Archive for outubro \26\UTC 2008

Sandino

outubro 26, 2008

por Eduardo Galeano

26 de octubre de 1926
San Albino

Sandino

Hombre corto y flaco, fideofino, lo volaría el ventarrón si no estuviera tan plantado en tierra de Nicaragua.

 
En esta tierra, su tierra, Augusto César Sandino se alza y habla. Hablando cuenta lo que su tierra le ha dicho. Cuando Sandino se hecha a dormir sobre su tierra, ella le secretea hondas penas y dulzuras.

 
Sandino se alza y cuenta las confidencias de su tierra invadida y humilla da y pregunta cuántos de ustedes la aman tanto como yo.

 
Veintinueve mineros de San Albino dan un paso al frente. Estos son los primeros soldados del ejército de liberación de Nicaragua. Obreros analfabetos, trabajan quince horas diarias por día arrancando oro para una empresa norteamericana y duermen amontonados en un galpón. Con dinamita vuelan la mina; y se van tras de Sandino a la montaña.

 
Sandino anda en un burrito blanco.

 

em português:

 

26 de outubro de 1926
São Albino

Sandino

Homem baixo e fraco, magro, voaria na ventania se não estivesse tão plantado na terra da Nicarágua.

 Nesta terra, sua terra, Augusto César Sandino ergue-se e fala. Falando conta o que sua terra lhe disse. Quando Sandino se põe a dormir sobre sua terra, ela lhe confidencia suas tristezas e alegrias.

 Sandino ergue-se e conta as confidências de sua terra invadida e humilhada e pergunta quantos de vocês a amam tanto quanto eu.

 Vinte e nove mineiros de São Albino dão um passo à frente. Estes são os primeiros soldados do exército de libertação da Nicarágua. Trabalhadores analfabetos, trabalham quinze horas diárias arrancando ouro para uma empresa norte-americana e dormem amontoados em um galpão. Com dinamite explodem a mina; e se vão atrás de Sandino, para a montanha.

 Sandino anda em um burrinho branco.

Para saber mais sobre Sandino e a Revolução Sandinista clique aqui e assista o video AUGUSTO CÉSAR SANDINO.

Calendário 1968

outubro 25, 2008

No início deste ano, a Revista Época fez uma reportagem sobre os quarenta anos desde 1968. Nessa reportagem, incluiu um calendário com os eventos mais significativos daquele ano. Reproduzimos o calendário a seguir. Embora incompleto, ele pode ser um guia para navegar em Arquivo68. Clicando sobre a imagem ou clicando aqui, a imagem pode ser ampliada.

Maria Antonia era o nosso Quartier Latin

outubro 17, 2008

Procurando enriquecer a recém-criada categoria “bares da época”, iniciei uma pesquisa sobre o Bar do Zé. Pensei que ele tinha sido citado pelo Jarbas em Duelo na Maria Antonia. Depois percebi que não. Seguramente o bar foi citado em 1968, publicado pelo Sidão.

Encontrei um artigo em que o Henrique Meirelles (sim, o atual presidente do Banco Central) confunde o Bar do Zé com o Bar sem Nome, outro dos ícones da época. Dizem que lá, no Sem Nome,  o Chico Buarque fez ou apresentou as suas primeiras composições. >.

Fiquei pensando que a confusão entre os dois bares revela que o Meirelles, embora circulando na época pelo pedaço, não devia ser um grande frequentador de tais ambientes culturais. Não sei se o Chico foi frequentador do Zé como o foi do Sem Nome e do Bar Riviera.

De repente, encontro uma matéria muito interessante. O Cláudio Tozzi falando do Bar do Zé de forma restrita e, em geral, da Rua Maria Antonia, a qual ele denominou de nosso Quatier Latin.

Percebi que o texto poderia enriquecer duas de nossas categorias recentemente criadas: a dos bares e a de Artes Plásticas. Dois posts incluídos nessa última categoria estão muito relacionados com o artigo que encontrei: 1968: Mais Artes Plásticas e As Artes Plásticas na Década de 60 e em Maio de 68.

Assim, não resisti à tentação de reproduzir o artigo da Série SP 450, da Folha de São Paulo, em Arquivo68. Os mais puristas poderão encontrá-lo em seu lugar original clicando aqui.

 

LUIZ CAVERSAN
da Folha de S.Paulo

As primeiras pedras e ovos começaram a voar ainda no dia anterior, quando secundaristas e alunas da Faculdade de Filosofia da USP faziam um pedágio na rua Maria Antônia para recolher dinheiro para o movimento estudantil.

