Archive for the ‘68-Cenas’ Category

68 – Cenas

agosto 13, 2008

Cena 19 – Cena Final, ou Cai o pano, ou A poesia Necessária

por Eduardo Sposito

Vou encerrar essa sequência de cenas. Poderia terminar lembrando minha última passeata quando fomos cercados numa praça na Penha pelas tropas do Erasmo Dias, ao som das bombas de efeito moral e fumaça do gás lacrimogênio.

Mas não quero encerrar com um gosto amargo na boca…
Prefiro lembrar alguns trechos do grande poeta Thiago de Mello, para reforçar uma frase do antigo “Pasquim” que dizia:

“A poesia é necessária”. Ou como dizia o Che: sem perder a ternura.

Trata-se de o “Estatuto do Homem” do Thiago, que tirei de uma edição onde constava também a versão para o espanhol feita pelo Neruda (“O Estatuto”foi lançado no Chile, durante o exílio do Thiago e com apoio do Neruda)

Vou lembrar apenas os artigos 4 e 14, que me comovem mais (todos são ótimos)
Artigo 4º:

“Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul
do céu.
O homem confiará no homem como
um menino confia em outro menino.”

Art. 14º

“Fica proibido
o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
ou como a semente do trigo
e a sua morada será sempre
o coração do homem”

(Não consigo ler esse poema sem lágrimas nos olhos)

E nada mais precisa ser dito.

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68-Cenas

agosto 11, 2008

Cena 18 – O ano em que perdi a virgindade!

por Eduardo Sposito

E é a pura verdade. Não tinha atentado para a importância da data. Depois de 10 anos de celibato voluntário, de 3 anos de voto de castidade e mais dois incertezas e inseguranças, finalmente perdi a virgindade.

E não foi fácil. Depois de toda essa repressão, não ia com certeza ser uma coisa tranquila. Uma ida involuntária à zona ( juro que não sabia que estava indo, se não teria arrumado uma desculpa) me colocou diante do momento decisivo. E na hora agá recuei. Isto é, o troço lá recuou. O drama então estava instalado e algum psicanalista ia ganhar muito dinheiro com isso.

Fui salvo, porém, pela primeira namorada, que me violentou, fez daquele adolescente de 23 anos o que quís e depois me dispensou. Acho que até hoje ela não sabe o bem que me fez…

É também uma boa história pra mesa de boteco. Acho também um bom mote para falarmos sobre a “revolução sexual” do período. Até porque acho que deixamos nessa discussão o mais importante de lado.

Não se trata de medir a liberação sexual que ocorreu ou não, ou de endeusarmos apenas o feminismo machista que queimava sutiãs e foi assumido pela midia capitalista.

É importante entender o sentido que os jovens daquele momento davam para o amor e o sexo. Vou citar um trecho do livro “Eu é um outro” do psicanalista e escritor falecido há pouco, Roberto Freire, página 169:

“Um rapaz de olhos brilhantes, cabelos lisos e caidos sobre a testa larga, um dia me disse: Cada vez que faço amor com minha namorada eu o sinto maior, mais profundo, muito mais belo do que antes. Eu fico imaginando que isso só foi possível porque amo cada vez mais as pessoas, cada vez mais pessoas. Vai chegar um dia que meu amor pela minha namorada chegará ao seu limite extremo, porque através dela estarei fazendo amor com toda a humanidade”

Ou como disse outra moça:”Nosso amor não depende só de nós dois, daquilo que podemos sentir um pelo outro. Ele realmente depende da sociedade em que vivemos, de todas as pessoas de que compõe a sociedade. E essa sociedade, para ser justa, depende decisivamente da qualidade emocional e ética de nosso amor revolucionário.”

É isso aí. Quem viveu sabe do que se está falando. E é essa revolução que foi traída, porque essa é a verdadeira revolução. A tomada do poder é apenas um detalhe.

68 – Cenas

junho 14, 2008

por Eduardo Sposito

Cena 16 – CASAMENTO TRAÍDO

Nós achavamos que estávamos fazendo todas as revoluções. Por isso as cerimônias de casamento também tinham que fugir à normalidade. Casei-me em 71, e não podia ser diferente.

O casamento foi realizado na capela do seminário em que estudei, no Jaçanã, zona norte de São Paulo (Hoje lá é um hospital psiquiátrico, não sei bem).

