26. Maio de 68 e a história sem fim

    DEBATE ABERTO

Para Guy Debord, toda tentativa de inventariar Maio de 68 não pode passar de gracejos ditos em jornal. Não há inventário nem balanço, porque não há óbito do seu sentido: saber o que se faz e ser leal ao que se sabe. Os protagonistas de Maio de 68 sabiam o que estavam fazendo e foram leais ao que sabiam. Esse compromisso faz sentido ontem, hoje e sempre (Katarina Peixoto).

“Os patrões e o Estado não podem e não querem mais pagar. Não passa pela cabeça de ninguém a idéia de que eles possam desaparecer. Os filhos das cidades, esses palestinos do espetáculo triunfante, sabem que nada têm a perder nem a esperar do mundo com a forma que ele está adquirindo. (…) Não foram eles que escolheram sua condição e têm razão em não apreciá-la. Mas aqueles que os colocaram lá sentirão, e já começaram a sentir, a sua dor.”  (Mustapha Khayati, A Miséria do Meio Estudantil, Strassbourg, 1966)

A abertura do inventário de Maio 68 constitui fraude porque seu atestado de óbito insiste, por incrível que pareça, em não existir. Essa fraude tem duas facetas que para os protagonistas daquelas “jornadas” – expressão de Guy Debord – muito são parecidas. A faceta dos derrotados na Guerra Fria (com poucas variantes não-nostálgicas nem cínicas), olha para Maio de 68 chocando-se contra si mesma. Consumada a sua juventude, consumados estariam os sonhos e compromissos há quarenta anos inalienáveis e inegociáveis; passados. A triunfante (com poucas variantes não-genocidas nem grotescas), olha para Maio de 68 como mais um dos grandes males e erros “superados” pelo pacote delirante do fim da história. Stalinistas de ontem crêem na democracia consensual e por ela sentem-se responsáveis, quando menos a título de confortável auto-crítica. Já capitalistas e liberais de ocasião buscam fazer a medida dos acontecimentos desaparecer, ao proclamar – em vão – a destruição da história. E Maio de 68 continua a obsedá-los, a espreitá-los.

Talvez o cinema seja a expressão mais lúcida frente ao “segredo de Estado” em que se converteu esse levante, na mídia e nos demais “aparelhos” do espetáculo triunfante. Precisamente porque o filme sobre Maio de 68 ainda não foi feito. Alguém pode objetar, sacando a Nouvelle Vague. Pode-se dizer sem alarde, então, que Godard cinematografa Maio de 68 sempre e que isso, mais do que um dado que ilumina seu cinema, explica que ele sabe por que inventariar esse período é impossível. Guy Debord, filósofo da anti-alienação, vanguarda parisiense do período e também portador de uma das mais lúcidas paranóias tornadas públicas lembrou, nos Comentários à Sociedade do Espetáculo (1984) que “há vinte anos nada é tao dissimulado com mentiras dirigidas quanto a história de maio de 1968”, e que, “no entanto, lições úteis foram tiradas de alguns estudos desmistificados a respeito dessas jornadas e suas origens; mas é segredo de Estado”.

O que pode ser a desmistificação desse segredo de Estado? Quem tem e onde reside a autoridade para falar sobre esse acontecimento, sem mistificá-lo? E que poder é esse que deve, para que as coisas continuem como estão, ser mantido como segredo de Estado? A resposta está na origem das jornadas a que Debord se refere; quer dizer, na sua origem não-temporal, naquilo que uma certa tradição filosófica reputa como sendo o sentido e o fundamento de um momento histórico. Sentido e fundamento não porque se pressupõe um fim na história e um destino dado a despeito das consciências, mas porque é das suas próprias naturezas a característica de tornar uma história possível. Assim, Maio de 68 não habita a história, mas persevera como uma condição para que a história seja habitada, com sentido – coisa que não se confunde com finalidade – e fundamento. E por que, qual o segredo dessa condição Maio de 68?

Em primeiro lugar, porque o seu sentido emerge como resultado prático de um compromisso ético que não depende estritamente da história para existir. Compromisso intransigente com a verdade, expressa como a correspondência escolástica e prática entre aquilo que se pensa sobre as coisas e aquilo que as coisas são, também – mas nunca somente – porque estão sendo pensadas por quem tem esse compromisso. Essa correspondência, assim, só ocorre quando se sabe o que se está fazendo e o que se é; na vida, na Política, na história.

A verdade, nesse contexto, tem uma espécie de teoria: a teoria da anti-alienação, da tomada de consciência de que se é parte de um todo que lhe diz respeito e que, sobretudo, depende de si, inclusive para existir. A verdade temerária de Maio de 68, portanto, é que seus protagonistas sabiam o que estavam fazendo e eram leais ao que sabiam. Em toda parte, França, Brasil, Cuba, Chile, Congo, Los Angeles e Tchecoslováquia, eles sabiam o que estavam fazendo, quem combatiam e o que queriam. Não é preciso filosofar para perceber que esse compromisso faz sentido ontem, hoje e sempre e que, portanto, não é destrutível pela marcha histórica, seja em que perspectiva for esta considerada.

Em segundo, porque esse sentido a-temporal de compromisso ético frente ao que se sabe e ao que se quer estabeleceu um marco para uma certa perspectiva histórica que não tem fim. Em vez da crença numa finalidade, a constituição de uma razão, de um porquê, lutar, resistir à barbárie e enfrentar todas as formas de opressão. Uma razão para fazer história e para que esta seja habitada com verdade e ética. Mais do que o resultado de um somatório de consciências rebeldes pelo mundo, Maio de 68 – isto é, aquela década – persevera como o fundamento de uma história consciente, espécie de lição de incerteza e de abertura.

