Archive for agosto \31\UTC 2008

Sérgio Ricardo

agosto 31, 2008

1967, Teatro Record, Festival de Música Brasileira.
Sérgio Ricardo tenta apresentar sua música – Beto bom de bola –
uma homenagem a Garrincha. O público vaia. Antes dele começar a
cantar, durante e depois. Ele para, tenta de novo, reclama que não
ouve os músicos, nem nada. Só as vaias. Ele desiste. Levanta, quebra
o violão e o joga na platéia gritando: – Vocês venceram, vocês venceram!
Cliquem aqui para ver o vídeo:
Sergio Ricardo quebra o violão no Festival da Record

Um grande artista – músico, compositor e cineasta injustiçado.Um resistente, perseguido, censurado.
Nunca calado, mas marginalizado, ignorado pela mídia. Segue na luta, como sempre. Resistindo.

No site Porta Curtas há uma longa e interessante entrevista com ele com o título de ENQUANTO A TRISTEZA NÃO VEM. Vale a pena assistir.

Ele compôs uma música entre muitas, chamada CALABOUÇO, que pode ser ouvida eu seu MySpace, onde estão disponíveis várias músicas dele para ouvir. Entre elas essa:

Calabouço
Sérgio Ricardo
Composição: Sérgio Ricardo

Olho aberto ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Do canto da boca escorre
Metade do meu cantar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Eis o lixo do meu canto
Que é permitido escutar
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Cerradas portas do mundo
Cala a boca moço
E decepada a canção
Cala a boca moço
Metade com sete chaves
Cala a boca moço
Nas grades do meu porão
Cala a boca moço
A outra se gangrenando
Cala a boca moço
Na chaga do meu refrão
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Mulata mula mulambo
Milícia morte e mourão
Cala a boca moço, cala a boca moço
Onde amarro a meia espera
Cercada de assombração
Cala a boca moço, cala a boca moço
Seu meio corpo apoiado
Na muleta da canção
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Meia dor, meia alegria
Cala a boca moço
Nem rosa nem flor, botão
Cala a boca moço
Meio pavor, meia euforia
Cala a boca moço
Meia cama, meio caixão
Cala a boca moço
Da cana caiana eu canto
Cala a boca moço
Só o bagaço da canção
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

As paredes de um inseto
Me vestem como a um cabide
Cala a boca moço, cala a boca moço
E na lama de seu corpo
Vou por onde ele decide
Cala a boca moço, cala a boca moço
Metade se esverdeando
No limbo do meu revide
Cala o boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Quem canta traz um motivo
Cala a boca moço
Que se explica no cantar
Cala a boca moço
Meu canto é filho de Aquiles
Cala a boca moço
Também tem seu calcanhar
Cala a boca moço
Por isso o verso é a bílis
Cala a boca moço
Do que eu queria explicar
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um brasileiro de alma vazia.

Sobre o Arquivo68

agosto 26, 2008

Por Olga M.Salati M. Moraes

Parte da turma do primeiro ano de Pedagogia - FAFI 1968

Gostei demais dessa idéia!

Espero que este blog possa refletir a aventura que foi viver os anos 60: a intensidade das intermináveis assembléias, onde aprendemos a encaminhar questões, palavras de ordem…

E as passeatas pelas ruas de Rio Claro city? Ah, as passeatas, onde protestávamos contra .. o que mesmo? Talvez tudo: educação conservadora, imperialismo americano, ditadura militar. Tenho na memória alguns bordões: Mais pão, menos canhão! Fora, MEC/USAID, Vagas para todos.

Muitíssimo jovens, fomos amadurecendo nesse clima efervescente, oras mais oras menos conscientes de que por trás da aparente “apenas rebeldia” da idade, provocamos e muito as estruturas e promovemos significativas interferências/mudanças nas questões educacionais.

Êita geração que marcou presença, não? E estreitou e alicerçou grandes amizades!

Três palavras marcaram meus anos 60: Coerência, Realidade e Ação, não necessariamente nessa ordem e necessária e exaustivamente questionadas em todas as suas dimensões e sentidos.

