Archive for the ‘Literatura Engajada’ Category

Em Câmara Lenta

maio 9, 2011

Em 1977, a Alfa-Omega, uma editora de oposição ao regime militar, publicou Em Câmara Lenta, de Renato Tapajós. Foi a primeira obra nacional, produzida por um escritor que atuou em um grupo da esquerda armada, a trazer uma reflexão crítica sobre as estratégias da guerrilha e a denunciar o emprego brutal da tortura pela repressão. O autor participara da Ala Vermelha, um agrupamento urbano de influência maoísta que empreendeu ações armadas, e por isso cumpriu pena de 1969 a 1974.

Divulgado por todo o Brasil, o livro despertou a fúria de setores conservadores e levou a um episódio inusitado: em julho de 1977 Tapajós foi preso em São Paulo e ficou dez dias incomunicável, sob a acusação de que Em Câmara lenta era “instrumento de guerra revolucionária”. Isso apesar de o livro não ter sido proibido e não ter, do ponto de vista legal, nenhum empecilho à sua circulação.

Somente 15 dias depos da prisão de Tapajós, a obra foi censurada e sua venda, proibida. A partir das intricadas repercussões desse fato, o propósito principal deste trabalho é procurar demonstrar como a experiência da luta armada se transformou em narrativa literária.

Para tanto, apresentamos um estudo sobre a história do livro, sobre os procedimentos empregados tanto na formação da culpa dirigida contra Renato Tapajós (com base em documentos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, DOPS, de São Paulo, produzidos durante a investigação policial) quanto os utilizados pela defesa do caso, bem como a respeito da recepção crítica e do teor testemunhal presente no romance

Eloisa Aragão Maués

Para ler, na íntegra, o estudo mencionado pela autora, clique aqui: Página 47

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Vozes do golpe

fevereiro 28, 2011

Aproveito um recado de Orlando Nascimento sobre Moacyr Scliar e um e.mail recebido de Antonio Morales para dar sequência à série Literatura Engajada

 

VOZES DO GOLPE (4 VOLUMES) – A revolução dos caranguejos; Mãe Judia,1964; A mancha; Um voluntário da pátria

Carlos Heitor Cony e Moacyr Scliar e Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo

Vozes do golpe reúne quatro relatos – dois ficcionais e dois documentais – sobre experiências ligadas ao golpe militar de 31 de março de 1964 (ou 1o. de abril). Os textos relembram os acontecimentos que derrubaram o presidente João Goulart e instauraram o regime autoritário que se prolongou por mais de vinte anos (1964-1985), e cujos reflexos ainda estão presentes na vida dos brasileiros.


Em A Revolução dos Caranguejos, Carlos Heitor Cony relembra sua atuação na imprensa durante o ano do golpe e conta as perseguições que sofreu – tanto do regime militar como de setores da esquerda. O escritor evoca o dia 1o. de abril de 1964 e uma caminhada em Copacabana na companhia do poeta Carlos Drummond de Andrade. Desse passeio resultaria a primeira – e ácida – crônica de Cony sobre o golpe. Os textos do escritor no jornal Correio da Manhã motivaram um pedido de prisão e um processo, movidos contra ele pelo então ministro da guerra, Arthur da Costa e Silva, além de lhe renderem o patrulhamento da ala esquerdista que considerava seus romances e crônicas “alienados”.
Em Um voluntário da pátria, Zuenir Ventura rememora os acontecimentos que precipitaram o golpe militar, como o Comício das Reformas na Central do Brasil, em 13 de março, ao qual compareceram 300 mil pessoas, entre as quais o próprio Zuenir. No dia do golpe, o jornalista estava em Brasília, onde deveria assumir uma cadeira de professor na Escola de Comunicação da UnB. Sua descrição daquele dia é uma crônica preciosa porque inédita: ninguém ainda havia narrado o desenrolar dos fatos em Brasília, fora dos círculos oficiais. Zuenir relembra sua surpresa ao constatar que “pegar em armas” podia ser mais do que uma expressão retórica.


Em Mãe Judia, 1964, Moacyr Scliar cria uma narrativa de ficção sobre o intricado caso psiquiátrico em que um médico recém-formado toma conhecimento do monólogo de uma paciente do hospital em que trabalha. Trata-se de uma senhora judia que enlouqueceu depois
Luis Fernando Verissimo compõe em A mancha uma narrativa de ficção ao mesmo tempo divertida e dolorosa. É a história de Rogério, um homem de meia idade, ex-prisioneiro do regime militar. Por obra do acaso, ele descobre, anos depois, ao ver uma mancha no carpete de um imóvel que pretende comprar, a sala em que havia sido torturado. O texto de Verissimo discute a dupla e paradoxal necessidade de quem viveu na carne a violência do regime autoritário: lembrar os acontecimentos extremos que marcaram aquele período, mas também esquecê-los, abandoná-los no passado para não inviabilizar a vida presente.