Mas a “Batalha da Maria Antônia” estourou mesmo no dia seguinte, 3 de outubro de 1968, uma sexta-feira. E seu saldo foi trágico: um estudante secundarista (José Carlos Guimarães, 20) morto com um tiro na cabeça, três universitários também baleados e dezenas de feridos.

Além do prédio da Filosofia invadido e depredado por alunos da vizinha Universidade Mackenzie e integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), quebra-quebra, confronto com policiais e diversos automóveis incendiados.

Claudio Tozzi - Foto Matuiti Mauezo

 O artista plástico Cláudio Tozzi, 58, participou ativamente daqueles dias conturbados, que colocaram a cidade de São Paulo no clima do que estava ocorrendo no resto do mundo, sobretudo na França.

“A Maria Antônia era o nosso Quartier Latin”, afirma Tozzi, referindo-se ao boêmio bairro parisiense que, em maio de 68, viveu verdadeiras batalhas campais.

A semelhança com Paris não se referia apenas à contestação violenta. “A região da Maria Antônia era muito festiva, um ponto de encontro, uma parte da cidade agradável e animada”, diz Tozzi.

Agradável enquanto as relações do movimento estudantil ligado à esquerda não passassem a se estranhar violentamente com os conservadores do Mackenzie.

“Sempre houve provocação”, recorda Tozzi, como os roubos de urnas da eleição estudantil de 67. Mas havia também a animação das passeatas que rapidamente agregavam alunos das escolas próximas. “Em dois minutos, o que acontecia na Filosofia já chegava à FAU, onde eu estudava. Dali para a Administração de Empresas era um pulo, e de repente estava todo mundo lá.”

O ambiente cultural também florescia, tanto nas escolas quanto nos bares da região, entre eles o lendário Bar do Zé, na Maria Antônia com Dr. Vila Nova.

Tozzi foi preso duas vezes, embora não constituísse uma liderança, como eram o atual ministro José Dirceu ou Luiz Travassos, da União Nacional dos Estudantes. Era, sim, um militante, e como tal sentiria a força do regime militar.

“A primeira prisão foi coletiva, mais de 60 estudantes, no largo da Concórdia, em uma ação comandada pelo então famoso policial Raul Careca. Na segunda, a coisa foi mais séria: acabei preso pela Oban [órgão de combate aos opositores do regime] e levado ao Doi-Codi [repartição do Exército que atuava na repressão].”

Segundo afirma, Tozzi foi submetido a maus tratos por pelo menos uma semana.

Como seria de se esperar, sua pintura foi fortemente influenciada pelos acontecimentos da época: “Na verdade, eu fazia uma espécie de retrato daquilo tudo. Fotografava e documentava, depois fazia intervenções nas fotos ampliadas, o que resultava num trabalho afinado com a realidade. Não era, de jeito nenhum, uma pintura de cavalete. Buscava uma comunicação mais ampla, tanto que expunha até em fábricas. Tinha a preocupação de vincular arte com luta pela liberdade, sob a influência de tudo o que acontecia no mundo de então e tendo São Paulo como cenário.”

Esquina 65

outubro 11, 2008

Para quem “curtiu” o texto 1968, de Sidnei Sauerbromn, é possível ler mais, mesmo antes que ele escreva de novo para Arquivo68. Ele publicou, modestamente designando-se coordenador, em 2006, pela Editora DOCUPRINT, o livro Esquina 65. Vou deixar que o próprio Sidão apresente o livro.

Esquina 65

“Em Novembro de 1965 foi tirada a foto que motivou esta “coletânea”.

Quarenta anos se passaram. Não via ou falava com as pessoas retratadas há cerca de 17 anos.

(…)

A foto mencionada está pendurada em uma parede em meu escritório. Retrata meus amigos. Conheço-os desde a infância, quando existia o Grupo Escolar. São eles, da esquerda para a direita: Savério, Sapo, Moreira, Pergola, Eraldo, Salim, Sidão (eu) e Celsinho.

Pois bem: uma série de motivos tais como nostalgia, insatisfação no trabalho, a necessidade de revê-los e, principalmente, o gosto pela pesquisa foi o que me levou a entrevistá-los, a colher depoimentos de cada um deles. São oito pessoas e, por trás desta foto, o Antonio Candido de Oliveira, que fotografou a turma.

Li alguma coisa sobre a representação fotográfica, a questão dos indícios e ou vestígios para a reconstrução da memória histórica. Assim, estabeleci um roteiro vago para colher os depoimentos e fui a campo.

Em cada depoimento, antes de fazer qualquer tipo de pergunta, apresentava a foto e pedia que falassem o que vinha à memória. 

