Archive for fevereiro \23\UTC 2008

Galeria Metrópole

fevereiro 23, 2008

Ela está lá até hoje, no boulevard (avenida) São Luís. Ainda bonita, mas decadente. Gente mais nova que passa por ali não imagina que a Galeria Metrópole foi um dos big spots da cidade de São Paulo nos anos sessenta. As galerias, aliás, precedem os shopping centers. Eram locais onde flanava a classe média paulistana em busca de diversão. A Metróple tinha um cinema de primeira água, bonito e confortável. Vi grandes filmes naquele cinemão. Queimada foi um deles. E no dia em que assisti a tal clássico do cinema, encontrei pela derradeira vez com um antigo colega do IFT (Instituto de Formação Teológica), o Maurício Soares, hoje economista do DIEESE que ouço eventualmente no rádio falando de desemprego.

No subsolo da Metróple havia nos sessenta um boteco famoso, o Ponto de Encontro. Poetas de vanguarda costumavam se encontrar no pedaço. Um deles era o Zanella, seminarista camiliano, cuja obra não aparece na Web. Zanella tinha um grande amigo poeta que pontificava no pedaço, Lindolf Bell. Eu achava que, assim como Zanella, Linfolf foi fogo de palha. Mas semana passada, a Folha anunciou que um de seus livros é leitura obrigatória para o vestibular de uma grande universidade. Em 68, num show levado no CRUSP, vi um cara muito doido recitar versos de Linfolf Bell. E lembro-me até hoje de algumas linhas que provocaram muito escândalo:

Deus?

Deus é um poste onde os homens mijam.

E esta outra, que definia alguma situação que minha memória não guardou:

… orgasmo de prostituta cansada.

Ao ouvir esta ultima linha, Lena, uma menina das ciências sociais, perguntou ao Paulo Campanaro, da física: “o que é orgasmo?”. Tem gente que não acredita que muitas mocinhas dos sessenta eram inocentes. Mas a Lena era. E eu acho que a partir da explicação do Paulo, ela se apaixonou. Os dois se casaram. Em 69 refugiaram-se no Chile. Depois disso perdi o rastro do casal.

Para quem não se lembra ou não viu, deixo aqui no final uma foto de cena de Queimada, filme de Pontecorvo, com Marlon Brando. Vale a pena ver ou rever.

Jarbas

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Das variações e limitações da memória 2

fevereiro 22, 2008

Não consigo, de imediato, formar uma imagem clara dos sonhos que tinha ao entrar no curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia e Letras de Rio Claro, em 1968. É difícil separar esses sonhos dos de agora. É difícil pensar na pessoa que fui sem a interferência daquela que me tornei. No entanto, é importante fazer um exercício de recordação isento da vivência posterior. Isso permitiria precisar a influência da vida universitária, dos acontecimentos de 1968 e dos anos seguintes na fixação dos valores que orientariam a trajetória futura.

Para este espaço, penso que não vale a pena fuçar na busca daqueles sonhos mais pessoais e juvenis: amores, trabalhos, feitos, aventuras, heroísmos, glórias e reconhecimentos… Percebo que consigo recuperar com mais facilidade tais sonhos. Talvez porque tivessem ficado congelados na memória. Nela protegidos dos embates da vida e da labuta que viriam depois.

Para a proposta do Arquivo68, é importante a recuperação dos sonhos políticos. Dos sonhos referentes ao destino e o futuro da sociedade em que vivia e vivo.  Neste caso, sinto necessário um esforço maior para a separação do ontem e do hoje. Constato, já no início da introspecção, que a minha formação política era parca para produzir grandes e elaboradas visões de futuro.

A considerada boa escola pública da época contribuiu muito pouco nessa formação. Mesmo este pouco foi mais conseqüência de eventos extracurriculares. Lembro especialmente de uma montagem da peça Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Flávio Rangel, feita pela nossa turma do terceiro científico noturno. A montagem venceu um concurso de teatro, promovido pelo Instituto de Educação Joaquim Ribeiro, em 1967(?). Observe-se que, se o concurso foi promovido pelo colégio, a escolha da peça foi da turma.

