Archive for dezembro \22\UTC 2008

68 – Dezembro, em Brasília!!

dezembro 22, 2008

Por Olguinha Salati

As lembranças são escassas, tal qual a memória.

Fafi_em_Brasilia-1968-a Mas é fato: monitorados pelo Prof. Aluisio Aragão, partia da FAFI – Rio Claro, atual UNESP, naquele dezembro/68, um ônibus de alunos de Pedagogia, em direção à Brasília!

Objetivo: estagiar junto ao CIEM (Centro Integrado de Ensino Médio) da Universidade de Brasília, verificando a prática de um Projeto de Ensino que integrava todos os componentes do Quadro Curricular, num único eixo temático: Vida e Trabalho.

Atividade dirigida aos concluintes/68 de Pedagogia, as vagas existentes puderam ser preenchidas por alunos das demais séries do Curso. Acredito que a edição do AI-5 acabou provocando desistências e assim, embarcamos (um grupo de 6 primeiro – anistas) na excursão para o estudo do meio na UnB.

Revendo o contexto da época, compreendo com facilidade os motivos da preocupação de nosso zeloso mestre. O ano letivo tornara-se um turbilhão: alunos excedentes, assembléias permanentes, XXX Congresso da UNE violentamente reprimido, alunos, professores, políticos, artistas e figuras de expressão devidamente amordaçados e sumidos, informantes infiltrados nos movimentos organizados e salas de aulas.

Os posts existentes neste blog a respeito da situação propiciam um panorama do clima reinante.

Fomos alojados (inicialmente ficaríamos na própria UnB) em residências de professores da Universidade, que se dispuseram a tal, contatados pelo Prof. Aragão. Andávamos sempre em grupos, devidamente atentos e cautelosos com a presença do exército por toda parte.

Assim, cumprimos nossos contatos numa já silenciosa e silenciada UnB (entrevistas com poucos professores e alunos disponíveis, alguns coordenadores e leitura de material didático produzido) e visitamos as iniciadas construções que tornariam Brasília, mais tarde, referência em arquitetura.

Fafi_em_Brasilia-1968 As poucas fotos que tenho da época, duas delas aqui publicadas, bem como os artigos e informações deste blog, permitem concluir que a capital federal era um perfeito terreiro de obras lamacento, não só no sentido físico-estrutural, mas também político-social.

1968 – 13 de dezembro

dezembro 19, 2008

comemoracaoduvida

Em 13 de dezembro de 1968, há 40 anos, é editado o Ato Institucional nº 5, acompanhado do Ato Complementar nº 38, inaugurando uma longa noite de terror no Brasil.

O presidente ganha o direito de interferir nos outros Poderes da
República, podendo intervir nos Estados e municípios sem as
limitações previstas na Constituição. O Congresso Nacional é
fechado

saudosismo

Durante o governo de Arthur da Costa e Silva – 15 de março de 1967
à 31 de agosto de 1969 – o país conheceu o mais cruel de seus
Atos Institucionais.

Era o mais abrangente e autoritário de todos os outros atos institucionais, e na prática revogou os dispositivos constitucionais de 67, além de reforçar os poderes discricionários do regime militar.
O Ato vigorou até 31 de dezembro de 1978

“Quando se observa uma clara tendência, na imprensa e em certos círculos acadêmicos, de recontar a história e absolver os seus algozes, não podemos deixar passar em branco o dia 13 de dezembro de 1968: data da edição do Ato Institucional nº 5.”
(Gilson Caroni Filho)

Feliz Ano novo

dezembro 19, 2008

 

Como sempre faço, pedi à Helena uma ilustração para minha mensagem de fim de ano. Recebi essa.

 

natal-20081

Depois, também como  todo ano, fui à procura de um poema ou letra de música para que, juntos texto e  imagem criassem o contexto de meu desejo de ano bom.

 Sempre consegui estabelecer um nexo simples entre os versos e a imagem. Este ano não foi possível. Depois de folhear todo Pessoa, todo Drummond, todo Borges, muito Neruda, um pouco de outros, descartei uma busca em Cecília e desisti. Por mais que tentasse mudar a escolha, um poema me perseguia. É o seguinte:

 

SANTA CLARA, clareai

Estes ares.

