Archive for the ‘Memórias e outras histórias’ Category

Retrato de familia en Argentina

janeiro 4, 2012

A história abaixo não está datada na década de 60, contudo ilustra muito bem o período de ditaduras militares que vivemos na América Latina incluindo o Brasil.

Retrato de familia en Argentina
Por Eduardo Galeano

El poeta argentino Leopoldo Lugones proclamó:
—¡Ha sonado, para bien del mundo, la hora de la espada!
Y así aplaudió, en 1930, el golpe de estado que instauró una dictadura militar.

Al servicio de esa dictadura, el hijo del poeta, el comisario Polo Lugones, inventó la picana eléctrica y otros convincentes instrumentos que él ensayaba en los cuerpos de los desobedientes.

Cuarenta y pico de años después, una desobediente llamada Pirí Lugones, nieta del poeta, hija del comisario, sufrió en carne propia los inventos de su papá, en las cámaras de torturas de otra dictadura.

Esa dictadura desapareció a treinta mil argentinos.

Entre ellos, ella.

Em português:
“O poeta argentino Leopoldo Lugones proclamou, para o bem no mundo: chegou a vez da espada! Assim aplaudiu, em 1930, o golpe de Estado que instalou uma ditadura militar. A serviço da ditadura, o filho do poeta, o Comissário Polo Lugones, inventou picana elétrica e outros convincentes instrumentos ele estava testava nos corpos dos desobedientes. Mais ou menos quarenta anos mais tarde, uma desobediente chamada Pirí Lugones, neta do poeta, filha do Comissário, sofreu em sua própria carne as invenções de seu pai, nas câmaras de tortura de outra ditadura. Essa ditadura desapareceu com trinta mil argentinos. Entre eles, ela.”


“Soy la Pirí Lugones, nieta del poeta, hija del torturador”

Plínio Marcos Por Eduardo Spósito

janeiro 18, 2010

Dentro de nossa “política editorial” de publicar os comentários mais relevantes dos nossos  leitores, postamos a seguir comentário de Eduardo Spósito sobre o texto  de Juvenal Alvarenga: Plínio Marcos, O Rebelde.

Não resisti. Dentro do espírito deste Arquivo, que é o relato do que vivenciamos naquele período, preciso falar de minha relação com o Plínio Marcos. (Devo adiantar que – como dizem os acadêmicos babacas atuais – não foi presencial).

A única vez que o vi de perto, ele estava vendendo seus livros colocados em cima de uns caixotes, lá nos barracos da Ciências Sociais da USP. E minha timidez me impediu de ir falar com ele.

Mas gostaria de contar o que ele representou para mim naquele momento da vida brasileira.

Começa pela televisão: o personagem que ele representou em “Beto Rockefeller”, novela em que fazia o amigo do personagem do Luiz Gustavo, indicava um tremendo de um ator, com uma nova linguagem, no tom da novela; seus debates com a Conceição da Costa Neves, talvez no programa chamado “Pinga Fogo’ foram memoráveis- discutia-se o uso de palavrão no teatro, por exemplo, a corrupção política, a marginalidade…

Nessa época eu era seminarista, fazendo filosofia num convento católico, mexia com teatro e me veio a idéia de fazer uma auto de natal, na linha da participação popular. Era só um esqueleto de idéias, mas não consegui escrever uma linha. Um amigo, padre Zanella diz ter levado a idéia para o Plínio e ele teria feito um texto chamado “Um dia virá”. Nunca soube se isso foi verdade e nem sei se houve esse texto do Plínio. Mas isso foi me amarrando mais à sua história.

Acho que assisti na época apenas duas peças: “Quando as máquinas param” e “Abajur Lilás”. Mas lí quase tudo que ele escrevia, inclusive seus artigos em jornais e revistas alternativas da época.Um texto seu que muito me impressionou e que acho profético sobre a marginalidade, foi “Querô”.

