11. 1968 na visão de alguns intelectuais brasileiros

Intelectuais (inclusive FHC) falam de 68

por RICARDO MUSSE

Cinco dos principais intelectuais brasileiros falam sobre maio de 1968: Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Luiz Felipe de Alencastro, Paulo Arantes e Roberto Schwarz.

Esse grupo, cujas idades variavam entre os 22 e os 38 anos em 1968, tornou-se bastante representativo da geração marcada diretamente pelos acontecimentos de então, seja na versão francesa ou brasileira.

A maioria formou-se na USP da Rua Maria Antonia, com forte influência do marxismo, sob a orientação de Florestan Fernandes e Antonio Candido, consolidando-se ao longo desses 30 anos como destacados expoentes.

Como o Sr. acompanhou os acontecimentos de maio de 1968?

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO – Em maio de 1968, eu estava na França. Era professor na Universidade de Paris, em Nanterre. Portanto, acompanhei bastante de perto os acontecimentos.

Primeiro, houve uma tentativa de reforma da universidade que teve uma repercussão muito forte, sobretudo no campus de Nanterre. Havia um interesse do ministro da Educação da França, Peyrefitte, na reforma e o jornal “Le Monde” dava muito importância a esse projeto. Os estudantes franceses também.

Isso, de alguma maneira, foi um começo, uma espécie de concordância implícita entre setores distintos da sociedade francesa contra o ranço acadêmico, contra as universidades francesas, que eram consideradas, na época, muito conservadoras.

Isso repercutiu fortemente na universidade. Eu era membro da congregação, assisti a vários debates sobre o que estava ocorrendo e vi mesmo professores, alguns deles de esquerda, do Partido Comunista, na época, reclamarem que os estudantes estavam fazendo desordem, colocando folhetos a toda hora, cartazes nos corredores, coisa que não era habitual na França.

Até que o diretor da Faculdade de Ciências Humanas resolveu fechar a porta da escola. Ao fazer isso, no dia 22 de março, propiciou uma invasão da universidade pelos manifestantes. Foi o começo do “maio de 68”.

O estudante que mais se destacava nessa época era o Daniel Cohn-Bendit que, por acaso, era meu aluno de sociologia. Mais tarde, houve uma manifestação de estudantes na Sorbonne na qual a polícia interferiu violentamente.

A partir daí, houve uma série de incidentes mas, também, de grandes debates e grandes discussões. Esses debates já não tinham nada a ver, diretamente, com a crise dentro da universidade. Tinham a ver com uma espécie de grande crise existencial, chamada, na época, de “revolução cultural”.

LUIZ FELIPE ALENCASTRO – Cheguei na França em 1996, com uma bolsa do Governo francês, para estudar na Universidade de Aix-en-Provence. Viajava freqüentemente para Paris, onde se encontrava a maioria dos exilados brasileiros.

Em 1966 e 1967 a politização dos estudantes franceses era muito reduzida. As conversas políticas interessantes que eu tinha nessa época era com os estudantes americanos, preocupados com o recrutamento para a Guerra do Vietnã, e com um núcleo do Partido Comunista Internacional (tendência Bordiga), formado em Marselha.

Da América Latina, só se sabia um pouco de Cuba e nada do Brasil. Havia, isso sim, fortes manifestações estudantis na Alemanha, as “Páscoas Vermelhas”, na seqüência do atentado contra Rudi Dutschke. Mas na França era tudo uma pasmaceira.

ROBERTO SCHWARZ – Em 68 a efervescência política no Brasil havia aumentado e passara ao enfrentamento direto com a ditadura. Era este o contexto em que a oposição jovem lia o noticiário internacional e também o da França. É claro que algo das palavras de ordem francesas passou para as nossas ocupações de universidades e de fábricas, aos enfrentamentos de rua etc; dando a estas uma vibração por assim dizer atualizada e planetária, além de enriquecer o repertório das nossas aspirações assumidas.

Mas no essencial a agitação aqui tinha base interna, no quadro de classes brasileiro, que propunha tarefas diferentes das parisienses e nem por isto menos contemporâneas.

Em meu grupo mais chegado, na Faculdade, foi determinante a chegada de João Quartim, pouco antes de maio. O hoje pacato professor passara alguns anos na França estudando filosofia e aprendendo política de extrema esquerda, cujos temas e expoentes conhecia no detalhe. Quando os jornais começaram a dar notícia da nova insolência contestatária dos estudantes franceses, nós já tínhamos familiaridade com o fenômeno.

