Archive for the ‘resistência’ Category

Le Déserteur

janeiro 31, 2011

Le Déserteur é a mais famosa canção antimilitarista. Foi composta por Boris Vian, músico escritor e intelectual francês. Vian nasceu em 1920 e morreu precocemente em 1959.

Le Dérseteur foi escrita em 1954, numa época em que a França estava atolada na Guerra da Indochina (Vietnan). Não era uma canção pacifista. O último verso do poema original dizia: “Prévenez vos gendarmes, que je serai en arme et que je sais tirer” (avise seus esbirros que estou armado e sei atirar). Essa advertência para os perseguidores do desertor nunca foi gravada. Já na primeira versão, a censura começou a implicar com a mensagem de Vian contra a guerra. O primeiro cantor a gravar a canção, Marcel Mouloudji, foi praticamente banido das rádios francesas. Um vereador de Paris pediu censura total de Le Déserteur, e a música foi proibida. A censura cessou apenas em 1962.

Vian escreu uma carta aberta ao vereador que promoveu censura de sua obra. Faço aqui uma tradução livre da citada carta.

Não, Sr. Faber, você não deve olhar para um insulto onde este não existe e, se você o vê, é você que o coloca em minha canção. O que digo não está sujeito a interpretação: eu nunca quis ofender veteranos da I ou II Guerra, nem os Partisans (tenho muitos amigos entre eles), nem as vítimas da guerra (entre elas, eu tive muitos amigos também).  Meus insultos são sempre francos e de coração aberto, embora bastante raros. Nunca insultarei pessoas como eu, civis aos quais foi dado um uniforme apenas para serem mortos como coisas, nada mais, e que tiveram suas cabeças preenchidas por palavras vazias e desculpas sem sentido.  Somente um idiota, não um heroi, luta sem saber o motivo pelo qual está lutando; um heroi é aquele que aceita a morte se souber que ela será útil à causa que defende. O desertor de minha canção não sabe por que; quem irá lhe explicar? Não sei de que guerra você é veterano; mas, se for um veterano da I Guerra, devo admitir que você tem mais talento para a guerra que para a paz. Aqueles que, como eu, tinham 20 anos em 1940, ganharam um belo aniversário de nascimento. Não pretendo ser contado entre os bravos: fui rejeitado por causa de uma doença cardíaca, não lutei, não fui deportado, não colaborei com os nazistas; vivi aqueles quatro anos como um pobre diabo na multidão, e não pude entender porque alguém tem de ter explicações para o que é perfeitamente claro. Hoje tenho 34 anos, e lhe digo: se fosse chamado para defender aqueles que amo, eu lutaria. Mas se fosse chamado a morrer queimado por napalm numa guerra ignóbil, como um obscuro peão numa luta cujas razões são movidas por interesses políticos excusos, desertaria.  Farei minha própria guerrra. O país inteiro se levantou contra a Guerra da Indochina quando todo mundo tomou consciência do que estava acontecendo de fato; todos os rapazes que foram massacrados lá acreditavam estar “defendendo” alguma coisa ou alguém … – como lhes foi dito – bem, eu não os insulto. Fico de luto por eles. Entre eles, quem sabe, havia grandes pintores ou grandes músicos e, sem dúvida, muita gente boa.

Em 1966, Peter, Paul and Mary descobriram a canção e gravaram-na. Le Déserteur acabou se tornando um hino de gente que protestava conta a Guerra do Vietnan e outras guerras nos anos de 1960. Inúmeras gravações, em diversos idiomas, aconteceram. A letra da música sofreu algumas alterações nesse processo, mas continuou a ser um libelo a favor da paz. Segue aqui uma versão do poema em francês:

Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C’est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m’en vais déserter

Depuis que je suis né
J’ai vu mourir mon père
J’ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j’étais prisonnier
On m’a volé ma femme
On m’a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J’irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d’obéir
Refusez de la faire
N’allez pas à la guerre
Refusez de partir
S’il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n’aurai pas d’armes
Et qu’ils pourront tirer

E aqui está a canção, cantada por seu criador, Boris Vian:

 

Jarbas Novelino Barato

Sobre Resistência e Grades

dezembro 8, 2009

Livro de Maurice Politi conta a história da greve de fome realizada pelos presos políticos em 1972

Por Rui Veiga

A violência de Estado contra o cidadão brasileiro, preconizada dentro do espírito da Doutrina de Segurança Nacional, constituiu-se em prática cotidiana dos Governos Ditatoriais Cívis-Militares instalados no Brasil em 1964, processo aprofundado após a promulgação do AI – 5 em dezembro de 1968. Mais que isso, pôs nua a falácia dos principais argumentos de que em nosso país as questões políticas sempre se resolveram através do diálogo.

