Posts Tagged ‘resistência’

Documentos revelados – arquivos da ditadura

maio 4, 2015

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Acervo de cerca de 80 mil documentos dos arquivo da ditadura de 1964 e das organizações da Resistência. Para acessar clique aqui

   

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Vanguarda e Ditadura Militar

janeiro 9, 2010

por Jardel Dias Cavalcanti

Publicado originalmente no blog Digestivo Cultural

Em 1964 o artista Roberto Magalhães pintou uma tela premonitória do que seria o terror que se instalaria no Brasil com o golpe militar de 31 de março do mesmo ano. A esta tela ele deu o nome de Gritando. Através de uma rica e densa matéria pictórica, desenhou um rosto com a boca absurdamente aberta, para além das condições físicas suportáveis pelo corpo humano. Uma boca num grito desesperado, focalizada por um zoom que aproxima de tal forma o rosto, que o centro do quadro torna-se o céu da boca do personagem.

A boca enorme, com a língua para fora, toma quase toda a tela, restando apenas dois olhos tenebrosos marcados por uma grande dor, para preencher o resto da obra. Numa linguagem próxima ao expressionismo, Magalhães carrega de tensão a figura, dando-lhe uma forma perturbadora, criada através de uma matéria pictórica de cores fortes como o vermelho escuro, o preto, o verde sujo e um amarelo barrento.

A obra Gritando trazia em si todas as dores e o desespero daqueles que sofreriam o efeito da violência militar por vinte anos. Carregada de angústia, a tela trazia também o desejo de gritar contra a situação opressiva que se instalava naquele momento no país.

A tela construía-se na tensão de sua forma, através de um arranjo expressivo de cores, pinceladas bruscas e enquadramento sufocante. Era um grito visceral contra o poder que explodia por meio da forma plástica. E seria um dos primeiros entre os vários gestos artísticos que se opunham à grotesca força antidemocrática do regime militar.

A oposição no mundo da arte não parou na tela Gritando, de Magalhães. Em abril de 1970 começaram a aparecer flutuando e parando nas margens do rio Arrudas, em Belo Horizonte, alguns objetos estranhos, que lembravam corpos ensangüentados e assassinados.

No mesmo momento, dentro de prisões militares, várias pessoas, entre elas estudantes, professores, políticos, operários, intelectuais e quaisquer suspeitos de oposição ao regime militar, eram torturadas e mortas violentamente (em alguns casos o cadáver aparecia, em outros desaparecia para sempre). A relação entre o primeiro e o segundo fato marcava a oposição dos artistas de vanguarda à violência militar instaurada no Brasil a partir do Golpe Militar de 31 de março de 1964.

O que flutuava no rio Arrudas eram as Trouxas do artista plástico Arthur Barrio. Eram obras construídas como trouxas amarradas e cortadas a golpes de faca, onde inseria-se tinta vermelha. Ao invadir o principal rio que corta Belo Horizonte, a obra de Barrio fazia com que as pessoas as confundissem com corpos ensangüentados e assassinados. O objetivo de Barrio era denunciar o “desovamento” de corpos de pessoas que eram assassinadas nas prisões militares.

Este happening de Barrio fazia parte do evento artístico Do Corpo à Terra, organizado por Frederico Morais, em abril de 1970, em Belo Horizonte, que durou três dias. Reunindo artistas de vários estados, que fariam suas performances, happenings e rituais, o objetivo era reagir dentro do campo da estética à realidade da ditadura recém instaurada no Brasil.

O acontecimento foi definido por Frederico Morais como uma forma de arte-guerrilha. Assim dizia ele: “O artista hoje é uma espécie de guerrilheiro. A arte é uma forma de emboscada. Atuando imprevisivelmente, onde e quando é menos esperado, o artista cria um estado permanente de tensão constante”.