Na construção de meus sonhos políticos, mais que a escola, as leituras foram decisivas. Desde menino, lia desesperadamente. Li a Bíblia três vezes. Lia tudo que me caia nas mãos, especialmente romances. Dois deles marcaram-me especialmente: a trilogia Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado, e Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo.

O trabalho com meu pai na feira livre, desde os 12 anos, foi outra vivência marcante. Ele me permitia um contato freqüente com o campo e com os problemas vividos pelos pequenos produtores rurais, que nos vendiam os produtos que depois comercializávamos. Permitia também o contato com pessoas de diferentes classes sociais, seus valores e seus preconceitos. Trabalhava na feira ainda em 1968. Frequentemente entregava, pela manhã, na cantina da FAFI, as laranjas que me seriam vendidas como suco, à tarde. É compreensível que a música Menino das Laranjas, cantada por Elis Regina, me tocasse então.

Finalmente, a igreja progressista e o grupo de jovens (JOVEUNIÃO) foram uma influência política marcante.

Que sonho esse conjunto de influências ajudou a construir? Acho que nada de muito diferente dos ideais da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, com ênfase especial para a liberdade e para a igualdade econômica. Um repúdio às grandes disparidades de renda e à pobreza. Ainda não tinha formulado, escolhido ou valorizado nenhum instrumento ou mecanismo político que ajudasse a concretizar o sonho. Mas só a aspiração à liberdade já era muito para aquele tempo.

Küller

Histórias daqueles tempos !

fevereiro 21, 2008

Uma pequena história de um pouco antes de 68. Se não me engano foi em 66 ou 67. Eu trabalhava, como professor primário, na zona rural do Municípío de Sete Barras, perto de Registro.

Naquele ano tinha vindo, para a trabalhar na região, um amigo de Ribeirão Preto. Figura inesquecível em seu mais de 1:80m de altura e pouco mais de 65 kg de peso: magérrimo e com a cara do Caetano, que nesta época ainda vivia, desconhecido do mundo,  lá quietinho com a dona Nonô.

Em seu primeiro ano na região já dava mostra de sua inquietude: primeiramente resolveu comprar uma égua. Arguí do péssimo negócio na medida em que ele, como eu, planejava  sair, no fim daquele ano letivo, daquela escola para uma outra melhor localizada. Nada feito: comprou a égua que foi, no final do ano, vendida ao antigo dono pela metade do preço. Doutra feita, quando vínhamos,  de São Paulo para Registro este amigo se enrabichou, no ônibus,  com uma loira oxigenadíssima que ia para Curitiba. Resolveu ir para Curitiba, atrás de seu novo amor,  deixando suas malas por minha conta. No dia seguinte chega, todo desenxavido, na pensão onde morávamos; me contou que na rodoviária de Curitiba estava, esperando pela sua loira,  um mulato enorme, que logo que a vê lhe dá um forte abraço, um beijo ardente  e, sem mesmo olhar para trás, lá se foram os dois,  todo agarradinhos, deixando-o solitário e triste na fria plataforma.

Aí resolveu comprar nada mais, nada menos, que uma Winchester!!!

Para que? Não sabia, mas comprou.

Fomos , em um feriado prolongado, para Ribeirão Preto ver nossas famílias e com o amigo, claro,  sua Winchester. Na volta para Sete Barras uma pequena coincidência e muito azar: naquele dia seria desbaratada a reunião dos estudantes em Ibiúna, na qual, entre os presos, figurava o José Dirceu, se não me engano o Travassos e um grande amigo meu de Pedregulho, o Pedro Franco.

Fomos abordados – na naquele dia vigiadíssima Estação Rodoviária de São Paulo – por dois agentes da Polícia Civil que nos arguiu: para onde íamos?  o que fazíamos por lá?  e o pior: o que este amigo tinha dentro daquele enorme embrulho de papel pardo?

– “São flores secas.”

