Quadrante IV – Nosso Lar

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No quarto e último dos quarteirões de Rio Claro (SP) que tomei como quadrante e como referência para analisar minha vivência em 1968, estava o Nosso Lar. Nosso Lar é uma instituição para menores abandonados, que funciona até hoje.

O abrigo de menores tomava o quarteirão inteiro. Apenas um pequeno portão, situado no meio de um dos lados de mesmo comprimento, dava acesso ao interior do orfanato. A foto do portão é recente, mas a entrada para o Nosso Lar parecia não ser muito diferente em 1968. A entrada era assim escondida e grandes construções já ocupavam um terreno de 10.000 metros quadrados, cercado por muros que não permitiam ver de fora o que se passava lá dentro.

De todos os lados do quadrante, é o único lugar onde nunca estive. Quando criança, sempre passava por perto. Lembro-me de contornar os seus muros, na lida de explorar o mundo ou procurar pelos cavalos que meu pai soltava para pastar nos arredores. Os muros pareciam muito mais altos naquele tempo. A altura das coisas é medida também pelo nosso tamanho. Talvez seja essa a única forma de medir da criança. Pela memória de meu olhar posso imaginar a métrica infantil dos que viviam lá dentro.

Quando criança, tinha uma vaga idéia e nenhuma curiosidade sobre o que se passava por lá. Também na juventude, o meu envolvimento com a igreja progressista e com suas preocupações sociais não foi suficiente para chamar a atenção para o Nosso Lar. Continuei ignorando o que lá se fazia e suas relações com os valores que eu pensava e dizia ter.

Em 1968, a nossa sala de aula ficava quase em frente do portão principal do Nosso Lar. Os muros baixos e vazados da FAFI permitiam um cotidiano e distraído olhar para a quase despercebida entrada do Nosso Lar. Acho que nunca o vimos. Pelo menos, nunca conversamos sobre ele. Nem em 1968, nem nos anos posteriores, nem nunca até hoje, Nosso Lar entrou em minhas cogitações ou preocupações educacionais. Não tenho certeza, mas acho que o mesmo ocorreu com toda minha turma de Pedagogia.

No decorrer da nossa vida universitária, em estágios curriculares, tomamos contato e procuramos atuar dentro da realidade da escola pública e apoiar, dentro de nossas possibilidades, o seu desenvolvimento. Acho que ninguém escolheu o Nosso Lar como campo de estágio ou como espaço de intervenção educacional. Eu, pelo menos, estava ligado no tempo, nas grandes mudanças, nos grandes horizontes. Nunca consegui ver a necessidade e a oportunidade educacional que estavam bem na frente do meu nariz.

Em uma análise em quadrante das funções conscientes, Jung opõe o pensamento ao sentimento e a percepção à intuição. Diz que, dessas funções (pensamento, sentimento, percepção e intuição), uma é sempre a principal função de relacionamento com o mundo e que a função oposta é sempre a menos desenvolvida, ou a função inferior. Quem se relaciona com o mundo a partir de juízos de realidade (pensamento) tem muitas dificuldades de lidar com os juízos de valor (sentimento). Até o que é mais óbvio passa despercebido para a função inferior. Quem se relaciona de uma forma intuitiva com o mundo desconhece a riqueza de detalhes que o perceptivo consegue ver.

Jung diz também que tarefa principal de crescimento na vida adulta é o desenvolvimento da função inferior. Nosso Lar representa, em minha vida, a função inferior.  A questão da educação e do cuidado com os “abandonados ou desvalidos”, por mais que eu me afaste, bate continuamente à minha porta. A cada afastamento resulta em uma aproximação ainda mais estreita. Até quando?

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27 Respostas to “Quadrante IV – Nosso Lar”

  1. antoniomorales Says:

    Küller…você diz:

    “Nem em 1968, nem nos anos posteriores, nem nunca até hoje, Nosso Lar entrou em minhas cogitações ou preocupações educacionais. Não tenho certeza, mas acho que o mesmo ocorreu com toda minha turma de Pedagogia.”

