20 – 1968: as novas formas do amor

AS MARCAS DE UMA UTOPIA

1968: as novas formas do amor

A geração de jovens que literalmente fez arder as ruas e praças da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, sendo esbordoada, espadeirada ou até fuzilada por sua ousadia, fez arder também uma série de conceitos e pré-conceitos que cercavam, e por vezes, cerceavam o amor.

Flávio Aguiar

L’amour est une oiseau rebelle
Que nul ne peut apprivoiser.

(O amor é um pássaro rebelde
Que ninguém consegue domesticar)

Da ópera Carmen, de George Bizet.
Libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy,
Segundo o conto de Prosper Merimée.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soia.

Luiz Vaz de Camões

Muito já se escreveu e se perguntou sobre as causas e as conseqüências das grandes revoltas de maio e de todo o ano de 1968, tanto em matéria de política quanto em matéria de cultura e de costumes. Um aspecto muito relevante, mas pouco relevado foi o das transformações por que passou o amor.

Qualquer leitor apaixonado de literatura, filosofia e áreas afins do conhecimento, sabe que, se o amor envolve instintos imemoriais, sua formatação é de todo histórica. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, dizia Camões, e mudam-se também as formas de corte, sedução e as demais práticas do amor. Quando mais não seja, leia-se, pois está à mão, o livro “Sobre o amor”, de Leandro Konder, da Boitempo Editorial.

A geração de jovens que literalmente fez arder as ruas e praças da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, sendo esbordoada, espadeirada ou até fuzilada por sua ousadia, fez arder também uma série de conceitos e pré-conceitos que cercavam, e por vezes, cerceavam o amor.

Há uma moldura histórica para esse vendaval apaixonado nos comportamentos. Os que tinham cerca de 20 anos em 1968 e estavam nas universidades (aí há um condicionante de classe, por certo), viveram um momento excepcional da história humana.

Não só se bateram por liberdades e utopias políticas, projetos revolucionários ou simplesmente revoltas as mais diversas, mas foram aqueles que tiveram o privilégio de vislumbrar uma liberdade amorosa e sexual utópica, sem precedentes na história.

A primeira baliza desta utopia é a disseminação da penicilina como fármaco a partir de 1941. Descoberto por acaso em 1928 nos Estados Unidos, esse primeiro antibiótico foi transformado em remédio comum para ajudar os aliados nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Sua disseminação reduziu a graus menores a preocupação com o incômodo da gonorréia quanto aquela, mais soturna, com o fantasma da sífilis.

A segunda baliza desta utopia é o lançamento, em 1960, nos Estados Unidos, da pílula anticoncepcional para mulheres. Esse novo produto abriu o caminho para a concretização de novos ideais libertários no comportamento feminino – e também, como se verá, no masculino.
Esse momento de vislumbre durou menos de 20 anos. A partir de 1978 começaram a aparecer os primeiros sintomas da disseminação de uma doença sexualmente transmissível, que viria a ser batizada no começo dos anos 80 como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a SIDA, ou, em português brasileiro, a AIDS. Mas para quem viveu e cresceu nesta febre de paixões amorosas que se deflagrou a partir do começo dos anos 60, as marcas na memória, no corpo e na alma se tornaram indeléveis.

Para começo de conversa, tomemos as palavras como exemplo. Palavras que já existiam se disseminaram, outras mudaram de lugar e inclusive de boca. Verbos como “transar” e “trepar”, embora tenham ainda seus códigos e normas de uso, como todos os outros, deixaram de ser palavrões (sobretudo transar). Em público, saltaram das bocas masculinas para as femininas também. Aportuguesaram-se o francês “faire l’amour” e o inglês “to make love”. Passou-se a “fazer amor”. Os mais viajados à Europa (ou nela exilados…) diziam até mesmo “fazer o amor”, seguindo o modelo francês.