Negociei com o celebrante (que tinha sido o Diretor do Seminário) a liturgia para a cerimônia, que foi totalmente alterada. Basicamente: a noiva e o noivo entrariam juntos com os pais até o altar, onde os pais seriam dispensados com um discurso da noiva. Em seguida a cerimônia de mútua aceitação e de amor, concluindo-se com um discurso do noivo, tentando explicar o sentido da cerimônia.

Até porque, como se diria hoje, era um casamento temático. O convite foi feito num duplicador a álcool (o mesmo que foi usado pros textos da Martha Harnecker) e a capa do panfleto dizia:”Eu vivo num tempo sem sol” – que era o tema do poema do Brecht que inspirou a peça Arena Conta Zumbi.

Em resumo, se dizia que aquele não era propriamente um tempo de festas, com colegas nossos presos, torturados e desaparecidos. E que o que desejávamos era celebrar o amor e convidar a todos para participar dele.

O fundo musical era adequado para isso:

A música do Vandré, o frevo “João e Maria“, onde ele dizia que o povo andava atrás de qualquer alegria e jogou sua esperança na cantiga de João para Maria, concluindo com: “Quem sabe o canto da gente, seguindo na frente prepara o dia da alegria”.

Depois entraria o trecho da peça “Arena Conta Zumbi” em que se musicava o poema do Brecht, “Na Selva das Cidades”. Lembro alguns trechos: (alguns são do poema, outros da adaptação feita pelo Guarnieri (se não me engano) com música de Edu Lobo).

“Nasci na cidade no tempo da revolta
todos os caminhos iam dar no despenhadeiro”
“Veja bem, que preparando caminho da amizade
não podemos ser amigos: ao mal vamos dar maldade”
“É um tempo de guerra, é um tempo sem sol”(estribilho)
“E você que me prossegue, e vai ver feliz a terra
Lembra bem do nosso tempo, desse tempo que é de guerra.
Porque essa terra eu não vou ver”

Ou como dizia o Brecht:
“E você, que vem na crista da onda em que nos afogamos
ao lembrar deste tempo sombrio, pensa em nós com bondade.”

E pra encerrar, o “Caminhando” do Vandré.

E aí é que vem a traíção…à cerimônia:

O Walmar tinha ficado encarregado da sonoplastia: colocar os Lps na Vitrola na hora certa e com a música escolhida.

No lugar do “Tempo de Guerra”, ele colocou o “Universo do teu corpo” da Taiguara, o que não foi tão mau, porque a música é ótima e o Taiguara, engajado. Mas o que eu não perdoei, foi trocar o “Caminhado” pelo “Jesus Cristo, eu estou aqui” do Roberto Carlos!

Ele alegou não ter encontrado os discos, mas acho que ele tentava me “proteger” dos exageros esquerdistas.

Em todo caso não posso reclamar, porque o Walmar tinha sido vítima de um sequestro relâmpago pelos paramilitares da Operação Bandeirantes (braço armado marginal da repressão), colocado numa das terriveis Veraneios, ameaçado de morte se não se afastasse dos comunistas e abandonado num matagal.

Como se vê, foram aqueles bandidos que inventaram o sequestro relâmpago

Cena 17 – CANTIGAS DE EM…BALAR

Aproveitando a deixa da Cena 16, gostaria de lembrar músicas que embalavam o nosso (ou pelo menos, o meu) sonho revolucionário. Algumas só fizeram sucesso na época, ou só no meio dito “engajado” e hoje são pouco lembradas.

Muitas vezes uma palavra ou expressão, ou um modo de cantar adquiriam um sentido que pra nós era suficiente.

O teatro forneceu um bom repertório para isso:

O “Morte e Vida Severina” com o funeral do lavrador, (“Essa cova em que estás com palmos medida/ …é a terra que querias ver dividida”). Um trecho muito bonito era o da “Moça da Janela” que dizia que “aqui só prosperam aqueles que fazem da morte ofício ou bazar”.

O “Arena Conta Zumbi” com o trecho citado na cena 16, e cujo maior sucesso foi “Upa Neguinho” na voz da Elis.

O “Show Opinião” com Nara/Bethania, Zé Keti e João do Vale: “podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer… que eu não mudo de opinião” – e a mais conhecida “Carcará

O “Chiclete com Banana”, do Boal, baseado na música do Jackson do Pandeiro e que desmacarava a utilização da música popular pela mídia a serviços dos americanos, com trechos interessantes de entreguismo (“Até minha gente do morro só canta bolero e versão.Trocaram meu samba, coitado, por um piano alemão), até a reação contra a invasão de “mambo, rumba made in USA (iuesseei)”, cantado “Voltei pro morro, onde está o meu cachorro, meu cachorro vira-lata, minha cuíca, meu ganzá. Voltei pro morro, mas onde estão minhas chinelas que eu quero sambar com elas pelas ruas da cidade. Voltei! Voltei! Ah, se eu não mato essa saudade eu morro. Voltei”

E na época saíram Lps com as músicas dessa peças. O “Chiclete..” eu tenho.

