Archive for the ‘ícones68’ Category

The Beatles: Abbey Road

julho 26, 2009

Abbey Road é o 12° e penúltimo álbum dos Beatles. Foi lançado em 26 de setembro de 1969, quase quarenta anos atrás. Leva o mesmo nome de uma rua de Londres onde ficava o estúdio Abbey Road. Apesar de ter sido o penúltimo álbum lançado pela banda, foi o último a ser gravado.

Para recordar, postamos um vídeo com músicas do álbum, cenas da rua e outras imagens da época.

 

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Que MAO há nisso?

junho 23, 2009

livrovermelho1

por Eduardo Sposito

Para melhor entendermos o espírito da época, há necessidade de lembrarmos algumas contribuições importantes, e o “grande timoneiro” Mao Tse-Tung talvez seja a principal delas. (Outras, seriam Bertand Russel, Erich Fromm, Hebert Marcuse…Alguém se habilita?)

O “Livro Vermelho” dos pensamentos do comandante Mao alimentou muitos sonhos e estimulou grandes mobilizações por seu caráter de “princípios para a ação” e pela tradução popular e didática da filosofia marxista. Organizado por seu ministro de defesa Lin Piao – que o substi-traiu- ( possibilitando aos anti-China comunista a exercitar o humor: “A China vai de mao a piao”) – o livreto teve grande repercussão no mundo inteiro.

O maio de 68 na França e todo movimento jovem na Europa e nos EUA, os movimentos de resistencia na América Latina e África, foram altamente influenciados pelo famoso “livrinho”. Ainda tenho no ouvido os ecos da manifestação de rua cantando “Maô!…Maô!…”, com sotaque francês (deve ser no filme “A Chinesa” do Godard)

Pessoalmente lembro-me de ter me entusiasmado com seu conceito de revolução permanente, que o levou a propor a famosa “Revolução Cultural”, em que ele pressupunha que a juventude seria o esteio dessa eterna revolução, e só ela poderia impedir que o Partido Comunista Chinês caisse na burocratização e repetisse a experiência russa.

Com erros e acertos, a China não seria a potência que é hoje, sem Mao.

Estou anexando alguns trechos do “Livro Vermelho”, que achei num sebo em Rio Preto por 8 reais. Vê se dá para ficar indiferente a suas idéias.

Jornada nas Estrelas

maio 14, 2009

spockSpock, Kirk, Magro, Checkov, Sulo foram heróis que frequentavam a telinha em minhas horas de lazer na segunda metade dos anos sessenta. Eles eram alguns dos personagens de Jornada nas Estrelas, saga da busca de outros mundos por um universo sem fim. O número de fãs da série era imenso. E a história ainda rende novos filmes e séries na TV. Um ícone da nossa geração.

Acabo de encontrar uma matéria sobre  curso de história na San Diego State University cujo título é Star Trek (Jornada nas Estrelas).  É um programa acadêmico que vale créditos como qualquer outro.  O professor que o planejou, John Putman, explica que muitos episódios de Star Trek fazem referência aos grandes temas culturais e políticos dos sessenta: direitos civis, guerra do Vietnam, contracultura, revolução sexual etc.

Escrevi mais sobre o curso e a proposta do professor Putman no Boteco Escola. Para chegar lá, clique no destaque abaixo.

Pete Seeger faz 90 anos

maio 3, 2009

pete_seeger-3Li no twitter de Jordi Adell que o grande cantor e divulgador de canções socialmente engajadas, Pete Seeger, aniversaria hoje. Faz noventa anos. Um showzaço no Madison Square Garden, NY, com grandes nomes da música dos sessenta, marcará a data. A notícia indicada pelo Jordi pode ser encontrada aqui.

Nota. Conheço o Jordi de encontros na Web. Ele trabalha com tecnologia educacional e já publicamos matéria num mesmo número de Quaderns Digitals. Trocamos um ou dois e-mails. Ele é amigo de uma ciberamiga minha, Carmé Barba. Gente simpática. Ao ver sua indicação sobre Seeger, a simpatia aumentou. Parece que a gente advinha por sinais difíceis de determinar quem anda pela esquerda desde os tempos de estudante nos anos sessenta.