Um lado pouco comentado sobre Plínio foi sobre o seu humor: amargo pela vida que se vivia, mas sempre presente. Lembro sobre isso o texto sobre a Figurinha Difícil, que o vi contando várias vezes, mostrando o grande ator que era.

Para alegria minha, tenho uma filha que, ficando  grávida, reservou o nome de Plinio, se fosse menino, em homenagem ao grande autor. Parece que é uma menina, então ela vai ter que tentar de novo.

A qualidade maior na pessoa Plinio Marcos para mim é a autenticidade, o fato de não ter feito concessões e arcado com as consequências.

Eduardo Sposito

1968- Um homem fazendo a diferença

novembro 6, 2009

SÉRGIOMACACO: O HOMEM QUE FEZ A DIFERENÇA

sergiomacaco

Por WB, em 15/06/2008

Dia 12 de junho de 1968, o capitão para-quedista Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, convocado a uma reunião, foi recebido no gabinete do ministro da Aeronáutica pelos brigadeiros Hipólito da Costa e João Paulo Burnier, que viria a se tornar conhecido como torturador e assassino.

Sérgio era admirado por indianistas como os irmãos Vilas-Boas e o médico Noel Nutels. Foi amigo de caciques como Raoni, Kremure, Megaron, Krumari e Kretire. Os índios o chamavam “Nambiguá caraíba” (homem branco amigo).

Aos 37 anos, Sérgio Macaco (como era conhecido na Aeronáutica) já tinha seis mil horas de vôo e 900 saltos em missões humanitárias, de resgate e socorro em geral. Todavia o tipo de tarefa que lhe seria proposta ali pelos oficiais não era nem um pouco digna ou solidária.

– O senhor tem quatro medalhas por bravura, não tem? – indagou Burnier.

Sérgio respondeu afirmativamente. Então o brigadeiro continuo u:

– Pois a quinta, quem vai colocar no seu peito sou eu. – Fez uma pausa. – Capitão, se o gasômetro da avenida Brasil explodir às seis horas da tarde, quantas pessoas morrem?

Achando que a pergunta se referia apenas à remota hipótese de um acidente na cidade do Rio de Janeiro, Sergio respondeu:

– Nessa hora de movimento, umas 100 mil pessoas.

Foi nesse momento que os dois brigadeiros começaram a explicar um terrível plano terrorista das Forças Armadas e qual deveria ser a participação de Sérgio. Os dois propuseram que ele, acompanhado por outros para-quedistas, colocasse bombas na porta da Sears, do Citibank, da embaixada americana, causando algumas mortes.

Em seguida viria a grande carnificina: queriam que dinamitasse a Represa de Ribeirão das Lajes e, simultaneamente, explodisse o gasômetro. As cargas, de efeito retardado, seriam colocadas pelo capitão Sérgio, que depois ficaria aguardando, no Campo dos Af onsos, o surgimento duma grande claridade.

Aí ele decolaria de helicóptero e aportaria no local da tragédia posando de bonzinho, prestando socorro a milhares de feridos e recolhendo mortos vítimados pela ação da própria Aeronáutica.

Colocariam a culpa nos grupos esquerdistas que lutavam contra a ditadura. Sérgio seria tido como herói por salvar as supostas vítimas dos “comunistas” e receberia sua quinta medalha, enquanto a ditadura teria um pretexto para aumentar a repressão a socialistas e democratas.

O capitão se negou a participar de uma ação tão vil. Declarou corajosamente aos bandidos fardados:

– O que torna uma missão legal e moral não é a presença de dois oficiais-generais à frente dela, o que a torna legal é a natureza da missão.

Outros em seu lugar simplesmente encolheriam os ombros e obedeceriam aos superiores, iriam se desculpar dizendo que estavam apenas “cumprindo ordens”.

Mas Sérgio era é tico, íntegro, não tinha obediência cega a ninguém, seguia acima de tudo sua consciência e valores. Era um homem de verdade: denunciou o plano diabólico e evitou aquela que seria a maior tragédia da nossa história.