Queria lembrar algumas que eu acho esquecidas:

Do Vandré, além do “João e Maria” da cena 16, lembro-me do “Porta Estandarte”, cantado pela Tuca, no festival da Excelsior em que a Elis ganhou com “Arrastão” de Edu e Vinicius. O refrão do “Porta Estandarte” era: “Na avenida girando o estandarte na mão pra anunciar”

Ainda do Vandré, a música do “Hora e a vez de Augusto Matraga”, mais ou menos isso:

“O que sou nunca escondi.
vantagem não contei.

Muita luta já perdi, muita esperança gastei
Até medo já senti, e não foi pouquinho não.
Mas fugir, nunca fugi. Nunca abandonei meu chão
O terreiro lá de casa não se varre com vassoura
varre com ponta de sabre, bala de metralhadora
Quem é homem vai comigo, quem é mulher fica e chora
Quero a quem anda comigo, sua vez e sua hora”

E tinha o Cesar Roldão Vieira. Se não me engano era dele, cantada pela Elis:

“Sapato de pobre é tamanco, a vida não tem solução.
Morada de rico é palácio e casa de pobre é barracão
A mulher do branco é esposa, a esposa do negro é mulher.
Mas minha mulher é só minha, e a do branco eu não sei só dele é.
A terra do dono é só dele, ali ninguém pode mandar.
Mas se eu não pegar na enxada, não tem ninguém pra plantar.”

Em resumo: não dava pra ficar alheio a isso tudo.

68 – CENAS

maio 18, 2008

por Eduardo Sposito

CENA 13 – O OPOSTO LADO

Eu também já fui da repressão. Pelo menos para a Professora Carmucci, do Curso de Ciências Sociais da USP.

Corria o ano da desgraça de 1969. Depois de dois anos afastado do Movimento Universitário, voltei para iniciar o curso de Ciências Sociais. A Filosofia da USP tinha sido expulsa da Maria Antonia e estávamos precariamente instalados nos famosos Barracos, próximos à Reitoria.

Eu tinha entrado no Vestibular de 68, que era aplicado pela própria Faculdade (antes da Fuvest e antes ainda do esquema Cescem-Cescea-Mapofei). A minha entrada se deu graças ao movimento que fizemos para que os excedentes fossem admitidos.

Eu era um dos excedentes. Excedente era o candidato que consegui a média de aprovação, mas pelo número de vagas não era admitido. Em Ciências Sociais eram 50 vagas. Com a nossa luta passou para 130, em 68. Eu era 0 132º, mas houve duas desistências e eu entrei.

Mas, em 68, eu estava trabalhando para ajudar meu pai e as aulas que eu consegui eram no período da tarde, o horário em que devia cursar a Universidade. Então tranquei matrícula e voltei em 69, quando consegui aulas à noite.

Com essas eu perdi a batalha da Maria Antonia e outras agitações universitárias, já que estava mais no movimento secundarista na Zona Norte. O pessoal do meu tempo de UEE, ou tinha fugido, ou estava preso ou clandestino. Como não tinha feito cursinho, naquele começo de 69 eu não estava enturmado.

Foi aí que a coisa pegou. Era uma manifestação contra a vinda do Rockefeller, realizada dentro do Campus, que consistiu basicamente em vários comícios.

Estava eu, durante a manifestação, conversando com outro calouro, quando sentimos que estávamos sendo observados.

Dentro daquela neurose do momento, fomos identificados como agentes da repressão. Nos dias seguintes houve uma espécie de isolamento. No meu caso foi pior, pois a Carmucci, cismou que tinha me visto no DOPS. O mais engraçado é que eu não conheci a Carmucci! Se encontrasse com ela não saberia.

Depois que a merda foi para o ventilador é dificil limpar a barra. Devagar, fui retomando os contatos antigos e os fatos foram desmentindo a versão. Mas não foi fácil.

Ah! o outro calouro envolvido foi o Laurindo Leal Filho, o Lalo que depois se formou em comunicação, foi da Associação de Docentes e hoje tem um programa sobre a qualidade da TV, no Canal Brasil.