Arte e Revolução

abril 25, 2009

cuban-poster-51Tempos revolucionários costumam abrir espaço para manifestações artísticas mais ousadas e originais. Pena que isso não dura muito. Algum tempo depois da revolução, burocratas começam a pontificar sobre formas de comunicação, correção de linguagem, correção ideológica etc. Resultado: expressões “oficiais” de arte, sem inspiração, realisticamente equivocadas etc.

Acabo de ler no twitter do meu amigo Bernie Dodge uma nota sobre posters cubanos dos anos sessenta. As produções da época estavam descoladas da influência soviética e do realismo socialista. As obras são de muita originalidade e criatividade. Conhecemos uma delas, a famosa foto do Che. Outras não tiveram carreira tão longa e universal, mas merecem ser vistas. Copiei duas delas aqui. Para ver a fonte indicada pelo Bernie, uma coleção bastante expressiva dos cartazes cubanos dos anos sessenta, basta clicar no poster abaixo.

cuban-poster-31

O triste fim do Bar Riviera

outubro 6, 2008

No post 1968,  Sidnei Sauerbronn (Sidão) termina o texto citando o Bar Riviera. Sobre o bar, pouca informação existe hoje na Internet. Não encontramos, por exemplo, nenhuma foto do interna ou externa do local.

Por isso, reproduzimos a seguir o artigo mais completo  que encontramos sobre o Riviera. Ele anuncia o fechamento definitivo do espaço onde, como diz o sub-título da reportagem, falamos muito mal da ditadura.

 

A casa na Rua da Consolação onde estudantes e artistas falavam mal da ditadura fechou depois de 57 anos

Por Valdir Sanches

Chico Buarque de Hollanda desceu de um táxi, com uns amigos, na Rua da Consolação, esquina com Paulista. O que ia fazer num lugar desses, em plena madrugada? Ora, estava chegando ao mais famoso reduto da esquerda festiva da cidade nos anos da ditadura.

Um bar, claro. Naqueles anos, fins dos 1960 e década de 1970, o Riviera viveu seu período de grande efervescência revolucionária, festiva e etílica. A abertura política do País, a partir de 1985, fez-lhe mal. Aos poucos, a clientela se foi. Em fevereiro, fechou as portas, depois de 57 anos de história na noite paulistana.

Quem viu Chico Buarque descer do táxi foi o hoje cineasta e escritor Jorge Bouquet. “Eles vinham de uma serenata que tinham feito para uma garota. O Chico ia apresentando o motorista de táxi para as pessoas: ‘Este é fulano, meu motorista particular’.”

 A noite era uma criança, como se dizia na época. O bar ficava aberto até o último freguês – e ele raramente saía antes do amanhecer. Grande parte da clientela batia ponto toda noite. “Se você quisesse me achar, era lá”, diz a jornalista Dina Amendola. Outros, eram assíduos, mas não tanto. José Dirceu, então líder estudantil, Fernando Henrique Cardoso, Vinicius de Moraes, Toquinho, Chico.

 Dina não militou contra o regime, mas esteve na torcida (chegou a ser presa, por causa de um bilhete). “Quando algum de nós sumia, falávamos: ‘Fulano sumiu do mapa’. E o mapa era o Riviera.” No bar, diz, chegava a notícia do sumiço – indício certo de prisão.

Mas a freguesia não vivia só de resistência. “Nós, garotas, queríamos conhecer e namorar um moço bem legal, de preferência do movimento revolucionário. Se fosse um líder estudantil, que pertencesse à diretoria da UNE, aí era o máximo.”

O máximo, também, era o que acontecia entre as paredes do bar (uma delas curva, com tijolos de vidro – a marca do lugar). Certa noite, o Pernambuco, esse era o apelido, entrou no Riviera e disse que ia fazer strike. Novidade nos Estados Unidos: grupos de pessoas saíam correndo nuas pelas ruas.

Os amigos achavam que ia pegar mal, mas Pernambuco insistia. Até que em certa hora encostou na coluna do bar, segundo alguns. Ou ficou atrás da última mesa dos fundos, segundo outros. O fato é que tirou a roupa. Nu, abriu caminho entre as mesas, saiu para a rua e… entrou em um carro (um Fusca), que o esperava.O publicitário Albertinho Lira, um dos que contam o episódio, diz que a atitude foi conseqüência “da revolução sexual da época”. Sim, eram tempos de liberação sexual (e não havia aids).