(…)

Os depoimentos trazem uma série de referências (representações), que acabam sendo interessantes para o leitor que viveu a época ou busca informações sobre esse período.”

 No último parágrafo, novamente, Sidão é modesto. O livro é uma viagem no tempo. As pessoas (personagens, figuras,…) destacam-se da foto e suas falas cartografam um território inscrito em uma época de grandes transformações urbanas, culturais e políticas. A brilhante organização do texto afasta a comum aridez do formato entrevista, ao mesmo tempo que mantém o frescor e a emoção de acontecimentos, vivências e sentimentos que são expostos à luz pela primeira vez. Para quem viveu a época e, acredito, mesmo para quem dela só tem notícia, é uma leitura extremamente envolvente.

 Pensando bem, este blog é quase fruto de Esquina 65. Acho que, mesmo inconscientemente, fui influenciado pelo livro ao propor o tema deste blog. Os companheiros que propuseram o nome do blog não tinham conhecimento do livro. Mas, como forma de representação de um conteúdo, existe algo mais parecido do que Esquina 65 e Arquivo68?

Memoria del fuego/Memória do fogo

outubro 8, 2008

por Eduardo Galeano

 

08 de outubro de 1967

A orillas del río Ñancahuazú

 

Diecisiete hombres caminan hacia la aniquilación

El cardenal Maurer llega a Bolivia desde Roma. Trae las bendiciones del Papa y la noticia de que Dios apoya decididamente al general Barrientos contra las guerrillas.Mientras tanto, acosados por el hambre, abrumados por la geografía, los guerrilleros dan vueltas por los matorrales del río Ñancahuazú.

Pocos campesinos hay en estas inmensas soledades; y ni uno, ni uno solo, se ha incorporado a la pequeña tropa del Che Guevara. Sus fuerzas van disminuyendo de emboscada en emboscada.

El Che no flaquea, no se deja flaquear, aunque siente que su propio cuerpo es una piedra entre las piedras, pesada piedra que él arrastra avanzando a la cabeza de todos; y tampoco se deja tentar por la idea de salvar al grupo abandonando a los heridos.

Por orden del Che, caminan todos al ritmo de los que menos pueden: juntos serán todos salvados o perdidos.

Perdidos. Mil ochocientos soldados, dirigidos por los rangers norteamericanos, les pisan la sombra. El cerco se estrecha más y más. Por fin delatan la ubicación exacta un par de campesinos soplones y los radares electrónicos de la National Security Agency, de los Estados Unidos.

 

08 de outubro de 1967

Às margens do Rio Nancahuazú

 

Dezessete homens caminham até a aniquilação.

O cardeal Maurer chega à Bolívia desde Roma. Traz as bênçãos do Papa e a notícia de que Deus apóia decididamente ao General Barrientos contra as guerrilhas. Entretanto, acossados pela fome, confusos pela geografia, os guerrilheiros dão voltas pelos matagais do Rio Nancahuazú.

Poucos camponeses há nestas imensas solidões; e nem um, nem um só, se incorporou à pequena tropa do Chê Guevara. Suas forças vão diminuindo de emboscada em emboscada.

O Che não fraqueja, não se deixa fraquejar, ainda que sinta que seu próprio corpo é uma pedra entre as pedras, pesada pedra que ele arrasta avançando à frente de todos; e também não se deixa tentar pela idéia de salvar o grupo abandonando os feridos.

Por ordem do Che, caminham todos no ritmo dos que menos podem; juntos estarão salvos ou perdidos.

Perdidos. Mil e oitocentos soldados, dirigidos pelos rangers norte-americanos, lhes pisam na sombra. O cerco se estreita mais e mais. Por fim delatam a localização exata um par de delatores camponeses e os radares eletrônicos da Agência Nacional de Segurança, dos EUA.

Quebrada del Yuro

La caída del Che

La metralla le rompe las piernas. Sentado, sigue peleando, hasta que le vuelan el fusil de las manos. Los soldados disputan a manotazos el reloj, la cantimplora, el cinturón, la pipa. Varios oficiales lo interrogan, uno tras otro. El Che calla y mana sangre. El contralmirante Ugarteche, osado lobo de tierra, jefe de la Marina de un país sin mar, lo insulta y lo amenaza.El Che le escupe la cara.

Desde La Paz, llega la orden de liquidar al prisionero. Una ráfaga lo acribilla.El Che muere de bala, muere a traición, poco antes de cumplir cuarenta años, exactamente a la misma edad a la que murieron, también de bala, también a traición, Zapata y Sandino.