Dai-nos ventos regulares,

De feição.

Estes mares, estes ares

Clareai.

 

Santa Clara, dai-nos sol.

Se baixar a cerração,

Alumiai

Meus olhos na cerração.

Estes montes e horizontes,

Clareai.

 

Santa Clara, no mal tempo

Sustentai nossas asas.

A salvo de árvores, casas

E penedos, nossas asas

Governai.

 

Santa Clara, clareai.

Afastai

Todo risco.

Por amor de S.Francisco,

Vosso mestre, nosso pai,

Santa Clara, todo o risco

Dissipai.

 Santa Clara, clareai.

 

Há de certo algo mais fundo que pode unir a ilustração ao poema de Manuel Bandeira. Mas, mesmo sendo óbvio e pouco imaginativo, desejo a todos um ano de muita paz e aconchego e, apesar de todos os obstáculos, repleto de dias felizes.

SANTA CLARA, clareai!

José Antonio Küller

1968 – Memórias da rebeldia de uma universidade

dezembro 16, 2008

Quatro dos principais líderes estudantis da UnB
de 1968 contam histórias daquele dia inesquecível

Regina Bandeira e Kennia Rodrigues
Da Secretaria de Comunicação da UnB

Caiu em uma sexta-feira 13 o dia em que o AI-5 foi decretado no País, e os direitos dos cidadãos brasileiros suspensos pelo governo militar de Arthur da Costa e Silva (de 15 de março de 1967 a 31 de agosto de 1969). Nada mais simbólico. Daquele dia em diante, até quando o ato foi revogado, em 31 de dezembro de 1978, a mão da ditadura ficou ainda mais pesada e cruel. Falamos com quatro dos principais líderes estudantis da UnB de 1968 para conhecermos algumas das histórias ocorridas naquele dia inesquecível.

Naquele ano, no dia 29 de agosto, a polícia militar já havia feito um tremendo estrago no campus da UnB. Atrás dos estudantes Mauro Burlamaqui, José Prates, Paulo Sérgio Cassis, Paulo Speller, Samuel Babah, Lenine Bueno Monteiro e Honestino Guimarães, considerados subversivos, salas de aula foram invadidas, cadeiras quebradas, 500 alunos presos na quadra de esporte.

1968paulo_speller1Em 1968, o aluno de psicologia Paulo Speller tinha só 21 anos, mas já constava da lista dos estudantes considerados subversivos pelo governo. No dia em que foi decretado o AI-5, Paulo estava preso há 2 meses no Batalhão da Polícia do Exército (Setor Militar Urbano). Condenado pela Justiça por ter participado do 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), o mineiro passou mais de um ano em várias celas oficiais. Após cumprir sua pena, tentou voltar à UnB, mas foi impedido pelo reitor – que tinha uma lista de nomes proibidos pelo governo. Speller estudou no México, e só voltou ao Brasil 10 anos depois, com a anistia. Apesar de tudo, Speller não se arrepende da nada:

“Faria tudo de novo. Foi um tempo maravilhoso. Éramos ricos de sonhos”, declara.

“Lembro de ficarmos acordados até a alta madrugada na noite do dia 12 especulando o que os militares estariam aprontando. Da nossa cela dava para ver o pátio do Batalhão e ele estava movimentado com tropas e armamentos. No dia seguinte (13), eu e o Lenine aguardávamos o relaxamento de nossa prisão; estávamos ansiosos para voltar para casa. Lembro do advogado dizendo pra gente arrumar a mochila. Pois bem, naquele dia o advogado não apareceu e soubemos, à noite, pelo rádio, do AI-5 que suspendeu todos os direitos, inclusive nosso alvará de soltura”

Paulo Speller
ex-reitor da UFMT, ex-presidente da Andifes e membro do Conselho Nacional de Educação

1968antonio_carpinteroO atual chefe do departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da UnB, Antônio Carlos Carpintero, Carpio, como era conhecido, cursava o 5º período da faculdade de arquitetura em 1968. O rapaz, de origem paulista (nasceu em Campinas), morava em um alojamento na UnB (Oca) e participava do movimento Juventude Universitária Católica (JUC). Após o AI-5, Carpintero se afastou do JUC.