 Albertinho (que certa noite subiu numa mesa para discursar) fala do mezanino do bar, lugar menos agitado. “A gente ia lá com uma garota, para uma beijoquinha, uma aproximação corporal.” Mas nada parecido com “o que essa molecada faz hoje, de ficar se beijando na rua”. Todos os amigos de bar tinham “a mesma ideologia”. Consistia em “combater a ditadura e ter acesso a festas”. Albertinho militou numa organização clandestina, a Polop, mas desistiu. “Por um motivo: eu tinha medo.”

 Quanto a festas, não faltavam. “Aquela era a década das festas, todo mundo fazia festas e todos procuravam por uma”, diz a jornalista Dina. A notícia corria pelas mesas do bar: festa na casa de fulano. Ou alguém era convidado para uma festa e chegava com a turma do Riviera. “Fui numa festa na Vila Madalena e a Elis Regina estava lá”, diz Albertinho Lira.

Para encontrar Toquinho não era preciso sair do bar. “O Riviera era um pouco a casa descontraída de estudantes, intelectuais e artistas”, diz o cantor e compositor. Na época, estudava Contabilidade no Mackenzie. Ia sempre ao bar com um colega, estudante de Arquitetura na USP, apelidado de Chico.

Davam uma canja para o pessoal? “Eu e o Chico estávamos sempre com o violão debaixo do braço, às vezes tocávamos.” Toquinho também freqüentava o mezanino. “Pagava uma pizza para a namorada e dava uns beijinhos.”

O prato mais requisitado do bar era, na verdade, um sanduíche. O Royal, algo como um bauru em pão de forma, envolvido por uma omelete. Um dos que não falhavam nas noites do bar, o jornalista Chico Lins, acha que as peculiaridades da culinária eram uma das atrações do lugar. “Todo mundo era durango e podia ficar no lanche, que era mais barato.”

Mas também: “Eu ia lá porque encontrava meus amigos. Vivíamos num clima sufocante, e a prudência indicava que se procurassem os seus.” O que não garantia muito. Porque esta ou aquela pessoa, tão bem instalada em uma mesa, podia ser um policial infiltrado. Jorge Bouquet, o cineasta, certa noite desconfiou de um cidadão “que chegou e entrou na conversa”.

 “Disse que trabalhava na Gazeta Mercantil, mas achei que era um tira infiltrado.” No dia seguinte, Jorge ligou para um amigo do jornal. O suspeito realmente trabalhava lá. “Depois, acabou ficando meu amigo”, diz Jorge.

Ao lado do Riviera havia outro bar agitado, o Ponto 4. A clientela ia e vinha de um para outro. Às vezes a polícia baixava e pegava o pessoal em trânsito. O próprio delegado Sérgio Paranhos Fleury, uma espécie de mastodonte da polícia política, o Dops, é citado como tendo, algumas vezes, comandado pessoalmente a ação. “Eles levavam todo mundo, para ver se pegavam alguém da luta armada”, diz um dos que falam em Fleury, a jornalista Dina.

O cartunista Chico Caruso retratou a situação em um desenho. Mostra os camburões cheios e o dono do bar se lamentando: “Lá se vai minha freguesia.” Os irmãos Chico e Paulo, gêmeos, nasceram no mesmo ano que o Riviera, 1949. Estudavam na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “O bar era a extensão da faculdade”, diz Paulo. “O Chico tinha uma postura política mais consistente, mas eu era mais da turma do desbunde.”

O Riviera era destino natural do pessoal que saía do Cine Belas Artes, do outro lado da Rua da Consolação. “A gente saía do cinema e ia direto para o Riviera, para ficar comentando o filme”, diz Dina, a jornalista. Albertinho Lira lembra-se de que pulavam uma divisória do canteiro central da Consolação, para chegar mais depressa ao bar. O cinema, que também enfrentou a decadência, mas teve melhor sorte – restaurado, está em pleno funcionamento – foi fundado em 1952, três anos depois do Riviera.

