lembrou de outro: se não me falha a memoria, em setembro de 1968. O Ginásio Vocacional de Rio Claro acolheu um congresso dos Institutos Isolados de Ensino Superior, cercado dos cuidados habituais, ou seja, estudantes em pontos estratégicos, com walkie-talkies (nossos amigos Willie e Richard eram alguns dos vigilantes de plantão) etc. e tal. Pois bem, eu estava na mesa de debates, secretariando o encontro, mas não tenho nenhuma foto do evento.

No estanto, quando entrevistei ex-professores do GV de Rio Claro, vários deles mencionaram o fato, que por sinal  tornou-se uma das provas para a condenação de Maria Nilde: ceder o prédio para um encontro de subversivos.

Naquele ano, todos os Vocacionais sofreram invasões no mesmo dia e hora, planejadas pelo 5º GECAM de Campinas. Nessas ocasiões, eles dispensavam todos os alunos, criticavam o uso da auto-avaliação como prática bolchevista, arrobavam os armários dos professores e apreendiam material subversivo – livros do Paulo Freire, “Geopolítica da fome”, de Josué de Castro, e pasmem, fotos e mais fotos do povo fazendo ginástica numa praça de Moscou, cuja reportagem foi extraída da revista “Manchete”.

Embaixo de uma disputa sórdida pelos rumos da educação pública que opôs , simplificando os termos , defensores da qualificação da cultura a defensores do aligeiramento e da pseudo-qualificação do ensino médio, pavões da USP defendendo sua cria – o Colégio de Aplicação, pais de alunos das classes médias e da elite, cujos filhos perderam sua vaga para os de extratos pobres da população, uma vez que o Vocacional usava porcentagens da representatividade social como um dos critéios de admissão, etc.. A soma de tudo isso levou nossa mais brilhante pedagoga às garras do delegado Sérgio Paranhos Fleury, sob os cuidados do qual ela perdeu a visão de um olho.

Moral da história: ao tentar desqualificar a história, ora tachando os Vocacionais de subversivos, ora de elitistas, a pátria amada nos obriga a cada ano a inventar a roda quadrada, claro. Currículo hoje é um tira-e-põe no mesmo horário, troca troca devidamente aprovado pela alta administração. Cruz credo!

Roda Viva – um olhar de 1968

setembro 27, 2008

 

https://i1.wp.com/br.geocities.com/infocasadamusica/CartazRodaViva.jpg

A cortina já está aberta quando você chega: enormes rosas à esquerda, enorme garrafa de Coca-Cola à direita, enorme tela de TV no fundo, uma passarela branca avançando até a metade da platéia. (…) A campainha toca três vezes, a platéia faz silêncio, ruídos estranhos saem dos alto-falantes, na tela de TV aparece uma frase: “Estamos à toa na vida”. (…)

Entra o coro, com longas túnicas vermelhas e mantilhas pretas. Canta um triste Aleluia, rodeia Benedito. Aparece o Anjo da Guarda (Antônio Pedro), o empresário de TV, com asas negras, cassetete de policial na cintura, maquiagem de palhaço de circo: “Benedito não serve, nós precisamos de um ídolo! Você será Ben Silver!”

O Coro joga para trás as túnicas e mantilhas, é agora um grupo de jovens do iê-iê-iê que canta: “Aleluia, temos feijão na cuia!” (…) O espetáculo não está somente no palco, o Coro invade a platéia, conversa com ela, e o empresário pede um minuto de silêncio em homenagem ao ídolo: cada participante do Coro olha fixamente um espectador (agora todos já entendem porque a bilheteria insistiu em vender ingressos da primeira fila).

O minuto termina, Ben Silver é carregado para o palco num grotesco andor feito de long-plays e fotos de cantores, conduzido por grotescas caricaturas das “macacas de auditório”, que no fim do primeiro ato o levam embora, deitado sobre uma cruz de madeira, nu, cansado sob o peso do próprio sucesso.

Ben Silver, esgotado pelo sucesso, procura o consolo de sua mulher (…) para uma linda cena de amor que é repentinamente interrompida pela câmera (sic) de TV e pelo Capeta (o jornalista desonesto) (…). E juntos, o jornalista e o Ibope, decretam o fim da carreira de Ben Silver: “O ídolo é casado! E além de tudo, é bêbado!”

Uma procissão de três matronas antipáticas tenta salvar o ídolo exigindo que ele faça caridade. Mas nada adianta, Ben Silver acabou. Só há uma solução: transformá-lo em Benedito Lampião. Para manter o prestígio ele deve suicidar-se. (…) a platéia sai do teatro evitando sujar os saltos dos sapatos Chanel nos restos do fígado de Benedito Silva que o Coro das fãs devora no final. (…) tudo é caricatura do religioso no espetáculo, que, como atividade religiosa, se desenvolve em todo teatro, palco, galerias, platéia. (O teatro com que sonhava Antonin Artaud).