Recentemente encontrei o Lalo no congresso da Associação de TVs comunitárias – a ABCCOM – onde foi fazer uma palestra e lembrei-o do episódio. Ele disse que aquilo foi tão chato pra ele que ele tentou apagá-lo da memória. Me arrependi de ter feito ele lembrar.

Que tempos aqueles! Provavelmente ele pode ter achado que eu era realmente da repressão, pois até eu pensei que ele podia ser.

CENA 14 – FESTIVAIS SECUNDARISTAS

O que alimentou muito o movimento político entre os secundaristas foram as atividades culturais. As escolas de 2º Grau tinham geralmente seu Grêmio ativo, com jornal, grupos de teatro, de poesia, de música e atividades sociais.

Daí para a realização de festivais de teatro e música, interligando as escolas foi um passo. Eu mesmo fui diretor de teatro (vejam só) no Ginásio Comercial de Jaçanã, e participamos com a peça “Procura-se uma Rosa ” do Pedro Bloch no festival do CEDOM (Colégio lider na Zona Norte, citado pelo Chiroque) e no festival estudantil realizado pelo Equipe Vestibulares (cuja atuação naquele momento merece ser estudada).

Me lembro do último festival realizado no Cedom, no segundo semestre de 68, e por incrível que pareça me lembro das letras e melodias das músicas. Antecipando o que aconteceria com o Vandré, a música mais aplaudida por ser politizada, não ganhou, ficando em 3º. Homenageava o Che, e dizia mais ou menos:

“Ele morreu meu irmão.
Ele morreu mas venceu.
Levanta seu braço
O exemplo está lá.”

A 2ª colocada, num ritmo gostoso, com uma letra ingênua, dizia:

“Blau, blau blau
Caçamba de pau
Gente na janela, gente cara de panela
Gente no portão, gente cara de feijão.

E a 1ª, um sambão falando de amor:

“Ora João, esquece a dor
Daquela morena que te deixou.
Vai e procura um novo amor
Que o samba não acabou

E pra não mais chorar (breque)

Vamos sorria, que hoje é dia de carnaval
e a tristeza vai ter seu final.”

Só não lembro os autores.

O que alimentava aquela garotada? Esta semana, o Frei Betto esteve aqui em Rio Preto na Bienal do Livro [14/05/2008] e usou uma expressão interessante sobre a “geração 68”. Segundo ele, aquela geração “injetava utopia na veia”

CENA 15 – FREIRAS CANTORAS

E por falar em música, me lembro de umas freiras que gravaram um LP de músicas religiosas, que indicam bem a temática do período. Não lembro que freiras eram (isso é coisa pro Jarbas ou pro Cordão), mas lembro da letra inteira de uma das músicas, que convocavam para uma atuação cristã:

“Para mim, o vento que assobia
É noturna melodia.
Mas o pobre meu irmão ouve o vento angustiado,
Pois o vento, esse malvado, lhe derruba o barracão.

Para mim, a chuva no telhado
é cantiga de ninar.
Mas pro pobre meu irmão,
Para ele a chuva fria vai entrando em seu barraco
e faz lama pelo chão.

Como posso ter sono sossegado,
se no dia que passou os meus braços eu cruzei?
Como posso ser feliz,
se ao pobre meu irmão, eu fechei o coração
meu amor eu recusei?”

Podia ser meloso, mas embalava a “opção pelos pobres”.

68 – Cenas

maio 4, 2008

CENA 12 – COISA DE CINEMA!

Cenas de Filmes que me vêm à memória, quando quero lembrar o período:

Bergman:– “A Fonte da Donzela”: cena do estupro da mesma e o surgimento da fonte
– “Morangos Silvestres” – as “cores” da cena em que o professor revê sua infância.
– “Gritos e Sussurros” – a cena inicial onde a atriz(não lembro o nome) acorda e fica alguns minutos mostrando sua dor apenas com expressões faciais, sem exagero, mas transmitindo tudo o que sentia

Fellini:– a caracterização de seus personagens
– Anita Eckeberg, na Fontana de Trevi(deve ser) banhandos-se na “Dolce Vita”

Pasolini:– a assunção da empregada em “Teorema”
– a auto punição de Édipo, furando os olhos com o ponteiro da cinta da mãe em “Édipo Rei”
– a “violência”visual de “Saló”

Antonioni– a beleza fria de Monica Vitti
– a fotografia dos filmes

De Sicca:– a prisão do pintor na saída do Estádio, em “Ladrões de Bicicleta” (não tenho certeza se é do De Sicca)

Godard:
– o suicídio na cena final em “Pierrot, Le Fou”
– a vietnamita dizendo “Au secours, Monsieur Kossigin!” em “A Chinesa”

Truffaut:
– a cena final de “Os incompreendidos”(“Les quatrecents coups”), quando o garoto foge pela praia e se volta interrogativo para a câmera.