    Não só com a sua turma, com a minha também, acho eu. Comigo aconteceu o mesmo que com você. Tanto que não me lembro de alguma vez ter entrado no prédio apesar de estar nos “nossos narizes” por 04 anos seguidos.

  2. José Antonio Küller Says:

    Tonhão

    Encontrei uma informação intrigante. No site do Nosso Lar consta que a instituição é de 1975. Foi fundada neste ano pela Igreja Presbiteriana. Se verdadeira a informação, a entidade só começou a existir depois que tinhamos deixado a Faculdade de Filosofia de Rio Claro. No entanto, minhas recordações do lugar datam da infância.

    Não é estranho? Fico com duas hipóteses para explicar a contradição. Primeira: falha da memória, este ser cada vez mais impreciso. Segunda: um registro incorreto no site. Talvez Nosso Lar tenha existido antes. O que é de 1975 é o início da gestão da Igreja Presbiteriana, como informa o site. Só se for… Indo à Rio Claro procuro esclarecer o mistério.

  3. Sandra Machado Lunardi Marques Says:

    No 1º ano, para fazer o trabalho do Wilson, estive, zéantonio, no “Nosso Lar” e trago na memória o cheiro ácido de mijo, dos que de castigo tomariam banho frio, no dia seguinte; estive no “Bezerra de Menezes”, na cadeia e num terreno de umbanda, acho que levada pelo Renoldo. E, no último ano, trabalhei (amos) com reforço numa classe multisseriada dentro do Haras da família Machado (nada a ver com a minha, claro), onde a heróica tia começava a aula acendendo o fogão à lenha, para depois passar lição e corrigir cadernos. É pouco?
    Buá, buá, buá. Fodam-se esnobes.

  4. José Antonio Küller Says:

    Sandra

    A sua mensagem opera duas salvações. A primeira, da nossa turma de 1968. Ela, ou pelo menos uma de seus integrantes, estava atenta aos arredores e aos problemas sociais que estavam bem na frente da nossa cara. Nosso Lar não foi por nós esquecido.

    A segunda salvação é a da minha memória. Já estava me supondo gagá. A informação no site do Nosso Lar dá o ano de 1975 como o da criação. Ora, por este registro, Nosso Lar não existiria em 1971, ano de conclusão de nosso curso de Pedagogia. Pela site do Nosso Lar, a sua existência em 1968 seria fruto de minha imaginação ou resultado de memória imprecisa.

    Depois da publicação do post, conversando com colegas nossos, também membros honoráveis da turma de 1968, nenhum se lembrava de Nosso Lar. Comecei a duvidar da minha sanidade. Quase contratei uma investigação particular para acabar com a dúvida.

    Você me salvou!!!

  5. Ester Says:

    Minha irmã e eu ficamos neste orfanato na década de 60 até 70, na época o reverendo Nafhtaly da Igreja Presbiteriana e Dona Etelvia (D. Vivi) faziam parte da diretoria do orfanato. Na época me lembro que havia 62 crianças e Tia Rute Ramalho de Montes Santos de Minas que cuidava das crianças. Hoje tenho 46 anos e minha irmã 48, não nos encontramos com mais ninguém de nossa época, foi uma infância muito sofrida, mas valeu a pena os ensinamentos ali vividos. Gostaria de saber se senhor possui o contato de alguma criança da época, pois gostaria muito de contacta-los. Vivi lá do ano de 1966 até o ano 1974. Tenho fotos, pois fui visitar anos mais tarde com meu esposo e filhos. Caso o senhor possua constatos, agradeceria se os me enviasse.
    Obrigada.

    • José Antonio Küller Says:

      Ester

      Infelizmente não possuimos contato com alguma criança que tenha vivido no Nosso Lar, em sua época ou em outra qualquer. Talvez você encontre essa informação no próprio Nosso Lar.