Foi perseguido pela ditadura, discriminado, removido para o Recife, reformado na marra aos 37 anos, cassado pelo AI-5 e pelo Ato Complementar 19, curtiu prisão… só não puderam quebrar-lhe integridade e honra, sua firmeza de ser humano. Sérgio se recusou a ser anistiado. “Anistia-se a quem cometeu alguma falta”, costumava dizer. “Não posso ser anistiado pelo crime que evitei”.

Em 1970, necessitando de um tratamento de coluna, aconselharam-no a não se internar em unidade militar, pois certamente seria assassinado lá dentro. Graças ao jornalista Darwin Brandão, com auxílio do médico Sérgio Carneiro, o capitão acabou sendo tratado clandestinamente no Hospital Miguel Couto.

Nos anos 90, o Supremo Tribunal Feder al determinou indenização e promoção de Sérgio a brigadeiro. Tal sentença dependia, porém, da assinatura de Itamar Franco. Itamar, como se sabe, não é nenhum modelo de virtude e, não por acaso, foi vice do corrupto Fernando Collor de Mello, que foi prefeito biônico de Maceió durante a ditadura e se criou politicamente graças ao regime militar…

Por seis meses, o presidente Itamar Franco, mesmo sabendo que Sérgio estava acometido de um câncer terminal no estômago? Guardou, na gaveta, a sentença do STF favorável ao capitão. Só a assinou três dias depois da morte do herói ocorrida em 4 de fevereiro de 1994.

Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho (cuja história é narrada no documentário “O Homem que disse Não” do diretor francês Olivier Horn) foi enterrado no cemitério São Francisco Xavier no Caju sem honras militares.

É lembrado, entretanto, por todos aqueles que valorizam vida, ética, honestidade, coragem. Sérgio provou qu e, ao contrário do que muitos dizem, uma pessoa pode mudar a História: cada um de nós faz diferença no mundo.

Publicado anteriormente no Blog do Nassif

Easy Rider (Sem Destino)

julho 23, 2009

 

 

“O clássico dos anos 60, que marcou toda uma geração, está de volta em edição especial, com sua inesquecível trilha sonora e imagem remasterizadas digitalmente. Edição Especial de 30º Aniversário. Mergulhe na contra cultura dos anos 60 sem nenhuma censura, nesta emocionante mistura de drogas, sexo e política. Jack Nicholson estrela com Peter Fonda e Dennis Hopper (que também dirige) neste clássico incomum, que a Revista Time elogiou como um dos dez mais importantes filmes da década. Indicado para o Oscar de Melhor Roteiro em 1969, Sem Destino continua a emocionar o público de todas as idades”

 

O texto anterior é do relançamento de EasY Rider (Sem Destino) há 10 anos atrás.  Informações adicionais sobre o filme podem ser obtidas clicando aqui.

 Para quem era jovem na época do lançamento, Sem Destino é um filme inesquecível. Tão presente na minha memória que lembro-me  do lugar e das circunstâncias em que o assisti.

Com os meus colegas de classe de Filosofia da Educação, curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Rio Claro, fui até Campinas para uma visita à UNICAMP, então recentemente criada. O objetivo da visita era conhecer os computadores da universidade e discutir o futuro da computação e sua possível influência na sociedade e na educação.   

 Em relação às imensas expectativas que tínhamos sobre o futuro da nova tecnologia, a visita foi frustante. O professor que nos guiou na visita (esqueci-me de seu nome), mostrando a carcaça do enorme Mainframe, disse-nos que o computador não merecia nossa visita e nossa preocupação. Afirmou que ele era apenas uma enorme máquina de calcular, cuja influência futura seria mínima.

 Da UNICAMP, fomos ao cinema. “Um homem saiu em busca da América. Não a encontrou em lugar algum”, dizia o poster de Sem Destino, na entrada da sala de projeção. O filme valeu a viagem. A imaginação reprimida na universidade soltou-se no cinema.

 A lembrança acoplada das duas cenas  (computador X filme) é tão vívida, que acredito que guardavam alguma profecia. Algum dia descubro qual é, foi ou será.