Frente a inteligentíssima resposta o próximo passo foi nossa ida  para um pequeno posto da Polícia Civil onde as “flores secas” foram desembrulhads e um interrogatório enorme e interminável aconteceu; documentos e fichas foram consultados, novas fichas foram abertas, demorados e longos telefonemas realizados e  o que nos salvou, creio, foi minha juventude, capacidade de argumentação e o principalmente o fato de que – realmente – não estávamos sabendo da reunião de Ibiuna.  Fomos liberados depois de, junto com dois agentes, comprarmos as passagens na velha Viação Nove de Julho para Registro e o compromisso de, chegando em nosso destino, telefonarmos para o escritório da Polícia Civil da Rodoviária…  

Esquecemos de cumprir este nosso compromisso.

Outra história, esta sim depois de 68…com certeza, penso, que foi em 69.

Uma tarde estávamos, em fila, frente o restaurante do CRUSP esperando a abertura do bandeijão para o jantar. Uma de nossas diversões, na época, era impedir ao máximo o “fura-fila” e o fazíamos da seguinte forma: ao ver alguém furar a fila em nossa frente , eu e a amiga Lu, simplesmente caminhávamos até frente dos “furões” e ali estacionávamos,  ganhando, muitas vezes, dezenas de posições para a tão esperada refeição. Claro que toda vez que isso acontecia era uma gritaria enorme, pequenas confusões e atritos mas quase sempre terminava com novos amigos… era assim .

Só que, naquela semana, a Polícia havia, finalmente, invadido a USP e os soldados tinham que mostrar serviço; assim, frente a primeira inocente algazarra, resolveram administrar o que sempre fazíamos por nossa conta. Fomos colocados, todos, em fila indiana a no mínimo um metro de distância um do outro, proibidos de conversar, assoviar … nos obrigaram a ficar calados sob o olhar atento  e armado dos soldados com seus fuzis; para uma fila de mais ou menos quarenta estudantes, nada menos que sessenta soldados,   lembro que fiz a conta e concluí que mesmo que não tivessem armados e resolvêssemos sair no tapa perderíamos feio: eram quase que dois por um…   

Outra história , esta, já na década 80.

Trabalhava, então, no Senac de Santo André e era comum, naquela época, distribuirmos panfletos para divulgar nossos cursos. Aí começa a história.

Um dos funcionários da unidade veio falar comigo que tinha recebido um primo que viera do norte tentar a vida em Santo André e que o mesmo poderia, face a um pequeno pagamento, se encarregar da distribuição dos panfletos… E lá vai o amigo do funcionário para frente da Estação Ferroviária distribuir os panfletos dos nossos cursos de Auxiliar de Departamento Pessoal, Secretária Júnior …

O ABC era, na época,  importante centro de atividades e movimentos operários e então…

A praça em frente a estação ferroviária fervilhava de operários e de soldados e o nosso novo colaborador nordestino, vê, na aglomeração, a oportunidade de cumprir sua função e inicia, com ardor, seu trabalho; só que a polícia vê em sua atitude uma afronta e lá vem cacetete. O rapaz tenta se explicar e, como resposta, mais cacetete.

Esbaforido o rapaz chega em minha sala entrega o restante dos panfletos, diz que apanhou muito e que não imaginava como tínhamos tido a coragem de lhe oferecer, por  tão perigoso e arriscado serviço, quantia tão pequena.

Paguei o prometido.

Orlando Nascimento

O trem pagador

fevereiro 19, 2008

trem
Vejam só: eu sou do tempo em que ainda existia trem pagador.
Mais que isso. Eu viajei, quando era menino, no trem pagador da
antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Como neto e filho de ferroviários há muitas histórias da ferrovia
para contar. Vou começar com essa do trem pagador que inspirou
um célebre filme brasileiro – O ASSALTO AO TREM PAGADOR.

Isso foi nos idos da década de 60, mais ou menos entre 1960 e 1964,
quando eu tinha entre 11 e 15 anos.