“O clima já estava muito pesado desde o fim de agosto. Estávamos pressentindo algo de estranho. Passei o dia todo circulando no campus, estava cheio de estudantes. Escutamos no rádio o anúncio de que o ministro da Justiça falaria em cadeia nacional a qualquer momento. Á tardinha, fui para a caixinha (no ICC Sul, onde, hoje, funciona a barbearia). Na época, moravam alguns alunos. Lá, eu e mais uns quatro colegas ouvimos a decretação do AI-5. Não fizemos nada na hora. Saí de lá e fui para a Oca, onde morava, com uma sensação terrível de medo. Um medo generalizado, um frio na espinha”

Antônio Carlos Carpintero
chefe do Departamento de Teoria e História em Arquitetura e Urbanismo da UnB

1968jose_pratesEstudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, José Prates tinha acabado de vencer as eleições para conduzir a Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (Feub). Na manhã do dia 13, o sucessor de Honestino Guimarães na direção do movimento estudantil organizava uma mobilização de boicote às inscrições do vestibular: era preciso resgatar o projeto de Darcy Ribeiro, ameaçado pela rigidez do regime militar. A tensão, causada pela incerteza da ditadura, impeliu o grupo a jogar todas as cartas na mesa. Era a última manifestação na UnB antes do AI-5.

“Tentávamos convencer as pessoas a não se inscreverem. Antes mesmo do ato ser assinado sabíamos que alguma coisa estava voando no ar que não era avião, nem urubu (risos). Todos ficaram atônitos quando souberam e na expectativa, esperando o que ia acontecer. Nos reunimos então no gramado próximo à Praça Edson Luís, entre o prédio da FE-5 e a antiga Reitoria. A análise que o movimento fez foi que seríamos presos e aniquilados rapidamente. Por isso, o passo foi recuar, ficar totalmente clandestino. Mas estávamos preparados para tudo, éramos jovens, não tínhamos medo de nada”

José Prates
prefeito de Salinas (MG)

1968xico_chavesXico Chaves era o segundo vice-presidente da Feub. Foi correndo para a casa de um amigo, o Quartinho, que na época fazia maquetes para Oscar Niemayer. O verdadeiro nome do colega de militância ficou esquecido na memória, mas Chaves nunca se esqueceu da severidade que o ato apresentava-lhe no momento. Assistiu o pronunciamento do ato pela televisão, emitido em cadeia nacional. Acabado o comunicado, ele e os amigos foram às pressas para a UnB, pegar tudo o que tinha – livros, roupas – com uma única certeza: a de não saber quando voltaria para casa.

“Depois do pronunciamento fomos para uma área que ficava perto da antiga Reitoria, próximo ao prédio da FE-5. Ali fizemos uma reunião rápida com todo o grupo da UnB procurado pelos militares e pessoas de diretorias e federações estudantis. Tivemos um discussão e chegamos a conclusão que eles (os militares) estavam vindo para matar mesmo. Achamos que a UnB seria invadida novamente. Então, pegamos um pacote de dinheiro da Feub e dividimos para cada um sair de Brasília.. Era mais ou menos cinco da tarde, ainda tinha sol. Imediatamente peguei um ônibus para Belo Horizonte”

Xico Chaves
diretor do Centro de Artes Visuais da da Fundação Nacional de Artes (Funarte)

Matéria originalmente publicada na página da SECOM – Secretaria de Comunicação da UnB.