Trens, tecnologia e cacoetes religiosos

junho 8, 2009

trens

A propósito de uma conversa sobre trens de hoje e antanho com meu amigo Juvenal Alvarenga, estávamos nos esclarecendo sobre o tal de SELETIVO, que nada mais é que um sistema de controle do tráfego de trens que hoje se faz com o apoio das novas tecnologias e o tal lacre eletrônico das locomotivas.

E aí o Juvenal saiu com o “causo” abaixo, cujos fatos ocorreram segundo ele por volta de 1955. Mas poderia muito bem ter acontecido nos anos 60, motivo pelo qual o incluímos neste blog.

Antonio Morales

Trens, tecnologia e cacoetes religiosos

Esse papo de TRENS vai longe… …O “SELETIVO” era e talvez continue sendo um dispositivo de controle para que os trens não transitem simultaneamente num mesmo par de trilhos. . Nos tempos do meu amigo Ferreirinha da Noroeste essa vilância não tinha nada de “lacre eletrônico”.

Os computadores mal estariam sendo gestados no silêncio esperto da cabeça dos cientistas. O controle era feito na base do papel, lápis, gráficos, régua e transferidor. Um dia fui visitar o Ferreirinha na escala noturna do seu serviço e fiquei maravilhado com a destreza com que ele exercicia a vigilância dos trens no vai-e-vem entre as estações.

Pilotando sua mesa de engenheiro tipo cavalete o Ferreirinha – moreno, febril e ágil – de boné quebra luz sobre os olhos e o lápis preso na orelha assumia ares de anjo da guarda retendo ou liberando pelo telefone as composisões entre as estações. Um trem só partia com sua órdem expressa, depois de verificar que os trilhos estavam desimpedidos.

Isso era registrado com um vigoroso traço sobre o grande mapa da malha ferroviaria previamente desenhada e disposto sobre sua mesa de trabalho. No final de cada turno eram tantos os riscos e rabiscos que o gráfico tinha que ser trocado por outro novinho em folha.

Quando o trem paria de uma estação o fato era comicado ao “Seletivo” por telefone e o Ferreirinha fazia um círculo de onde aconteceu a partida. A seguir riscava na malha o percurso até a cidade próxima que era por sua vez assinalada da mesma forma. E assim sucessivamente.

Não tinha erro. Nenhuma outra composição poderia usar aquele percurso nem para tirar o pai da forca. Se isso acontecesse era trombada na certa. Ou um empurrão pela retaguarda de uma compoição mais lenta.

O Ferreirinha foi meu colega de quarto na pensão da Dona Nenzinha. Ou seria outro o seu nome.? Foram tantos os hoteis, pensões, vagas e hospedarias onde reposuei meu corpo cansado que me dou ao direito de pequenas confusões onomásticas. Fazíamos parte, eu e ele, dos hóspedes comportados que a senhoria reunia numa parte seleta da casa.

Longe dos jogares de baralho, dos notívagos, dos cervejeiros e dos zoneiros com sua vozearia usual. Éramos a elite da escória. Estudantes, na sua maioria, mantidos pelas mesadas familiares que precisavam fazer jus aos trocados recebidos sem o labor insano. Ou, então, empregados como o Ferreirinha que precisam manter-se solerte para a próxima jornada de trabalho. Nada de vacilos boemios.

Lembro-me do Fereirinha por vários motivos, inclusive pelo bom amigo que era. E, também, por um cacoente religioso que desenvolveu – quem sabe – sem ele mesmo perceber.

A certa altura de seus solitários dias ganhou uma correntinha benta (como era de costume) e começou a homenagear o santo com um beijinho de vez em quando. Creio que de início os beijinhos eram ocasionais e esporádicos Mas sistemático como era, resolveu por ódem naquela devoção.