En el pueblito de Higueras, el general Barrientos exhibe su trofeo a los periodistas. El Che yace sobre una pileta de lavar ropa. Después de las balas, lo acribillan los flashes. Esta última cara tiene ojos que acusan y una sonrisa melancólica.

Declive de Yuro

A queda do Che

A metralha lhe rompe as pernas. Sentado, segue lutando, até que o fuzil lhe voa das mãos. Os soldados disputam a tapas o relógio, o cinturão, o cantil. Vários oficiais o interrogam, um após o outro. O contra-almirante Ugarteche, ousado lobo de terra, chefe da Marinha de um país sem mar, o insulta e ameaça. O Che lhe cospe na cara.

Desde La Paz, chega a ordem de matar o prisioneiro. Uma rajada o criva de balas. O Che morre de balas, de traição, antes de completar 40 anos, exatamente a mesma idade e na qual morreram, também a bala, também a traição, Zapata e Sandino.

No povoado de Higueras, o general Barrientos exibe seu troféu aos jornalistas. O Che jaz sobre uma tábua de lavar roupas. Depois das balas, o crivam os flashs. Sua última cara tem olhos que acusam e um sorriso melancólico.

Higueras

Campanadas por él

¿Ha muerto en 1967, en Bolivia, orque se equivocó de hora y de lugar, de ritmo y de manera? ¿O ha muerto nunca, en ninguna parte, porque no se equivocó en lo que de veras vale para todas las horas y
lugares y ritmos y maneras?

Creía que hay que defenderse de las trampas de la codicia, sin bajar jamás la guardia. Cuando era presidente del Banco Nacional de Cuba, firmaba Che los billetes, para burlarse del dinero. Por amor a la gente, despreciaba las cosas.

Enfermo está el mundo, creía, donde tener y ser significan lo mismo. No guardó nunca nada para sí, ni pidió nada nunca. Vivir es darse, creía; y se dio.

Higueras

Os sinos tocam por ele

Morreu em 1967, na Bolívia, porque se equivocou de hora e lugar, de ritmo e de método? Ou jamais foi morto, em nenhuma parte, porque não se equivocou no que na verdade vale para todas as horas, lugares, ritmos e métodos?

Acreditava que temos que nos defendermos das armadilhas da ambição, sem baixar jamais a guarda. Quando era presidente do Banco Nacional de Cuba, assinava Che os bilhetes, para livrar-se do dinheiro. Por amor às pessoas, depreciava as coisas.

Doente está o mundo, acreditava, onde ter e ser significam a mesma coisa. Não guardou nunca nada para si, nem nada pediu. Viver é doar-se, acreditava, e se doou.

 

Memoria del fuego/Memória do fogo

outubro 6, 2008

02 de outubro de 1968

por Eduardo Galeano

Memoria del fuego é o título de uma trilogia, na qual Eduardo Galeano, escritor uruguaio, nascido em 1940, fornece uma interessantíssima e nova visão da história do continente americano. A trilogia é composta pelos pelos volumes:

1. Los nacimientos
2. Las caras y las mascaras
3. El siglo del viento

Já no prólogo do primeiro volume explica qual é a intenção da trilogia. Diz que espera que “possa ajudar a devolver à história o alento, a liberdade e a palavra e consertar um dos males da América Latina: a usurpação da memória.”

Vamos aqui publicar , do livro, as efemérides, contadas em forma de crônica pelo autor no dia e mês em que ocorreu o narrado, independentemente do ano do acontecido. A fonte do material que vamos utilizar é o site Patria Grande.net através do qual chegamos ao site oficial de Eduardo Galeano.

Os textos serão publicados sempre em espanhol com sua tradução para o português, numa tentativa de contribuirmos para com a restauração dos nexos entre nós brasileiros e “los hermanos” de toda a América Latina enfraquecidos por obra de interesses político/econômicos e outros que sabotam nossa “latinidad” (Antonio Morales).

2 de octubre de 1968

Ciudad de México

 

 

Los estudiantes

 

Los estudiantes invaden las calles. Manifestaciones así, en México jamás se han visto, tan inmensas y alegres, todos atados brazo con brazo, cantando y riendo.

 

Los estudiantes claman contra el presidente Díaz Ordaz y sus ministros, momias con vendas y todo, y contra los demás usurpadores de aquella revolución de Zapata y Pancho Villa.

 

En Tlatelolco, plaza que ya fue moridero de indios y conquistadores, ocurre la encerrona. El ejército bloquea todas las salidas con tanques y a metralladoras. En el corral, prontos para el sacrificio, se apretujan los estudiantes. Cierra la trampa un muro continuo de fusiles con bayoneta calada.