Nos bons tempos, os fregueses mais próximos penduravam a conta. “Se atrasava, a mãe do Renato (o dono) ligava para a pessoa”, diz Carlos Salum, redator de uma agência de Marketing. “Ela dizia: ‘Faz tempo que você não aparece por aqui…’ Era tão atenciosa, que o pessoal ia lá e pagava.” O bar aberto pelo comerciante Renato Maniscalco teve uma clientela fina até 1964. Com os militares no poder, o público foi mudando, vieram os estudantes, artistas. Em 1999, decadente, fechou. Mas logo reabriu. Desta vez, foi despejado e não houve jeito. O único que restou foi o ponto de táxi Riviera, ao lado.

Texto originalmente publicado no Estado de São Paulo, sábado, 26 de abril de 2006.

Geraldo Vandré, 70 anos

junho 25, 2008

Deparei com o texto abaixo no site Digestivo Cultural. Comuniquei-me com o autor que gentilmente autorizou sua reprodução aqui no ARQUIVO 68.

por Vitor Nuzzi

“O problema é que você quer falar com Geraldo Vandré. E Geraldo Vandré não existe mais, foi um pseudônimo que usei até 1968.” Ele estava particularmente irritado naquela noite, em agosto de 1985.

Há pouco, ficara sabendo que não haviam permitido o acesso ao prédio a um antigo porteiro.
Naquela noite, conheci um pouco da fúria daquele homem de voz grave, que estava prestes a completar 50 anos e vivia, como ainda vive, em um antigo prédio na região central de São Paulo, com o apartamento mergulhado na penumbra e cheio de livros por todos os lados. E pelo menos um violão.

O próprio Geraldo havia ligado para mim, meses antes, depois que eu, ainda estudante de Comunicação, tinha conseguido localizar o seu telefone na hoje extinta Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab), em que ele trabalhava como fiscal – cassado em 1968, havia sido anistiado em 1979.

Deixei recado ao doutor Geraldo Pedrosa, e na manhã seguinte uma voz empostada fala comigo. “Aqui é Geraldo. Você ligou para mim?” Combinamos de nos encontrar à noite, por volta de 19h. “Por volta, não. Às 19h”, decretou Geraldo.

O paraibano Geraldo Pedrosa de Araújo Dias completou 70 anos no dia 12 de setembro de 2005. Nascido em João Pessoa, aos 16 anos foi para o Rio de Janeiro. Entre ginásio e colégio, passou por Nazaré da Mata (PE) e Juiz de Fora (MG). No Rio, estudou Direito (de 1957 a 1961) para satisfazer a família, mas depois pendurou o diploma e foi viver de música. Ou de arte.

O sobrenome artístico veio do segundo nome do pai, o médico José Vandregísilo. Começou usando o nome artístico de Carlos Dias, homenagem aos cantores Carlos Galhardo e Carlos José. O Dias era de seu próprio sobrenome.

Foi influenciado pela Bossa Nova, mas depois introduziu outros elementos em sua música – “em termos musicais, ele começava a travar uma luta sonora com o meio ambiente da bossa nova e com suas próprias influências jazzísticas”, escreveu o crítico Tárik de Souza, em artigo publicado no livro Oitenta (L&PM Editores, 1979).

E os seus 70 anos passaram despercebidos. Geraldo andava, inclusive, meio sumido até poucas semanas atrás, quando os atendentes de uma padaria na região central de São Paulo, reencontraram o antigo freqüentador, que continua no mesmo velho apartamento, mas costuma se ausentar com freqüência.

Sempre de camisa branca, normalmente com símbolos da Força Aérea Brasileira (FAB). Também é assim que os funcionários de um restaurante na rua Xavier de Toledo, perto dali, costumam vê-lo. Camisa branca e vastos cabelos brancos. Um homem magro, que normalmente almoça sozinho.

Vandré, militares, Força Aérea? A relação parece estranha, mas vem dos tempos de criança. O pequeno Geraldo tinha 4 anos quando explodiu a 2ª Guerra Mundial, e ele gostava de imitar o vôo de caças. “Porque só tu soubeste enquanto infante/ As luzes do luzir mais reluzente/ Pertencer ao meu ser mais permanente” são os versos finais de “Fabiana”, escrita em 23 de outubro de 1985 “em honra da Força Aérea Brasileira”.