Imaginem: o trem pagador, que era composto por um carro pagador e uma locomotiva, estacionava num desvio em cada cidade para pagar o salário mensal dos ferroviários, que recebiam em dinheiro vivo, fazendo fila no guichê do pagador para receber seus envelopes. Coisa inimaginável nos dias de hoje.

Vou contar as minhas lembranças aos poucos.

Antonio Morales

De volta para o Ceará

fevereiro 19, 2008

República da rua Dr. José Cândido de Sousa, 58, Jardim Novo Mundo. Anos 1968/9. Uma experiência ousada dos padres agostinianos naqueles tempos de aggiornamento da Igreja. Doze estudantes de teologia e três padres desgarrados receberam um sobradão para viverem de modo bastante independente, sem as amarras tradicionais do seminário e do convento. Apesar de pertencermos a uma mesma e tradicional ordem da Igreja, vivíamos naquela casa como estudantes de qualquer república digna do nome. E no clima intensamente politizado da época, fazíamos escolhas que os demais companheiros de casa desconheciam. Por razões de segurança ninguém curiosiava em demasia as inclinações políticas de cada um.

A república recebia hóspedes inusitados. Em 1994 encontrei-me com Emiliana Casagrande e ela me relembrou um episódio do qual me havia esquecido. Ela se casara com um de nossos antigos companheiros de ordem, o Delfino, no Interior do estado do rio de Janeiro. Na viagem de núpcias em 1968, o casal passou uns dias na república da rua José Cândido de Sousa!

Um dia, no finalzinho de 1968, Zé Agostinho, conhecido como “O Anjo” desde que atuara em “As Troianas” no TESE (Teatro da faculdade Sedes Sapientiae) em 1965, chegou em casa com três rapazes do Ceará. Disse-nos que eles eram militantes da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e estavam precisando de abrigo. Aceitamos os cearenses. Eles se integraram à república. Semanas depois um deles, menino pequeno e magro, se foi para um alojamento mais próximo do centro da cidade. Perdemos contato com ele por algum tempo.

Uma noite o pequeno cearense apareceu em casa. Tinha ferimentos generalizados pelo corpo e estava apavorado. Contou-nos que fora preso numa incerta da polícia e passara a noite anterior apanhando e sendo interrogado numa delegacia. Deve ter contado que era da UBES e vinha do Ceará. Os meganhas soltaram-no numa travessa da Consolação com o seguinte aviso: “volte para a sua terra até amanhã, caso contrário você corre o risco de ser morto num ‘atropelamento”. Ele nos disse que não havia entregue nossa república. Por isso estava ali à procura de socorro, uma vez que nem a UBES nem seu grupo político poderia ser buscado naquele momento.

Saí à procura de gente que pudesse levantar uma grana para a viagem do cearense. Não consegui ajuda. No dia seguinte fui até o convento dos dominicanos e conversei com o Tito Alencar sobre o que seria possível fazer pelo seu conterrâneo. Armamos um esquema de retirada do menino magrinho. Mas ainda faltava a grana. O Tito sugeriu que pedíssemos ajuda à Therezinha Zerbini. Fomos até a casa dela. Obtivemos a ajuda necessária. Mas faltava ainda retirar o cearense de São Paulo. Não podíamos colocá-lo num ônibus sem a necessária cautela e segurança. Bolamos um plano de viagem por etapas. Em cada ponto do caminho, o cearense, se necessário, poderia se alojar em alguma casa religiosa de confiança. A primeira etapa seria São Paulo/Rio. Viajei com o menino até o Rio, onde eu poderia utilizar uma das casas dos agostinianos  como abrigo. Verificamos a segurança. Tudo parecia OK. Decidimos então que não seria preciso uma viagem por etapas. Assim, despachei o moço da UBES diretamente para Fortaleza e voltei para São Paulo. Três dias depois recebemos telegrama vindo do Ceará com a senha para “cheguei bem, estou em segurança”.

Jarbas

Duelo na Maria Antônia

fevereiro 14, 2008

rua-maria-antonia.jpgNão pense em violência. Não vou falar de quebra-quebras nem de conflitos entre a Filosofia e membros do CCC do Mackenzie. Vou apenas registrar uma lembrança meio apagada de um episódio acontecido nos idos de 1968.