A arte de vanguarda, organizada na forma de atuações públicas, enquanto crítica aos sistemas/circuitos e aparatos que regiam as artes e enquanto crítica ao amordaçamento coletivo das expressões promovido pela ditadura militar, trouxe para a cena o binômio arte-política. Além do evento acima comentado, vários artistas, individualmente ou organizados em grupos, associaram seu fazer artístico à busca de uma crítica política.

Adeptos da frase de Maiakovsky (“Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”), para os artistas brasileiros dos anos 60 e 70, arte, cultura, política e ética eram elementos indissociáveis de uma mesma questão, a da participação política. O que os artistas buscavam era um processo de comunicação cujo objetivo era, em última instância, uma intervenção na realidade.

Como observou Celso Favaretto, naquele momento eles respondiam a necessidades como articular a produção cultural em termos de inconformismo e desmistificação, vincular a experimentação de linguagem às possibilidades de uma arte participante.

Não há dúvida de que boa parte dos artistas deste período pretendiam, ao fazer arte, estar fazendo política. O interesse político dos artistas pode ser percebido, por exemplo, no programa da exposição Nova Objetividade Brasileira, apresentada no MAM, em 1967, reunindo trabalhos de artistas do Rio de Janeiro e São Paulo, que definia como uma das prioridades do grupo “a tomada de posição em relação aos problemas políticos, sociais e éticos”.

As sugestões que a Pop Art americana e o Noveau Réalisme francês traziam ao meio artístico brasileiro expandiam as pesquisas direcionadas para a criação das obras em outras dimensões além das estabelecidas pela estética tradicional. Daí o uso intensivo de colagens, das técnicas e cores derivadas do poster, da preocupação com a matéria, o suporte, a questão tridimensional.

Para atingir da melhor forma possível o observador e integrá-lo como protagonista da obra, os artistas lançavam mão de um código de signos e imagens provenientes dos meios de comunicação, publicidade e design, que tinham disseminado os sinais gráficos, os caracteres tipográficos, as cores chapadas, logotipos, etc.

Nesse sentido, veja-se a obra Lute, de Rubens Gerchmann, que eram letras gigantescas colocadas atravessadas na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, com o propósito de atrapalhar o trânsito e chamar o público para a luta contra a ditadura.

Um dos temas tratado por artistas ligados à vanguarda foi o “caso Herzog”. A explicação dada pelo DOI-CODI sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog é a de que ele teria se matado na prisão no ano de 1975. O que de fato aconteceu é que Herzog foi torturado até à morte.

A morte dele provocou a primeira grande reação popular contra a tortura, as prisões arbitrárias, o desrespeito aos direitos humanos. Também produziu algumas obras de arte que denunciavam seu assassinato, como o caso das obras de Cildo Meireles e Antonio Henrique do Amaral.

Buscando minar o controle das informações exercido pelos órgãos do poder e transformando-se em veículo de uma ação tática clandestina de resistência política, Meireles carimba em algumas notas de Cruzeiro, moeda corrente no Brasil do período, a pergunta Quem matou Herzog?.

Aproveitando a facilidade da circulação das notas de um cruzeiro (sabemos que quanto menor o valor, maior sua circulação), o artista fará uso delas para criar com sua obra uma forma de interrogação nacional sobre o assassinato do jornalista.

Antonio Henrique Amaral também trata da questão do assassinato de Herzog em duas telas: A morte no sábado, tributo a Vladimir Herzog, de 1975 e Ainda a morte no sábado, de 1976. Nas duas obras, fazendo uso da oposição entre formas orgânicas e metálicas, garfos de ferro atravessam uma espécie de representação de vísceras violentamente dilaceradas, aparecendo peles que se abrem para fora depois de rasgadas, veias que surgem em meio a um amontoado de gordura e tripas, tudo manchado pelo sangue que predomina totalmente na tela.