Uma das facetas repressoras do mencionado estado ditatorial, que sempre tratou questões políticas e sociais lançando mão do polinômio: forças armadas, polícia, aparatos paramilitares e burocracia, está representada no agora lançado livro de Maurice Politi: “Resistência Atrás das Grades” (publicação conjunta do Núcleo de Preservação da Memória Política – Núcleo Memória) e da Editora Plena, São Paulo, 208 páginas + capas, R$ 25,00).

Esse livro conta um episódio pouco conhecido da resistência à ditadura militar, fato este ocorrido no ano de 1972. Apesar do longo tempo decorrido desde então, a obra de Politi está muito distante de ser uma peça meramente histórica e conivente com o senso comum da índole pacífica da luta política neste país. E, muito menos se coloca como um mosaico de reflexões revanchistas ou saudosista sobre aquele passado. Principalmente, porque este texto revela ao leitor uma forma de luta sucedida dentro das prisões do regime militar, que tinha como foco a contestação a repressão política do estado ditatorial.

O episódio – reitera-se – é praticamente desconhecido para a maioria do público. Trata-se de uma batalha política contra um Estado, cujos alicerces se assentavam na tortura, na prisão e na morte de cidadãos, que se recusavam a compartilhar com a natureza violenta e ditatorial e se calar diante da opressão. Sistema que se implantara em nosso país em 1964 e aprofundou-se (expressão cunhada pelo então ministro da fazenda senhor Delfim Netto em seu voto a favor da implantação do AI – 5 em 13 de dezembro de 1968).

A greve de fome, peça central deste livro, deflagrou-se de surpresa nos idos de 72 entre os presos políticos de São Paulo, de forma muito bem organizada. Inclusive, talvez seja a primeira forma de luta conjunta utilizada contra a ditadura nas prisões naqueles tempos. Essa ação foi fruto da ação de um grupo grande de presos políticos condenados a longas penas, que estiveram até então confinados no Presídio Tiradentes em São Paulo (uma das muitas masmorras da Ditadura Militar) e foram transferidos para outra prisão.

O gesto extremo de protesto se deu em função da política consciente do regime militar em separar os presos considerados “recuperáveis” daqueles que a ditadura achava que eram “terroristas e sem perspectiva de recuperação para a “sociedade” a terem sua transferência à Penitenciária Regional de Presidente Venceslau, situada no extremo oeste do Estado, a 700 km da capital. Alguns dos seis presos transladados* permaneceram em Presidente Venceslau até 1976.

“Resistência Atrás das Grades” resgata com precisão de um arqueólogo, fatos históricos que, embora presentes nas mentes de muitos brasileiros, sistematicamente foram varridos e esquecidos nestes quase 40 anos transcorridos desde 1972. Período no qual a pasteurização cultural trazida pela onda da modernidade conservadora produto da globalização tentou – sem sucesso – apagar todos os sinais das lutas de resistência aos governos militares do conhecimento das gerações posteriores, que não viveram aqueles tempos.

À época dos fatos narrados no livro, o autor, um jovem militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), que havia sido torturado no Dops e na OBAN em São Paulo, estava preso e condenado a dez anos de prisão. O texto construído na obra é uma peça de história viva e supera e muito a grande maioria dos escritos, que abordam a temática sobre o período pós AI – 5. Essa superação se dá em conseqüência da forma da narrativa e de seu conteúdo, que combina o lado político e os vieses emocional e humano de uma luta contra a repressão ditatorial vigente durante o Governo Médici (1969-1974).

O livro não possui um texto rebuscado, repleto de figuras de linguagem e, tampouco, estará ao gosto de alguns críticos literários (ditos isentos!!??), que em sua sanha diária de apagar as memórias políticas dos anos de então, prestam notórios serviços à desinformação e à alienação deste público brasileiro, ansioso em conhecer sua história política recente.