Certas palavras que descrevem as formas humanas também deixaram de ser palavrões, entre elas, “bunda”, por exemplo. Ganharam relevo e, dentro de certos contextos, foros de salão, palavras (muitas vezes de origem africana) que designam o túnel de amores do sexo feminino. O mesmo aconteceu com metáforas do falo masculino. Se a metáfora da madeira para esse falo ainda deve ser usada com cuidado em alguns contextos, “pinto”, por exemplo, foi completamente liberada para qualquer ocasião, dependendo de como se fala. Hoje isso é banal. Antes, não era assim. Uma criança que falasse em “pinto” ou em “xoxota” na sala podia muito bem levar um tapa na boca ou uma surra depois. No mínimo, uma repreensão severa.

Mas nem tudo se tratou apenas, é claro, de uma mudança semântica. Nem mesmo apenas de avanços científicos que proporcionaram a libertação de certos fantasmas – pelo menos até diagnosticar-se outro, mais temível, o da AIDS. Essa geração de jovens nascida ou crescida depois da Segunda Guerra Mundial era talvez a primeira, desde o surgimento do Movimento Romântico na Europa, na passagem do século XVIII para o XIX, e sua disseminação pelo mundo, que não tinha a geração dos pais e a dos avós por modelo profundo. Em parte, porque a paisagem era inteiramente outra que a de seus antecessores imediatos. No Brasil, isso era dramático: a geração dos sessenta crescera numa paisagem de inchaço vertiginoso das cidades e da população urbana, num país industrializado; a de seus pais e avós pertenciam a uma paisagem agro-exportadora, onde as cidades de porte eram poucas, e apenas algumas, Rio de Janeiro à frente, tinham uma tradição metropolitana.

Essa nova paisagem possibilitava também novos espaços, até mesmo esconderijos, para o amor, e o crescimento das universidades, com novos deslocamentos de jovens do interior para a capital, e mesmo inter-regional, dava a moldura para que os movimentos do amor mudassem de estilo e alcance.

As meninas-moças, por exemplo, com uma pílula na mão e uma idéia (por vezes fixa…) na cabeça, passaram a ter na perda da virgindade uma condição sine qua non para freqüentar a roda com altivez. Mais: elas se entregaram à idéia de que a multiplicidade de parceiros – em seqüência ou nos casos mais radicais, simultaneamente – era uma das condições da realização da feminilidade. Isso modificou o comportamento dos rapazes também. Antes, o clássico era o rapaz iniciar-se no sexo, para além das “sacanagens” infanto-juvenis, no bordel, levado ou não por um parente mais velho. Não raro agora os rapazes passaram a se iniciar no sexo com as namoradas, e passaram a inicia-las também. As idéias de “traição”, “adultério”, “caso”, “amante”, etc., foram sobrepostas pelas de “liberdade”, “dona de si mesma” (para as mulheres), “impulso” e semelhantes. A palavra “desejo” foi muito valorizada, e a idéia de “continuidade” e “permanência” no amor viu-se acompanhada pela idéia de “momento” e a de “fulgor”, características da paixão.

Para muitos o casamento tornou-se “careta”, ou uma imposição da vida, como por querer ter filhos ou não desejar afrontar demais os pais. O ideal passou a ser “juntar-se”, o que já existia antes, mas com a marca do estigma ou de não se ter outra saída, numa sociedade (a brasileira) que não admitia o divórcio e cujos seniores desquitados por vezes iam se casar no Uruguai, no consulado do México ou na Igreja do Brasil para terem o beneplácito social.

Num país cartorial como o Brasil, essa mudança de atitude mostrava não só uma questão de “costumes”. Era uma revolta contra o carimbo, o papel passado, o culto à conveniência e, sobretudo, à aparência. Mas era o índice de uma mudança mais profunda, que atingia o caráter mesmo do amor.