 

Las luces de bengala, una verde, otra roja, dan la señal.

 

Horas después, busca su cría una mujer. Los zapatos dejan huellas de sangre en el suelo.

 

 

 

 Ciudad de México

 

 Revueltas

 

Tiene medio siglo largo, pero cada día comete el delito de ser joven. Está siempre en el centro Del alboroto, disparando discursos y manifiestos. José Revueltas denuncia a los dueños del poder en México, que por irremediable odio a todo lo que palpita, crece y cambia, acaban de asesinar trescientos estudiantes en Tlatelolco:

 

 —Los señores del gobierno están muertos. Por eso nos matan.

 

En México, el poder asimila o aniquila, fulmina de un abrazo o de un balazo: a los respondones que no se dejan meter en el presupuesto, los mete en la tumba o en la cárcel. El incorregible Revueltas vive preso.

 

 

Rara vez no duerme en celda y entonces pasa as noches tendido en algún banco de la alameda o escritorio de la universidad.

 

 Los policias lo odian por revolucionario y los dogmáticos por libre; los beatos de izquierda no le perdonan su tendencia a lãs cantinas. Hace un tiempo, sus camaradas le pusieron un ángel de la guardia, para que salvara a Revueltas de toda tentación, pero el ángel terminó empeñando las alas para pagar las juergas que se corrían juntos.

 

02 de outubro de 1968

Cidade do México

 

 

Os estudantes

 

Os estudantes invadem as ruas. Manifestações assim, no México jamais foram vistas, tão imensas e alegres, todos atados, braço com braço,  cantando e rindo.

 

 Os estudantes gritam contra o presidente Diaz Ordaz  e seus ministros, bonecos com vendas e tudo, e contra os demais usurpadores daquela revolução de Zapata e  Pancho Villa.

 

Em Tlatelolco, praça que já foi morada de índios e conquistadores, ocorre o confronto. O exército bloqueia todas as saídas com tanques e metralhadoras. No curral, prontos para o sacrifício, se amontoam os estudantes. Fecha  a armadilha um muro contínuo de fuzis com baioneta calada.

 

As luzes do sinalizador, uma verde, outra vermelha, dão o sinal.

 

Horas depois, procura seu filho uma mulher. Os sapatos deixam marcas de sangue no chão.

 

 

Cidade do México

 

 Revoltas

 

Tem meio século de idade, porém cada dia comete o delito de ser jovem. Está sempre no centro do alvoroço, disparando discursos e manifestos. José Revueltas denuncia os donos do poder no México, que por irremediável ódio a tudo que vibra, cresce e muda,  acabam de assassinar trezentos estudantes em Tlatelolco:

 

-Os senhores do governo estão mortos. Por isso nos matam.

 

No México, o poder assimila ou aniquila, fulmina com um abraço ou uma bala: aos respondões que não se deixam convencer por esse argumento, manda para o túmulo ou para o cárcere. O incorrigível Revueltas vive preso.

 

Raras vezes não dorme em celas ou passa noites estendido em algum banco da alameda ou sala da universidade.

 

Os policiais o odeiam por ser revolucionário e os dogmáticos por ser livre; os beatos de esquerda não lhe perdoam sua tendência pelos bares. Faz um tempo, seus camaradas lhe puseram um anjoda guarda, para que salvasse Revueltas de toda a tentação, porém o anjo terminou empenhando as asas para pagar a diversão que  freqüentavam juntos.

 

 

O triste fim do Bar Riviera

outubro 6, 2008

No post 1968,  Sidnei Sauerbronn (Sidão) termina o texto citando o Bar Riviera. Sobre o bar, pouca informação existe hoje na Internet. Não encontramos, por exemplo, nenhuma foto do interna ou externa do local.

Por isso, reproduzimos a seguir o artigo mais completo  que encontramos sobre o Riviera. Ele anuncia o fechamento definitivo do espaço onde, como diz o sub-título da reportagem, falamos muito mal da ditadura.

 

A casa na Rua da Consolação onde estudantes e artistas falavam mal da ditadura fechou depois de 57 anos

Por Valdir Sanches

Chico Buarque de Hollanda desceu de um táxi, com uns amigos, na Rua da Consolação, esquina com Paulista. O que ia fazer num lugar desses, em plena madrugada? Ora, estava chegando ao mais famoso reduto da esquerda festiva da cidade nos anos da ditadura.

