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Sonho impossível

março 29, 2011

Helena KullerFoi um pouco depois de 68. Creio que em 1972. Plena ditadura. Estava ouvindo rádio com a minha namorada. Uma música instrumental que nunca tinha ouvido antes me chamou a atenção. Ouvi-a atentamente. Ao final, comentei:

– Esta música me dá saudades de pessoas que não conheci. Faz-me recordar de coisas que nunca vivi. Lembra-me de lugares que nunca estive…

Estava comentando a música quando o locutor que apresentava o programa de rádio disse:

– Acabamos de ouvir: Impossible Dream.

Pouco depois, assisti no teatro do SESC na Dr. Vila Nova a peça teatral O Homem de La Mancha. A música-tema da peça: Sonho Impossível. Uma versão de Impossible Dream feita por Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra.

Desde então Sonho Impossível é minha música engajada por excelência. O hino de todo engajamento em processos de mudança. Música de fundo dos movimentos de transformação.

Com vocês, Sonho Impossível!

Sonho Impossível
J. Darion – M. Leigh – Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972
Para o musical para O Homem de La Mancha de Ruy Guerra
Sonhar
Mas um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão
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Menina Jesus

março 8, 2011

Tempos atrás, em comentário aqui no Arquivo68, mencionei a música Menina Jesus, de Tom Zé. Agora, destaco, em post sobre música engajada, essa obra do compositor e cantor baiano.

Tom Zé é um gênio, nem sempre reconhecido, com obra muito mais revolucionária que os badalados Caetano e Gil. Faz uma música engajada sutil, quase sempre com traços de humor e muita ironia.

Em 1968, na Maria Antônia ocupada (na verdade no auditório da Economia, que ficava num prédio da Rua Dr. Vila Nova), participei de encontro com Caetano, Gil, Dedé e Nana Caymi. No evento – uma das atividades que o comitê de cultura da ocupação organizou – rolaram músicas e conversas. Uma das coisas que nunca esqueci do acontecido na ocasião foi um papo do Caetano Veloso. Ele nos disse mais o menos o seguinte:

  • _ Não quero fazer música de protesto com letra forte e melodia bem comportada. Vocês ouvem, cantam e dançam certas músicas de protesto. A letra é esquecida. Fica o ritmo. Fica a melodia. Nada muda. A música quadrada não contesta, não incomoda. Eu quero incomodar. Por isso faço e farei músicas das quais vocês não gostarão. Vocês não poderão dançá-las. Para protestar é preciso contrariar o conforto musical de vocês (e da burguesia).

Logo depois dessa conversa, Caetano fez É Proibido Proibir. A obra, apresentada num festival, foi vaiada o tempo todo.

Até pouco tempo eu achava que a idéia de contestar musicalmente, contrariando velhas estruturas melódicas e rítmicas às quais nos acostumamos, era uma idéia original do Caetano Veloso. Sei agora que essa idéia não era dele. Era do Tom Zé. Não preciso me deter muito em argumentos sobre isso. A obra de um e outro, dos sessenta para cá, mostra bem quem de fato contestou mais. Tom Zé vence de goleada.

Menina Jesus é uma das músicas de Correio da Estação do Brás, belo álbum (LP), de 1978. Ela tem dois elementos contestatórios: título e conteúdo da letra. O título é feminista. Em vez de Menino Jesus, temos uma Menina. Tom Zé feminiza a divindade. Quando ouvi a música pela primeira vez esse detalhe me surpreendeu. O conteúdo fala de sonhos de um nordestino que migrou para o Sul Maravilha. Ele sonha ser cidadão. Suas declarações parecem ingênuas. Ele quer coisas pequenas, entre as quais “pagar imposto de renda” e “ter picolé na merenda”. Quando voltar para o norte quer chegar como vencedor, com óculos escuro e rádio de pilha a tiracolo. O humor e ironia de Tom Zé lembra Carlitos, lembra Cantinflas. A crítica aos valores da burguesia sulista é corrosiva.

Melhor que meus comentários é a letra. Aqui vai ela:

comentário:
O nordestino que vem tentar o Sul só pode visitar os seus quando tiver comprado três importantes
símbolos da civilização: um rádio de pilha, um relógio de pulso e um par de óculos escuros.

Valei-me, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, valei-me.

Só volto lá a passeio
no gozo do meu recreio,
só volto lá quando puder
comprar uns óculos escuros.

Com um relógio de pulso
que marque hora e segundo,
um rádio de pilha novo
cantando coisas do mundo —
pra tocar.

Lá no jardim da cidade,
zombando dos acanhados.
dando inveja nos barbados
e suspiros nas mocinhas…

Porque pra plantar feijão
eu não volto mais pra lá
eu quero é ser Cinderela,
cantar na televisão…

Botar filho no colégio,
dar picolé na merenda.
viver bem civilizado,
pagar imposto de renda.

Ser eleitor registrado,
ter geladeira e tv,
carteira do ministério,
ter cic, ter rg.

Bença, mãe.
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve pra casa em paz.

Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz
no meio dos automóveis,
mas

Vai, viaja, foge daqui
que a felicidade vai
atacar pela televisão

E vai felicitar, felicitar
felicitar, felicitar
felicitar até ninguém mais
respirar.

Acode, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, acode.

Aqui vai interpretação belíssima de Menina Jesus, numa performance do Grupo de MPB da UFPR.

Para quem quiser ouvir a interpretação do próprio Tom Zé no registro do álbum Correio da Estação do Brás, segue vídeo no qual os produtores combinam imagens com a gravação original do artista.

Blowing in The Wind

março 4, 2011

Esta canção se tornou um hino da luta
pelos direitos civis
.

Blowing in The Wind
Bob Dylan

Quantas estradas deve um homem caminhar
antes que chamem-o de homem?
Quantos mares deve um veleiro navegar
antes que ele possa dormir na areia?

Quantas vezes devem voar bolas de canhão
antes que sejam eternamente banidas?
A resposta, meu amigo, esta soprando ao vento
a resposta esta soprando ao vento.

Quantos anos deve uma montanha existir
antes que seja desintegrada pelo mar?
Quantos anos devem algumas pessoas existirem
antes que possam permitir-se a liberdade?

Quantas vezes deve um homem girar sua cabeça
e acreditar que ele apenas não pode ver?
A resposta, meu amigo, esta soprando ao vento
a resposta esta soprando ao vento.

Quantas vezes deve um homem olhar para cima
antes que possa ver o céu?
Quantos anos deve um homem ter
antes que possa ouvir alguém chorar?

Quantas mortes levarão até que ele saiba
Que muitas pessoas morrerão?
A resposta, meu amigo, esta soprando ao vento
a resposta esta soprando ao vento.

Seguem os vídeos de duas interpretações da canção.

O primeiro com Joan Baez cantando ao vivo em Paris em 1983 em apresentação memorável. O segundo com Katie Melua cantando em show ao vivo em 2007.