“Resistência Atrás das Grades” está escrito em um texto direto, totalmente baseado no depoimento direto de um jovem militante prisioneiro e, igualmente, se baseia solidamente sobre documentos da época – alguns destes inéditos e preciosos para a reconstituição daquele momento – recolhidos em diversos arquivos históricos consultados pelo autor. A estrutura narrativa é retirada do próprio manuscrito redigido por Maurice Politi ainda no calor do embate e abrange o período, que se inicia com a eclosão do movimento grevista: 12 de maio de 1972 até seu encerramento em 11 de julho do mesmo ano. Em 9 de junho, os seis presos foram transferidos presídios indo de São Paulo para o Interior. Contém também algumas páginas complementares de escritos da época, porém já quando a greve se encerrara, após os presos que lá se encontravam haverem sido integrados à população carcerária comum.

O que apaixona em “Resistência Atrás das Grades” é seu caráter documental elaborado sem preocupações com estilo e linguagem, mas preocupado primordialmente em registrar o momento da luta, seu calor e os fatos que se sucediam. Consiste em um texto sem qualquer outra preocupação que não a de deixar um testemunho dos acontecimentos dentro dos cárceres paulistas durante a ditadura militar. Inclusive, pelo fato do autor (e os demais participantes do movimento) naquele período não ter qualquer certeza sobre seu futuro e sua própria vida, porque a contestação ao governo militar em muitas outras ocasiões assassinara e torturara centenas de brasileiros.

Desse modo, temos na obra muito mais que uma preocupação literária ou historicista. No contexto desenvolvido, sente-se uma narrativa, que procura testemunhar na voz de um ator, o próprio Politi, em primeira pessoa, os passos de uma luta política, que apesar de todas as condições desfavoráveis a seus participantes, resultou felizmente vitoriosa.

A escrita do autor naquele período, talvez em uma mescla de impulsividade com a necessidade do registro momentâneo revela-se igualmente um documento histórico imprescindível para pesquisadores, estudiosos e cidadãos, que queiram conhecer as entranhas de uma ditadura, que se julgou por um tempo onipresente e onisciente.

O texto reflete os sentimentos fortes, as emoções e os naturais receios sobre as conseqüências que os presos rebelados poderiam sofrer nas mãos dos seus carcereiros: juízes militares (como o sinistro Nelson Machado Guimarães); militares e policiais torturadores; guardas de prisão e médicos coniventes com o sistema carcerário vigente. Não se pode esquecer a presença de uma imprensa praticamente cúmplice da Ditadura. Aliás, esta em seu afã de defender a opressão instaurada reproduzia periodicamente em suas páginas, matérias, informes publicitários e artigos criminalizando os revoltosos e os opositores ao regime.

Neste último aspecto, o livro de Politi apresenta também um caráter testemunhal da sociedade política (no sentido a esta oferecido por Antonio Gramsci em seu renomado escrito intitulado “Cadernos do Cárcere”). A versão e a óptica áulica sobre a ditadura por parte da imprensa pode ser constatada em edito reproduzido e estampado integralmente no livro de Políti à página 181, em editorial do jornal da Ditabranda (perdão leitores, quero dizer da Folha de S. Paulo), que “demonstrava” a inexistência de presos políticos no país de Médici, de Delfim Netto, do banqueiro Gastão Bueno Vidigal, de Fleury, de Ustra** e outros do mesmo nível. Escrevia assim àquela época (30 de junho de 1972) o jornal dos senhores Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho (também dois dos aliados de primeira hora do Golpe Militar de 1964):

“Ninguém neste país ignora também haver, ainda que tão minoritário, que inexpressivo, um pensamento contrário ao Governo e à Revolução…”. Os termos governo e revolução eram eufemismos pelos quais os adeptos da ditadura camuflavam o caráter repressivo do Governo Médici.

Felizmente a bem da verdade, da história e para os nossos tempos, o livro de Politi desmente na prática tal assertiva tão conforme com os paradigmas dos arautos daquele Poder.

* Os sete presos que seriam transferidos eram: Frei Fernando de Britto, Frei Yves do Amaral Lesbaupin, Frei Carlos Alberto Libânio (o Frei Betto), Mário Bugliani, Vanderlei Caixe, Manoel Porfírio de Souza e Maurice Politi. A ordem de transferência foi assinada pelo juiz Nelson da Silva Machado Guimarães da II Auditoria Militar de São Paulo em 7 de junho de 1972. Mário Bugliani por estar muito doente teve sua transferência comutada.