Glauber:– Luiza Maranhão correndo pela praia e a interpretação do Antonio Pitanga em “Barravento”
– o revolver na boca e a cruz no ombro do operário em “Terra em transe”

Bunuel:– a cena dos mendigos imitando a santa ceia, em … (esqueci o nome do filme!)
– o final de o “Anjo Exterminador” onde após a missa de ação de graças por terem se libertado, as pessoas não conseguem sair da igreja

Marlon Brando:– toda atuação em “Sindicato de Ladrões” do Kazan
– idem em “Viva Zapata”, em especial a cena em que ele é preso e os camponeses ficam batendo pedras de forma ritmada
– a surra que ele leva no filme(cujo nome não me lembro) em que ele era o Delegado de uma cidade que queria linchar um suposto criminoso
– a atuação em Queimada, em especial a cena final: “Your bags, Señor!”

OUTRAS CENAS:
– o Zé do Burro, sendo carregado na cruz para dentro da Igreja, depois de morto, em “O Pagador de Promessas”– o sacrifício da criança em “Vereda da Salvação”, dirigido também pelo Anselmo Duarte
– a tortura dos dois irmãos (com o alicate) em “O caso dos irmãos Naves
– Paulo José “fugindo” da moça em “O Padre e Moça
– a surra no Leonardo Vilar e a música do Vandré(“O terreiro lá de casa não se varre com vassoura..”) de “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”
– a descida da escadaria no Rio do personagem de “O desafio” do Sarraceni
– a briga entre Valmor Chagas e Eva Vilma em “São Paulo S/A”
– Fernanda Montenegro e Guarnieri, escolhendo feijões depois de ele ter expulsado de casa o filho reacionário em “Eles não usam Black-Tie
Montgomery Clift em “Tortura do Silêncio” e “Freud além da Alma”
– o “Samba da Benção” em “Um homem e uma mulher” – que ninguém é perfeito!
– nessa linha, James Dean em “Assim Caminha a Humanidade” e “Os reis do iê-iê-ié”(A Hard Days Night”) dos Beatles

MINHAS MUSAS:
Jane Fonda, em “Barbarella”
– Bibi Anderson e Ingrid Thullin, nos filmes do Bergman
Claudia Cardinale( não era muito chegado em Sofia Loren)
Jacqueline Bisset, em especial na cena em que sai da água com uma blusa branca justa e sem soutien
Ursula Andres saindo do mar em filme do James Bond (deve ser o “Satânico Dr.No”)
– a beleza de Julie Christie, como Lara em “Dr. Jivago”
Helena Ignez
Odete Lara
Glauce e Anecy Rocha
– (não riam, por favor) Rossana Ghessa nas pornochanchadas
Liv Ullmann, que foi casada com Bergman.

Acho que estou esquecendo muita coisa, mas isso é só pra dar o pontapé inicial.

Eduardo Sposito

CENAS – 68

março 28, 2008

ibiuna.jpg

CENA 7- TRAVASSOS…

Meu contato maior com o Travassos aconteceu quando ele era presidente da UEE-SP e eu, universitário/seminarista e, como tal, participava do movimento estudantil, em 1966. Acontece que em 67 saí do seminário, num primeiro movimento, para ajudar meu pai que era feirante e tinha que batalhar pra sustentar os 7 filhos.

E eu ali, nas mordomias da vida religiosa, com voto de pobreza e tudo. Então tive que arrumar emprego e saí do ambiente universitário.

Concentrei as chamadas atividades políticas na Zona Norte, através dos grupos de jovens nas igrejas e de aulas de “religião” em vários colégios; acabei me envolvendo com o movimento dos secundaristas, que era bastante forte… mas disso volto a falar em outras cenas.

É que foi nesse contexto que encontrei o Travassos, pela última vez. Devia ser final de 67 ou começo de 68 e ele já era presidente da UNE.

Nos encontramos na rua, ele vindo sozinho, provavelmente fumando, paletó ao ombro sendo seguro por dois dedos, aquele seu jeito tímido que só mudava nas assembléias e comícios.
– “ E aí? Você sumiu – disse ele
– “Estou aí, na zona norte, dando uma força pro movimento secundarista”(tínhamos acabado de fazer uma grande panfletagem, que teve boa repercussão) – respondi eu.
– “Isso é bom. Boa sorte!”