Eu era um dos membros da CG (Coordenação Geral do ME) . Vivia mais na Maria Antônia que no IFT (Instituto de Formação Teológica de São Paulo), minha escola de origem. Para muitos companheiros, era um bicho estranho. Afinal de contas, o que fazia um estudante de teologia num dos órgãos de liderança do movimento? Muitos anos depois, uma colega da CG (a Eliana da FAAP) me disse que a turma achava estranho que eu não me parecesse com os padrecos. Alguns estudantes encarnavam e queriam me testar de muitos modos. Um deles era o João das Ciências Sociais, irmão do Mané, liderança da Educação Física.

Era umas nove da noite. Entrei no Cientista (o boteco mais afamado da Maria Antônia na época) para comer a única coisa que meu apertado orçamento permitia: um misto quente. Não cheguei a fazer o pedido. No banquinho do lado estava o João que já foi me desafiando: “cê não é de nada, aposto que não consegue me acompanhar numas cachaças”. Achei aquilo um desaforo. O João não sabia com quem estava falando… Aceitei o desafio nos meus termos: encomendar e dar conta sozinho de uma garrafa de pinga. Meu adversário topou. Bebi a garrafa. Já não sei em quanto tempo. Acho que o João não chegou até o fim. Perdeu.

Não sei o que aconteceu depois que saí do Cientista. Umas horas daquele dia nunca entraram em minha memória. Tudo que me resta de lembrança foi ter acordado no dia seguinte sobre a mesa de ping-pong, usada como apoio para corte de papel, numa gráfica de amigos, no andar superior do conhecido bar do Zé. Nunca mais tomei cachaça com o João das Ciências Sociais.

Jarbas

Uma história de amizade e quase amor.

fevereiro 12, 2008

Esta é uma estória que eu quero muito contar. Foi há muito tempo… Conheci a Rita na Faculdade. Ela era uns dois anos mais adiantada e junto com o Pedro, Isac e o Luís formávamos lá um timinho. Os tempos eram difíceis. A Universidade, à força, calada pela ditadura militar e a gente por lá. Amigos eram presos, amigos de amigos eram assassinados e uma tristeza grande abatia a todos. 

Rita era uma mulher alta, pernas longas, seios pequenos, quadris largos e um rosto grande e doce. Os óculos enormes, sempre presentes, escondiam a miopia de seis graus nos olhos castanhos; a boca era grande, dentes branquíssimos e um sorriso fraterno, nada sensual. Nos tornamos amigos.

Conversávamos muito e, nos penúltimos tempos, o assunto era quase sempre a possível contradição entre a necessidade de uma vida pessoal rica e o engajamento político. Naqueles tempos de então, vivíamos um momento em que vários amigos deixavam de ouvir uma boa música se a mesma não fosse comprometida com “as classes menos favorecidas”.

Ir ao Morumbi ver um jogo era “pecado mortal”. Enfim, para grande parte do grupo com o qual nos relacionávamos, tudo teria que estar ligado à  causa maior: a revolução. Com a voz doce de contralto, nossa Rita discordava. Em conversa no Pingão, lá no Arouche, afirmava e reafirmava sua convicção da necessidade de uma vida interior rica, desafiadora e de fraterno compromisso com as pessoas próximas. Isto muito antes da primeira batida de limão, da porção de calabresa e da sempre indecorosa, e sempre aceita, proposta do Pedro de sairmos apressados da mesa, claro que sem pagar.

Era Rita que sempre me salvava: enfiava meus braços entre os seus e, assim, de braços dados, segura, me guiava, trêmulo, por entre as mesas. Os passos só deveriam se tornar rápidos já na calçada.  Eu sempre reclamava que, por causa de uma “porcaria” de uma pinga, poderíamos, um bando de barbudos, cair nas mãos do Fleuri como passarinhos. E aí, até provar que as barbas eram apenas para encantar as garotas, haveria um longo e tortuoso processo. Pouco depois, já ríamos muito e, com o dinheiro economizado pelas pingas tomadas e não pagas, comíamos acarajés, em uma barraca da República. 