**Refere-se ao militar comandante da Operação Bandeirante em São Paulo, Major Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos principais torturadores do período repressivo.

Rui Veiga é jornalista e crítico literário

Os carbonários

outubro 21, 2009

carbonarios2

” Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta

Alex Polari

Acabei de reler OS CARBONÁRIOS, de Alfredo Sirkis. Para nós que fomos jovens e estudantes universitários na década de 60 e vivemos a luta de uma parcela da juventude brasileira contra a ditadura militar, o livro traz muitas lembranças. Vamos dizer assim: traz tudo à tona novamente. Sentimentos contraditórios nos assaltam durante a leitura.

“Considerada a melhor história dos anos de chumbo, vencedora do prêmio Jabuti, a narrativa de Sirkis se refere a um período de 43 meses, entre outubro de 1967 e maio de 1971. Um relato sobre o movimento estudantil de 1968 e seu esmagamento pelo regime militar; como um jovem secundarista se torna um guerrilheiro urbano; o sequestro dos embaixadores da Alemanha e da Suiça e a liberdade de 110 presos políticos; as façanhas e os dilemas de carlos Lamarca; a crise e a destruição da guerrilha. Um testemunho real, eletrizante e cheio de suspense.” ( contra capa da edição BestBolso de Os carbonários)

Apesar de ser um texto para vender o livro, resume muito bem o que é a obra. Imprescindível para quem deseja compreender o período e os sonhos e aventuras dos jovens que o viveram.

Mestra no ofício de cantar a vida

outubro 6, 2009

 

Do blog Prosa e Verso de Boteco, extraímos o seguinte excerto de um texto da Professora Aracéli Zampronha:

“Realizar o ofício tira você de cena e introduz o maior que você naquele lugar; e aquele lugar passa a unir a mente, o coração e o corpo da gente a um domínio maior e mais rico. Abre uma porta e uma janela para a vastidão do horizonte onde antes só havia uma sala fechada. Quem realiza esse ofício traz o fogo do sagrado para o mundo. A exigência dos seres de ofício está unida ao amor que professam. Quando trabalham, realizam o ofício de amar o mundo, celebram a possibilidade de encontro  humano mais verdadeiro.

E partiu para sempre, neste domingo, 4 de outubro de 2009, nossa Mercedes Sosa, a que melhor representou esse amor.”

E para matar saudades, postamos Gracias a la Vida!

Ainda mais uma vez Boal

junho 3, 2009

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Tempos atrás decidimos transformar os comentários mais significativos dos leitores em posts do blog. É uma forma de destacar o comentário e torná-lo mais acessível. É o que fazemos, a seguir, com o comentário de Romario José Borrelli feito a respeito do post de Antonio Morales sobre Augusto Boal.

Por Romario José Borelli

Augusto Boal estava no auge de sua efervescência criativa quando foi preso pela ditadura no Brasil, em 1971. Havíamos chegado havia pouco da Argentina, onde tínhamos feito uma longa temporada de sucesso com Arena Conta Zumbi.

Para a viagem a Buenos Aires, Boal já fizera questão de levar, com o elenco do Zumbi, seu grupo experimental Teatro Jornal. Era o momento no qual ele começara a romper com as formas clássicas de teatro e com seus próprios ajustes ao teatro brechtiano. Surgiam assim formas de trabalho teatral menos comprometidas com o espetáculo tradicional, menos formais, ajustadas a qualquer espaço e realizadas por qualquer pessoa que quisesse ou precisasse se expressar. Ou seja, os recursos teatrais usados por “não atores”, de onde surgiram os seus Teatro Jornal e Teatro Invisível, que finalmente desaguaram no Teatro do Oprimido.