E, se não ponho ponto, a prosa num termina, pois lembro de Alfredo, Otto, Abílio, Raul (lembra “daquilo infiltrado” denominado Raul????) e tantos outros…

Valeu, colega!

Abraços,

Saudações “fafianas”,

Olguinha Salati

Sobre 68 e depois: Poesias de Paulo Fonteles

agosto 22, 2008
Repressão

Repressão

Em Cena 19 – Cena final, ou Cai o pano ou a Poesia necessária  – Eduardo Spósito lembra o Estatuto do Homem, de Thiago de Mello, como um poema que o emociona até hoje. Lembra também, que o Estatuto foi publicado no Chile durante o exílio de Thiago, com o apoio de Pablo Neruda.
 
O texto de Eduardo Spósito despertou-me a curiosidade sobre a produção poética da época e como a poesia foi usada, no e sobre o período,  como documento, denúncia e resistência.
 
Um pouco de pesquisa e já me deparo com uma matéria muito interessante. Trata-se do texto: Paulo Cézar Fonteles de Lima – Poesia e Ditadura, um ensaio de Steven Uhly, da  Faculdade de Letras da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, Alemanha, publicado na revista Literatura e Autoritarismo – Memórias da Repressão, edição de Janeiro / junho de 2007.

Do texto, cuja íntegra pode ser acessada clicando aqui, reproduzo os poemas de Paulo Fonteles, nele transcritos.

A VIAGEM

O AVIÃO
LEVANTA VÔO.

ALGEMAS NÃO PRENDEM O PULSO DA MULHER
QUE DESCANSA O BRAÇO LIVRE NO VENTRE CRESCIDO.

O RÁDIO
TRANSMITE A MENSAGEM:
                                       ALÔ ALÔ BOTAFOGO
                                       ALÔ ALÔ BOTAFOGO
A MERCADORIA
A MERCADORIA
A MERCADORIA
                             JÁ CHEGOU

A MERCADORIA
                             JÁ CHEGOU.

– – – – – – – – – – – – – – – – – –

DISCURSO DO MÉTODO

OS MÉTODOS DA GESTAPO

                              GESTAPO
                              GESTAPO
                              GESTAPO

ESTÃO ULTRAPASSADOS,
            ULTRAPASSADOS.

– ESTAMOS PESQUISANDO
                                         PESQUISANDO
                                         PESQUISANDO

A SANTA INQUISIÇÃO
A SANTA INQUISIÇÃO

– ESTAMOS PESQUISANDO A SANTA
                                         INQUISIÇÃO.
– – – – – – – – – – – – – – – – – –

PALAVRAS DE UM TORTURADOR

NÃO
TENHO
ESCRÚPULOS.

N Ã O
T E N H O
E S C R Ú P U L O S.

TUA
MULHER
SOFRERÁ
                     S O F R E R Á
AS CONSEQUÊNCIAS
                                C O N S E Q U Ê N C I A S.

TUA MULHER
SOFRERÁ AS CONSEQUÊNCIAS;

                                C
                                O
                                N
                                S
                                E
              C O N S E Q U E N C I A S
                                U
                                E
                                N
                                C
                                I
                                A
                                S

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AFOGAMENTO

       CORPO ESTIRADO
CABEÇA REPUXADA PARA TRÁS.

      TUBOS DE BORRACHA
INFILTRAM-LHE NA BOCA
                                      NAS NARINAS.

      ÁGUA.

O PEITO SUFOCA
O CORPO ESTERTORA
O PRESO ESPERNEIA.

       AGONIA.

QUANDO A MORTE SE APROXIMA
APENAS UM FÔLEGO.

        APENAS UM FÔLEGO
QUE O PRESO NÃO PODE MORRER ANTES DE
FALAR.

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CHOQUE

UM MAGNETO
UM DÍNAMO
DOIS FIOS.

ELETRICIDADE
NA LÍNGUA
NO PÊNIS
NO ÂNUS
NA CABEÇA.