Uma outra penúltima longa conversa ocorreu entre nós. Havíamos jantado juntos, no bandejão do CRUSP, e não fomos à aula, pois teríamos muito o que falar. O convite para participar da “luta armada” fora formalizado e Rita era dúvida só. Talvez não acreditasse na forma da luta, mas acreditava na sinceridade e honestidade do grupo que a convidara. Conversamos um tempão no seu fusca e foi a primeira vez em que, no toque de mão que tivemos, morria um pouco da amizade para começar a nascer um outro forte sentimento.  

Vieram as férias de julho nos afastando por uns dias. Chegou agosto e continuamos a nos ver. A amizade parecia constranger o amor que teimava em nascer. Um outro encontro, fora do ambiente escolar, aconteceu à noite, em um pequeno bar, no centro. Os convites para participar da luta armada continuavam, suas dúvidas permaneciam.

Naquela noite, em nosso encontro, aguardávamos um seu amigo da liderança do grupo que a convidara para a clandestinidade.  Tudo mais ou menos secreto: o grupo confiava, e com razão, em Rita, e ela em mim. Marcos, o seu amigo, aparece e, naquela noite, antes da cerveja que sempre bebia, pede o fusca emprestado para transportar “material”  para um outro canto da cidade.Solidária, Rita entrega os documentos e a chave do fusca e ficamos a conversar, esperando a volta  do amigo.

Naquele encontro, não nos tocamos. Falamos da vida, dos amigos da escola, falamos mal dos professores, da faculdade, do festival da canção. Já estávamos na terceira guaraná quando volta o Marcos. Tenso: ele e mais dois companheiros haviam desconfiado que estavam sendo seguidos e resolveram parar e estacionar na Cásper Líbero. Desceram do carro para circular por perto e verificar se realmente havia perigo. No carro estacionado, o “material” a ser transportado.

As lanternas acesas do fusca, ou uma possível perseguição, chamou a atenção de policiais e o “material” tão próximo do DOPS atraiu o Fleuri e seus lacaios.  Os documentos haviam ficado no carro. Perna para quem tem, cada um para um lado. Fui a pé até a Cidade Universitária, onde morava.  Para Rita, agora, duas opções: ser presa e torturada ou a clandestinidade. Escolheu a luta armada e a clandestinidade. 

A primeira notícia sua tive uns dois meses depois daquele encontro e com a notícia a possibilidade de revê-la. Tudo teria que ser meticulosamente planejado pelo grupo. A mim caberia comparecer ao encontro, acatando as orientações dadas pelo contato ou, em nome da amizade por Rita e pela sua segurança, emitir um sinal de desistência: no caso, raspar a barba, mas deixar o bigode.  

Decidi continuar por lá, com minha barba rala e meus bigodes: queria muito vê-la. Pouco depois, a orientação mudou: o contato me informa que, caso eu quisesse mesmo vê-la, deveria cortar a barba e, mais uma vez, deixar o bigode. Raspei a barba e deixei o bigode. Na biblioteca da escola, onde trabalhava à noite, o contato me dá uma semana para, agora, raspar o bigode.Raspei. 

Chegou o dia. O encontro seria na Vila Prudente. Havia recebido, do contato, informações do local do encontro, do horário e, tenso, esperei os quinze minutos definidos. Nada da Rita. E a ordem era, caso isso ocorresse, sair rapidamente. Eu não deveria, também, seguindo orientação do contato, voltar de lá para o “ponto certo”, ou seja, para onde morava, mas,sim, procurar um outro lugar para passar o resto da tarde e a noite. Aproveitei e fui visitar um amigo lá de Pedregulho, que morava em uma pensão na Penha.