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI – Estava na direção do Departamento de Filosofia da USP, lugar privilegiado para compreender todo o movimento estudantil. De um lado, dialogando com os estudantes, de outro, dando prosseguimento ao nosso projeto de transformar aquele departamento num instituto de profissionais.

E ficou evidente desde logo que o movimento libertário dos estudantes, enfrentando uma repressão exterior muito grande, teria conseqüências desastrosas para nosso movimento de transformar a USP. Quando veio o AI-5 era mais evidente que seríamos caçados e que nossa luta deveria ser deslocada para outro lugar: terminamos indo para o CEBRAP.

Mas o Departamento de Filosofia teve de começar de novo e, convém dizer, a nova geração cumpriu a tarefa com coragem e competência.

PAULO ARANTES – Acompanhei 68 na condição de jovem professor de filosofia na faculdade da Rua Maria Antonia. Aliás estreante, maio desabou no meu primeiro semestre de magistério. Contestação naquele clima escolar de acatamento, nem pensar, só mesmo por inércia ou mimetismo.

Aliás, contestar o quê? Mesmo as “lideranças”, como se dizia, do movimento por uma Universidade crítica choviam um pouco no molhado. Com as exceções de praxe, todo mundo era razoavelmente do contra, contra a ditadura militar e o medíocre conservadorismo ambiente que fora despertá-la na modorra das casernas.

Porém, a favor dos bons cursos oferecidos, sobretudo se comparados à vida besta das grandes escolas. No caso do meu departamento, por exemplo, os estudantes queriam menos Platão e Bergson e um pouco mais de Marx e Lenin, porém estudados de acordo com os métodos filológicos de sempre.

Não quero dizer que o clima fosse ameno em meio ao bate boca ideológico de sempre. Havia pelo contrário muita apreensão, pois a repressão podia baixar a qualquer momento, como de fato aconteceu com o incêndio do nosso prédio e morte à bala de um estudante.

Como o Sr. compreendeu, na época, esses acontecimentos?

LUIZ FELIPE ALENCASTRO – Compreendi tudo errado. Fiquei perplexo com os rumos do assanhamento contestatário. Na verdade, no imediato, a mídia exacerbou o significado do Maio francês. Havia jornalistas do mundo inteiro em Paris à espera do começo da Conferência de Paz no Vietnã. Mas as discussões pararam.

Aí, quando saíram algumas manifestações estudantis mixurucas em Paris, a polícia baixou a borracha achando que eles podiam invadir o lugar, no outro lado do Sena, onde estavam reunidas as delegações da Conferência de Paz.

Como estava cheio de jornalistas e fotógrafos à espera do início da Conferência e sem ter o que fazer na cidade, o movimento estudantil teve, no começo, uma hiper-exposição na mídia. Isso embaralhou muito as coisas, ocultando inclusive o fato de que estava rolando, pouco depois, a maior greve operária ocorrida num país desenvolvido no pós-guerra.

Outra coisa que nos fazia, nós os estudantes latino-americanos, ficar sempre com um pé atrás, era a vulnerabilidade do estatuto de estrangeiro. Por volta do dia 20 de maio, a polícia começou a expulsar da França, sem apelação, os estudantes estrangeiros pegos nas manifestações.

Ser expulso naquela altura era o fim do mundo, porque não dava para voltar para o Brasil; eu perderia a bolsa francesa, pararia os estudos e ficaria sem destino.

Depois, no ano seguinte, nas casas do campo da turma lá de Aix, e a partir de 1970 em Paris, quando fiz a pós-graduação na Universidade de Nanterre, é que deu para discutir mais sobre a politização da vida inteira.

Deu para sentir, no cotidiano, na Universidade, nas ruas de Paris, no comportamento das pessoas, na cultura, nos costumes, que tudo tinha se impregnado de um “espírito de maio”, irreverente, fraternal, anti-autoritário.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO – Na época o que me chamava a atenção era o fato de que todo esse movimento na França não se traduzia com os mesmos “slogans” e nem com as mesmas intenções do grande movimento que havia na América do Sul.

Eu tinha chegado à França depois de ter vivido no Chile por mais de quatro anos. O clima que se via por aqui era completamente diferente. Era um clima, por um lado, em alguns países, como o caso do Brasil, contra os regimes autoritários que já se haviam instaurado.

Por outro lado, havia toda uma reivindicação contra o subdesenvolvimento, uma luta pelo desenvolvimento, uma luta anti-imperialista, tudo fortemente marcado por uma conotação de luta de classes, se não prática, pelo menos em termos de orientação simbólica das camadas estudantis e intelectuais.

Na França, os protestos usavam uma linguagem para a França antiquada. Não foi um momento de revivescência do canto da Internacional, que diz: “De pé, famintos da terra”. E os que cantavam não eram, propriamente, famintos.

Eram mais as pessoas que estavam, na verdade, protestando por causa da insatisfação com o seu modo de vida. No início, os próprios trabalhadores franceses, depois, alguns sindicatos também entraram no movimento, assistiram a isso com certa perplexidade.

Os operários franceses assistiam, sem nada entender, à discussão que os estudantes faziam. Havia, portanto, pouco a ver diretamente com a visão tradicional de luta de classes. Não obstante, os sindicatos franceses participaram também e, finalmente, entraram em greve.

Foi um movimento que arrebatou o entusiasmo dos jovens, em geral, inclusive trabalhadores, e de partes importantes da intelectualidade.

Eram então situações diferentes. Na Europa, na França, especificamente, o que havia era uma reivindicação por um outro modo de existência. O papel dos meios de comunicação de massa foi fundamental, sobretudo da televisão.

A televisão francesa era controlada pelo Estado, era muito oficialista. De alguma maneira, houve uma tomada da direção da televisão por parte de homens e mulheres que faziam a crítica da sociedade de consumo etc.

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI – Estava na cara sua ambigüidade. De meu ponto de vista privilegiado, era evidente que a reação estudantil era informe.

Quando se organizava, o fazia na base da teoria do foco de Debray e na transposição das experiências da Revolução Cubana, o que nos parecia um disparate, considerando que estávamos em plena época do milagre econômico e que a guerrilha, ao vir para a cidade, não teria apoio suficiente para se transformar num verdadeiro processo político.

Era chover no molhado fazer conferências para os alunos, no Grêmio da Filosofia, alertando contra os perigos de um confronto direto com os militares. Mas era de chorar ver aquela meninada se preparando para ser torturada e morrer.

Por certos os estudantes me consideravam um reacionário e um mandarim, mas ficavam desnorteados quando me propunha a dar seminário sobre Marx na faculdade ocupada. Era uma forma de dizer que estava com eles, mesmo discordando deles.

PAULO ARANTES – Nas condições que acabei de evocar, não dava mesmo para compreender muita coisa. Nossos luminares sociológicos viviam dizendo que aquilo tudo não ia dar em nada, seja em Paris ou nos Brasis, talvez porque assim o desejassem junto com as CGTs da vida.

Era moda aliás nos altos escalões do saber mariantonesco desancar o pobre Marcuse, por falta de rigor, é claro. Grande Recusa não era mesmo conosco: com sorte nos livraríamos da ditadura e trataríamos de arranjar uma saída para o país, pró-sistêmica, já que a anti, queimada pelos soviéticos só poderia dar em bobagem, para dizer o menos.

Voltando ao meu zero de compreensão. Simpatizava, mas não via nada. De sorte que quando o Roberto Schwarz, num ensaio memorável (“Cultura e Política, 1964-69”), recontou o que todos havíamos vivido, fiquei encabulado com a minha miopia na época, agravada pelo nosso horizonte filosofante. Também não era para menos.

A síndrome mundial denominada Maio Parisiense de 68 irrompera entre nós num palco por certo ardorosamente oposicionista, cultura de esquerda largamente hegemônica, porém socialmente confinada, pregando para conversos: contestação em recinto fechado (e lotado, como nos festivais de canção ou nos teatros) só podia exasperar mal-entendidos homéricos.

É só relembrar o modo subversivo da Tropicália transformar contracultura em apelo comercial.

Ou a nova esquerda requentando palavras de ordem da velha: da arte dita social ao centralismo democrático.

Como o Sr. vê hoje o maio francês?

ROBERTO SCHWARZ – A pesquisa e a bibliografia a respeito devem ser imensas e com certeza deixam mal quem esteja falando só de memória, como leitor de jornal da época. As perguntas do próprio momento sempre diferem das que vêm depois.

Passado o tempo, o historiador busca as causas de que os contemporâneos tinham pouca notícia. A insurreição parisiense respondia ao início de uma nova etapa do capitalismo?

Manifestava uma correlação demográfica nova, em que o peso da juventude era maior? Acompanhava transformações na maneira de produzir, que tornavam obsoletas as formas anteriores da divisão social do trabalho?

Era o peso específico da classe operária que começava a decrescer? O controle soviético sobre a esquerda no mundo já não era o mesmo? Há estudos documentados sobre tudo isto, dos quais sei pouca coisa.

PAULO ARANTES – Seria bom relembrar que 68 abriu quase uma década de lutas sociais e que só foi de fato enterrado pela contra-revolução liberal conservadora. Reagan-Thatcher não se empenhariam tanto em quebrar a espinha de um movimento sindical supostamente morto!

A semente da globalização (ou que nome se dê à ditadura dos mercados financeiros sustentada pela retomada fraudulenta da hegemonia americana) foi plantada como resposta à crise de governabilidade (na acepção conservadora da fórmula) desencadeada em 68 (a crise fiscal do Estado não tem apenas raízes econômicas endógenas, o fordismo não explodiu somente em função do seu sucesso).

Até mesmo nosso “milagre” periférico tem a ver com a liquidez internacional à procura de uma lucratividade bloqueada nos países centrais; e mesmo o nosso ABC de 1978 em greve pode ser visto em linha com a turbulência da década de 1970 (sindicalismo de combate etc.), talvez mais crucial que os 60.

Se estas impressões fazem sentido, a famosa adesão sistêmica da força de trabalho, cooptada pelas prestações do Welfarestate, precisa ser recontada. Bem como a impressão de que viveríamos novamente (como achava Marcuse em 64, abrindo o “Homem Unidimensional”) numa sociedade sem oposição.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO – Quando voltei para o Brasil, já havia os ecos de maio de 68, mas muito mesclados com a luta mencionada contra o regime autoritário e embasados, seja numa visão guerilheira ou foquista das transformações sociais, seja numa visão mais clássica de luta de classes.

De toda maneira, os que se moveram no Brasil, a partir de 68, estavam muito mais orientados de uma forma política direta contra um regime e contra uma situação social que era opressiva. Não vou dizer que, na França não houve isso.

Mas não era contra o regime, era mais contra os abusos que uma situação sócio-cultural havia ocasionado lá. E, também, convém chamar a atenção para o fato de que, depois de tudo isso, De Gaulle terminou por impor, de novo, a ordem e o seu estilo.

É verdade que muita coisa mudou na França. Maio de 68 não foi simplesmente um grito parado no ar. Foi muito mais do que isso.

LUIZ FELIPE ALENCASTRO – Depende de onde se está interpretando os eventos. Na França, as coisas mudaram radicalmente e a esquerda atual, o governo socialista de Jospin conta com muita gente que politizou-se em maio, ou no “espírito de maio”, durante os anos 1970.

É preciso lembrar que foi precisamente essas politização que evitou o movimento francês entrasse numa fria, embicando no aventureirismo da luta armada, como aconteceu com uma parte do movimento estudantil da Itália e da Alemanha. Sartre teve um papel fundamental nas discussões que acalmaram o jogo em Paris.

Por aqui, no Brasil, as coisas são mais complicadas porque a ditadura deixou passar uma imagem caricatural e, no fundo, conservadora do mês de maio: tinha sim, “sexo, drogas e rock’n roll”.

Mas isso estava envolvido no movimento pacifista, no anti-capitalismo, no anti-racismo e no comportamento democrático, anti-autoritário, que depois fortaleceu a liberdade de imprensa e de pensamento; que deu lugar a movimentos como os “Médicins sans FrontiÞrs” e muitas coisas que salvam esse fim-de-século, o qual, sem maio de 1968 seria sinistro.

Publicado no JC on line(Jornal do Commercio de Recife) em 10 de maio de 1998

3 Respostas to “11. 1968 na visão de alguns intelectuais brasileiros”

  1. José Antonio Küller Says:

    Tonhão

    Não consigo comentar logicamente. Me deu uma sensação de estranheza e de vazio.

    Küller

  2. Souza Says:

    Começo a entender agora o maio de 68 como uma proposta política para o mundo,que não ficou só na França,mas rodou o mundo.

  3. ademar amancio Says:

    Em 68 parece que boa parte do mundo ocidental entraram em curto circuito.o mundo hoje com certeza seria pior sem esse espasmo histórico.

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