ALUCINADO
O CORPO TREPIDA
NO PAU DE ARARA
ESCARRANDO SANGUE.

O SARGENTO,
AQUELE QUE GIRA O DÍNAMO
RI.

– – – – – – – – – – – – – – – – – –

LUZ

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

  AZUL
                FORTE LUZ.

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

A CABEÇA NÃO PODE BAIXAR
AS PÁLPEBRAS NÃO PODEM CERRAR.

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

  AZUL
                FORTE LUZ.

  LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

  DO NADA,
SURGINDO DO NADA
                                UM SOCO

ME CALA.

  SURGINDO DO NADA
                                  UM SOCO

ME CALA.

– – – – – – – – – – – – – – – – – –

PAU DE ARARA

DOIS CAVALETES
UMA BARRA DE FERRO.

ATAM-NO PELOS PULSOS
                            E TORNOZELOS
COMO UM PORCO QUE VAI AO MERCADO.

PENDE O CORPO
DISTENDEM BRAÇOS E PERNAS
ATÉ A DOR INSUPORTÁVEL.

TRÊS DIAS
TRÊS LONGOS DIAS
TERRIVELMENTE LONGOS.

– – – – – – – – – – – – – – – – – –

ANDAR

ANDAR
          ANDAR ANDAR
                                 ANDAR
ANDAR SEM PODER PARAR.

ANDAR
          ANDAR ANDAR
                                 ANDAR
ANDAR SEM PODER PARAR.

A SALA É PEQUENA
MEUS PASSOS MENORES AINDA.

ANDAR
          ANDAR  ANDAR  ANDAR  ANDAR
ANDAR SEM PODER PARAR.

ANDAR
SEMPRE ANDAR
SEM PODER PARAR.

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SEGUNDA ANUNCIAÇÃO

TEU FILHO
TEU FILHO
TEU FILHO
                 NÃO NASCERÁ.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
                                 NÃO DEVE NASCER.

NÃO DEVE NASCER
                               NÃO DEVE NASCER.

FILHO DESSA RAÇA
                               NÃO DEVE NASCER.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
                               NÃO DEVE NASCER
NÃO DEVE NASCER.

– – – – – – – – – – – – – – – – – –

ATAQUE DE PEÕES

GANHO UMA CARTEIRA DE CIGARROS,
VAZIA.
UM BELO PRESENTE.

COM UM FÓSFORO RISCADO
DESENHO UM TABULEIRO DE XADRÊS
E CUIDADOSAMENTE RECORTO 32 FIGURAS.

DESENVOLVO BOAS TRAMAS
E SONHO COM ATAQUES DE PEÕES.

O Fim da Primavera de Praga

agosto 19, 2008

Quarenta anos atrás, terminava a Primavera de Praga. “A Tchecoslováquia foi invadida por tropas soviéticas, em 20 de agosto de 1968. As reformas instaladas no país representavam, aos olhos do governo soviético, uma ameaça ao bloco socialista e à possível criação de uma nação capitalista incrustada no Leste Europeu.

 

Os tanques tomaram a capital Praga e, ao invés de encontrarem tropas armadas e resistentes, depararam-se com uma grande massa de civis inconformados com a ação autoritária da União Soviética. Muitos se deitavam na frente dos tanques, conversavam com os soldados pedindo sua retirada, outros pichavam ironias contra a invasão soviética e alguns transmitiam os eventos do acontecido via rádio.

Os mais exaltados tentaram entrar em confronto lançando pedras e coquetéis Molotov contra os tanques. O embate com as tropas soviéticas deixou um saldo de 72 mortos e 702 feridos” (Rainer de Souza, em Primavera de Praga).

Para quem quiser mais infomações sobre o tema, postamos em Páginas 34 – O trágico fracasso da Primavera de Praga, artigo de Jan Puhl, do  Der Spiegel.