A barba e bigode continuavam raspados.  A turma de amigos da escola se dividia: um lado querendo que eu deixasse a barba crescer e outro lado não. Um lado dizia que eu ficava mais bonito sem barba – a cara do Vandré –  e o outro lado dizia que eu deveria, imediatamente, deixar novamente a barba crescer: era assim que um cara de esquerda deveria se “produzir”.  

O contato marca um outro encontro: na manhã seguinte, de uma quinta feira, em uma ruazinha lá na Vila Maria. Eu deveria ficar frente a um ponto de ônibus, próximo ao número 467 da tal rua, lendo um exemplar do DIÁRIO DE NOTÍCIAS do dia. Na hora prevista, da esquina da rua, a uns trinta metros do ponto de ônibus, surge uma mulher alta, óculos escuros, peruca loira cobrindo os ombros, rebolando acintosamente os quadris largos e sacolejando uma enorme bolsa de ráfia. Era Rita: uma perfeita prostituta do baixo meretrício, escandalosa e bela.

A instrução era de que eu só deveria segui-la caso ela, na outra calçada, ultrapassasse o ponto de ônibus e me fizesse algum tipo de convite. Eu ansioso e, apesar de seus passos largos, os trinta metros não passavam nunca. Até que, do outro lado da calçada,  de sua voz de contralto, vem um indecoroso convite: “Vamos fazer neném, meu amor?”  

Eu lá trêmulo, frente à minha tão querida prostituta, querendo correr e abraçá-la, o que, evidentemente, segundo as orientações do contato, nos colocaria em perigo. Assim que ela virou a esquina, acatando as prévias orientações, fui atrás. Como em uma corrida de bastão, seus passos diminuíram o ritmo e os meus, ao contrário, aceleram. Eu deveria, ao abordá-la, fazer uma pergunta que tivesse alguma  conexão com o seu convite.  Lá vai: “Você topa com camisinha?” Sua resposta – sim ou não – definiria a continuidade, ou não, do encontro.  

Ela topou “com camisinha” e coloquei as mãos sobre seus ombros. Era o máximo permitido. Nem a forte e grosseira maquilagem escondeu o rubor em suas faces. Falamos pouco e choramos. Andamos por uns quinze minutos, eu  com a mão em seus ombros largos, quando do nada surge um DKW, que pára ao nosso lado, a porta se abre e lá se vai a minha Rita tão querida. 

O “aparelho” em São Paulo foi desbaratado e, por uns meses, notícia nenhuma. Soube, depois, que ela estava  no Rio.  Um ano já se havia passado após nosso encontro. Seu irmão, um dia, na Universidade, me disse que a possibilidade de sua ida para a França, na  semana seguinte, era dada como certa. Passaporte falso já havia sido providenciado e passagem estava comprada. Rita, mesmo contrariada, havia aceito esta opção. 

Estava, uns dois dias depois, no escritório, trabalhando, e recebo um telefonema de um amigo: Rita havia sido metralhada no Rio. O aparelho fora desbaratado e, além de Rita, mais dois estudantes guerrilheiros foram assassinados. Não tinha com quem compartilhar minha dor.

Chorei. Dia seguinte, na Folha, uma pequena nota do desbaratamento de “mais” um aparelho, mas não apontava o nome dos mortos. O enterro se deu na Consolação. Seu outro irmão, médico cirurgião plástico, a maquiou. Tirou dela toda aquela máscara de prostituta e devolveu-lhe sua verdadeira face: doce e serena. Chorei muito.  

Orlando Nascimento     

Das variações e limitações da memória

fevereiro 12, 2008

 Meus caros

Para quem levanta o cálice, cabe o sacrifício! Vamos às memórias de 68…

Em 68, entrei na Faculdade. Por um conjunto de necessidades objetivas e de influências ocasionais, entrei em Pedagogia. Vinha da escola pública (IE), do noturno, do científico (exatas) e morava em um bairro operário que circundava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI?) de Rio Claro (Brasil, SP). Hoje, uma unidade da UNESP. Da minha casa até a sala de aula não era preciso andar mais do que 300 metros. Os mundos às vezes são separados por pequenas distâncias e unidos por longas caminhadas.