Um bar, claro. Naqueles anos, fins dos 1960 e década de 1970, o Riviera viveu seu período de grande efervescência revolucionária, festiva e etílica. A abertura política do País, a partir de 1985, fez-lhe mal. Aos poucos, a clientela se foi. Em fevereiro, fechou as portas, depois de 57 anos de história na noite paulistana.

Quem viu Chico Buarque descer do táxi foi o hoje cineasta e escritor Jorge Bouquet. “Eles vinham de uma serenata que tinham feito para uma garota. O Chico ia apresentando o motorista de táxi para as pessoas: ‘Este é fulano, meu motorista particular’.”

 A noite era uma criança, como se dizia na época. O bar ficava aberto até o último freguês – e ele raramente saía antes do amanhecer. Grande parte da clientela batia ponto toda noite. “Se você quisesse me achar, era lá”, diz a jornalista Dina Amendola. Outros, eram assíduos, mas não tanto. José Dirceu, então líder estudantil, Fernando Henrique Cardoso, Vinicius de Moraes, Toquinho, Chico.

 Dina não militou contra o regime, mas esteve na torcida (chegou a ser presa, por causa de um bilhete). “Quando algum de nós sumia, falávamos: ‘Fulano sumiu do mapa’. E o mapa era o Riviera.” No bar, diz, chegava a notícia do sumiço – indício certo de prisão.

Mas a freguesia não vivia só de resistência. “Nós, garotas, queríamos conhecer e namorar um moço bem legal, de preferência do movimento revolucionário. Se fosse um líder estudantil, que pertencesse à diretoria da UNE, aí era o máximo.”

O máximo, também, era o que acontecia entre as paredes do bar (uma delas curva, com tijolos de vidro – a marca do lugar). Certa noite, o Pernambuco, esse era o apelido, entrou no Riviera e disse que ia fazer strike. Novidade nos Estados Unidos: grupos de pessoas saíam correndo nuas pelas ruas.

Os amigos achavam que ia pegar mal, mas Pernambuco insistia. Até que em certa hora encostou na coluna do bar, segundo alguns. Ou ficou atrás da última mesa dos fundos, segundo outros. O fato é que tirou a roupa. Nu, abriu caminho entre as mesas, saiu para a rua e… entrou em um carro (um Fusca), que o esperava.O publicitário Albertinho Lira, um dos que contam o episódio, diz que a atitude foi conseqüência “da revolução sexual da época”. Sim, eram tempos de liberação sexual (e não havia aids).

 Albertinho (que certa noite subiu numa mesa para discursar) fala do mezanino do bar, lugar menos agitado. “A gente ia lá com uma garota, para uma beijoquinha, uma aproximação corporal.” Mas nada parecido com “o que essa molecada faz hoje, de ficar se beijando na rua”. Todos os amigos de bar tinham “a mesma ideologia”. Consistia em “combater a ditadura e ter acesso a festas”. Albertinho militou numa organização clandestina, a Polop, mas desistiu. “Por um motivo: eu tinha medo.”

 Quanto a festas, não faltavam. “Aquela era a década das festas, todo mundo fazia festas e todos procuravam por uma”, diz a jornalista Dina. A notícia corria pelas mesas do bar: festa na casa de fulano. Ou alguém era convidado para uma festa e chegava com a turma do Riviera. “Fui numa festa na Vila Madalena e a Elis Regina estava lá”, diz Albertinho Lira.

Para encontrar Toquinho não era preciso sair do bar. “O Riviera era um pouco a casa descontraída de estudantes, intelectuais e artistas”, diz o cantor e compositor. Na época, estudava Contabilidade no Mackenzie. Ia sempre ao bar com um colega, estudante de Arquitetura na USP, apelidado de Chico.

Davam uma canja para o pessoal? “Eu e o Chico estávamos sempre com o violão debaixo do braço, às vezes tocávamos.” Toquinho também freqüentava o mezanino. “Pagava uma pizza para a namorada e dava uns beijinhos.”

O prato mais requisitado do bar era, na verdade, um sanduíche. O Royal, algo como um bauru em pão de forma, envolvido por uma omelete. Um dos que não falhavam nas noites do bar, o jornalista Chico Lins, acha que as peculiaridades da culinária eram uma das atrações do lugar. “Todo mundo era durango e podia ficar no lanche, que era mais barato.”

Mas também: “Eu ia lá porque encontrava meus amigos. Vivíamos num clima sufocante, e a prudência indicava que se procurassem os seus.” O que não garantia muito. Porque esta ou aquela pessoa, tão bem instalada em uma mesa, podia ser um policial infiltrado. Jorge Bouquet, o cineasta, certa noite desconfiou de um cidadão “que chegou e entrou na conversa”.