Para criar o ídolo, ele é liturgicamente paramentado, peça por peça de seu ridículo traje prateado. (…) os atores se dirigem agressivamente à platéia, fazem perguntas, pedem assinaturas em manifestos, sacodem e encaram os espectadores (a censura de 14 anos me parece muito pouco severa para o espetáculo).

Ben Silver se encontra com a esposa coroado de espinhos, nu, como o Cristo. A tentativa de salvar o ídolo em decadência é encenada como uma procissão, liderada pelo capeta (seria a peça toda uma Missa Negra?) – que satiriza o jornalista marrom – usando como cruz o conhecido “X” de lâmpadas em pregado pelos fotógrafos. E a primeira cena entre Benedito e sua mulher é uma caricatura da Visão de Nossa senhora. (…) Elementos cristãos, aliás, são misturados com rituais pagãos (o fígado de Prometeu, as orgias de Dionísio), até com rituais políticos (a foice-e-martelo no chapéu do nordestino de Benedito Lampião).”

 IN: MENEZES, Marco Antônio. Roda Viva, de Francisco Buarque de Hollanda. Jornal da tarde, São Paulo, 2 fev. 1968. Divirta-se, pág. 01.

 

 

Para uma análise da peça teatral Roda Viva, ver mais em: A encenação no Brasil entre os anos de 1967 e 1974 – O tropicalismo no teatro. Ver mais sobre o teatro em 1968 em http://www.40anosde68.ufrj.br/pesq_teatro.htm e 68 –http://sessentaeoito.blogspot.com/
 

Por fim, encerre ouvindo a música e vendo um panorama dos acontecimentos de 1968 e dos últimos quarenta anos.

Sobre 68 e depois: Poesias de Paulo Fonteles

agosto 22, 2008
Repressão

Repressão

Em Cena 19 – Cena final, ou Cai o pano ou a Poesia necessária  – Eduardo Spósito lembra o Estatuto do Homem, de Thiago de Mello, como um poema que o emociona até hoje. Lembra também, que o Estatuto foi publicado no Chile durante o exílio de Thiago, com o apoio de Pablo Neruda.
 
O texto de Eduardo Spósito despertou-me a curiosidade sobre a produção poética da época e como a poesia foi usada, no e sobre o período,  como documento, denúncia e resistência.
 
Um pouco de pesquisa e já me deparo com uma matéria muito interessante. Trata-se do texto: Paulo Cézar Fonteles de Lima – Poesia e Ditadura, um ensaio de Steven Uhly, da  Faculdade de Letras da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, Alemanha, publicado na revista Literatura e Autoritarismo – Memórias da Repressão, edição de Janeiro / junho de 2007.

Do texto, cuja íntegra pode ser acessada clicando aqui, reproduzo os poemas de Paulo Fonteles, nele transcritos.

A VIAGEM

O AVIÃO
LEVANTA VÔO.

ALGEMAS NÃO PRENDEM O PULSO DA MULHER
QUE DESCANSA O BRAÇO LIVRE NO VENTRE CRESCIDO.

O RÁDIO
TRANSMITE A MENSAGEM:
                                       ALÔ ALÔ BOTAFOGO
                                       ALÔ ALÔ BOTAFOGO
A MERCADORIA
A MERCADORIA
A MERCADORIA
                             JÁ CHEGOU

A MERCADORIA
                             JÁ CHEGOU.

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DISCURSO DO MÉTODO

OS MÉTODOS DA GESTAPO

                              GESTAPO
                              GESTAPO
                              GESTAPO

ESTÃO ULTRAPASSADOS,
            ULTRAPASSADOS.

– ESTAMOS PESQUISANDO
                                         PESQUISANDO
                                         PESQUISANDO

A SANTA INQUISIÇÃO
A SANTA INQUISIÇÃO

– ESTAMOS PESQUISANDO A SANTA
                                         INQUISIÇÃO.
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PALAVRAS DE UM TORTURADOR

NÃO
TENHO
ESCRÚPULOS.

N Ã O
T E N H O
E S C R Ú P U L O S.

TUA
MULHER
SOFRERÁ
                     S O F R E R Á
AS CONSEQUÊNCIAS
                                C O N S E Q U Ê N C I A S.

TUA MULHER
SOFRERÁ AS CONSEQUÊNCIAS;

                                C
                                O
                                N
                                S
                                E
              C O N S E Q U E N C I A S
                                U
                                E
                                N
                                C
                                I
                                A
                                S

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AFOGAMENTO

       CORPO ESTIRADO
CABEÇA REPUXADA PARA TRÁS.

