Archive for janeiro \24\UTC 2010

A SOMBRA DE MAIO DE 1968

janeiro 24, 2010


José Ribamar Bessa Freire
18/05/2008 – Diário do Amazonas

Maio de 2008. Uma chuva fina cai sobre Paris, onde me encontro por razões de trabalho. Escrevo a crônica dominical, depois de passar o dia flanando pelos becos e vielas do Quartier Latin e pelo cais à margem do rio Sena, com seus quiosques de livros usados e algumas raridades. Busco vestígios da revolta de maio de 1968, considerada por alguns analistas como “o acontecimento histórico mais importante do século XX”.

Aqui, há quarenta anos, os estudantes ocuparam as universidades, fizeram assembléias e discursos incendiários, picharam os muros, ergueram barricadas, brigaram com a polícia e realizaram quase diariamente manifestações de rua, com um saldo de muitos presos e feridos. O epicentro desse terremoto foi, justamente, o Bairro Latino.

Numa dessas passeatas, no dia 24, eles marcharam em direção à Bolsa de Valores arrancaram as grades de ferro, derrubaram os portões, invadiram e tocaram fogo no prédio, incendiando tudo que havia lá dentro: móveis, documentos, formulários e registros de cotação de ações. De lá, voltaram pro Quartier Latin, onde travaram com a polícia uma das mais violentas batalhas das jornadas de maio.

A foto colorida do templo do capitalismo em chamas, iluminando a noite parisiense, tinha – que a Polícia me perdoe! – tanta beleza e tanta força simbólica, que ganhou manchete em todos os jornais do mundo. Foi capa da revista Newsweek, com a legenda “French Revolution 1968”. Nesse momento, a revolta estudantil já havia se alastrado por fábricas, usinas e escritórios, enfeitando pátios com bandeiras vermelhas. A França estava totalmente paralisada, com mais de dez milhões de grevistas.

Maio de 1968 veio, efetivamente, questionar tudo: o sistema educacional, o regime de trabalho, a sociedade de consumo, a religião, a repressão sexual, o autoritarismo do Estado onipotente, os costumes, a mesmice, os modelos tradicionais de casamento, a estrutura familiar, o papel da mulher, a dominação machista, o sistema capitalista e sua política conservadora e até mesmo os sindicatos e os partidos políticos que foram atropelados pelos acontecimentos.

A conjuntura internacional estava marcada pela invasão das tropas norte-americanas ao Vietnã. Os manifestantes parisienses, contrários à guerra, celebravam a liberdade, a juventude, a igualdade, a utopia, a revolução, os direitos humanos, a solidariedade, a paz e o amor, como cantou Georges Moustaki: “Vem, meu amor, escuta essas palavras que vibram sobre os muros do mês de maio. Elas nos dão a certeza de que podemos refazer nossa vida, de que podemos ser livres e que tudo pode mudar um dia”.

Ah, as pichações vibravam, efetivamente, sobre os muros! Maio de 1968 foi – como escreveu Raymond Aron – uma ‘maratona de palavras’, fruídas por jovens de todos os países, que queriam “a imaginação no poder” e faziam reivindicações audaciosas: “Sejamos realistas, exijamos o impossível” ou “Criemos comitês de sonhos”. Os estudantes substituíram o lema do Manifesto Comunista de Marx: “trabalhadores do mundo, uni-vos” por “trabalhadores do mundo inteiro, divirtam-se”. A contestação atacava o coração do sistema: “a mercadoria é o ópio do povo”.

O que sobrou de tudo isso? Cadê os revolucionários que queriam mudar o mundo? Quarenta anos depois, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, declara que vai liquidar a herança de maio de 68. Entrevistado por um jornal, Moustaki deu uma resposta digna de um ‘soixante-huitard’, de um ‘meia-oito’: “Se o presidente insiste tanto em acabar com essa herança, é porque ela está viva e continua importante, incomodando e contradizendo o presidente. Vai ver, ele só pensa assim, porque não consegue gozar. É uma pena, porque tem uma mulher tão bonita”.

Procuro maio de 1968 em todos os lugares, inclusive nos museus. No sábado, dia 17 de maio de 2008, a França celebra “a noite dos museus”, que abrem suas portas até meia-noite, com entrada gratuita e intensa programação. O Museu da Prefeitura de Polícia de Paris anuncia uma exposição, com fotos de seus arquivos, intitulada “Proibido de lembrar: os acontecimentos de maio de 68”, e que foram tiradas pelos próprios meganhas. O cartaz diz: “Maio de 68: enfim o ponto de vista das forças da ordem”. Vou lá conferir e sou informado por uma polícia feminina que a exposição foi cancelada “pour des raisons qu’on ne peut pas expliquer”. Será que o Sarkozy censurou?