Depoimentos de leitores

dezembro 15, 2008

Recebemos, como comentário a um de nossos posts sobre Geraldo Vandré, o seguinte texto de Fausto do Rosario, de Cabo Verde:

Em 1976, tinha eu quinze anos e era estudante na cidade do Mindelo, Ilha de Sao Vicente, quando o advogado, homem de cultura e da resistencia caboverdeana ao colonialismo, Henrique Oliveira Barros, sugeriu-me que deixasse em paz Chico Buarque e a “Valsinha” e colocasse no gira-discos um LP em capa de papel castanho e escolhesse a primeira faixa chamada “Caminhando”… ´

Foi assim que conjuntamente com Wilhelm Reich (Escuta Ze Ninguem), Bob Dylan, Henry Miller e Joan Baez tomei contacto com este compositor/poeta excepcional que para mim e patrimonio da lusofonia e da herança comum da luta pela dignidade e liberdade do ser humano…

As musicas/letras de Vandre tornaram-se parte da minha vida e, hoje, professor de lingua portuguesa no Liceu de Sao Filipe na Ilha do Fogo, Cabo Verde, encontro sempre uma forma de o divulgar junto aos meus alunos… O efeito continua a ser o mesmo de ha 32 anos atras: um Ah de espanto e uma vontade imensa de conhecer mais…


Obrigado Vandre!
 
 

 

Resolvemos publicar o comentário como um post, para destacá-lo, para introduzir uma informação aos leitores e para fazer um convite.

A informação: vamos criar uma nova categoria de post – comentários importantes – para publicar em destaque todos os comentários que incluam depoimentos pessoais sobre a influência dos movimentos culturais, sociais e políticos da década de 60 na vida dos autores.

O convite: escrevam seus depoimentos como comentários, que nós os trasnformaremos em posts. Ajudem a enriquecer Arquivo68!

1968 – A anti-tese

dezembro 11, 2008

68-france-brasil

por Eduardo Sposito

A idéia básica é tentar mostrar o que representou aquele ano – aquele período – para um jovem que viveu a agitação numa cidade grande e fugir um pouco das grande teses sociológicas e políticas que já foram feitas sobre o período. (Aliás, acho que esta é a grande contribuição deste Arquivo.)

A primeira afirmação contraditória (e herética, espero): a luta aqui desenvolvida não tinha nada a ver com o “maio de 68” na França e na Europa.

Digo isso do ponto de vista daquele jovem envolvido nas lutas que se travavam contra a ditadura e para a construção do socialismo sonhado e imaginado, antes de 68.

O máximo que podia representar aquilo que acontecia na França, na Europa toda e até nos EUA com o poder jovem, e o fato de estimular nossa luta.

Nossa identidade era mais com os movimentos da América Latina (Tupamaros, Montoneros, Sendero Luminoso, Mir…) com Cuba, Vietnã e até a China…

As palavras de ordem para a grande massa jovem vinha da música, poesia, teatro, cinbema, literatura e artes em geral, produzidas aqui e na América Latina.

Nossas fontes eram Chico, Caetano, Gil, Vandré, Boal, Guarnieri, Thiago de Mello, Dom Helder, Guevara, Vitor Jarra, Violeta Parra, Neruda, Zé Celso, Josué de Castro, Celso Furtado, Paulo Freire, Darci Ribeiro, Caio Prado, Nelson Werneck, Glauber, Marighela, Lamarca… (Pode parecer uma salada ideológica… e era mesmo.)

O maio de 68 nos pareceu (já naquela época) uma tentativa da jovem esquerda européia de participar do que estava ocorrendo no terceiro mundo, em especial no Vietnã, em Cuba e na América Latina. O filme “A Chinesa” do Godard, me parece, demonstra isso. Mas era um movimento burguês, como demonstram entrevistas atuais com as lideranças da época, especialmente Cohn-Bendit.

A verdadeira revolução que estava acontecendo entre nós(conforme tentei demonstrar numa das Cenas-68, citando Roberto Freire) era a incorporação em nosso dia-a-dia do modo de viver socialista, na construção do coletivo. Para nós não só o trabalho, a produção seria socializada, mas o amor, os sonhos tenderiam para o coletivo. O amor pela pessoa amada era um símbolo e uma concretização do amor por toda a humanidade(As relações com a Igreja do Vaticano II e com as CEBs eram muito fortes.)

Quem não entender isso, não vai entender porque tantos jovens renunciaram à propria vida, muitos morrendo nas mãos da reperessão e das guerrilhas urbana e rural.Costumo dizer que não queríamos tomar o poder; queríamos apenas fazer a revolução

(Infelizmente em muitos países só se tomou o poder e não se fez a verdadeira revolução: não se mudaram as relações de produção da vida, que levariam à mudança nas relações sociais etc.. Mas não adianta, ninguém mais acredita no velho Marx)

Aqui também houve o equívoco da tomada do poder (como se fosse possível resistir naquele momento ao imperialismo americano) e as lideranças usaram esse potencial revolucionário dos jovens na aventura de derrubar a ditadura( que não era o inimigo: era apenas a forma que o inimigo (o capitalismo) assumia naquele momento.)
E o verdadeiro potencial revolucionário foi de roldão com a derrota da luta armada.

Quarenta anos depois, olhando aquilo que passamos, o drama não é achar que fomos derrotados. É perceber que estávamos certos. A revolução ainda está aí por se fazer. E ele tem que ser feita, para não tornarmos verdadeira a frase do Ivan Lessa no saudoso Pasquim:” o ser humano é inviável”.

E hoje, depois de 10 meses de imersão total na minha “comunidade de base” na periferia de Rio Preto, constato que a revolução não só é necessária, mas viável. Os “manos e as minas” não se cansam de me mostrar os caminhos a serem percorridos. Faltam apenas os caminhantes e a canção ( Entra a trilha sonora :”A Estrada e o Violeiro” de Sidney Miller, na voz de Nara Leão:”Sou violeiro caminhando só…)

Mas não desanimo. Da próxima vez a gente chega mais perto

1969 – Woodstock: o festival que fez história

dezembro 10, 2008

Woodstock, o festival que fez história.

woodstock11

Vale a pena relembrar. Afinal, nenhum outro festival de música teve tanta repercussão e tanta importância como esse. Apesar de suas outras edições e de outros grandes festivais de música, Woodstock permanece como um dos mais importantes eventos musicais da história contemporânea.

Pa entender sua importância, é preciso voltar um pouco no tempo. O mundo, e especialmente os EUA, passava por tempos difíceis de guerra,violência e desilusão. A década de 60, a mais conturbada década do século, chegava ao fim, com uma sensação reinante de “e agora?” no ar. É nesse clima de final de festa, no último ano da década que o maior evento de música já feito encontra terreno fértil para consolidar. O festival de Woodstock, realizado em 1969, reuniu uma multidão de mais de 450 mil jovens para 3 dias de amor e música.

Para continuar a ler a matéria, publicada originalmente no site Café Music clique aqui.

CANNES 68: O CHOQUE DE MAIO

dezembro 9, 2008

Considerado por jovens cineastas representante do conservadorismo, o Festival de Cannes não passou incólume às revoluções do período.

Por Alexandre Figueirôa, colunista do O Grito!

Os anos 60 foram efervescentes sob diversos aspectos, e o cinema, como era de se esperar, refletiu as grandes mudanças da sociedade registradas no período. O Festival de Cannes também não escapou da onda de renovação e contestação que se espalhou pelos quatro cantos do planeta. Mas, 1968 foi, sem dúvida, o ano chave desse processo de transformação. E o maior evento cinematográfico do mundo viu o glamour e o desfile de astros e estrelas, no Palácio do Festival e na Croisette, ser rapidamente substituído pela contestação e pelo debate político.

Na verdade, o estado de tensão no cinema francês já estava acionado desde fevereiro, quando o então ministro da Cultura, o escritor André Malraux havia afastado, por razões políticas, Henri Langlois da direção da Cinemateca Francesa. O episódio, mobilizou cineastas, críticos e transformou a redação da revista Cahiers du Cinema no quartel-general de resistência. Depois de inúmeros manifestos e passeatas, Malraux recuou, e Langlois, no início de maio, foi reconduzido ao cargo. Entretanto, a paixão política havia contagiado todos os envolvidos no acontecimento.

 

O artigo completo foi publicado em Revista O Grito. Para continuar a leitura do artigo, clique aqui.