Em 68, especialmente, aconteceu aquilo que Kant chamou de “acaso feliz”, se assim se pode dizer: aqui, um encontro da consciência atenta e leal a si com a marcha dos acontecimentos que a determinam e ultrapassam. A partir desse encontro, não há, mais, fim da história, nem fechamento arbitrário de época, tampouco sol mágico a nascer socialista.

Descrever Maio de 68 sob a rubrica do acaso não deve assustar nem indignar. A melhor definição de acaso (aristotélica) é a de encontro de duas séries causais. Aqui, essas duas séries podem ser tomadas como a tomada de consciência de uma juventude e de um pensamento livre com a derrocada de um mundo político e social opressor, violento, colonialista, ditatorial, refém do encarceramento ideológico e de seus monstros. Acaso feliz: as consciências libertas da alienação burocrática, espetacular e mercantil combatem, sem tréguas nem negociação, a ordem de coisas que as esmaga e lhes rouba o tempo. ordem de coisas que, esta sim, ficou para a história como passado, porque não foi mais a mesma, apesar do que lhe seguiu imediatamente. Como se sabe, em boa tradição fundamento é um princípio divisório; um princípio que aqui está sendo tomado como condição para uma história, para uma outra história.

Com base em quê, além dessas notas teóricas extravagantes, pode-se dizer que esse sentido e esse fundamento de Maio de 68 não estão mortos?

Aí vai um pequeno rol de sugestões não-aleatórias: a Palestina segue ocupada desde 67 e recentemente um ministro israelense prometeu aos habitantes de Gaza um Shoah. O Iraque está ocupado depois de uma invasão militar de proporções históricas devastadoras. A África agoniza entre guerras, fundamentalismo religioso e doenças que dão lucro a grandes corporações multinacionais. Na América Latina, a elite crioula boliviana não aceita que o país seja dono de seus recursos naturais e menos ainda ser governada por um índio cocalero e Cuba está a extinguir a pena de morte. Um dono de império comunicacional tomou a Itália para si e Sarkozy é eleito presidente da França. Os lacaios do latifúndio continuam roubando, tendo privilégios e matando impunemente. Tony Gatlif faz cinema e Godard também, segue fazendo. Um negro, advogado dos direitos civis, senador que votou contra a invasão do Iraque, será eleito presidente do império, contra Bush e as grandes corporações e seus lobbies.

A democracia tem dado provas de que é o respeito e o enfrentamento de conflitos, e não o consenso, o que a caracteriza substancialmente. “As coisas estão no mundo”, como diz Paulinho da Viola, e Maio de 68, também.

Saber o que se faz e ser leal ao que se sabe, tornar o acaso um ponto que impossibilita o retorno e, então, torna a história possível. A mais luminosa, generosa e livre possibilidade. É por isso que toda tentativa de inventariar Maio de 68 não pode passar, também nas palavras de Debord, de gracejos ditos em jornal. Não há balanço do que não se pode inventariar, porque não há óbito do seu sentido nem do seu fundamento.

Por mais difícil e obscura que tenha sido a quadra recente da história, em termos de derrotas e das vitórias cinzentas e mediadas para aquém dos nossos desejos; e que o racismo e a tortura tenham se tornado práticas globais; por mais que a tragédia e as explosões de corpos e países e povos abundem em nossas televisões, corações e mentes; e que o roubo intermitente de sonhos exija vigência, Maio de 68 está aí, a obsedar, a espreitar.

A continuação do texto – um dos mais célebres que ajudaram a deflagrar esse levante – citado na abertura deste, meu, termina com um lembrete profético para os dias que correm e por isso também merece ser referido: “A potência do espetáculo atual reside no fato de que ele governa não apenas o mundo que ele produz, mas também os sonhos que as suas vítimas criam para escapar de seu reinado. Esses sonhos de hoje não passam, na realidade, dos pesadelos de amanhã. Pouco importa (…), o sistema dominante continuará a se construir contra todos. Eles podem optar por se tornarem cúmplices de seu próprio infortúnio. Mas devem pelo menos saber que não receberão nenhuma recompensa”. O grifo é meu.

Por fim, em 68 eu não existia. Vinte anos depois, adolescente, descobri que uma pessoa muito admirada e amada da família foi barbaramente torturada pelos agentes da ditadura militar brasileira. Dez anos mais tarde, conheci Flavio Koutzii e pouco depois Raul Pont. Na semana que passou, no Senado Federal, percebi e entendi por que ter Dilma Rousseff na Casa Civil do Governo Brasileiro é um valor em si mesmo; quer dizer, que essas pessoas e vidas e dignidades fazem sentido e têm fundamento, para uma outra história, contra o reino do espetáculo triunfante.

Este texto é para vocês porque, nos momentos de maior ira e irracionalidade, em barricadas ou sob tortura e diante das mentiras que assolam os dias e noites que correm, algumas coisas jamais foram, nem serão, destruídas. Entre essas coisas, com o perdão do atrevimento, está uma certa maneira de predicar a existência. Uma maneira de existir, sem o menor risco de conivência com a mesquinhez; uma maneira de existir com sentido e com razão. Então, eu existo, também por causa de Maio de 68.

Katarina Peixoto é doutoranda em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: katarinapeixoto@hotmail.com

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