      Abraços

    • jose zaza daulisio neto Says:

      me chamo mazola eu estive interno ai no nosso lar de 64 a69 gostaria de ter contato com alguem dessa epoca

      • Neide Says:

        Oi José

        Meu nome é Neide e estudei nessa turma com minhas irmãs Leide, Naila, Marilsa e meu irmão Mauzir. Gostaria de encontrar mais pessoas da nossa época.

    • Neide Says:

      Oi Ester

      Meu nome é Neide e estive internada nesse orfanato, na mesma época, com minhas irmãs Leide, Naila, Marilsa e meu irmão Mauzir. Gostaria de encontrar mais pessoas da nossa época.

    • Rita Lira Says:

      Ester…eu me lembro de vocë……acho que eram Sula e Natalina Bozolla….eu estive la na mesma epoca……….se eu náo estiver enganada, me passa seu face….bjs.

      • Rita Lira Says:

        Agora estou em duvida quanto aos nomes? Acho que Rosangela e irma de Ester Bozolla, Sula irma da Natalina, Renata e Renato Gnecco (gemeos) Renato, Messias, Leninha e Carlinhos (irmaos). Valter era o mais velho de todos que ali moravam. Tinha uma menino pequenininho que foi apelidado de Baianinho. Nidelci e Katia (irmas). Airton, Marcelo e mais quatro irmaos que a mae havia falecido e o pai nao podia cria-los sozinho. Maristela e Claudete (irmas)……e tantos outros…..

  6. Sérgio Rodrigues Ferraz Says:

    Caro Kuller,
    você não está senil não, meu caro. O orfanato Nosso Lar de Rio Claro foi fundado por duas irmãs da sociedade rio-clarense. Não lembro o nome delas, mas eu vivi lá de 1962 a 1966. Em 1968, data em que vocês estudavam na Faculdade que ficava frente o orfanato, eu estava em Campinas, ingressando no Exército…
    Isso é prova que sua memória não está falhando não. Aliás, para você ter mais certeza, nós, as crianças do orfanato pegávamos sapos e baratas para vender para a Faculdade e nos divertíamos muito com uns macaquinhos que viviam nos fundos da Faculdade. Eu vi o site e também estranhei a igreja presbiteriana dizer que “fundou” o orfanato em 1975. A informação é furada, descabida e, se não desconhecem os fatos, também é maldosa.
    Grande abraço.
    Sergio Ferraz

  7. Lisiani Flores Says:

    Bom Dia!!!
    Meu nome é Lisiani e estou como coordenador institucional do Nosso Lar desde janeiro/2012…
    Estou elaborando, em conjunto com toda equipe do serviço de acolhimento, o Projeto Político Pedagógico da instituição e para tanto estou pesquisando mais sobre a história da instituição e nesta pesquisa me deparei com este blog, que, até agora, foi o que mais me trouxe informações, rsrrs…
    Gostaria de informar que o Instituto Beneficente Educacional Nosso Lar foi fundado em 1º de julho de 1945 (não 75 – acho que deve ter sido erro de digitação). O site do Nosso Lar não está mais no ar e não sei dizer o motivo…
    Estamos com uma nova proposta de trabalho, que vem de encontro com as questões do reordenamento dos abrigos.
    Estou a disposição…
    meu e-mail: lisianiflores@gmail.com
    ps: se souberem mais da história, estou precisando…

  8. Leide Borges Says:

    Fui criada no Nosso Lar, juntamente com minhas irmãs. Lá cheguei em 1955 e fiquei até 1969/70. Pela data dos posts, talvez as informações já não sejam necessárias, mas quem quiser saber mais da história, entre em contato comigo. Tenho fotos e lembranças que nunca apaguei da memória e terei muita alegria em dividi-las com quem quiser.

  9. Leide Borges Says:

    As irmãs fundadoras eram Olinda, Concilia e Ondina Marques Teixeira Olinda era dentista e morava na Rua 7 juntamente com a tia Concilia. Ondina morava com os pais em outra casa não longe dali.