Bom dia para os defuntos

fevereiro 17, 2011

Considero que essa obra, que li já faz muito tempo, se enquadre na série “Literatura engajada” e tenha muito a ver com os anos 60 e as luta do povo humilde da América Latina contra as forças que o oprime e massacra. Penso também, como o Jarbas, que toda a arte que mereça levar esse nome seja engajada. O livro de Manuel Scorsa com certeza merece estar nessa galeria, pois é literatura da melhor qualidade e profundamente engajada com a realidade dos povos latino-americanos e particularmente do Peru, seu país e cenário onde seus “defuntos” emergem como denúncia de uma realidade cruel e desumana. Antonio Morales

Esta é uma obra bastante rara e pouco conhecida da literatura latino-americana. O escritor peruano Manuel Scorza conta em: “Bom Dia Para os Defuntos” os acontecimentos da luta do povo peruano, entre os anos de 1950 e 1962, em que os camponeses se organizaram para recuperar suas terras que foram roubadas por latifundiários e por uma empresa norte-americana, a Cerro de Pasco Corporation, que estavam explorando as jazidas ricas em minérios da região do altiplano do Peru.

A história teve um desfecho trágico que resultou no massacre de camponeses revoltados com a exploração da burguesia nacional e internacional contra o povo peruano.

Em tom quase documental, Manuel Scorza faz um relato bastante real e comovente deste importante fato da história do Peru.

Esta obra é de grande sucesso no Peru e sua publicação e enorme repercussão entre a população peruana fez com que as autoridades deste país libertasse o principal líder da revolta dos camponeses, Héctor Chacón, que ficou preso durante onze anos em uma prisão localizada no meio da floresta amazônica peruana.

O autor

De origem peruana, Manuel Scorza, é um dos principais escritores do século XX no Peru. Seu maior mérito é descrever histórias reais com sutileza em que mistura fantasia e realidade de maneira bastante peculiar.

“Manoel Scorza nasceu em Lima, Peru, em 9 de setembro de 1929. Estudou em colégio militar e cursou Literatura na Universidade de San Marcos, em Lima, e na Universidade do México. Participante ativo das lutas sociais de seu país, foi preso e expulso do Peru na ditadura do General Odría. Em 1948, experimentou o exílio pela primeira vez, e durante sete anos percorreu quase toda a América Latina. Voltou ao Peru em 1956.

A partir de 1960, participou de grande rebelião camponesa dos Andes Centrais, militante ativo das lutas do movimento indígena, denunciou publicamente a matança e, por isso, foi acusado de “ataque às Forças Armadas”. Seu livro de maior impacto Bom Dia para os Defuntos (Civilização Brasileira, 1975) – Redoble por Rancas (Editorial Planeta, 1970), no original peruano – é livro que vem empolgando os leitores de todos os países onde já foi publicado: Espanha, Itália, França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, para citar alguns.

Trata-se de um romance-testemunho. Ou, como diz o próprio autor: é a crônica exasperadamente real de uma luta solitária: “a que, entre 1950 e 1962, travaram nos Andes Centrais os homens de alguns povoados que apenas figuram nos mapas militares dos destacamentos que os arrasaram”.
Ipso facto, “os protagonistas, os crimes, a traição e a grandeza, quase todos têm aqui os seus nomes verdadeiros”. Alguns nomes, no entanto, foram modificados: “para proteger os justos contra a justiça” – adverte o romancista.

É o relato dos conflitos entre campônios e latifundiários e, ainda, a Cero de Pasco Corporation, empresa norte-americana que explora as jazidas minerais da região e reserva um milhão de hectares de terra para a engorda do gado de sua Secção Agrícola – firma que, em seu último balanço, apresentou um lucro líquido de cinco milhões de dólares. A luta travada foi epopéica, mas terminou com o massacre dos rebeldes ante as forças repressivas peruanas e os capangas dos grandes proprietários de terras.

Nesse romance realista, marcado pelo patético e o trágico, o burlesco e o fantástico, o absurdo e o cruel, há que se ressaltar o admirável domínio da fatura literária que Manuel Scorza exibe.

Há que se ressaltar, também, – como já o fizeram os seus críticos latino-americanos e europeus – “a potência devastadora da ironia e do humor”, típicos do real maravilhoso. Isto levo-o pela segunda vez a deixar seu país, buscando então refúgio na França onde viveu por 10 anos.

E é precisamente neste período que conclui sua trilogia, narradas entre Paris e Lima originalmente com o nome La Danza Imóvil (1983). Retornou ao Peru em 1978. Faleceu em 27 de novembro de 1983, aos 54 anos, num acidente aéreo ocorrido na Espanha.”

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará