Archive for janeiro \31\UTC 2011

Le Déserteur

janeiro 31, 2011

Le Déserteur é a mais famosa canção antimilitarista. Foi composta por Boris Vian, músico escritor e intelectual francês. Vian nasceu em 1920 e morreu precocemente em 1959.

Le Dérseteur foi escrita em 1954, numa época em que a França estava atolada na Guerra da Indochina (Vietnan). Não era uma canção pacifista. O último verso do poema original dizia: “Prévenez vos gendarmes, que je serai en arme et que je sais tirer” (avise seus esbirros que estou armado e sei atirar). Essa advertência para os perseguidores do desertor nunca foi gravada. Já na primeira versão, a censura começou a implicar com a mensagem de Vian contra a guerra. O primeiro cantor a gravar a canção, Marcel Mouloudji, foi praticamente banido das rádios francesas. Um vereador de Paris pediu censura total de Le Déserteur, e a música foi proibida. A censura cessou apenas em 1962.

Vian escreu uma carta aberta ao vereador que promoveu censura de sua obra. Faço aqui uma tradução livre da citada carta.

Não, Sr. Faber, você não deve olhar para um insulto onde este não existe e, se você o vê, é você que o coloca em minha canção. O que digo não está sujeito a interpretação: eu nunca quis ofender veteranos da I ou II Guerra, nem os Partisans (tenho muitos amigos entre eles), nem as vítimas da guerra (entre elas, eu tive muitos amigos também).  Meus insultos são sempre francos e de coração aberto, embora bastante raros. Nunca insultarei pessoas como eu, civis aos quais foi dado um uniforme apenas para serem mortos como coisas, nada mais, e que tiveram suas cabeças preenchidas por palavras vazias e desculpas sem sentido.  Somente um idiota, não um heroi, luta sem saber o motivo pelo qual está lutando; um heroi é aquele que aceita a morte se souber que ela será útil à causa que defende. O desertor de minha canção não sabe por que; quem irá lhe explicar? Não sei de que guerra você é veterano; mas, se for um veterano da I Guerra, devo admitir que você tem mais talento para a guerra que para a paz. Aqueles que, como eu, tinham 20 anos em 1940, ganharam um belo aniversário de nascimento. Não pretendo ser contado entre os bravos: fui rejeitado por causa de uma doença cardíaca, não lutei, não fui deportado, não colaborei com os nazistas; vivi aqueles quatro anos como um pobre diabo na multidão, e não pude entender porque alguém tem de ter explicações para o que é perfeitamente claro. Hoje tenho 34 anos, e lhe digo: se fosse chamado para defender aqueles que amo, eu lutaria. Mas se fosse chamado a morrer queimado por napalm numa guerra ignóbil, como um obscuro peão numa luta cujas razões são movidas por interesses políticos excusos, desertaria.  Farei minha própria guerrra. O país inteiro se levantou contra a Guerra da Indochina quando todo mundo tomou consciência do que estava acontecendo de fato; todos os rapazes que foram massacrados lá acreditavam estar “defendendo” alguma coisa ou alguém … – como lhes foi dito – bem, eu não os insulto. Fico de luto por eles. Entre eles, quem sabe, havia grandes pintores ou grandes músicos e, sem dúvida, muita gente boa.

Em 1966, Peter, Paul and Mary descobriram a canção e gravaram-na. Le Déserteur acabou se tornando um hino de gente que protestava conta a Guerra do Vietnan e outras guerras nos anos de 1960. Inúmeras gravações, em diversos idiomas, aconteceram. A letra da música sofreu algumas alterações nesse processo, mas continuou a ser um libelo a favor da paz. Segue aqui uma versão do poema em francês:

Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C’est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m’en vais déserter

Depuis que je suis né
J’ai vu mourir mon père
J’ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j’étais prisonnier
On m’a volé ma femme
On m’a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J’irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d’obéir
Refusez de la faire
N’allez pas à la guerre
Refusez de partir
S’il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n’aurai pas d’armes
Et qu’ils pourront tirer

E aqui está a canção, cantada por seu criador, Boris Vian:

 

Jarbas Novelino Barato

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Victor Jara

janeiro 25, 2011

Victor Jara forma um capítulo a parte no que se refere à música latino americana e à canção engajada, mesmo porque dedicou sua vida à música e morreu por ela, assassinado nos primeiros dias do violento golpe militar chefiado pelo General Pinochet. Muitas são suas belas canções que podem fazer parte desta série. Escolhi para começar, Manifiesto, que expressa poeticamente a motivação profunda de seu canto.

Prece – música engajada?

janeiro 22, 2011

Jarbas Novelino Barato, no post anterior, disse:

Antônio Morales sugere que a série que inauguramos agora tem como foco Canções de Protesto ou Música  Engajada. Prefiro a segunda expressão. É mais abrangente. É mais inclusiva. Pode incluir canções do Vandré, assim como a Internacional ou a Marseillaise. É mais sutil e menos datada. Mas, não está aqui em jogo o conceito. O que queremos é rememorar movimentos e músicas que refletiram e ainda refletem compromissos sociais e políticos.

Para dar continuidade à série proposta por Antônio Morales, começo concordando com Jarbas. Concordo com o título da série (Música Engajada) e com o critério: postar músicas que sejam sutis e menos datadas. Outra característica em comum entre as músicas antes postadas por Morales e por Jarbas é o fato de suas letras serem poesias conhecidas.

Vou seguir na mesma linha, não sei se exagerando na sutileza. Prece é um poema do livro Mensagem de Fernando Pessoa. Foi musicado. O resultado é uma música engajada?

PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância
— Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa

Cristo de los Gitanos

janeiro 20, 2011

Antônio Morales sugere que a série que inauguramos agora tem como foco Canções de Protesto ou Música  Engajada. Prefiro a segunda expressão. É mais abrangente. É mais inclusiva. Pode incluir canções do Vandré, assim como a Internacional ou a Marseillaise. É mais sutil e menos datada. Mas, não está aqui em jogo o conceito. O que queremos é rememorar movimentos e músicas que refletiram e ainda refletem compromissos sociais e políticos.

Minha primeira colaboração, para ficar na Espanha e em Serrat, é um poema de Antonio Machado, grande poeta espanhol. Machado sempre esteve à esquerda em sua vida. Foi um dos fundadores da Universidad Popular de Segovia. Combateu o fascismo de Franco. E, acima de tudo, converteu em poesia tradições ibéricas com profundas raízes populares. Serrat musicou diversos poemas de Machado e publicou um álbum belíssimo: Dedicado a Antonio Machado, poeta. Nehuma das letras é de protesto. Mas, todas elas são fruto do engajamento de Machado com as causas populares de sua Espanha. Achei que o melhor exemplo disso é La Saeta:

Dijo una voz popular:
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?

Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar.

Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.

Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores.

¡Oh, no eres tú mi cantar
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!

Nada de chamado à luta. Nada de protesto contra isso ou aquilo. Um poema sutil. Sangue do Cristo e sangue do povo se confundem. O Jesus preferido do poeta não é o cordeiro sacrificado, mas o homem que caminha sobre as águas. Andaluzes são um povo que pede escadas para subir na cruz e quer eliminar o sofrimento.

Adiantei um começo de interpretação do poema. Mas, em arte, toda interpretação é pobre. O que conta é o contato direto e pessoal com a produção do artista. Por isso, convido vocês para uma audição de La Saeta.

Jarbas Novelino Barato

 

Canções engajadas

janeiro 20, 2011

Com esse vídeo abrimos uma série de cancões engajadas, também conhecidas como músicas de protesto, apesar de nenhum dos nomes dar conta de todo o universo desse tipo de composição ou manifestação musical.

MENOS TU VIENTRE

Menos tu vientre,

todo es confuso.

Menos tu vientre,

todo es futuro

fugaz, pasado

baldío, turbio.

Menos tu vientre,

todo es oculto.

Menos tu vientre

todo inseguro,

todo postrero,

polvo sin mundo.

Menos tu vientre

todo es oscuro.

Menos tu vientre

claro y profundo

Os números de 2010

janeiro 2, 2011

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.

Números apetitosos

Imagem de destaque

O Madison Square Garden pode acolher 20.000 pessoas para um concerto. Este blog foi visitado cerca de 66.000 vezes em 2010. Se fosse um concerto no Madison Square Garden, teria que ser repetido 3 vezes.

Em 2010, escreveu 11 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 206 artigos. Fez upload de 14 imagens, ocupando um total de 690kb. Isso equivale a cerca de uma imagem por mês.

O melhor dia do ano foi o de 9 de novembro com 483 visitas. O mais popular post do dia foi o 05. 1968 e o Movimento Estudantil.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram search.conduit.com, google.com.br, mail.yahoo.com, mail.live.com e pt-br.wordpress.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por bolivia, musica engajada, zumbi dos palmares, sandino e ditadura militar no brasil

Atrações em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

05. 1968 e o Movimento Estudantil março, 2008
10 comentários

2

02. Fundo musical fevereiro, 2008
4 comentários

3

Easy Rider (Sem Destino) julho, 2009
11 comentários

4

A Reforma Universitária de 1968 novembro, 2008
3 comentários

5

AS ARTES PLÁSTICAS NA DÉCADA DE 60 E EM MAIO DE 68 julho, 2008
7 comentários