Havia uma mudança ética. Entre os revolucionários ou militantes de esquerda mais velhos, era comum uma duplicidade de comportamento: da boca para fora, ou da soleira de casa para a rua, pregavam-se os valores da igualdade. Da soleira para dentro, ou de fora das palavras públicas para as práticas da intimidade, não só se admitiam práticas autoritárias em casa, como se considerava “normal” a freqüência à prostituição. Para os jovens, pelo menos como ideal, buscava-se uma nova coerência entre a prática pública e os valores das atitudes em privado. Isso em todos os campos, como no caso em que pelo menos esses jovens procuraram libertar a homossexualidade e se libertar dos preconceitos que a cercavam.

Mas havia também uma mudança de destino. Idealizado ou não, o sentimento do amor era visto, tanto para o homem como para a mulher, com pesos diferentes, é certo, como um ponto de chegada, uma chegada ao destino. Já para aqueles jovens revolucionários, ou que pelo menos queriam de fato sê-lo, o sentimento amoroso, e seu conexo, o amor apaixonado, passaram a ser vistos como o portal de uma iniciação, que, portanto, podia ser renovada a cada passo, a cada momento, ou no suceder das circunstâncias.

Isso não trouxe uma banalização do amor, pelo contrário. Como nos tempos românticos, o amor passou a ser visto como a mais alta realização humana, desde que aliada aos princípios que organizavam também o conjunto das demais ações, na política, no trabalho, ou onde fosse. Na busca pela liberdade individual, tornou-se comum a busca de “almas gêmeas” para a realização amorosa, o que, se prolongou muitas relações, por um lado, trouxe-lhes também uma certa instabilidade congênita, pois a descoberta de que a “alma gêmea” não era tão gêmea assim trazia a separação ou a busca de outra alma ou pelo menos o seu desejo, o que podia assumir a forma de fugas momentâneas ou longas de um estado de monogamia, o que também não era muito valorizado.

Práticas sexuais antes admitidas veladamente ou não admitidas de todo nas relações estáveis passaram a ser valorizadas. Neste particular foi fundamental o lançamento quase simultâneo de dois filmes (é verdade que no Brasil eles não chegaram por longo tempo, mas as notícias deles vinham da Europa, dos Estados Unidos, ou do Rio da Prata), em 1972. Um deles foi “O último tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando e Maria Schneider, com sua cena de relação anal; o outro foi o filme que consagrou e transpôs a fronteira dos filmes pornôs, “Garganta profunda”, de Jerry Gerard, aliás Gerard Damiano, com Linda Lovelace e as cenas de felação. A iniciação amorosa, ainda que por vezes nas marcas culturais tocadas por ícones de consumo, era também uma iniciação ao próprio corpo e a todos os seus recônditos.

Talvez essa marca – a do amor como contínua iniciação (uma idéia análoga à de revolução permanente) – tenha a sido a mais perene trazida por aqueles jovens românticos (para o autor dessas notas, isso é elogio) de 1968. Junto com ela, veio a idéia, nem sempre levada a sério, de que pensar numa revolução, seja em que frente for, implica revolucionar-se também. Se essa contínua iniciação se dará com uma única pessoa, com uma sucessão, ou até mesmo com uma simultaneidade, passada a febre das “obrigações”, percebeu-se depois ser uma questão de escolhas (onde nem sempre se escolhe, mas se é mais colhido ou colhida pelas circunstâncias) abertas de acordo com o destino, as possibilidades, e o amor ou amores (ou humores…) de cada um e uma. Mas a grande contribuição una daqueles jovens irrequietos foi descortinar o amor de iniciação não como algo que culminava um passado, ou como algo que aprisionava o tempo na mesmice do mesmo, e sim como um portal que podia abrir e re-abrir continuamente o futuro.

Uma resposta to “20 – 1968: as novas formas do amor”

  1. marcelobeat Says:

    Puxa, parabéns pelo post!
    Estou escrevendo um roteiro de curta-metragem cujo foco são as diversas modalidades de amor, e resolvi q ele deveria se passar em 68. Ou seja, este blog tá sendo decisivo pra que o trabalho fique o mais fiel possível!
    Obrigado!!

    Meu blog: http://www.maisespertoqamaioriadosursos.wordpress.com/

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