 “Disse que trabalhava na Gazeta Mercantil, mas achei que era um tira infiltrado.” No dia seguinte, Jorge ligou para um amigo do jornal. O suspeito realmente trabalhava lá. “Depois, acabou ficando meu amigo”, diz Jorge.

Ao lado do Riviera havia outro bar agitado, o Ponto 4. A clientela ia e vinha de um para outro. Às vezes a polícia baixava e pegava o pessoal em trânsito. O próprio delegado Sérgio Paranhos Fleury, uma espécie de mastodonte da polícia política, o Dops, é citado como tendo, algumas vezes, comandado pessoalmente a ação. “Eles levavam todo mundo, para ver se pegavam alguém da luta armada”, diz um dos que falam em Fleury, a jornalista Dina.

O cartunista Chico Caruso retratou a situação em um desenho. Mostra os camburões cheios e o dono do bar se lamentando: “Lá se vai minha freguesia.” Os irmãos Chico e Paulo, gêmeos, nasceram no mesmo ano que o Riviera, 1949. Estudavam na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “O bar era a extensão da faculdade”, diz Paulo. “O Chico tinha uma postura política mais consistente, mas eu era mais da turma do desbunde.”

O Riviera era destino natural do pessoal que saía do Cine Belas Artes, do outro lado da Rua da Consolação. “A gente saía do cinema e ia direto para o Riviera, para ficar comentando o filme”, diz Dina, a jornalista. Albertinho Lira lembra-se de que pulavam uma divisória do canteiro central da Consolação, para chegar mais depressa ao bar. O cinema, que também enfrentou a decadência, mas teve melhor sorte – restaurado, está em pleno funcionamento – foi fundado em 1952, três anos depois do Riviera.

Nos bons tempos, os fregueses mais próximos penduravam a conta. “Se atrasava, a mãe do Renato (o dono) ligava para a pessoa”, diz Carlos Salum, redator de uma agência de Marketing. “Ela dizia: ‘Faz tempo que você não aparece por aqui…’ Era tão atenciosa, que o pessoal ia lá e pagava.” O bar aberto pelo comerciante Renato Maniscalco teve uma clientela fina até 1964. Com os militares no poder, o público foi mudando, vieram os estudantes, artistas. Em 1999, decadente, fechou. Mas logo reabriu. Desta vez, foi despejado e não houve jeito. O único que restou foi o ponto de táxi Riviera, ao lado.

Texto originalmente publicado no Estado de São Paulo, sábado, 26 de abril de 2006.

1968

outubro 2, 2008

 

 

Por Sidnei Sauerbronn

 

Coloquei em vermelho o que eu tenho dúvidas. Está ótimo. É só terminar e mandar.

 

1968. Preguiça de qualquer data comemorativa.

Estou aqui em frente ao Arquivo 68. Um armário de aço verde, cheio de gavetas. Relatos engajados. 1968.

 

No buteco, a coisa mais esperada era chegar ao fim de ano e dizer às meninas um feliz 69.

A revista Veja número1 é desse ano.

A de número Zero trazia o Pelé na capa.

 

Freqüentava um “cursinho” em Santo André. Aprendi a noção da noção da “mais valia”, uma revolução na minha cabeça: as relações entre as coisas ficaram fáceis de entender. Aprendi que o culpado era culpado mesmo. Não era uma mera raiva. No bar lembro-me de uma transmissão em redes pelo rádio. Silêncio. Então Costa e Silva. Medo, cerveja e bauru. Ato número 8.

 

Um professor de origem japonesa (Jorge) explicou-me  algo + ou_ assim sobre a “mais valia”:

Estamos em uma fábrica de vassoura.

Materiais que compõe a vassoura: cabo de madeira, palha, lata e barbante (fios).

  • Madeira custa 20;
  • Palha custa 5;
  • Lata custa 30;
  • Barbante custa10.
  • Local custa 15 ao mês.

TODOS ESSES PREÇOS SÃO FIXOS no mercado. Salário custa  20

Total= 100

 

Vendo a vassoura a 110, para ter lucro. Porém, tem alguém vendendo a 108.

Não sei como o cara tá vendendo por isso. O que faço diminuo no único lugar possível, ou seja, no salário. Vendo a 107, passo a pagar um salário menor.  

Sidão, esse pedaço (do texto) não ficou claro, observa minha mulher lendo o que eu estou enviando ao Kuller.

O salário é o discutível, digo!

 

 

A estrada de ferro Santos Jundiaí era dos ingleses. Os Beatles também. Depois de ouvir o “álbum branco” virei beatle-maníaco.  Mesmo com toda bossa, com toda fossa… A gente vai levando…

Todo sábado. Por que é sábado!