Na segunda obra ajunta-se uma “coroa de cristo”, um dos instrumentos de tortura usados durante os interrogatórios militares. A duas telas têm o claro propósito de denunciar a causa da morte de Herzog como resultado das torturas que sofreu nos porões de uma prisão militar.

Várias mostras de arte foram organizadas sem que se abrisse mão da crítica política, buscando para além da pesquisa estética, opinar frente ao quadro autoritário instalado em 64. São exemplos as duas mostras do MAM do Rio de Janeiro (“Opinião 65” e “Opinião 66”), a mostra “Pare”, na Galeria G-4, em 1966, “Vanguarda Brasileira” (UFMG, maio de 1966), “IV Salão de Brasília”, de 1967, além de várias outras.

Mas o interesse dos artistas pela inserção de posições políticas em suas obras acabou encontrando um empecilho: a censura militar. O AI-5, no plano cultural, oficializou a censura prévia, repercutindo negativamente sobre a produção artística. “O AI-5 paralizou tudo”, dizia Glauber Rocha, refletindo sobre a situação de quase desespero em que se encontravam os artistas.

Nesse momento da história da arte brasileira, as primeiras manifestações de censura ocorreram no IV Salão de Brasília, onde obras de Cláudio Tozzi e José Aguillar foram censuradas por serem consideradas políticas.

No III Salão de Ouro Preto, o júri sequer pode ver algumas gravuras inscritas, previamente retiradas. Também a II Bienal da Bahia foi fechada, presos seus organizadores e recolhidos os trabalhos considerados eróticos e subversivos.

A censura não parava por aí: em 1969, em plena vigência do AI-5, o conflito com a censura chegou ao seu ponto mais tenso com a proibição da mostra dos artistas selecionados para a representação brasileira à IV Bienal de Paris, no MAM-Rio. O que provocou enérgico protesto da Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA), sob a presidência de Mário Pedrosa, na forma de um documento no qual a entidade anunciava seu propósito de não mais indicar seus membros para integrar júris de salões e bienais. A repercussão no exterior do fechamento da exposição do MAM e o documento da ABCA foi enorme, provocando um boicote internacional à Bienal de São Paulo.

A partir desses fatos e com a ditadura tornando-se cada vez mais brutal a partir dos anos 70, os artistas de vanguarda assumiram uma posição de marginalidade, ora agravando o conflito com a censura, ora exilando-se no exterior para continuarem vivos.

O império do terror no governo Médici (1969/74), com censura acirrada, invasões a domicílios, assassinatos e “desaparecimento” de presos políticos, através da ação dos DOI-CODIS, visando a extinção de qualquer tipo de oposição ao governo militar, foi o principal causador da destruição das atividades da vanguarda nos anos 70.

Jardel Dias Cavalcanti
Campinas, 14/4/2004

Mestra no ofício de cantar a vida

outubro 6, 2009

 

Do blog Prosa e Verso de Boteco, extraímos o seguinte excerto de um texto da Professora Aracéli Zampronha:

“Realizar o ofício tira você de cena e introduz o maior que você naquele lugar; e aquele lugar passa a unir a mente, o coração e o corpo da gente a um domínio maior e mais rico. Abre uma porta e uma janela para a vastidão do horizonte onde antes só havia uma sala fechada. Quem realiza esse ofício traz o fogo do sagrado para o mundo. A exigência dos seres de ofício está unida ao amor que professam. Quando trabalham, realizam o ofício de amar o mundo, celebram a possibilidade de encontro  humano mais verdadeiro.

E partiu para sempre, neste domingo, 4 de outubro de 2009, nossa Mercedes Sosa, a que melhor representou esse amor.”

E para matar saudades, postamos Gracias a la Vida!

Outra vez BOAL

maio 21, 2009

 

Por Eduardo Sposito

Quero aproveitar pra contar mais alguma de minha relação a distância com o Boal. Queria até chamar de “Canto do exílio” ou o Exílio no meu canto, já que nós que não saímos do país porque não éramos tão importantes para a ditadura, tivemos que amargar o nosso cantinho dentro da pátria.