Passou a beijar de hora em hora, sem muito rigor matemático. Aos poucos, porém, sua religiosidade achou que era pouco e os beijos foram se adensando no correr do dia. Era raro o momento em que o Ferreira não estava com a medalhinha rente aos lábos para o exercíciodo beija-beija. .

De resto todos sabemos que as devoções do catolicismo são repetiticas e cronometradas : – as tres aves-marias, as ladaínhas, os terços… as vésperas, o ângelus…

Com seus beijos castos o Ferreirinha parecia seguir esses ritus da religião. Porém para gerar mais merecimentos deviam ocorrer cada vez mais… e mais vezes.

Nessa aritmética desvairada o meu bom amigo deve ter perdido o controle de sua devoção. O que valia não era tanto a periodicidade, mas sim a quantidade de beijos.

Uma avalanche. Quanto tocava a medalhinha com a mão, alí mesmo, tão perto no seu pescoço, lembrava-se do compromisso e com a efígie colada aos lábios descontava os beijos atrasados. Era um tuch-tuch-tuch, sonoro, solerte e incontável. Deixara de contar há muito tempo. Passara a calcular os beijos por tempo de duração do exercício piedoso.

Os períodos de repouso eram raros… bastava lembrar-se que estava em desvantagem na sua reverência que lá vinha um beija-beija frenético. Não se ocultava, não se omitia, não se escondia… era tudo às claras.

Essa passou a ser a sua marca. Pelo menos no crivo da minha observação. Pode ser até que exagero por um desses desmazelos com que o tempo guarda as lembranças. Depois nos separamos, ao comando aleatório dos caprichos do destino. E o velhoamigo deixou da habitar minhas memórias, de onde hoje o ressuscitei para este átimo de saudades. O que a vida terá feito do Ferreirinha do Seletivo da Noroeste do Brasil, com seu beija-beija alucinado? Por onde andará o Ferreirinha?

Se vivo for se lembrará de mim como me lembro dele nesta tarde fria e silente na contemplação das águas calmas de Avaré? Quem saberá?

Juvenal Alvarenga Jr.

1969- O ANO EM QUE O SONHO ACABOU

abril 3, 2009

quedalivre1

por Eduardo Sposito

Foi um ano tão triste que nem dá pra fazer piada com a famosa posição. (Até porque a posição que nos lembra o período é aquela do “pau-de-arara”)

Foi um período tão ruim que na década de 80 fui morar numa casa que tinha o número 1969 e sempre me sentia incomodado por isso.

E ruim não era só a situação politica. As artes, a cultura em geral, florescentes até 68, caíram a um nível às vezes insuportável.Só para ilustrar:

A trilha sonora passa a ser cantada por Dom e Ravel. O festival da Canção premia a famosa “BR-3”, que ainda assim lembrava que “a gente corre, a gente morre na BR-3”. Os compositores que não foram calados, nos mandavam aquele “Aquele abraço”. O Chico, de tão censurado, vira Julinho da Adelaide. O seu “Chame o Ladrão!” é o retrato do momento vivido.
” e se depois de um tempo, eu não vindo
veste a roupa de domingo
e pode me esquecer.”
Assim viviamos aquela hora: com medo de que a nossa vez chegasse, só porque algum dia você tinha tomado chopp com alguém que foi preso (conheço casos assim.)

E a expectativa de noticias de alguém que conhecíamos, que fora preso, se estava vivo. Não sabiamos se era aconselhavel visitar alguém que podia estar vigiado.(conheço muitos que cairam assim).
E tem uns caras que chamam isso de ditabranda. E olha que não chegamos a ser presos e torturados. Mas o clima era irrespirável.

Fora isso éramos obrigados a aguentar a propaganda oficial do “Brasil Grande”, do milagre econômico, do “ninguém segura esse país”, do “ame-o ou deixe-o”.