A década de 60 e a minha juventude, como a de todos, foram plenas de acontecimentos marcantes. Se fora escolher uma música que me tocava e tocava na época ficaria em dúvida entre Alegria, Alegria (Caetano) e A Banda (Chico), além de muitas mais, algumas da chamada “velha guarda” e outras muito “cafonas”(Agnaldo Timóteo – “Se eu demoro mais aqui …”) que, depois, teria vergonha de revelar.  O ano de 68 e seu contexto político não marcariam, a não ser muito de raspão, a minha vida extra-universitária. Foi decisivo entrar e estar na universidade para que o ano de 1968 tivesse um significado especial em minha vida.

Ao pensar a minha vivência do ano 1968, é que emergiu o título do post. As memórias mais marcantes ainda são da vida antiga. Imagens dos papos com meus amigos do grupo de jovens (JOVEUNIÃO), que tinha sede em um barracão da paróquia, cuja Igreja dividia a esquina com a Faculdade. Igreja e Faculdade estavam em cantos opostos da mesma esquina. Há muito simbolismo para explorar por aí!

Depois das aulas, tirava os sapatos e jogava bola com os meninos ligados à JOVEUNIÃO. Eles mantinham um campinho de futebol com muita terra e pouca grama, bem em frente do prédio principal da FAFI, hoje um jardim com árvores frondosas. Para mim, essas árvores são testemunhas vivas do tempo que passa.  

As lembranças da vivência universitária são menos claras. Lembro que passamos um longo tempo do ano de 68 em Assembléia Permanente. Se a memória ainda é boa, discutíamos ou pretendia-se discutir o Acordo MEC-USAID. Chegando a esse ponto, percebo que preciso pesquisar mais para que a névoa se dissipe. O que propunha mesmo o dito Acordo MEC-USAID que fui convencido a repudiar tanto?

De dentro das limitações da memória, descubro algo importante. Comecei minha vida universitária e a minha carreira de educador discutindo os rumos da educação nacional. Nunca mais a minha reflexão pedagógica deixou de ter essa dimensão. Qualquer que fosse a teoria, a prática ou a praxis em relevo,  jamais consegui fazê-la tópica. Sempre dava uma dimensão nacional à proposta e procurava ver se ela era boa para o povo da minha terra e para meu país.

Vejo agora o fundo explicável de algumas brigas que tive. Esse fundo não redime meus erros e meus repentes de arrogância. Mas, é algo que pretendo conservar.  É algo de bom que aprendi em 1968.

 Küller

Hasta Siempre Che Guevara

fevereiro 11, 2008

Música, humana música

fevereiro 11, 2008

Tem gente que pensa em usar música para promover isso ou aquilo. Pensa em música como veículo de educação, de venda, de etc. Não gosto disso. A música é sua própria explicação. Ela é uma das dimensões de vida que nos faz humanos. (Quem não aprecia música é apenas meio humano…)
Em post recente, o Tonhão falou de uma canção gravada por Peter, Paul & Mary: Cruel War. Emocionante. Mas eu acho que a canção que melhor expressa os sentimentos pacifistas das gentes que lutavam contra a guerra do Vietnã é Where Have All the Flowers Gone? Por isso fui ao Youtube para ver essa grande obra de Pete Seeger. Há várias versões no ar. A mais emocionante é uma gravação recente em que PP&M cantam com o autor. O público, composto por pessoas em todas as faixas de idade, canta junto com o trio e Pete. Emoção pura. Quase choro. Para um aperitivo, coloquei, no post passado, link para um show de Pete Seeger na Suécia, em 1968. Um outro dia vou indicar mais versões de Flowers aqui, com destaque para a gravação de PP&M com Pete Seeger.

Recentemente andei levantando parte da obra de uma grande cantante dos anos 60, Soledad Bravo. Ela tem um álbum inteiro de canções latino-americanas revolucionárias. No próximo post vou colocar aqui uma delas, Comandante Che Guevara, num vídeo que está no Youtube.

Jarbas

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