Daí o nome, “Fabiana”. Em 1995, ele esteve presente a uma comemoração da Semana da Asa, em que cadetes da FAB cantaram a sua composição. “Musicalmente é uma valsa. Literariamente, compõe de três estrofes de seis decassílabos e um refrão de três versos de seis sílabas”, explicou, didático, em entrevista ao jornal paulistano Diário Popular (atual Diário de São Paulo) em 26 de julho de 1991.

Dez entre dez pessoas citarão “Pra não Dizer que não Falei das Flores” (subtítulos “Caminhando” e “Sexta Coluna”) como a sua música mais famosa. Outros lembrarão de “Disparada”, celebrizada por Jair Rodrigues. Poucos, certamente, lembrarão de “Pequeno Concerto que virou Canção”, “Samba em Prelúdio”, “Quem Quiser Encontrar Amor”, “Canção Nordestina”.

E quem lembrará que foi Vandré quem primeiro defendeu uma música de Chico Buarque em um festival? Pois foi ele quem cantou “Sonho de um Carnaval”, do novato Chico, no 1° Festival de Música Popular Brasileira, em 1965. Os dois dividiriam o prêmio do Festival da Música Popular Brasileira em 1966, quando “A Banda”, de Chico, e “Disparada”, de Vandré e Théo de Barros, dividiram a torcida.
“A Banda” ganhou no júri, mas o prêmio foi dividido por imposição do próprio Chico.

Em setembro de 1968, seria a vez de Vandré sair em defesa de Chico – e de Tom Jobim –, diante de milhares de pessoas no Maracanãzinho (jornais da época falam em 30 mil), no Rio de Janeiro. A maioria queria ver “Caminhando” como vencedora da fase nacional do 3° Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo, e por isso vaiava a decisão do júri, que escolhera “Sabiá”.

“Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem o nosso respeito. (…) Pra vocês que continuam pensando que me apóiam vaiando… (…) A vida não se resume em festivais”, disse Vandré, enquanto a multidão acenava com lenços brancos.

Pouco depois, em dezembro de 1968, ele sumiu dos palcos. Naquele período, “Pra não Dizer que não Falei das Flores” foi proibida e sua cabeça, posta a prêmio. Em artigo publicado em outubro daquele ano no jornal O Globo, Nélson Rodrigues chegou a afirmar que “nunca se viu uma Marselhesa tão pouco Marselhesa”. Sentindo-se ameaçado, Vandré decidiu desaparecer (na mesma época, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos).

Segundo o compositor Geraldo Azevedo, no dia em que foi decretado o Ato Institucional 5 (13 de dezembro de 1968), Vandré e o Quarteto Livre (do qual Azevedo fazia parte) iriam se apresentar em Brasília. Depois de permanecer escondido por amigos, ele fugiu disfarçado e com passaporte falso no carnaval de 1969.

No Chile, seu primeiro destino, Vandré manteve contatos com artistas locais e gravou um compacto com as músicas “Desacordonar” e “Caminando” – quem recebeu da mão dele um desses compactos tem o exemplar numerado pelo próprio autor.

De lá, viajou para a Europa – no final de 1970, gravaria na França o pungente “Das Terras de Benvirá”, seu quinto LP – e seria o último, lançado no Brasil apenas em 1973 (na França, foi lançado um compacto, “La Passion Bresilienne”). “Foi algo quase de improviso”, conta Marcelo Melo, que participou da gravação e pouco depois formaria o grupo Quinteto Violado. Em 1971, Vandré voltou ao Chile.

Em 1972, ganharia um festival no Peru com “Pátria Amada Idolatrada, Salve, Salve”, parceria com Manduka (falecido em 2004), filho do poeta Thiago de Mello e da jornalista Pomona Politis. O retorno oficial ao Brasil aconteceu em 21 de agosto de 1973. “Quero agora só fazer canções de amor e paz”, declarou ao Jornal Nacional, na chegada, em Brasília, lembrando que nunca esteve vinculado a qualquer grupo político.