Ainda assim achava-se espaço para um humor amargo.
O”Pasquim” foi recolhido – dizem- porque fez uma charge envolvendo os ditadores de plantão:

quadro 1- um mapa de Brasil personalizado, à beira de um precipício com uma frase do Castello Branco: “Antes de mim o Brasil estava à beira do Abismo”

quadro 2 – o Brasil se movimenta, com uma frase do Costa e Silva: “Comigo o Brasil deu um passo à frente”

quadro 3- o Brasil caindo no abismo, e o Garrastazu perguntando:”Ninguém segura esse País?”

Apesar de colecionar o Pasquim, não cheguei a ver, mas que foi uma boa vingança, foi.

Outra piadinha amarga, ironizando o “ame-o…” era o “Médici ou mude-se”

Nem o futebol sobrou. Depois da substituição do “comunista” João Saldanha pelo Zagalo no comando da Seleção Brasileira, até torcer pelo tri de 70 era meio amargo. Bom, pelo menos serviu de pano de fundo para o sequestro do Embaixador americano.

Nos anos que se seguiram, com o exterminio da guerrilha urbana e da rural, assistimos à debandada dos sobreviventes. Muitos foram para a “sociedade alternativa” do movimento hippie, do sexodrogaserocknroll, do misticismo; muitos se “guardando para quando o carnaval chegar” ou para o “amanhã que vai ser outro dia, apesar de você”(obrigado Chico); outros entrando no sistema para ganhar dinheiro no overnight.

Lembro de uma amiga – agora saudosa – que ao me encontrar de novo nos anos 80, me disse aliviada: “Tinha medo de te encontrar e ver que você também tivesse traído nossos sonhos”

O consolo que tenho é que ainda hoje( em 2009) posso dizer a ela, onde ela estiver: “Ainda não, Lucila!”

Meu segurança

janeiro 29, 2009

Ano: 1966. Evento: passeata estudantil pelas ruas de São Paulo. Motivo: protesto contra a ditadura. Ponto de partida: Largo São Francisco. Esses dados situam a primeira vez que participei de um ato público contra a ditadura. Não foi propriamente uma passeata, como as muitas que fizemos em 1968. O movimento ainda não estava bem organizado. A ditadura ainda não tinha mostrado todas as suas maldades.

A polícia nos dispersava com relativa facilidade. Mas não desistíamos. De alguma parte surgia uma palavra de ordem para nos reagruparmos em outro local. E assim o fazíamos. Era uma correria de gato e rato, ou, se quiserem, de polícia e estudantes por todo o centro de São Paulo. A manifestação durou umas três horas. Por volta das oito da noite resolvi ir pra casa.

Na época, morava no Jaçanã. Ia chegar tarde e talvez não encontrasse comida. Resolvi parar no meio do caminho e visitar um meio irmão de minha vó materna, tio Onofre. Ele morava pelos lados de Santana e eu tinha certeza que dava para roubar uma bóia da tia Adélia, excelente cozinheira. Além disso, o velho Onofre era um consumidor contumaz de cerveja. Sob um telhado no quintal de sua casa havia mais engradados da bebida que em qualquer depósito de um boteco médio. Decisão acertada. Janta maravilhosa. Depois, um papo comprido, animado por muitos copos gelados da loira mais querida do país. Na conversa nada da manifestação. Apenas coisas de família e estórias profissionais do tio Onofre, grande marceneiro e matuto de Capetinga, MG, vivendo aventuras na cidade grande.

Por volta da meia noite anunciei que estava saindo para pegar o ônibus para Jaçanã. Na época, andar pelas ruas de Sampa tarde da noite era coisa tranquila. Mas meu tio queria que eu chegasse em casa são e salvo. Prontificou-se a me achar um segurança. E assim o fez. Um amigo dele estava indo para os lados da Dr. Zuquim onde eu pegaria o Parque Edu Chaves. E o velho Onofre achou que eu iria fazer a caminhada mais tranquila de minha vida. O segurança ad hoc era um soldado da polícia militar. E lá fomos rua afora papeando sobre coisas da vida. Não sei como  a conversa descambou para o lado da manifestação do dia. Meu segurança tinha participado de toda a correria no centrão. Mas antes de tentar impedir a manifestação, tinha sido convocado para permanecer no quartel desde a véspera. Acordara de madrugada para uma “ordem unida” e ouvira o dia todo discursos dos oficiais contra os comunistas e baderneiros. Resumo:  ficara aquartelado umas vinte horas e correra muitos quilometros atrás dos estudantes. Estava furioso. Entre outras coisas me disse: “eu queria muito pegar um daqueles estudantes; ele ia ver como canta um cassetete!”. Gelei. Ainda bem que eu não lhe dissera que era estudante, muito menos que havia participado da manifestação. Cheguei inteiro ao ponto de ônibus e liberei o meu segurança. Tio Onofre nunca soube do apuro que passei.