Mas Augusto Boal foi muito mais que o criador dessas formas teatrais. Ele foi um agitador cultural como ninguém, que via em tudo uma possibilidade de expressão e a implementava com celeridade e precisão. Sua fala sempre ligeira quase não dava conta de seu raciocínio ainda mais rápido. Ele era sempre guiado pelo visionarismo, no bom sentido da palavra, e sempre dirigia seu foco para onde outros ainda não tinham percebido que havia alguma coisa. Foi assim com o show Opinião (1964), onde brilharam Nara Leão, Maria Bethânia, Zé Keti e João do Vale (com texto de Paulo Pontes, Oduvaldo Vianna Filho e Jaime Costa), que se tornou um marco na cultura brasileira e abriu caminho para os musicais; foi assim com Arena Conta Bahia, onde lançou Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa. Foi assim com o “sistema coringa”, em que adaptava a estrutura do “corifeu” e do próprio “coro” do teatro grego a uma busca de expressão do teatro brasileiro. Lançou toda uma teoria a respeito, que estruturava a dramaturgia de Arena Conta Tiradentes, escrito com Gianfrancesco Guarnieri, seu grande parceiro. Também escreveram juntos Arena Conta Zumbi, que fez enorme sucesso no Brasil e no exterior. Os espetáculos se tornaram marcos na luta contra a ditadura.

Seu teatro invisível era uma forma de teatro relâmpago, em que um ou mais atores realizavam, num espaço público, uma performance não revelada como teatro. Por exemplo: dois atores conversavam num balcão de café e um começava a contar como tinha acabado de passar por uma ação truculenta da polícia, enquanto os demais frequentadores do café ouviam, mesmo disfarçadamente. Isso servia como denúncia da truculência policial.

Um caso famoso do teatro invisível deu-se em Milão, onde um casal de atores do grupo do Boal saiu desfilando pelas galerias de um shopping center e o ator puxava a atriz por uma coleira. Outros atores, disfarçados como frequentadores do shopping, fizeram uma intervenção, provocando uma discussão com aquele que puxava a coleira. Isso envolveu mais frequentadores, veio a polícia e armou-se uma grande polêmica, que serviu para trazer à tona o debate sobre a sujeição e a humilhação das mulheres.


O próprio Augusto Boal acabou sendo “vítima” do teatro invisível, quando atores suecos fizeram uma intervenção em um de seus seminários em Estocolmo e, vestidos como policiais, o “prenderam”. Depois de muita discussão, que culminou com a violência da polícia e a burocracia do Estado que não tinha liberado o seminário, eles se identificaram e o “soltaram”.

Esse era o Augusto Boal, cidadão brasileiro conhecido e respeitado em todos os países, dramaturgo, teórico de teatro, diretor, poliglota.

Escrevi-lhe algumas vezes quando ele estava na cadeia. Era uma situação estranha, pois não sabia o que escrever e o pouco que tinha para lhe dizer tinha de passar por minha própria censura, antecipando a leitura dos carcereiros que lhe entregariam a carta. Então, já mandava a carta aberta para não lhes dar trabalho. Eu não tinha que esconder que era do Teatro de Arena, o que provavelmente eles sabiam. Como sabiam também que eu não representava nada, que não era ninguém senão um jovem perplexo (22 anos), que demonstrava respeito e solidariedade por alguém que sofria. Dizia-lhe apenas que confiasse que estávamos levando o Zumbi e o Teatro de Arena da melhor forma e contávamos com sua volta quanto antes.

Não foi tão fácil. Boal continuou preso e o Arena saiu do Brasil com passaportes alterados para não chamar atenção para nossa condição de artistas de teatro, com a agravante de sermos do Teatro de Arena. No espaço para profissão dos antigos passaportes, tínhamos profissões diversas. Eu era “comerciário” num passaporte triste que ainda tenho. Note-se que a informatização e unificação das informações do Estado ocorreu bem depois; na época, era mais fácil burlar as cancelas da ditadura.

Na França, começamos uma campanha pela libertação de Boal aproveitando o Festival de Nancy, em 1971. Duas pessoas se destacaram nessa luta: o ator Antonio Pedro, que, além da militância política, tinha um ótimo domínio do francês; e Jacques Langue, que era diretor do Departamento de Cultura da Universidade de Nancy e anos depois foi ministro da Cultura de François Mitterrand e ministro da Educação de Jacques Chirac.


Boal foi solto e foi nos encontrar em Paris. Não é necessário dizer o que isso significou. Um dos momentos mais especiais de minha vida foi quando me sentei com ele num café de Montmartre. Ele pediu “deux balons rouges, s?il vous plaît”. Não tínhamos nada a dizer. Restava degustar a taça de vinho tinto.