      TUBOS DE BORRACHA
INFILTRAM-LHE NA BOCA
                                      NAS NARINAS.

      ÁGUA.

O PEITO SUFOCA
O CORPO ESTERTORA
O PRESO ESPERNEIA.

       AGONIA.

QUANDO A MORTE SE APROXIMA
APENAS UM FÔLEGO.

        APENAS UM FÔLEGO
QUE O PRESO NÃO PODE MORRER ANTES DE
FALAR.

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CHOQUE

UM MAGNETO
UM DÍNAMO
DOIS FIOS.

ELETRICIDADE
NA LÍNGUA
NO PÊNIS
NO ÂNUS
NA CABEÇA.

ALUCINADO
O CORPO TREPIDA
NO PAU DE ARARA
ESCARRANDO SANGUE.

O SARGENTO,
AQUELE QUE GIRA O DÍNAMO
RI.

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LUZ

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

  AZUL
                FORTE LUZ.

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

A CABEÇA NÃO PODE BAIXAR
AS PÁLPEBRAS NÃO PODEM CERRAR.

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

  AZUL
                FORTE LUZ.

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

  DO NADA,
SURGINDO DO NADA
                                UM SOCO

ME CALA.

  SURGINDO DO NADA
                                  UM SOCO

ME CALA.

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PAU DE ARARA

DOIS CAVALETES
UMA BARRA DE FERRO.

ATAM-NO PELOS PULSOS
                            E TORNOZELOS
COMO UM PORCO QUE VAI AO MERCADO.

PENDE O CORPO
DISTENDEM BRAÇOS E PERNAS
ATÉ A DOR INSUPORTÁVEL.

TRÊS DIAS
TRÊS LONGOS DIAS
TERRIVELMENTE LONGOS.

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ANDAR

ANDAR
          ANDAR ANDAR
                                 ANDAR
ANDAR SEM PODER PARAR.

ANDAR
          ANDAR ANDAR
                                 ANDAR
ANDAR SEM PODER PARAR.

A SALA É PEQUENA
MEUS PASSOS MENORES AINDA.

ANDAR
          ANDAR  ANDAR  ANDAR  ANDAR
ANDAR SEM PODER PARAR.

ANDAR
SEMPRE ANDAR
SEM PODER PARAR.

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SEGUNDA ANUNCIAÇÃO

TEU FILHO
TEU FILHO
TEU FILHO
                 NÃO NASCERÁ.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
                                 NÃO DEVE NASCER.

NÃO DEVE NASCER
                               NÃO DEVE NASCER.

FILHO DESSA RAÇA
                               NÃO DEVE NASCER.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
                               NÃO DEVE NASCER
NÃO DEVE NASCER.

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ATAQUE DE PEÕES

GANHO UMA CARTEIRA DE CIGARROS,
VAZIA.
UM BELO PRESENTE.

COM UM FÓSFORO RISCADO
DESENHO UM TABULEIRO DE XADRÊS
E CUIDADOSAMENTE RECORTO 32 FIGURAS.

DESENVOLVO BOAS TRAMAS
E SONHO COM ATAQUES DE PEÕES.

O Fim da Primavera de Praga

agosto 19, 2008

Quarenta anos atrás, terminava a Primavera de Praga. “A Tchecoslováquia foi invadida por tropas soviéticas, em 20 de agosto de 1968. As reformas instaladas no país representavam, aos olhos do governo soviético, uma ameaça ao bloco socialista e à possível criação de uma nação capitalista incrustada no Leste Europeu.

 

Os tanques tomaram a capital Praga e, ao invés de encontrarem tropas armadas e resistentes, depararam-se com uma grande massa de civis inconformados com a ação autoritária da União Soviética. Muitos se deitavam na frente dos tanques, conversavam com os soldados pedindo sua retirada, outros pichavam ironias contra a invasão soviética e alguns transmitiam os eventos do acontecido via rádio.

Os mais exaltados tentaram entrar em confronto lançando pedras e coquetéis Molotov contra os tanques. O embate com as tropas soviéticas deixou um saldo de 72 mortos e 702 feridos” (Rainer de Souza, em Primavera de Praga).

Para quem quiser mais infomações sobre o tema, postamos em Páginas 34 – O trágico fracasso da Primavera de Praga, artigo de Jan Puhl, do  Der Spiegel.

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores

maio 18, 2008

 

Por mais “batida ” que seja,  a postagem de “Prá não dizer que não falei das flores” é inevitável. Em post de fevereiro, Orlando já tinha se referido a ela. Prá não dizer que esquecemos dela, aí vai…