Ginásios Vocacionais

janeiro 22, 2009

Por Sandra Machado Lunardi Marques

A propósito do post 68 – Dezembro, em Brasília!!, de Olga Maria Salati Marcondes de Moraes, recebi por e.mail o seguinte texto de Sandra Lunardi Machado, também colega do Curso de Pedagogia, turma de 68, da FAFI de Rio Claro (hoje UNESP).

Alga Marinha, por que eu não fui? 6 caipiras em Brasília?

Ainda  bem que foi documentado!

A proposta era avançadíssima – conteúdos nucleados ao eixo – vida/trabalho, ser acolhido na casa dos professores. Perda inestimável!

Mas, esse fato me lembrou de outro: se não me falha a memoria, em setembro de 1968. O Ginásio Vocacional de Rio Claro acolheu um congresso dos Institutos Isolados de Ensino Superior, cercado dos cuidados habituais, ou seja, estudantes em pontos estratégicos, com walkie-talkies (nossos amigos Willie e Richard eram alguns dos vigilantes de plantão) etc. e tal. Pois bem, eu estava na mesa de debates, secretariando o encontro, mas não tenho nenhuma foto do evento.

No estanto, quando entrevistei ex-professores do GV de Rio Claro, vários deles mencionaram o fato, que por sinal  tornou-se uma das provas para a condenação de Maria Nilde: ceder o prédio para um encontro de subversivos.

Naquele ano, todos os Vocacionais sofreram invasões no mesmo dia e hora, planejadas pelo 5º GECAM de Campinas. Nessas ocasiões, eles dispensavam todos os alunos, criticavam o uso da auto-avaliação como prática bolchevista, arrobavam os armários dos professores e apreendiam material subversivo – livros do Paulo Freire, “Geopolítica da fome”, de Josué de Castro, e pasmem, fotos e mais fotos do povo fazendo ginástica numa praça de Moscou, cuja reportagem foi extraída da revista “Manchete”.

Embaixo de uma disputa sórdida pelos rumos da educação pública que opôs , simplificando os termos , defensores da qualificação da cultura a defensores do aligeiramento e da pseudo-qualificação do ensino médio, pavões da USP defendendo sua cria – o Colégio de Aplicação, pais de alunos das classes médias e da elite, cujos filhos perderam sua vaga para os de extratos pobres da população, uma vez que o Vocacional usava porcentagens da representatividade social como um dos critéios de admissão, etc.. A soma de tudo isso levou nossa mais brilhante pedagoga às garras do delegado Sérgio Paranhos Fleury, sob os cuidados do qual ela perdeu a visão de um olho.

Moral da história: ao tentar desqualificar a história, ora tachando os Vocacionais de subversivos, ora de elitistas, a pátria amada nos obriga a cada ano a inventar a roda quadrada, claro. Currículo hoje é um tira-e-põe no mesmo horário, troca troca devidamente aprovado pela alta administração. Cruz credo!

68 – Dezembro, em Brasília!!

dezembro 22, 2008

Por Olguinha Salati

As lembranças são escassas, tal qual a memória.

Fafi_em_Brasilia-1968-a Mas é fato: monitorados pelo Prof. Aluisio Aragão, partia da FAFI – Rio Claro, atual UNESP, naquele dezembro/68, um ônibus de alunos de Pedagogia, em direção à Brasília!