Boal seguiu sua trajetória brilhante pelo mundo, abrindo caminhos, iluminando cantos escuros de nossas mentes. Visionário, não poderia deixar de ser socialista, sempre comprometido com a libertação do homem. Sabendo que o sistema opressor, este sim, é invisível, quando não é uma ditadura escancarada, criou formas e técnicas para denunciá-lo. Criou um método para que o homem usasse os elementos básicos dessa arte milenar que é o teatro para libertar-se do sistema econômico, dos tabus dos sexo, da opressão da convivência com os demais, da religião, da burocracia e de qualquer humilhação. Ao contrário do que muitos pensam, sua vida não foi dedicada ao teatro. Usou o teatro para dedicar-se aos direitos humanos.

Isso vale à pena mais que tudo no mundo. Foi o que Boal nos ensinou. Essa foi sua missão.

 

Romario José Borelli é dramaturgo, musicista e historiador. Autor, entre outras, da peça O Contestado. Músico do Teatro de Arena, fez as peças Arena Conta Zumbi, Arena Conta Tiradentes e Feira Paulista de Opinião. Também como músico, trabalhou em Roda Viva, de Chico Buarque

Reparo histórico

maio 15, 2009

helderfleury

Morei em São Carlos-SP, nos anos 80.
A cidade exibia um conservadorismo exacerbado, especialmente
no que se refere ás suas chamadas “elites”. Isso se refletia, claro,
na Câmara Municipal e no poder público. Prefeitos foram eleitos
com a força e influência dessa gente. Ocorreu, nessa época, outro
fato lamentável que considero estreitamente relacionado com essa
mentalidade.

Um livro foi queimado em praça pública na praça central da cidade.

Um espetáculo típico da pior censura e perseguição ideológica.
Era um livro didático utilizado na escola pública que continha
um poema sobre o Natal e falava em Cristo em sua dimensão humana
e criticava o consumismo da data em oposição aos sentimentos
cristãos.

A mesma São Carlos que colocou o nome de um torturador em
uma de suas ruas e que agora se redime. É uma boa notícia, que
o professor Caio N. de Toledo, da Unicamp, comenta em seu
artigo reproduzido abaixo.

São Carlos repudia torturador
14 de maio de 2009

Na incessante luta pelo aprofundamento da democracia política no Brasil, os vereadores de São Carlos, SP, foram responsáveis por uma decisão histórica: na tarde do dia de 12 maio, por unanimidade, os vereadores dessa cidade aprovaram um projeto de Lei que altera o nome da rua Sérgio Paranhos Fleury. A partir dos próximos dias, com a sanção da Lei pelo prefeito municipal, a rua passará a se denominar D. Hélder Pessoa Câmara.

Certamente, este ato em nada mudará o cotidiano dos moradores da rua nem dos demais habitantes da cidade. No entanto, na batalha em defesa do “direito à memória e do direito à verdade” sobre os fatos ocorridos durante a ditadura militar, a decisão dos vereadores de São Carlos tem um inestimável valor simbólico.

Por meio deste ato, um dos mais violentos e sádicos torturadores da ditadura militar – cujo nome foi imposto à cidade por meio de decreto de um obscuro prefeito, no ano de 1980 – em breve, deixará de ser lembrado pelos habitantes de São Carlos: pelos que transitam pela rua, pelos registros dos imóveis, pelas correspondências recebidas por seus moradores etc.

Mais do que isso: todos progressistas e democratas do país que conheceram a sinistra e brutal atuação desse policial – sempre acobertado e respaldado pelos altos escalões militares -, ficarão aliviados com este ato de justiça reparatória. Depois de quase 29 anos, a vexatória homenagem – conferida ao policial que comandava sessões de torturas nos sinistros porões da OBAN/DOI/CODI e que foi agente direto em ações que resultaram nas mortes de combatentes da ditadura militar – será, finalmente, varrida da cidade.

Simbólica e singular vitória dos democratas e progressistas que reconhecem e respeitam a memória de brasileiros e brasileiras que tiveram suas vidas sacrificadas no combate à ditadura militar.