E foi só. Não consegui puxar um papo qualquer. Eu sempre tive dificuldades em me relacionar com lideranças, autoridades, chefes e patrões.

Lembrando hoje o desenrolar da história: sua prisão em Ibiúna, a soltura no seqüestro do Embaixador Americano, seu exílio, a volta com a anistia… e sua morte besta em acidente … continuo achando o que pensei naquele dia: “Ali vai uma grande liderança.”

Provavelmente seria melhor do que aquelas que sobraram do movimento estudantil da época. Salvo melhor juízo, como diria o Riobaldo do Graciliano.

CENA 8 – VAI SALITRE AÍ?

Na cena anterior, falei das aulas de religião.

Foi um movimento importante de inserção (disse inserção? Disse-o bem,) dos seminaristas na comunidade. Através dessas aulas identificávamos as lideranças, que eram convidadas para a formação dos grupos de jovens de onde saíram grandes lideranças do movimento secundarista e universitário.

Mas a cena a que me refiro aconteceu bem no início dessas aulas, quando a gente mesmo não tinha tanta consciência política.

Estava eu ali, compenetrado com o projeto de conversão daquelas jovens almas, quando uma menina pergunta em voz alta, na frente de todo mundo:
– “É verdade que no seminário eles põem salitre na comida pros padres não sentirem desejo?
(Constate-se que era das mais saidinhas, bonitinhas, ou como direi… gostosa, pronto!)

Sem pensar muito, respondi:
– “Se põem, eu não sei. Mas se estão pondo, não está fazendo efeito”.
Pode não parecer, mas isso foi uma cantada. “Cantata Sacra”

CENA 9 – O SEGREDO DA MÚMIA

O envolvimento dos seminaristas no movimento estudantil não foi uma coisa gratuita ou inconseqüente. Já havia uma movimentação voltada para a inserção social dos seminaristas de maneira conjunta e organizada. Já em 64 nós tínhamos a nossa UNE.

Era uma organização que congregava seminaristas de todo Brasil. Em São Paulo pertencíamos à USMAS – União dos Seminaristas Maiores do Sul. (Jarbas me corrija aí se as denominações estiverem erradas) Tínha USMAS I e II, mas não lembro a abrangência geográfica. Participei de vários encontros: lembro de um nos Verbitas em Santo Amaro.

O que mais lembro é o Seminário Maior do Ipiranga, por causa da múmia.
(O USMAS era um movimento interessante, subdividido em vários Departamentos: Liturgia, Pastoral, Cinema, Movimentos de Jovens…Eu, pra variar, estava no de cinema.)

No encontro do Ipiranga, acabei ficando na equipe organizadora do encerramento, quando eram apresentados pequenos shows instrumentais, esquetes, corais, etc. Ficamos eu e o Savioli (o Savioli, mais conhecido depois como “Platão”, professor famoso de Português e Literatura do Equipe Vestibulares e da Letras da USP, teve uma experiência terrível com a repressão. Na época se dizia que morava junto com o “japonês cujo fusca cheio de bombas explodiu na Consolação”)

Voltemos à múmia( nada a ver com o Costa e Silva). Apresentamos uma esquete onde aparecia uma múmia que se mexia quando alguém contava uma mentira. Nem lembro como era o final da piada, porque o engraçado mesmo é que a múmia fora enrolada em lençóis brancos emprestados pelo seminário.

Lençóis que apresentavam bem visíveis umas manchas do que chamávamos de “polução noturna”. Em palavras mais poéticas, resultado de um sonho erótico de algum seminarista, que inevitavelmente usava cueca samba-canção.

Como dizia o velho provérbio latino: “Sêmen retentum venenum est.”

10- CASA DO ESTUDANTE DE VILA MARIA

Tive muitos contatos com o movimento secundarista, em especial na zona norte da Capital. Por isso ouso afirmar que em vários momentos, principalmente quando a repressão aumentou, o movimento secundarista foi maior que o universitário.

Naquele período, de 65 a 69, os movimentos de base com certeza foram mais fundos e radicais. Lembro do CEDOM, do Albino César, do GEPEF, de um colégio estadual do Imirim cujo nome não lembro. Mas o mais ativo era a Casa do Estudante de Vila Maria.

Todos os colégios tinham um grêmio estudantil atuante com eleições acirradas, festivais de música, poesia, artes plásticas,

Em 68 eu dava aulas de Religião no CEDOM, uma escola que mantinha os portões abertos, não precisava obrigar o pessoal a assistir aula (Diziam ao professor: “Se a gente for obrigado a assistir sua aula, como você vai saber se ela é boa?”).Dando uma de velho saudosista, “bons tempos aqueles”.