A mulher fardada – apesar da farda ela é até gostosinha, com o perdão das leitoras por esse pecado machista – nos convida a ver a exposição permanente do Museu da Polícia. Lá dentro, as fichas de Voltaire e Saint-Just presos várias vezes na Bastilha, a repressão contra a comuna de Paris, a ocupação alemã na segunda guerra e a violência contra os judeus, além de outros documentos sobre os grandes crimes da França: assassinatos com requintes de crueldades, roubos, etc. Deixamos o museu frustrados pelo ocultamento de maio de 1968.

Continuo procurando nos calçamentos do boulevard Saint-Michel, onde não encontro um só buraco que me faça lembrar as pedras arrancadas pelos estudantes para apedrejar a polícia. “Sous les pavés, la plage”, eles picharam, na época, nos muros da Sorbonne, indicando romanticamente, ironicamente, que debaixo dos paralelepípedos arrancados, era possível descobrir uma praia de areia branca.

Lá, na praça da Sorbonne, me detenho em uma bela exposição de fotos de Marc Riboud, que dão uma idéia do que foram as barricadas estudantis. Uma delas mostra os estudantes arrancando os paralelepípedos com o ferro das grades que foram arrebentadas. Em outra foto, os manifestantes, qual cruzados de um novo tempo, usam grandes tampas redondas das latas de lixo como escudos. Sartre aparece numa terceira foto dentro do auditório da Sorbonne, no meio de uma enorme confusão.

Estou admirando as fotos e eis que de repente ouço uma música, em português, me chamando para a luta. Alguém canta um hino revolucionário, mais incendiário do que a marselhesa: “vamos à luta, lutar para vencer, se for preciso lutar até morrer, lutar com disciplina e destemor, mostra para o mundo o teu valor”. Antes de pegar meu paralelepípedo, olho pra trás e vejo a prima do poeta Thiago de Mello – a Marilza – que mora em Paris. O que ela cantava era o hino do Nacional Futebol Clube de Manaus, cuja primeira estrofe é revolucionária. Mas a segunda quebra o encantamento: “Tua torcida estará sempre a teu lado, sempre fiel, meu clube adoraaaado”.

Mais tarde, demos de cara com uma passeata de estudantes secundaristas, protestando contra a supressão de 12 mil vagas na educação nacional. Depois, passamos em frente ao Liceu Vigée-Le Brun, em Montparnasse na hora do recreio. O alarido alegre das crianças, os gritos de meninos brincando atravessam os muros do colégio e ganham o boulevard Pasteur, me confortando e me dando uma esperança de que maio de 1968 está presente na existência desses meninos e no coração dos secundaristas e que tudo pode mudar um dia, como canta Moustaki.

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Ecos do porão

janeiro 20, 2010

A presença deste artigo no Arquivo 68 que se insere no debate sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos, se deve ao fato de que tudo começou na década de 60 com o Golpe de 64 que derrubou o presidente constitucional, Jango Goulart, e instalou uma ditadura militar no Brasil que durou 20 anos.

Ecos do porão

por Emiliano José

Quem desembarcasse no Brasil nos últimos dias e não soubesse nada de nossa história, certamente começaria a assimilar a idéia de que não houve ditadura. Que ela não matou, não seqüestrou, não torturou barbaramente homens, mulheres, crianças, religiosos, religiosas.

Que não empalou pessoas, que não fez desaparecer seres humanos, que não cortou cabeças, que não queimou corpos. Que não cultivou o pau de arara, o choque elétrico, o afogamento, a cadeira do dragão, que não patrocinou monstros como Carlos Alberto Brilhante Ustra ou Sérgio Paranhos Fleury.

O artigo completo pode ser lido na íntegra no site de Carta maior

Plínio Marcos Por Eduardo Spósito

janeiro 18, 2010

Dentro de nossa “política editorial” de publicar os comentários mais relevantes dos nossos  leitores, postamos a seguir comentário de Eduardo Spósito sobre o texto  de Juvenal Alvarenga: Plínio Marcos, O Rebelde.

Não resisti. Dentro do espírito deste Arquivo, que é o relato do que vivenciamos naquele período, preciso falar de minha relação com o Plínio Marcos. (Devo adiantar que – como dizem os acadêmicos babacas atuais – não foi presencial).