Na verdade, Vandré teria chegado ao Brasil um mês antes, em julho de 1973. Foi direto ao I Exército, no Rio de Janeiro. A sua permanência no país teria sido condicionada à entrevista ao JN. “Nunca fui preso, torturado, essas coisas que dizem por aí”, afirmou à revista VIP Exame em março de 1995. Essa é uma parte obscura da vida do cantor, que enfrentou sérias crises de depressão. De todos os artistas daquela geração, foi o único a não se apresentar novamente em um palco brasileiro, embora continue a fazer música.

No início de agosto de 1982, por volta de 200 pessoas testemunharam a volta de Geraldo Vandré aos palcos. Foi em uma sala de cinema em Puerto Stroessner, na fronteira do Paraguai com o Brasil. Cantou do lado paraguaio. Defendia a anulação de todos os atos praticados com base no AI-5 – o que, na prática, significaria o retorno à Constituição de 1946.

“Não houve aplausos nem gritos (na entrada de Vandré)”, contou a repórter Ruth Bolognese, do Jornal do Brasil, em texto publicado dia 9 de agosto. Foram dez músicas, quase todas inéditas. “E falam em liberdade, soldados, homens fracos e fortes, homens aprendendo a ser gente.”

Era o mesmo Vandré capaz de, numa noite qualquer de um sábado de 1985, pedir para esperarmos diante de um Pronto-Socorro municipal na zona norte de São Paulo, de onde ele sairia uma hora depois disposto a discutir os motivos pelos quais a cadeira de dentista é tida como um local de sofrimento. Ou capaz de ser preso em novembro de 1974, após se desentender com um taxista em Mogi das Cruzes, interior paulista, e terminar o dia jantando na casa do delegado.

“Assim como outros grandes, o tronco Vandré resultou em vários galhos relevantes”, escreveu, em 1999, o jornalista Luís Nassif, citando Quinteto Violado – que em 1997 gravaria um CD só com músicas dele –, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai. Sábado, dia 17 setembro, talvez tenha sido realizada a única homenagem pública a Vandré: Jair Rodrigues, que imortalizou “Disparada”, e o próprio Quinteto Violado se apresentaram em Brasília, justamente onde haveria o show em 1968, quando a carreira de Vandré foi interrompida. “Sinto falta dele”, diz Jair.

Um homem que recusou delicadamente um pedido de entrevista, feito anos atrás, com a seguinte resposta, escrita à mão: “Trata-se de uma sociedade para a qual a BELEZA cumpre função secundária e dispensável. Aqueles que se ocupam da beleza têm, portanto, função secundária e dispensável”. Mas ele termina a mensagem dizendo que “sem beleza não existe O HOMEM FELIZ”. E assina: Vandré, com um PS datado de 14 de junho de 1995: “Cada vez mais distante”.

Muitos o consideram louco. Certamente, ele não tem certas convenções sociais. Nassif chamou-o de “solitário e desconexo”, “triste como a própria solidão na qual se meteu”. Mas se Vandré sempre buscou a beleza, talvez seja um homem feliz.

Vitor Nuzzi
São Paulo, 27/9/2005

A música em 1968: os hits e os rapas

junho 11, 2008

A propósito da página 28. A música em 1968 – Os hits e os rapas, acho interessante postar as músicas de 1968 de dois grandes ícones até agora esquecidos por nós: Chico Buarque de Holanda e Roberto Carlos.

Eu tenho um sonho

abril 30, 2008

Não podia ver findar o mês de abril sem referir-me a dois acontecimentos importantes. O mês de abril de 68 viu calar uma voz que lutava pela igualdade entre os homens. Em quatro de abril, morreu Martin Luther King. Dele, postamos o seu mais famoso discurso em Páginas 19 – Eu tenho um sonho.

No mesmo mês, foi lançado um grito de liberdade no ar. Em 29/04/1968, acontecia, na Brodway, a estréia do musical Hair. Para recordar acesse, em http://www.youtube.com/watch?v=gM5dU-oKFes, uma cena do filme Hair. Nela, você encontrará um ícone daqueles tempos: a música The Age of Aquarius, com Donna Summer.

The Beatles – uma pequena história

abril 11, 2008

Postei, em Páginas 16. The beatles – uma pequena história, disponível em http://www.bravus.net/beatles/, de onde também foi copiada a ilustração. Lá se diz que o fim dos Beatles começou em 68. Então…

Zeca