As Olimpíadas e o Arquivo68

agosto 16, 2008
http://tbn0.google.com/images?q=tbn:vaKF-h4AJkgBEM:http://www.quadrodemedalhas.com/images/olimpiadas/poster-olimpiadas-2008.jpg
quadro de medalhas

 

A propósito desses tempos olímpicos, ficamos suscetíveis a marcas e recordes. Em Arquivo68, atingimos a primeira marca de 1000 visitas. Inspirados em Pequim, fizemos uma tabela com os 10 post mais visitados em Arquivo68. Se você ainda não leu alguns deles, passe por lá.

POST

Endereço

Número de visitas

1968 e o Movimento Estudantil

https://josekuller.wordpress.com/5-1968-e-o-movimento-estudantil/

1021

1968 – A Revolução Inesperada

https://josekuller.wordpress.com/71968-a-revolucao-inesperada/

669

Utopia Militar – 1968

https://josekuller.wordpress.com/17-utopia-militar-1968/

558

Arquivo68 – O início

https://josekuller.wordpress.com/1-arquivo68-o-inicio/

436

Edson Luiz – Ano 1968

https://josekuller.wordpress.com/15-edson-luis-ano-1968/

422

Fundo Musical

https://josekuller.wordpress.com/1-fundo-musical/

393

Uma História de Amizade e Quase Amor

https://josekuller.wordpress.com/2008/02/12/uma-historia-de-amizade-e-quase-amor/

386

1968 na Visão de Alguns Intelectuais Brasileiros

https://josekuller.wordpress.com/11-1968-na-visao-de-alguns-intelectuais-brasileiros/

334

Liberdade, Liberdade

https://josekuller.wordpress.com/3-liberdade-liberdade/

291

Maio de 68 – As Músicas

https://josekuller.wordpress.com/2008/05/08/maio-de-68-as-musicas/

       234

 

68 – Cenas

agosto 13, 2008

Cena 19 – Cena Final, ou Cai o pano, ou A poesia Necessária

por Eduardo Sposito

Vou encerrar essa sequência de cenas. Poderia terminar lembrando minha última passeata quando fomos cercados numa praça na Penha pelas tropas do Erasmo Dias, ao som das bombas de efeito moral e fumaça do gás lacrimogênio.

Mas não quero encerrar com um gosto amargo na boca…
Prefiro lembrar alguns trechos do grande poeta Thiago de Mello, para reforçar uma frase do antigo “Pasquim” que dizia:

“A poesia é necessária”. Ou como dizia o Che: sem perder a ternura.

Trata-se de o “Estatuto do Homem” do Thiago, que tirei de uma edição onde constava também a versão para o espanhol feita pelo Neruda (“O Estatuto”foi lançado no Chile, durante o exílio do Thiago e com apoio do Neruda)

Vou lembrar apenas os artigos 4 e 14, que me comovem mais (todos são ótimos)
Artigo 4º:

“Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul
do céu.
O homem confiará no homem como
um menino confia em outro menino.”

Art. 14º

“Fica proibido
o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
ou como a semente do trigo
e a sua morada será sempre
o coração do homem”

(Não consigo ler esse poema sem lágrimas nos olhos)

E nada mais precisa ser dito.

68-Cenas

agosto 11, 2008

Cena 18 – O ano em que perdi a virgindade!

por Eduardo Sposito

E é a pura verdade. Não tinha atentado para a importância da data. Depois de 10 anos de celibato voluntário, de 3 anos de voto de castidade e mais dois incertezas e inseguranças, finalmente perdi a virgindade.

E não foi fácil. Depois de toda essa repressão, não ia com certeza ser uma coisa tranquila. Uma ida involuntária à zona ( juro que não sabia que estava indo, se não teria arrumado uma desculpa) me colocou diante do momento decisivo. E na hora agá recuei. Isto é, o troço lá recuou. O drama então estava instalado e algum psicanalista ia ganhar muito dinheiro com isso.