No ano da desgraça de 69, acabei ficando desempregado. Consegui em 1970 algumas aulas de Português num curso de madureza em Vila Galvão, Guarulhos. Acontece que o curso estava que só dava prejuizo, por isso os sócios abandonaram o barco. Eu não pude porque tinha casado e morava no prédio onde funcionava o dito curso. Acabei herdando o prejuizo e virei proprietário da dívida. Tive sorte pois aumentou o número de alunos e eu conseguia pagar o aluguel e às vezes os professores.

A coisa era braba. De manhã eu ia pra faculdade e voltava para casa à tarde, sem café da manhã e sem dinheiro pro pastel de palmito nos barracos da Usp. Alguém aí já andou na rua olhando pro chão pra ver se alguem possa ter perdido dinheiro… já passei por essa no trajeto pelo vale do Anhangabau. Quando sobrava uns trocos, comprava aquela Paçoca da Confiança – era uma delicia: sem muito açúcar e feita mesmo de amendoim, sequinha sem ser esfarelenta. Tão boa, que logo tiraram de circulação.

Mas o que tem a ver o Boal com isso? É que no curso de madureza, assumimos o papel de promover o que na época se chamava conscientização dos alunos. Tínhamos até assessoria do PC do B pra isso. Então fizemos um grupo de teatro e fomos assistir um espetáculo no Arena, especial para estudantes. Aí nos encontramos (não presencialmente, como se diria hoje) através dos textos. E o nosso contato foi através do texto do Espetáculo “Chiclete & Banana”, de Boal e Chico de Assis, cujo LP tenho até hoje.

É um texto altamente didático sobre o imperialismo cultural através da música, mostrando o samba que sai do morro e entra no circuito Miami-Copacabana, fazendo a trilha sonora da política da boa vizinhança e voltando “pro morro, onde está o meu cachorro vira-lata, minha cuica, meu ganzá.” Mostra a exploração via mambo, rumba, bolero “made in USA”. E introduzindo o famoso samba de Jackson do Pandeiro, conclui: “só iremos mascar o seu chiclete, no dia em que eles comerem a nossa banana.”

 E como dizia o texto do Arena conta Zumbi: “Assim passei os dias que me deram pra viver…

Anne Feeney

abril 24, 2009

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Ao ler o post aqui colocado pelo Jarbas Novelino, percebi que estava faltando mencionar a autora da música interpretada por Peter, Paul and Mary: Anne Feeney.

Anne Fenney, cantora, autora e compositora, é uma conhecida intérprete de música folk, considerada hoje nos Estados Unidos como uma das melhores cantoras de folk, na linha dos famosos e memoráveis cantores como Joe Hill, Woody Guthrie, Pete Seeger.

Militante empenhada pelos direitos dos trabalhadores, da paz e da justiça, e originária de Pittsburgh (Pensilvânia), Anne Fenney e signatária do «Manifesto contra o alistamento e o sistema militar».

Na nobre tradição de Malvina Reynolds e Peggy Seeger, os seus espetáculos musicais e as sessões públicas em que participa têm encorajado e estimulado o seu público a resistir à opressão e à injustiça.

A sua canção «Have You Been to Jail for Justice?» ( Estiveste já na prisão por lutares pela justiça?) é, atualmente, uma canção que se ouve com muita frequência nos Estados Unidos em nome da desobediência civil, no sentido que lhe foi dado por Thoreau.

Essas informações foram originalmente publicadas no blog Pimenta Negra

Márcio Moreira Alves: uma homenagem

abril 6, 2009

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O Dia que Não Existiu

O Dia que Não Existiu, produzido pela TV Cultura e TV Câmara, resultado do trabalho de mais de 200 pessoas, “é uma homenagem a todos os brasileiros atingidos pelas medidas de exceção”.