Objetivo: estagiar junto ao CIEM (Centro Integrado de Ensino Médio) da Universidade de Brasília, verificando a prática de um Projeto de Ensino que integrava todos os componentes do Quadro Curricular, num único eixo temático: Vida e Trabalho.

Atividade dirigida aos concluintes/68 de Pedagogia, as vagas existentes puderam ser preenchidas por alunos das demais séries do Curso. Acredito que a edição do AI-5 acabou provocando desistências e assim, embarcamos (um grupo de 6 primeiro – anistas) na excursão para o estudo do meio na UnB.

Revendo o contexto da época, compreendo com facilidade os motivos da preocupação de nosso zeloso mestre. O ano letivo tornara-se um turbilhão: alunos excedentes, assembléias permanentes, XXX Congresso da UNE violentamente reprimido, alunos, professores, políticos, artistas e figuras de expressão devidamente amordaçados e sumidos, informantes infiltrados nos movimentos organizados e salas de aulas.

Os posts existentes neste blog a respeito da situação propiciam um panorama do clima reinante.

Fomos alojados (inicialmente ficaríamos na própria UnB) em residências de professores da Universidade, que se dispuseram a tal, contatados pelo Prof. Aragão. Andávamos sempre em grupos, devidamente atentos e cautelosos com a presença do exército por toda parte.

Assim, cumprimos nossos contatos numa já silenciosa e silenciada UnB (entrevistas com poucos professores e alunos disponíveis, alguns coordenadores e leitura de material didático produzido) e visitamos as iniciadas construções que tornariam Brasília, mais tarde, referência em arquitetura.

Fafi_em_Brasilia-1968 As poucas fotos que tenho da época, duas delas aqui publicadas, bem como os artigos e informações deste blog, permitem concluir que a capital federal era um perfeito terreiro de obras lamacento, não só no sentido físico-estrutural, mas também político-social.

A Geração Paissandu

dezembro 5, 2008

 Pesquisando sobre cinema em 1968, encontrei um artigo muito interessante de Rui Castro sobre o tema. Trata-se de Geração Paissandu. O texto relaciona cinema e memória da época. Cabe muito bem, portanto, em Arquivo68. Publicamos, como aperitivo, o início do artigo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Os menores de 30 anos podem não acreditar, mas já houve um cinema no Brasil – uma sala de espetáculos, quero dizer – que resumiu todo o cenário de uma época e, em seu tempo, batizou uma geração que a protagonizou. O cinema era o Paissandu, uma modesta sala de 742 lugares na rua Senador Vergueiro, no bairro do Flamengo, no Rio. A época, os anos 1964-1968, os quatro primeiros do regime militar (que ainda se envergonhava de ser chamado de ditadura). E os jovens que o freqüentavam eram então conhecidos (mais pelos seus detratores) como a Geração Paissandu – uma vasta classificação que incluía rapazes e moças radicais em arte, política e comportamento, embora alguns ainda tivessem de dar satisfações à mãe quanto à hora de chegar em casa.

Os ecos do que se passava em torno da tela do Paissandu e nos bares adjacentes eram ouvidos em todo o Brasil daquele tempo e, se calhar, até em Paris. Ali, entre as montanhas de cartões de chope nos botequins e aos sussurros na sala de espera do cinema, antes do começo das sessões, derrubou-se incontáveis vezes a ditadura, libertou-se o Vietnã e decretou-se a vitória definitiva do jeans (da marca Lee) sobre o vinco impecável. Grandes tempos para quem os viveu. Certa noite, no entanto – a de 13 de dezembro de 1968, uma sexta-feira –, a Geração Paissandu silenciou sem dizer água vai, e meio que para sempre. Silêncio este que, como tudo mais, passou despercebido, porque a insegurança e o medo impostos pelo Ato Institucional nº 5, baixado naquela noite, engoliram todo mundo.

Para quem se interessou, mais pode ser encontrado em Digestivo Cultural, clicando aqui.