Hoje o CEDOM é totalmente murado, com apenas uma porta de entrada controlada.Deve ter até cerca eletrônica. E o pior: um muro onde já esteve pichado “Abaixo a ditadura. Anule seu voto”, tem hoje a epígrafe: “Votem em Conte Lopes”

Mas volto à Vila Maria. Sua Casa de Estudante era um modelo para os secundaristas.

Dali saíram lideranças não só políticas, mas culturais, literárias e artísticas. Mesmo quando a repressão era braba, em 69, e a luta arrefecia em outras escolas, a Casa teimava em sobreviver.

Participei ali de um grupo de Teatro, com direito a método Stanislavski, ensaiando uma peça russa (acho que era Tchecov) – “Todos contra todos” do teatro do absurdo. Espalhou-se, mais tarde que o cara que dirigia o grupo, cujo nome não lembro, era agente da repressão.

Acho que a Casa do Estudante de Vila Maria merece a recuperação de sua história, até para entendermos melhor a época.

CENA 11- PREFERÊNCIA NACIONAL

Era uma reunião preparatória para a organização de uma exposição de artes dos estudantes da Zona Norte. Bastante concorrida, com algumas personalidades do mundo artístico apoiando. Se não me engano estava Vera Gertel, mas posso estar misturando tudo.

No intervalo das conversas sérias alguém colocou a questão para saber qual a parte do corpo que você admirava no sexo oposto.

As respostas puritanas, representavam bem a timidez da época: a boca, os olhos, o sorriso, os cabelos… e outras purezas.
Até que o Iozito acabou com a hipocrisia e disse de boca cheia:
-“ A bunda…”

Devo dizer que foi um susto geral, porque não se usava essa palavra em público na época(67). A sorte é que estávamos cheios de Iozitos que foram desmascarando o falso moralismo que nos dominava.

O Iozito era representante da casa do Estudante da Vila Maria e depois foi editor de arte da Cláudia

EDUARDO SPOSITO

68 – Cenas

março 14, 2008

passeatas.jpgCENA 1 – O PASTOR DE PASSEATAJá encarnei o personagem “padre de passeata” vilipendiado pelo Nelson Rodrigues. Embora, já na época, eu achasse que passeata de padre era procissão. Como seminarista, participei de ambas. Mesmo achando a passeata mais perigosa.

 

Essa do pastor também foi interessante.

Devia ser em 66, numa passeata organizada pela UEE. A tática utilizada para despistar a repressão (pelo menos segundo dizia a liderança) era iniciar vários focos e depois juntar numa concentração no centro da cidade.

Participei da mini passeata que subiu a rua Catumbi(se não me engano) no Brás(ou na Móoca) que devia ser rápida, possibilitando a gente se encontrar no centro no tempo determinado.

O ponto de partida no centro era o da Galeria Prestes Maia, partindo depois pela São João, Ipiranga (não sei se o Caetano tava na esquina), atirando umas pedras no Estadão e terminando por queimar uma bandeira americana na Maria Antonia.

Chegando na Galeria, lá estava um desses pastores evangélicos de rua com a Bíblia na mão recrutando fiéis. Quando ele viu aquela moçada chegando em grande número e parando para ouvir seu sermão, ficou entusiasmado e melhorou a pregação.

Sua alegria só não foi maior que o susto que ele levou ao primeiro grito de “Abaixo a ditadura” – “Viva a UNE”- e as faixas e bandeiras sendo levantadas e a passeata saindo pelo Vale do Anhangabaú.

Às vezes fico pensando se ele não era o Edir Macedo em começo de carreira e a gente perdeu uma boa oportunidade de… deixa pra lá.

CENA 2- QUE DITADURA É ESSA?

Estou eu de novo numa passeata, pelos lados da São Francisco. Deve ter sido uma das primeiras e eu me sentia meio deslocado. Nunca fui de manifestações de massa e não me sinto à vontade para gritar e gesticular.

(Ainda ontem fui ver Corinthians e Rio Preto no estádio e fiquei curtindo 15 mil pessoas cantarem hinos e gritos (não mais) de guerra e não consegui nem gritar gol.) Voltemos ao eu deslocado na passeata.

O consolo é que ao meu lado tinha um cara mais deslocado que eu. No maior entusiasmo de neófito gritou:

“Abaixo a ditadura do proletariado!”