Dupla derrota dos que ainda hoje cultuam a ditadura militar: é escorraçado da cidade de São Carlos o nome de um dos “heróis” do regime militar; em seu lugar entra o pequeno e frágil, mas, sempre destemido, “bispo vermelho” – D. Helder Pessoa Câmara.

A decisão dos vereadores de São Carlos – tendo à frente o presidente da Câmara, Lineu Navarro (PT), e apoiada vivamente por entidades em defesa dos direitos humanos, por acadêmicos de várias partes do país, estudante, artistas, jornalistas etc. – deveria se constituir em exemplo para todos legislativos brasileiros.

A defesa do “direito à memória e do direito à verdade” deve implicar também a luta pela ressignificação dos nomes de nossas ruas, praças, edificações públicas etc. que hoje cultuam os “heróis” e os patronos da ditadura militar de triste memória no Brasil.

Caio N. de Toledo
Professor da Unicamp

Ato público contra o AI-5 digital

maio 13, 2009

ato_contraAI5digital

A Internet é uma rede de comunicação aberta e livre. Nela, podemos criar conteúdos, formatos e tecnologias sem a necessidade de autorização de nenhum governo ou corporação. A Internet democratizou o acesso a informação e tem assegurado práticas colaborativas extremamente importantes para a diversidade cultural.
A Internet é a maior expressão da era da informação.

A Internet reduziu as barreiras de entrada para se comunicar, para se disseminar mensagens. E isto incomoda grandes grupos econômicos e de intermediários da cultura. Por isso, se juntam para retirar da Internet as possibilidades de livre criação e de compartilhamento de bens culturais de de conhecimento.

Um projeto de lei do governo conservador de Sarkozi tentou bloquear as redes P2P na França e tornar suspeitos de prática criminosa todos os seus usuários.O projeto foi derrotado.

No Brasil, um projeto substitutivo sobre crimes na Internet aprovado e defendido pelo Senador Azeredo está para ser votado na Câmara de Deputados. Seu objetivo é criminalizar práticas cotidianas na Internet, tornar suspeitas as redes P2P, impedir a existência de redes abertas, reforçar o DRM que impedirá o livre uso de aparelhos digitais. Entre outros absurdos, o projeto quer transformar os provedores de acesso em uma espécie de polícia privada. O projeto coloca em risco a privacida de dos internautas e, se aprovado, elevará o já elavado custo de comunicação no Brasil.

Gostaríamos de convidá-lo a participar do ato público que será realizado no dia 14 de maio, às 19h30, em defesa da LIBERDADE NA INTERNET CONTRA O VIGILANTISMO NA COMUNICAÇÃO EM REDE CONTRA O PROJETO DE LEI SUBSTITUTIVO DO SENADOR AZEREDO

O Ato será na Assembléia Legislativa de São Paulo e será transmitido em streaming para todo o país pela web.

PLENÁRIO FRANCO MONTORO
ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE SÃO PAULO
AV PEDRO ALVARES CABRAL S/N – IBIRAPUERA

O Ato também terá cobertura em tempo real pelo Twitter e pelo Facebook.

Contamos com a sua presença.

Este post foi originalmente publicado no blog do Sérgio Amadeu

Assine a petição contra o projeto
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Anos 60 e 70 – a imprensa alternativa

março 12, 2009

Onde foi parar a imprensa alternativa? A pergunta é do repórter Denilson Vasconcelos, de Unidade, questionando sobre o destino de centenas de jornais que marcaram a cena brasileira durante a ditadura.

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Uma imprensa para sempre

Por Omar L. de Barros Filho

Há algumas semanas, o repórter Denilson Vasconcelos enviou-me uma mensagem solicitando informações para uma reportagem que estava escrevendo para o Unidade, o jornal mensal do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

O assunto das indagações era a imprensa alternativa brasileira dos anos ‘60 e ‘70, isto é, os jornais da resistência política e cultural à ditadura brasileira, que marcaram época por sua tenacidade e criatividade.

O regime militar, como se sabe, apesar das recentes tentativas de reescrever a história do período desde um ponto de vista benevolente, foi mesmo um regime de força que matou, perseguiu, torturou e cerceou as liberdades civis, entre elas a liberdade de imprensa.