Fui salvo, porém, pela primeira namorada, que me violentou, fez daquele adolescente de 23 anos o que quís e depois me dispensou. Acho que até hoje ela não sabe o bem que me fez…

É também uma boa história pra mesa de boteco. Acho também um bom mote para falarmos sobre a “revolução sexual” do período. Até porque acho que deixamos nessa discussão o mais importante de lado.

Não se trata de medir a liberação sexual que ocorreu ou não, ou de endeusarmos apenas o feminismo machista que queimava sutiãs e foi assumido pela midia capitalista.

É importante entender o sentido que os jovens daquele momento davam para o amor e o sexo. Vou citar um trecho do livro “Eu é um outro” do psicanalista e escritor falecido há pouco, Roberto Freire, página 169:

“Um rapaz de olhos brilhantes, cabelos lisos e caidos sobre a testa larga, um dia me disse: Cada vez que faço amor com minha namorada eu o sinto maior, mais profundo, muito mais belo do que antes. Eu fico imaginando que isso só foi possível porque amo cada vez mais as pessoas, cada vez mais pessoas. Vai chegar um dia que meu amor pela minha namorada chegará ao seu limite extremo, porque através dela estarei fazendo amor com toda a humanidade”

Ou como disse outra moça:”Nosso amor não depende só de nós dois, daquilo que podemos sentir um pelo outro. Ele realmente depende da sociedade em que vivemos, de todas as pessoas de que compõe a sociedade. E essa sociedade, para ser justa, depende decisivamente da qualidade emocional e ética de nosso amor revolucionário.”

É isso aí. Quem viveu sabe do que se está falando. E é essa revolução que foi traída, porque essa é a verdadeira revolução. A tomada do poder é apenas um detalhe.

Para além dos quadrantes e de 68: a quintessência

agosto 7, 2008

 

 

 

 

O número quatro feito coisa

ou a coisa pelo quatro quadrada,

seja espaço, quadrúpede, mesa,

está racional em suas patas;

está plantada, à margem e acima

de tudo o que tentar abalá-la,

(…)

mas a roda, criatura do tempo,

é uma coisa em quatro, desgastada

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

Desde Um ou vários Quadrantes em 1968, venho experimentando recordar e analisar a minha vivência em 1968 a partir dos lados de um quadrante inscrito na paisagem urbana da cidade de Rio Claro, Estado de São Paulo.

Dentro do exercício, já foram visitados todos os lados do quadrante. Dessa viagem pelo espaço e memória, foram publicados os textos: A Escola, A Igreja, O Jogo e Nosso Lar.

 

O fechamento e a ausência de linhas de escape são características das forças e análises postas em quadrante. Para superá-los, é necessário iniciar um movimento que parta do centro e que, circulando em espiral crescente, una os quatro lados em oposição em uma construção pessoal, criativa e original: a quintessência.

 

O caminho dessa construção sempre aponta para um confronto com a sombra, com o mal, com o inconsciente, com o desconhecido. No caminho da construção pessoal, da individuação, é preciso submergir no próprio inferno para emergir transmudado em si mesmo.  

 

No universo simbólico da humanidade, existem arquétipos que são representações simbólicas desses processos extremos de transformação das forças reunidas em configurações de simples ou dupla oposição. Um deles é o mito do herói.

 

O herói parte em uma jornada em busca de seus objetivos e de sua glória. Do ponto de vista psicológico, a viagem é análoga ao processo de desenvolvimento individual rumo à vida adulta. Na jornada heróica, o protagonista sempre se defronta com um obstáculo, em geral o monstro antes nunca vencido (o mal, a sombra…).

 

Penso ser possível uma analogia entre o mito do herói e os jovens que éramos em 68. Na busca de um sonho individual ou coletivo de transformação social, de criação de um mundo mais humano e mais justo, jovens defrontaram-se, ao final de 1968, com forças aparentemente invencíveis. De AI5 foi chamada uma das faces visíveis do monstro.

 

No mito do herói, existem duas possibilidades de superação do obstáculo. Numa delas, o herói luta com o monstro e o vence. Na outra, ele se submete. Para os jovens progressistas, essas eram as alternativas à escolha, ao final de 1968.