  10. Rita Lira Says:

    Ola…eu estive la no periodo de 1973 a 1977…sempre procuro por alguns nomes que lembro, mas nao encontro ninguem…..ja visitei a instituicao…..lembro da Tia Rute. Depois veio o Tio Delmar e a Tia Madalena, um casal de gauchos com seus filhos Cristiane, Fernando e mais uma menina que nao recordo o nome. Lembro da Faculdade de Filosofia Ciencias e Letras….estudei no Colegio Barao de Piracicaba e no Chanceler Raul Fernandes, Lembro que o dentista Dr Augusto fazia parte da diretoria da instituicao. Se tiver alguem dessa epoca, entre em contato comigo….obgda.

  11. Udam Mais Says:

    Bom dia, estamos querendo reconstituir fotos antigas do nosso lar, se alguém possuir ou mesmo lembrar nomes de professores e alunos por favor entre em contato com a gente, estamos no antigo nosso lar em horário comercial

  12. Leide Borges Says:

    Boa noite, Udam. Tenho fotos, só preciso tempo para resgatá-las e escanear. Algumas tirei na década de 80, quando retornei a Rio Claro e visitei o Nosso Lar. Aguarde para breve. Meu número de celular/whatsapp é (54)9979-4254. Moro em Caxias do Sul.

  13. Udam Mais Says:

    bom dia Leide, você tem fotos da década de 60? temos uma foto com duas professoras com seus alunos, mas sem os nomes

  14. cacilda marques pereira Says:

    meu nome cacilda marques pereira-coordenadora em 1960.. cuidei de Marilza,Naila,Neide.Mauzir.epoca de D.Concilia Braga.. Tenho uma foto com todos de lá. Foi um tempo de bençãos para mim , meus filhos e minha tia que trabalhou la tambem. até 1962.meu telefone Campinas 19-992182616. Estou na igreja do Nazareno em Campinas como coordenadora do Dep. Infantil há 20 anos.Deus realmente tem me abençoado muito.
    Muito alegre ficaria se tivesse mais noticias de voces. meu email- cacildapereira2010@gmail.com Com muito carinho Um grande abraço.Cacilda

    quando eu estava lá foi a inauguração de Brasilia e a Naila chorava muito porque dizia que a mamae dela estava lá na festa de Brasilia e ela estava aqui no Orfanato. A Naila me ajudou muito lá no Orfanato..Saudades…iamos a Igreja central Presbiteriana a pé e em fila e com alegria,pois as saidas eram poucas……..

  15. JOSE MANOEL DOS SANTOS Says:

    BOM DIA! A QUEM POSSA ENTERESSAR. FIQUEI NESTE ORFANATO, COM MEU IRMÃO, DE:1975 À:1983. MEU NOME É JOSÉ MANOEL(TOTINHO) E MEU IRMÃO DIRLEI. À ÉPOCA, NA DIRETORIA TINHAN A NANCI(TIA NANCI) E O LUIZ AMBOS CASADOS. O NOME DE SEUS FILHOS, SÓ ME LEMBRO DO ROBERTO E DA LILIAN. TAMBÉM TINHAM, A BETE NA ADMINISTRAÇÃO E A CARMELITA NA COZINHA. ESTUDAVA-MOS, NO SESI NUMERO 083. LEMBRO, DE ALGUNS INTERNOS, QUE SE CHAMAVAM: SEBASTIANA, CLAUDIO, ADRIANA, ZILDA, RICARDO, ALDO,’ZECA’. POSSUO FOTOS, DO CAMPO DE FUTEBOL. TAMBÉM IA-MOS NA IGREJA PRESBITERIANA.

  16. Laila Oliveira da Silva Says:

    Que mensagem linda essa que acabei de ler, me espelho nisso, quero conhecer o local , acredito que todos nós temos um chamado, sinto vontade enorme de conhecer a instituição !!! Espero q seja em breve

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