Porém, durante os processos de mobilização contra as arbitrariedades e a censura no país (assim como na América Latina), surgiu no cenário uma “imprensa guerrilheira”, nas palavras de Denilson Vasconcelos, que era formada por mais de uma centena de publicações, que fustigavam os governos, lutavam pela democracia, os direitos humanos e até pelo socialismo (expressão hoje substituída pelo eufemismo “uma sociedade mais justa e igualitária”).

Mas não só. Alguns desses jornais – utilizando os poucos espaços de liberdades públicas existentes – avançaram também em suas propostas, rompendo com os modelos editoriais pré-estabelecidos pela imprensa clandestina de oposição.

Opinião, Pasquim, Movimento, Coojornal, Em Tempo, De Fato, entre outros tantos, formavam a biodiversidade daquela floresta de papel e ideias. Cada um deles, a seu modo, foram experiências jornalísticas bem-sucedidas e, até certo ponto, sustentáveis apesar das dificuldades. Versus, uma criação jornalística de Marcos Faerman, na São Paulo de 1975, foi um dos principais jornais daqueles tempos.

Fui um dos editores de Versus durante os quatro anos em que se manteve presente nas bancas, contribuindo para ampliar os horizontes de seus leitores e colaboradores. O texto a seguir é meu breve relato sobre esta experiência, que redigi a pedido de Unidade.

Para ler a matéria completa clique aqui.

Meu segurança

janeiro 29, 2009

Ano: 1966. Evento: passeata estudantil pelas ruas de São Paulo. Motivo: protesto contra a ditadura. Ponto de partida: Largo São Francisco. Esses dados situam a primeira vez que participei de um ato público contra a ditadura. Não foi propriamente uma passeata, como as muitas que fizemos em 1968. O movimento ainda não estava bem organizado. A ditadura ainda não tinha mostrado todas as suas maldades.

A polícia nos dispersava com relativa facilidade. Mas não desistíamos. De alguma parte surgia uma palavra de ordem para nos reagruparmos em outro local. E assim o fazíamos. Era uma correria de gato e rato, ou, se quiserem, de polícia e estudantes por todo o centro de São Paulo. A manifestação durou umas três horas. Por volta das oito da noite resolvi ir pra casa.

Na época, morava no Jaçanã. Ia chegar tarde e talvez não encontrasse comida. Resolvi parar no meio do caminho e visitar um meio irmão de minha vó materna, tio Onofre. Ele morava pelos lados de Santana e eu tinha certeza que dava para roubar uma bóia da tia Adélia, excelente cozinheira. Além disso, o velho Onofre era um consumidor contumaz de cerveja. Sob um telhado no quintal de sua casa havia mais engradados da bebida que em qualquer depósito de um boteco médio. Decisão acertada. Janta maravilhosa. Depois, um papo comprido, animado por muitos copos gelados da loira mais querida do país. Na conversa nada da manifestação. Apenas coisas de família e estórias profissionais do tio Onofre, grande marceneiro e matuto de Capetinga, MG, vivendo aventuras na cidade grande.

Por volta da meia noite anunciei que estava saindo para pegar o ônibus para Jaçanã. Na época, andar pelas ruas de Sampa tarde da noite era coisa tranquila. Mas meu tio queria que eu chegasse em casa são e salvo. Prontificou-se a me achar um segurança. E assim o fez. Um amigo dele estava indo para os lados da Dr. Zuquim onde eu pegaria o Parque Edu Chaves. E o velho Onofre achou que eu iria fazer a caminhada mais tranquila de minha vida. O segurança ad hoc era um soldado da polícia militar. E lá fomos rua afora papeando sobre coisas da vida. Não sei como  a conversa descambou para o lado da manifestação do dia. Meu segurança tinha participado de toda a correria no centrão. Mas antes de tentar impedir a manifestação, tinha sido convocado para permanecer no quartel desde a véspera. Acordara de madrugada para uma “ordem unida” e ouvira o dia todo discursos dos oficiais contra os comunistas e baderneiros. Resumo:  ficara aquartelado umas vinte horas e correra muitos quilometros atrás dos estudantes. Estava furioso. Entre outras coisas me disse: “eu queria muito pegar um daqueles estudantes; ele ia ver como canta um cassetete!”. Gelei. Ainda bem que eu não lhe dissera que era estudante, muito menos que havia participado da manifestação. Cheguei inteiro ao ponto de ônibus e liberei o meu segurança. Tio Onofre nunca soube do apuro que passei.