Apresentamos a parte inicial do vídeo( 6 minutos), com o discurso do deputado Marcio Moreira Alves às vésperas do dia sete de setembro, que levou o Ministro da Justiça a solicitar ao Congresso Nacional autorização para processá-lo.

Com direção geral de Paulo Markun e direção artística de Adélia Sampaio, o trabalho, com uma hora de duração, documenta o período que antecedeu ao anúncio oficial do Ato Institucional N° 5, através de imagens e entrevistas históricas.

Resgata, com a participação de atores (Márcio é representado pelo ator Maurício Branco), o que aconteceu no dia 12 de dezembro de 1968, quando a grande maioria da Câmara dos Deputados votou contra o pedido do Ministério da Justiça para processar Marcio Moreira Alves.

Denuncia, ainda, que o dia 12 de dezembro de 1968 quase foi apagado da história da Casa e do país. A sessão não consta do livro de atas das reuniões da Câmara, mas as notas taquigráficas do que ocorreu foram preservadas por funcionários zelosos.

Assista o vídeo, com trecho do filme que reproduz o famoso discurso.
Clique aqui

Anos 60 e 70 – a imprensa alternativa

março 12, 2009

Onde foi parar a imprensa alternativa? A pergunta é do repórter Denilson Vasconcelos, de Unidade, questionando sobre o destino de centenas de jornais que marcaram a cena brasileira durante a ditadura.

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Uma imprensa para sempre

Por Omar L. de Barros Filho

Há algumas semanas, o repórter Denilson Vasconcelos enviou-me uma mensagem solicitando informações para uma reportagem que estava escrevendo para o Unidade, o jornal mensal do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

O assunto das indagações era a imprensa alternativa brasileira dos anos ‘60 e ‘70, isto é, os jornais da resistência política e cultural à ditadura brasileira, que marcaram época por sua tenacidade e criatividade.

O regime militar, como se sabe, apesar das recentes tentativas de reescrever a história do período desde um ponto de vista benevolente, foi mesmo um regime de força que matou, perseguiu, torturou e cerceou as liberdades civis, entre elas a liberdade de imprensa.

Porém, durante os processos de mobilização contra as arbitrariedades e a censura no país (assim como na América Latina), surgiu no cenário uma “imprensa guerrilheira”, nas palavras de Denilson Vasconcelos, que era formada por mais de uma centena de publicações, que fustigavam os governos, lutavam pela democracia, os direitos humanos e até pelo socialismo (expressão hoje substituída pelo eufemismo “uma sociedade mais justa e igualitária”).

Mas não só. Alguns desses jornais – utilizando os poucos espaços de liberdades públicas existentes – avançaram também em suas propostas, rompendo com os modelos editoriais pré-estabelecidos pela imprensa clandestina de oposição.

Opinião, Pasquim, Movimento, Coojornal, Em Tempo, De Fato, entre outros tantos, formavam a biodiversidade daquela floresta de papel e ideias. Cada um deles, a seu modo, foram experiências jornalísticas bem-sucedidas e, até certo ponto, sustentáveis apesar das dificuldades. Versus, uma criação jornalística de Marcos Faerman, na São Paulo de 1975, foi um dos principais jornais daqueles tempos.

Fui um dos editores de Versus durante os quatro anos em que se manteve presente nas bancas, contribuindo para ampliar os horizontes de seus leitores e colaboradores. O texto a seguir é meu breve relato sobre esta experiência, que redigi a pedido de Unidade.

Para ler a matéria completa clique aqui.

Zumbi de Palmares

novembro 20, 2008

zumbi

por Eduardo Galeano

20 de novembro de1695
Serra Dois Irmãos

Zumbi

Profundezas da paisagem, funduras da alma. Fuma cachimbo Zumbi, perdido o olhar nas altas pedras vermelhas e nas grutas abertas como feridas, e não vê que nasce o dia com luz inimiga nem vê que fogem os pássaros, assustados, em revoadas.