A única vez que o vi de perto, ele estava vendendo seus livros colocados em cima de uns caixotes, lá nos barracos da Ciências Sociais da USP. E minha timidez me impediu de ir falar com ele.

Mas gostaria de contar o que ele representou para mim naquele momento da vida brasileira.

Começa pela televisão: o personagem que ele representou em “Beto Rockefeller”, novela em que fazia o amigo do personagem do Luiz Gustavo, indicava um tremendo de um ator, com uma nova linguagem, no tom da novela; seus debates com a Conceição da Costa Neves, talvez no programa chamado “Pinga Fogo’ foram memoráveis- discutia-se o uso de palavrão no teatro, por exemplo, a corrupção política, a marginalidade…

Nessa época eu era seminarista, fazendo filosofia num convento católico, mexia com teatro e me veio a idéia de fazer uma auto de natal, na linha da participação popular. Era só um esqueleto de idéias, mas não consegui escrever uma linha. Um amigo, padre Zanella diz ter levado a idéia para o Plínio e ele teria feito um texto chamado “Um dia virá”. Nunca soube se isso foi verdade e nem sei se houve esse texto do Plínio. Mas isso foi me amarrando mais à sua história.

Acho que assisti na época apenas duas peças: “Quando as máquinas param” e “Abajur Lilás”. Mas lí quase tudo que ele escrevia, inclusive seus artigos em jornais e revistas alternativas da época.Um texto seu que muito me impressionou e que acho profético sobre a marginalidade, foi “Querô”.

Um lado pouco comentado sobre Plínio foi sobre o seu humor: amargo pela vida que se vivia, mas sempre presente. Lembro sobre isso o texto sobre a Figurinha Difícil, que o vi contando várias vezes, mostrando o grande ator que era.

Para alegria minha, tenho uma filha que, ficando  grávida, reservou o nome de Plinio, se fosse menino, em homenagem ao grande autor. Parece que é uma menina, então ela vai ter que tentar de novo.

A qualidade maior na pessoa Plinio Marcos para mim é a autenticidade, o fato de não ter feito concessões e arcado com as consequências.

Eduardo Sposito

Daniel Bensaid

janeiro 12, 2010

Faleceu hoje Daniel Bensaid, filósofo, militante político e uma figura incontornável da história da IV Internacional.

Nascido em Toulouse há 64 anos, foi um dos dirigentes mais destacadas do Maio de 68, sendo um dos iniciadores do Movimento 22 de Março, ao lado de Cohn Bendit e de outros activistas. Fundador da LCR francesa e depois do NPA (Novo Partido Anticapitalista), Bensaid acompanhou directamente a revolução portuguesa colaborando com a LCI e PSR e participando em comícios e outras actividades políticas nos anos de 1974 e 1975 e posteriores. Teve uma intensa cooperação com o Bloco de Esquerda desde a sua criação.

Publicou vários livros de ensaio político, de debate e de filosofia, sobretudo sobre Karl Marx, Walter Benjamim e o pensamento socialista contemporâneo, e afirmou-se como um dos mais importantes pensadores revolucionários dos anos do combate ao Império, à guerra e ao liberalismo selvagem que é o capitalismo realmente existente.

Foi também um amigo e um camarada, e lamento profundamente o seu desaparecimento. A paciência impaciente das suas ideias é um convite à resistência e à rebeldia: assim foi Daniel Bensaid, até ao fim, na luta contra a doença como na luta pela vida toda.

Francisco Louçã

Entrevistas com Daniel Bensaid na Página 44

Vanguarda e Ditadura Militar

janeiro 9, 2010

por Jardel Dias Cavalcanti

Publicado originalmente no blog Digestivo Cultural

Em 1964 o artista Roberto Magalhães pintou uma tela premonitória do que seria o terror que se instalaria no Brasil com o golpe militar de 31 de março do mesmo ano. A esta tela ele deu o nome de Gritando. Através de uma rica e densa matéria pictórica, desenhou um rosto com a boca absurdamente aberta, para além das condições físicas suportáveis pelo corpo humano. Uma boca num grito desesperado, focalizada por um zoom que aproxima de tal forma o rosto, que o centro do quadro torna-se o céu da boca do personagem.

A boca enorme, com a língua para fora, toma quase toda a tela, restando apenas dois olhos tenebrosos marcados por uma grande dor, para preencher o resto da obra. Numa linguagem próxima ao expressionismo, Magalhães carrega de tensão a figura, dando-lhe uma forma perturbadora, criada através de uma matéria pictórica de cores fortes como o vermelho escuro, o preto, o verde sujo e um amarelo barrento.