 

Alguns optaram pela luta armada. Em geral, foram os politicamente mais definidos. Envolvidos ativamente com o movimento estudantil. Engajados em partidos ou grupos de esquerda. Viveram o mito do herói de uma forma que eu jamais vivi ou viveria. Desses, não sei quantos foram mortos. Outros foram exilados ou exilaram-se. Alguns se ocultaram. Pelo menos na primeira batalha, todos foram vencidos.

 

A submissão foi o caminho de uma maioria de outros jovens. Muitos, como eu, tinham uma incipiente formação política, desligados de movimentos organizados, recém-chegados na arena da luta. Parte dessa maioria acomodou-se. Acredito que muitos outros viajaram comigo durante uma imensa noite na escuridão da barriga da baleia, como Jonas na história biblica.

 

“Numa história do tipo daquela de Jonas, o herói é engolido e levado ao abismo, para depois ressuscitar; é uma variante do tema da morte-e-ressurreição. A personalidade consciente entra em contato com uma energia inconsciente que ela não é capaz de controlar, precisando então passar por toda uma série de provações e de revelações de uma jornada de terror no mar noturno, enquanto aprende a lidar com esse poder sombrio, para finalmente emergir, rumo a uma nova vida” (Joseph Campbell – O Poder do Mito, p.155).

 

Acredito que foi o que fizemos no tempo. Como o poder sombrio não estava dentro e não era inconsciente, a luta foi travada no teatro do mundo e não no da consciência. O cotidiano passou a ser o campo de batalha. Uma luta pacífica, silenciosa e subterrânea mantida em todas relações e encontros. Em todas as oportunidades e circunstâncias.

 

Para mim, a luta já começou em 1969. O seu palco foi o quadrante da frente e da esquerda (FAFI, segundo ano de Pedagogia), transformado no ponto de confluência de toda a minha energia vital e de todos os meus esforços. Mas, isso já é matéria para outro capítulo de história a ser contada ou de memória a ser revolvida.

1968: mais artes plásticas

agosto 4, 2008

Inciamos, há pouco tempo, a postagem de obras de artes plásticas criadas em 1968 e influenciadas pelos acontecimentos daquele ano. Antonio Morales também postou  um artigo de Almandrade a respeito do tema: As Artes Plásticas na Década de 60 e em Maio de 1968 . Com este post, enriquecemos a categoria com reproduções de obras de Claudio Tozzi:

Cláudio Tozzi - Multidão - 1968

Cláudio Tozzi - Multidão - 1968

 

 

 

 

Cláudio Tozzi - Guevara Vivo ou Morto - 1967

 
 
 
 
A obra à direita é de 1967. Mas, é tão 68 que vale figurar na galeria.
 
 
 
 
 
 
Cláudio Tozzi - A prisão - 1968

Cláudio Tozzi - A prisão - 1968

Para continuar, duas reproduções da mesma obra de Antonio Manuel:
  
Esta obra de Antonio Manuel foi objeto de um estudo  – Arte e movimento estudantil: uma análise de uma obra de Antonio Manuel, disponível na Internet.
 
 
 
 
 
 
 
 
 A reprodução da obra de Maurício Nogueira Lima – Não Entre à Esquerda – que encerra este post, também não é de 1968. É de 1964. Mas, não tem tudo a ver?

 

                                          José Antonio Küller

Censura musical

agosto 1, 2008

Localizei um site e um blog muito interessantes e relacionados com os temas que temos abordado aqui. Trata-se de Censura Musical. Os sítios documentam e discutem o período da ditadura militar com o foco na censura das letras das músicas compostas naquele tempo. Acrescentamos o endereço do site e do blog no espaço “Sites Pertinentes”. Também replicamos aqui as duas partes de um “clipe documentário sobre a música brasileira durante a ditadura militar. Conteúdo baseado no site www.censuramusical.com produzido pelos jornalistas André Rocha, Gabriel Pelosi e Lucas Mota”.