Não vê que chega o traidor. Vê que chega o companheiro, Antônio Soares, e se levanta e o abraça. Antônio Soares afunda várias vezes o punhal em suas costas.

Os soldados cravam a cabeça na ponta de uma lança e a levam para Recife, para que apodreça na praça e os escravos aprendam que Zumbi não é imortal.

Já não respira Palmares. Tinha durado um século e tinha resistido a mais de quarenta invasões este amplo espaço de liberdade aberto na América colonial. O vento levou as cinzas dos baluartes negros de Macacos e Subupira, Dambrabanga e Obenga, Tabocas e Arotirene.

Para os vencedores, o século de Palmares se reduz ao instante das punhaladas que acabaram com Zumbi. Cairá a noite e nada ficará debaixo das frias estrelas. Mas, que sabe a vigília comparado com o que sabe o sonho?

Sonham os vencidos com Zumbi; e o sonho sabe que enquanto nestas terras um homem seja dono de outro homem, andará o seu fantasma. Mancando andará, porque Zumbi era manco por culpa de uma bala; andará tempo acima e tempo abaixo e mancando lutará nestas selvas de palmeiras e em todas as terras do Brasil. Se chamarão Zumbi os chefes das incessantes rebeliões negras.

20 de novembro DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

1964 – Panamá

novembro 1, 2008

por Eduardo Galeano ( en Memoria del fuego)


Canal del Panamá – 1964

Veintitrés muchachos caen acribillados cuando intentan izar la bandera de Panamá en suelo de Panamá.

Sólo se usaron balas de cazar patos— se disculpa el comandante de las tropas norteamericanas de ocupación.
Otra bandera flamea a lo largo del tajo que corta a Panamá de mar a mar. Otra ley rige, otra policia vigila, otro idioma se habla. Los panameños no pueden entrar sin permiso en la zona del canal, ni para recoger la fruta caída de un árbol de mango, y si allí trabajan, reciben salarios de segunda, como los negros y las mujeres.

El canal, colonia norteamericana, es un negocio y una base militar. Con el peaje que los buques pagan, se financian los cursos de la Escuela de las Américas. En los cuarteles de la zona del canal, los oficiales del Pentágono enseñan cirugía anticomunista a los militares latinoamericanos que pronto ejercerán, en sus países, presidencias, ministerios, comandancias o embajadas.

Son los líderes del futuro— explica Robert McNamara, ministro de Defensa de los Estados Unidos.
Vigilantes ante el cáncer que acecha, estos militares cortarán las manos a quien ose cometer reforma agraria o nacionalización y arrancarán la lengua de respondones y preguntones.

em português:

Panamá – 1964

Vinte e três rapazes caem baleados quando tentam içar uma bandeira do Panamá em solo panamenho.
Só foram usadas balas de caçar patos – se desculpa o comandante das tropas norte-americanas de ocupação.
Outra bandeira tremula ao lado do buraco que corta o Panamá de mar a mar. Outra lei rege, outra polícia vigia, outro idioma se fala. Os panamenhos não podem entrar sem permissão na zona do canal, nem para recolher a fruta caída de uma mangueira, e sim ali trabalham, recebem salários de segunda, como os negros e as mulheres.

O canal, colônia norte-americana, é um negócio e uma base militar. Com os passes que os navios pagam, se financiam os cursos da Escola das Américas. Nos quartéis da zona do canal, os oficiais do Pentágono ensinam cirurgia anti-comunista aos militares latino-americanos que logo exercerão, em seus países, presidências, ministérios, comandos ou embaixadas.

São os líderes do futuro – explica Robert McNamara, Ministro da Defesa dos EUA.
Vigilantes ante o câncer que acende, estes militares cortarão as mãos de quem ouse fazer reforma agrária ou nacionalização e arrancarão a língua de argumentadores e perguntadores.