A obra Gritando trazia em si todas as dores e o desespero daqueles que sofreriam o efeito da violência militar por vinte anos. Carregada de angústia, a tela trazia também o desejo de gritar contra a situação opressiva que se instalava naquele momento no país.

A tela construía-se na tensão de sua forma, através de um arranjo expressivo de cores, pinceladas bruscas e enquadramento sufocante. Era um grito visceral contra o poder que explodia por meio da forma plástica. E seria um dos primeiros entre os vários gestos artísticos que se opunham à grotesca força antidemocrática do regime militar.

A oposição no mundo da arte não parou na tela Gritando, de Magalhães. Em abril de 1970 começaram a aparecer flutuando e parando nas margens do rio Arrudas, em Belo Horizonte, alguns objetos estranhos, que lembravam corpos ensangüentados e assassinados.

No mesmo momento, dentro de prisões militares, várias pessoas, entre elas estudantes, professores, políticos, operários, intelectuais e quaisquer suspeitos de oposição ao regime militar, eram torturadas e mortas violentamente (em alguns casos o cadáver aparecia, em outros desaparecia para sempre). A relação entre o primeiro e o segundo fato marcava a oposição dos artistas de vanguarda à violência militar instaurada no Brasil a partir do Golpe Militar de 31 de março de 1964.

O que flutuava no rio Arrudas eram as Trouxas do artista plástico Arthur Barrio. Eram obras construídas como trouxas amarradas e cortadas a golpes de faca, onde inseria-se tinta vermelha. Ao invadir o principal rio que corta Belo Horizonte, a obra de Barrio fazia com que as pessoas as confundissem com corpos ensangüentados e assassinados. O objetivo de Barrio era denunciar o “desovamento” de corpos de pessoas que eram assassinadas nas prisões militares.

Este happening de Barrio fazia parte do evento artístico Do Corpo à Terra, organizado por Frederico Morais, em abril de 1970, em Belo Horizonte, que durou três dias. Reunindo artistas de vários estados, que fariam suas performances, happenings e rituais, o objetivo era reagir dentro do campo da estética à realidade da ditadura recém instaurada no Brasil.

O acontecimento foi definido por Frederico Morais como uma forma de arte-guerrilha. Assim dizia ele: “O artista hoje é uma espécie de guerrilheiro. A arte é uma forma de emboscada. Atuando imprevisivelmente, onde e quando é menos esperado, o artista cria um estado permanente de tensão constante”.

A arte de vanguarda, organizada na forma de atuações públicas, enquanto crítica aos sistemas/circuitos e aparatos que regiam as artes e enquanto crítica ao amordaçamento coletivo das expressões promovido pela ditadura militar, trouxe para a cena o binômio arte-política. Além do evento acima comentado, vários artistas, individualmente ou organizados em grupos, associaram seu fazer artístico à busca de uma crítica política.

Adeptos da frase de Maiakovsky (“Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”), para os artistas brasileiros dos anos 60 e 70, arte, cultura, política e ética eram elementos indissociáveis de uma mesma questão, a da participação política. O que os artistas buscavam era um processo de comunicação cujo objetivo era, em última instância, uma intervenção na realidade.

Como observou Celso Favaretto, naquele momento eles respondiam a necessidades como articular a produção cultural em termos de inconformismo e desmistificação, vincular a experimentação de linguagem às possibilidades de uma arte participante.

Não há dúvida de que boa parte dos artistas deste período pretendiam, ao fazer arte, estar fazendo política. O interesse político dos artistas pode ser percebido, por exemplo, no programa da exposição Nova Objetividade Brasileira, apresentada no MAM, em 1967, reunindo trabalhos de artistas do Rio de Janeiro e São Paulo, que definia como uma das prioridades do grupo “a tomada de posição em relação aos problemas políticos, sociais e éticos”.

As sugestões que a Pop Art americana e o Noveau Réalisme francês traziam ao meio artístico brasileiro expandiam as pesquisas direcionadas para a criação das obras em outras dimensões além das estabelecidas pela estética tradicional. Daí o uso intensivo de colagens, das técnicas e cores derivadas do poster, da preocupação com a matéria, o suporte, a questão tridimensional.

Para atingir da melhor forma possível o observador e integrá-lo como protagonista da obra, os artistas lançavam mão de um código de signos e imagens provenientes dos meios de comunicação, publicidade e design, que tinham disseminado os sinais gráficos, os caracteres tipográficos, as cores chapadas, logotipos, etc.