E as pessoas…

Soube que o primo de um amigo meu que era terrorista (foi exilado posteriormente); pretendia tomar a Serra do Mar no caminho de Santos.

 

Mais do que qualquer droga, o que corria solto era música.

Geração que ainda aprendeu sílabas poéticas.

 

Perto da Vilinha em que eu morava (Vila Gabrilli) foi instalado um batalhão militar. Eu, ministrando aula de história em um curso de madureza, repeti a noção de “mais valia”. Tinha um espião, milico. Este resolveu se apresentar. Levantou a blusa de lã. Lá estava um revolver.

 

Se neste momento desse texto tivéssemos que ouvir uma música seria: “Mora na filosofia” do Noel, com Chico Buarque.

 

Quem ficou e quem saiu?

Roteiro que vai de Gabeira, Zé Dirceu, Fernando Henrique.

Sidnei (Sidão) Sauerbronn, Lula e o Zé (o do bar) e Jairo também, ficamos, e, calados. E os que voltaram depois, a maioria uma bela merda!

 

Lembro da ida à USP (1969), vestibular, eu e um japonês, tiros embaixo do carro.

Parou o trânsito.

Lembro de uma revista chamada de “práxis”. Foi a primeira vez que ouvi falar.

Na televisão o festival da música popular brasileira.

Baile com tema havaiano era comum.

Calça Lee.

Lança-perfume. Cachaça e pastéis. Cheiro de fritura.

Coleção de posters.

Música: Single Singers.

Gordini. Lamarca. Bar Beduíno (Santos)?

Cinema: “Um homem e uma mulher”.

TV: Festival.

Bebida: qualquer uma.

Dentista, um puta sofrimento.

“Vivência-experiência” a cada qual.

 

Passei longe da Igreja. Igreja, só quermesse.

Passei perto dos hippies, mas tinha aquela coisa de não tomar banho, não era comigo.

Teve a tropicália. Bom de ouvir, mas não de se cumprir. Como os hippies.

 

Tinha o Ford Gálaxi de um amigo meu, encheu de homens, seis, fomos a Rio Claro. Tocava no rádio “Baby”, com a Gal Costa.

Jhon Lenon falou: o sonho acabou.

Escrevi um telegrama.

 

E tinha a Lizete em Cornélio Procópio. Ela nem imaginava que iria se casar comigo.

Um amigo meu diz eu sou aquele da calça Lee, nas passeatas.

Tic,TAC tic tac. Tic tac. Tac,tic,tac,tic…

Ray Connif – La mer.

 

No trem, indo da estação da Luz para Santo André, um pequeno painel: União Soviética invade a Checoslováquia. Comenta uma senhora: é tá igual aqui.

Duprat com o pinico na mão.

Na vitrola Wandré.

(continua…)

 

 

Agosto de 1968.

 

Revolution (tradução)

The Beatles

Composição: Lennon / McCartney

Revolução

Você diz que você quer uma revolução
Bem, você sabe..
Todos nós queremos mudar o mundo
Você me diz que isso é uma evolução
Bem, você sabe
Todos nós queremos mudar o mundo
Mas quando você fala em destruição,
Você já sabe que não pode contar comigo
Não sabe que vai acabar tudo bem?
Tudo bem.. tudo bem…
Você diz que você tem a solução real
Bem, você sabe..
Todos nós adorariamos ver o plano
Você me pede uma contribuição
Bem, já sabe..
Todos nós fazemos o que podemos
Mas se você quer o dinheiro para pessoas que só tem odio na mente
Tudo o que posso dizer, irmão, você vai ter que esperar
Não sabe que vai acabar tudo bem?
Tudo bem, tudo bem
Você diz que você mudará a constituição
Bem, você sabe..
Todos nós queremos mudar a sua cabeça
Você me diz que isso é a instituição,
Bem, você sabe..
É melhor você libertar sua mente
Mas se você vai andar com fotos do camarada Mao
Também não vai convencer a ninguem
Não sabe que vai acabar tudo bem?
Tudo bem, tudo bem….
Ah, ah ah ah ah ah ah ah ah ah
Tudo bem, tudo bem, tudo bem
Tudo bem, tudo bem, tudo bem
Tudo bem, tudo bem, tudo bem
Ah, ah ah ah ah ah ah ah
Tudo bem, tudo bem

NADA BEM, porém… eu tive um sonho…outro  dia vi a Nara Leão e ela me disse: você não é de muita opinião.

Eu respondi:

Vamos até o Riviera.

 

[continua…].

 

Sidão