Coração de estudante

setembro 10, 2008

 

“Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu”

(Milton Nascimento  e Wagner Tiso)

 

 

O fim de 1968 trouxe o AI5. O mesmo calendário da explosão dos movimentos libertários marcou o início aos anos de chumbo. A prisão das lideranças estudantis em Ibiúna foi o prenúncio, depois o Ato, depois silêncio ou revolta, depois escuridão.

 

Os jornais e a história registraram e mantém a memória da rebeldia e da repressão. Os que enfrentaram a ditadura manifesta e os que foram por ela reprimidos tiveram registradas as suas lutas e suas desditas. Erigidos em figuras públicas, muitos que lutaram e/ou foram perseguidos tiveram a sorte ou o azar de ter suas trajetórias reveladas e conhecidas. Depois, passado o tempo, muitos foram reconhecidos como vítimas e indenizados pelo Estado brasileiro. Hoje, muitos com méritos, começam a ser tratados como heróis…

 

Alguém disse que é infeliz o país que precisa de heróis. Acho pobre um país que reconhece tão poucos. Há algum tempo, Zumbi. Tiradentes sempre. Quem mais?

 

Mas, quero falar de uma outra coisa. Como todos, acordei em 69 com um “desvio no destino”. De repente, tinha terminado a vivência de um tempo de liberdade. Acabou o tempo de criatividade e de experimentação cultural, de debate e discussão aberta, de manifestação livre, de aprender em liberdade. O “sorriso de menino” se escondeu.

 

O fechamento não foi percebido de imediato. Ele foi acontecendo devagar. Um dia, ouve-se a notícia da prisão de um colega. Logo, outro é dado por desaparecido. Uma reunião, antes aberta, agora é feita às escondidas. Poemas substituem as notícias de jornal. Ídolos indo para o exílio.  Alguém recomenda cuidado com o que se fala. Outro fala de espias e espionagens. Suspeitas rondam todos os cantos… Diminuem os espaços, os tempos e os parceiros de conversa livre. Até no boteco se olha de lado.

 

Foi anoitecendo em todos os quadrantes. Os meios de comunicação foram censurados ou embarcaram no ame-o ou deixe-o. Agora, discutia-se a Bíblia na igreja. O grupo de jovens acabou. Nas casas, livros são queimados ou escondidos. Por resistência, lê-se o Pasquim e outras publicações da imprensa alternativa.

 

Para mim, sobrou a faculdade como único espaço em que o exercício do pensamento e a possibilidade de ação transformadora ainda existiam. Mas, já não era o mesmo território livre. Ali também restrições foram impostas. Não se discute mais a reforma universitária. Cada vez menos o destino político do país é abertamente debatido. Mas, a biblioteca estava aberta e os livros abriam-me outras janelas para o mundo.

 

A minha turma de Pedagogia conseguiu abrir um reduzido mas fértil espaço de autonomia. Inclusive por insistência nossa, quase todos os professores adotaram métodos mais ativos e participativos em suas aulas. Isso enriquecia e ampliava as possibilidades de estudo, de pesquisa, de reflexão e de pensamento autônomo e crítico.

 

Assim, mesmo que menos amplas, as discussões em classe eram mais freqüentes e aprofundadas. E continuavam livres. Assim como meus colegas de classe, discuti as questões educacionais, me envolvi e fui me comprometendo com a busca de soluções para os nossos problemas educacionais concretos. Mesmo que restritos ao campo da educação, sempre tomávamos posição e lutávamos por ela.

 

Era a forma possível de exercício da cidadania. Ao mesmo tempo, sempre que tinha oportunidade, votava na oposição, que de débil foi se fortalecendo.  

 

Essa foi minha verdadeira formação política. Foi a formação política possível e acredito que adequada àqueles tempos. Ela iria influenciar fortemente a vida profissional futura. Daria modelo de um existir em sociedade que perduraria no tempo. Mas, esse já é o tema para um outro capítulo.