Nesse sentido, veja-se a obra Lute, de Rubens Gerchmann, que eram letras gigantescas colocadas atravessadas na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, com o propósito de atrapalhar o trânsito e chamar o público para a luta contra a ditadura.

Um dos temas tratado por artistas ligados à vanguarda foi o “caso Herzog”. A explicação dada pelo DOI-CODI sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog é a de que ele teria se matado na prisão no ano de 1975. O que de fato aconteceu é que Herzog foi torturado até à morte.

A morte dele provocou a primeira grande reação popular contra a tortura, as prisões arbitrárias, o desrespeito aos direitos humanos. Também produziu algumas obras de arte que denunciavam seu assassinato, como o caso das obras de Cildo Meireles e Antonio Henrique do Amaral.

Buscando minar o controle das informações exercido pelos órgãos do poder e transformando-se em veículo de uma ação tática clandestina de resistência política, Meireles carimba em algumas notas de Cruzeiro, moeda corrente no Brasil do período, a pergunta Quem matou Herzog?.

Aproveitando a facilidade da circulação das notas de um cruzeiro (sabemos que quanto menor o valor, maior sua circulação), o artista fará uso delas para criar com sua obra uma forma de interrogação nacional sobre o assassinato do jornalista.

Antonio Henrique Amaral também trata da questão do assassinato de Herzog em duas telas: A morte no sábado, tributo a Vladimir Herzog, de 1975 e Ainda a morte no sábado, de 1976. Nas duas obras, fazendo uso da oposição entre formas orgânicas e metálicas, garfos de ferro atravessam uma espécie de representação de vísceras violentamente dilaceradas, aparecendo peles que se abrem para fora depois de rasgadas, veias que surgem em meio a um amontoado de gordura e tripas, tudo manchado pelo sangue que predomina totalmente na tela.

Na segunda obra ajunta-se uma “coroa de cristo”, um dos instrumentos de tortura usados durante os interrogatórios militares. A duas telas têm o claro propósito de denunciar a causa da morte de Herzog como resultado das torturas que sofreu nos porões de uma prisão militar.

Várias mostras de arte foram organizadas sem que se abrisse mão da crítica política, buscando para além da pesquisa estética, opinar frente ao quadro autoritário instalado em 64. São exemplos as duas mostras do MAM do Rio de Janeiro (“Opinião 65” e “Opinião 66”), a mostra “Pare”, na Galeria G-4, em 1966, “Vanguarda Brasileira” (UFMG, maio de 1966), “IV Salão de Brasília”, de 1967, além de várias outras.

Mas o interesse dos artistas pela inserção de posições políticas em suas obras acabou encontrando um empecilho: a censura militar. O AI-5, no plano cultural, oficializou a censura prévia, repercutindo negativamente sobre a produção artística. “O AI-5 paralizou tudo”, dizia Glauber Rocha, refletindo sobre a situação de quase desespero em que se encontravam os artistas.

Nesse momento da história da arte brasileira, as primeiras manifestações de censura ocorreram no IV Salão de Brasília, onde obras de Cláudio Tozzi e José Aguillar foram censuradas por serem consideradas políticas.

No III Salão de Ouro Preto, o júri sequer pode ver algumas gravuras inscritas, previamente retiradas. Também a II Bienal da Bahia foi fechada, presos seus organizadores e recolhidos os trabalhos considerados eróticos e subversivos.

A censura não parava por aí: em 1969, em plena vigência do AI-5, o conflito com a censura chegou ao seu ponto mais tenso com a proibição da mostra dos artistas selecionados para a representação brasileira à IV Bienal de Paris, no MAM-Rio. O que provocou enérgico protesto da Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA), sob a presidência de Mário Pedrosa, na forma de um documento no qual a entidade anunciava seu propósito de não mais indicar seus membros para integrar júris de salões e bienais. A repercussão no exterior do fechamento da exposição do MAM e o documento da ABCA foi enorme, provocando um boicote internacional à Bienal de São Paulo.

A partir desses fatos e com a ditadura tornando-se cada vez mais brutal a partir dos anos 70, os artistas de vanguarda assumiram uma posição de marginalidade, ora agravando o conflito com a censura, ora exilando-se no exterior para continuarem vivos.

O império do terror no governo Médici (1969/74), com censura acirrada, invasões a domicílios, assassinatos e “desaparecimento” de presos políticos, através da ação dos DOI-CODIS, visando a extinção de qualquer tipo de oposição ao governo militar, foi o principal causador da destruição das atividades da vanguarda nos anos 70.

Jardel Dias Cavalcanti
Campinas, 14/4/2004