E foi imediatamente repreendido, pelo colega ao lado que devia ser seu iniciador: -“Não é isso seu burro.”

Ali já comecei a pensar que talvez o caminho não fosse esse.

CENA 3- SÍNDROME DO BOM SAMARITANO

A partir do Congresso da UEE em 65 em São Bernardo(em outro lugar eu disse Santo André, mas acho que me enganei) quando foi presa toda a diretoria e os presidentes dos Centros Acadêmicos participantes (inclusive o nosso) a participação dos seminaristas aumentou, e passamos a freqüentar as assembléias e organização de mobilizações.

Aí sobrou pra mim.
Não sei que iluminado sugeriu que para o próximo congresso da UEE deveríamos organizar um leilão de arte (tava na moda!) para arrecadar fundos.

Eu fiquei encarregado de conseguir patrocínios para a elaboração do cartaz e doação de obras nas galerias da rua Augusta. O cartaz seria impresso pela Michelangelo que estava no movimento, como se dizia na época.

Foi aí que descobri que não tinha mínimo jeito pra vender. Tanto que no período mais brabo do meu desemprego, logo a seguir nem pensei em me arriscar a ser vendedor de Barsa, que era o mais fácil.

O máximo que eu consegui foi fazer o fotolito para a impressão do cartaz, desenhado por um colega de seminário (o Valmar) que pra despistar a repressão desenhou uma cena do Bom Samaritano.

O que eu não entendo até hoje é que não consegui me livrar do fotolito. Levei pra casa, levei pro casamento, mudei 15 vezes de casa desde 71 e esse fotolito me acompanhou o tempo todo.

Só consegui me livrar dele no ano passado, porque o coloquei na janela da casa em que estava morando pra tapar o buraco de um vidro quebrado e a chuva apodreceu a madeira onde estava o fotolito. Criei coragem e joguei no lixo: 42 anos depois!
Ah! O leilão de arte não saiu.

CENA 4 – O GANCHO

E tinha os famosos comícios de porta de fábrica. Não me lembro muito bem deles, até porque foram poucos. E eu ficava na panfletagem, na porta e nos arredores.

Com o tempo, a repressão aumentando, começou ficar arriscada também a panfletagem.
Então surgiu a técnica do gancho: fazíamos um gancho com arame grosso; numa das pontas fixávamos os panfletos e a outra seria afixada em locais de grande concentração pública, como pontos de ônibus.

O que mais fazíamos era trem de subúrbio, especialmente os do ABC, que era onde – para nós – ficava o proletariado. Entravamos em uma estação; quando o trem estava parando na próxima, iniciava-se um pequeno discurso com o “abaixo a ditadura” no final; aí pendurávamos o gancho na alça e saíamos no meio da multidão. Como faziam os vendedores de chicletes e balas.

Mesmo que não fosse eficaz, era bastante poético.

CENA 5 – A PRIMEIRA CALCINHA A GENTE NÃO ESQUECE!

Deve ter sido ainda em 1965. No teatro Paramount, um show para arrecadar fundos para as famílias dos prisioneiros políticos. Ainda podia.

O pessoal dizia que foi organizado pelo partidão. Vários atores, músicos e cantores se apresentaram. Lembro do Valmor Chagas contracenando um trecho de peça com a (não tenho certeza) Cacilda Becker, lembro do Caetano e o Gil ainda não famosos, do Vandré… e não consigo lembrar mais ninguém. E tinha muita gente.

Mas me não esqueço, nos meus vinte anos celibatários, da menina que foi tocar violão, com a saia que já era quase mini, e ao cruzar as pernas deixou aparecer a calcinha.
Vai entender a memória da gente! Com tanta gente importante naquele dia, e vou me lembrar da…

Ah! Era branca.

CENA 6 – MON BIJOU (clique aqui para ver a página 10)

Jarbas, essa é pra fazer contraponto com a galeria Metrópole.
O meu ponto de cinema (vai ser enjoado!) favorito era o Cine Bijou, ali na praça Roosevelt. Será que ainda existe?

Era uma sala aconchegante, com poucos lugares: na minha imaginação tinha no máximo 60 lugares. Ali passavam os chamados filmes de arte e os brasileiros não-comerciais. Lembro de ter visto vários Bergman, Fellini, Antonioni, De Sicca, os Franceses, Barravento do Glauber; O Caso dos Irmãos Naves; O Desafio, do Sarraceni, São Paulo S.A. e muitos outros.

Cabulei muita aula de teologia por causa dele.

Eduardo Sposito