A Geração Paissandu

dezembro 5, 2008

 Pesquisando sobre cinema em 1968, encontrei um artigo muito interessante de Rui Castro sobre o tema. Trata-se de Geração Paissandu. O texto relaciona cinema e memória da época. Cabe muito bem, portanto, em Arquivo68. Publicamos, como aperitivo, o início do artigo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Os menores de 30 anos podem não acreditar, mas já houve um cinema no Brasil – uma sala de espetáculos, quero dizer – que resumiu todo o cenário de uma época e, em seu tempo, batizou uma geração que a protagonizou. O cinema era o Paissandu, uma modesta sala de 742 lugares na rua Senador Vergueiro, no bairro do Flamengo, no Rio. A época, os anos 1964-1968, os quatro primeiros do regime militar (que ainda se envergonhava de ser chamado de ditadura). E os jovens que o freqüentavam eram então conhecidos (mais pelos seus detratores) como a Geração Paissandu – uma vasta classificação que incluía rapazes e moças radicais em arte, política e comportamento, embora alguns ainda tivessem de dar satisfações à mãe quanto à hora de chegar em casa.

Os ecos do que se passava em torno da tela do Paissandu e nos bares adjacentes eram ouvidos em todo o Brasil daquele tempo e, se calhar, até em Paris. Ali, entre as montanhas de cartões de chope nos botequins e aos sussurros na sala de espera do cinema, antes do começo das sessões, derrubou-se incontáveis vezes a ditadura, libertou-se o Vietnã e decretou-se a vitória definitiva do jeans (da marca Lee) sobre o vinco impecável. Grandes tempos para quem os viveu. Certa noite, no entanto – a de 13 de dezembro de 1968, uma sexta-feira –, a Geração Paissandu silenciou sem dizer água vai, e meio que para sempre. Silêncio este que, como tudo mais, passou despercebido, porque a insegurança e o medo impostos pelo Ato Institucional nº 5, baixado naquela noite, engoliram todo mundo.

Para quem se interessou, mais pode ser encontrado em Digestivo Cultural, clicando aqui.

1969 – Peru

dezembro 2, 2008

jose_maria_arguedas
por Eduardo Galeano

2 de diciembre de 1969
Lima

El escritor y antropólogo peruano José María Arguedas se suicida en Lima.

Arguedas se parte el cráneo de un balazo. Su historia es la historia del Perú; y enfermo de Perú se mata.

Hijo de blancos, José María Arguedas había sido criado por los indios. Habló quechua durante toda su infancia. A los diecisiete años fue arrancado de la sierra y arrojado a la costa; salió de los pueblitos comuneros para entrar en las ciudades propietarias.

Aprendió la lengua de los vencedores y en ella habló y escribió. Nunca escribió sobre los vencidos, sino desde ellos. Supo decirlos; pero su hazaña fue su maldición. Sentía que todo lo suyo era traición y fracaso, desgarramiento inútil. No podía ser indio, no quería ser blanco, no soportaba ser a la vez el desprecio y el despreciado.

Caminó el solitario caminante al borde de ese abismo, entre los dos mundos enemigos que le dividían el alma. Muchas avalanchas de angustia le cayeron encima, peores que cualquier alud de lodo y piedras; hasta que fue derribado.

em português:

arguedas

2 de dezembro de 1969
Lima

O escritor e sociólogo José Maria Arguedas se suicida em Lima

Arguedas parte seu crânio com uma bala. Sua história é a história do Peru; e doente de Peru se mata.

Filho de brancos, José maria Arquedas foi criado pelos índios. Falou quechua durante toda sua infância. Aos dezessete anos foi arrancado da serra e mandado à costa; saiu dos povoados comunais para entrar nas cidades proprietárias.

Aprendeu a língua dos vencedores e nela falou e escreveu. Nunca escreveu sobre os vencidos, sim a partir deles. Soube dizê-los; porém sua façanha foi sua maldição. Sentia que todo o seu era traição e fracasso, desgarramento inútil. Não podia ser índio, não queria ser branco, não suportava ser ao mesmo tempo o desprezo e o desprezado.

Caminhou o solitário caminhante na beira do abismo, entre dois mundos inimigos que lhe dividiam a alma. Muitas avalanches de angústia lhe caíram em cima, piores que qualquer avalanche de lama e pedras; até que foi derrubado.