25. Brasil, 1968 – Assalto ao Céu, descida ao Inferno

Por Mário Maestri*

Os inícios dos anos 1960 haviam sido contraditórios para as lutas sociais no mundo. Em 1964, sob a orientação colaboracionista do Partido Comunista, o movimento popular brasileiro fora derrotado sem lutar. Em 1965-6, a mesma política facilitara o massacre de um milhão e meio de comunistas e a consolidação da ditadura na Indonésia. O assassinato do líder marroquino socialista Ben Barka, na França, em outubro de 1965, e a deposição de Ben Bella, por Boumedienne, na Argélia, em junho do mesmo ano, registravam também os limites da luta pela emancipação social, sob a direção de classes burguesas nacionais tidas como progressistas.

A década iniciara-se também sob signos auspiciosos. Nas barbas do gigante imperialista, em 1959, a partir da Sierra Maestra, um grupo de jovens revolucionários galvanizara a população da pequena ilha e vergara a ditadura odiada. Dois anos mais tarde, a revolução cubana assumia caráter claramente socialista. Em abril de 1961, o fiasco da invasão imperialista da baía dos Porcos aumentara a humilhação estadunidense. Sobretudo, na Indochina, avançava incessantemente a luta armada das forças populares vietnamitas, apesar dos ingentes recursos militares empregados pelos USA.

A derrota brasileira

A derrota no Brasil pesara fortemente sobre a conjuntura mundial. No início da década de sessenta, amplos setores populares e médios haviam aderido às propostas de difusas reformas de base que, prometia-se, resgatariam os marginais das cidades e dos campos e relançariam o industrialismo que modernizara relativamente, nas três décadas anteriores, a anacrônica estrutura rural da nação. Em 1964, o projeto nacional-reformista fora abortado violentamente. Em nome das classes proprietárias do país, os militares impuseram a ditadura, reprimindo duramente o movimento popular. A derrota fora ainda mais frustrante porque ocorrera sem qualquer resistência, precisamente quando muitos se julgavam a um passo da vitória.

Os grandes líderes populistas — Jango, Brizola e Arraes — abandonaram o país sem resistirem. Brizola propusera, inutilmente, oposição de última hora, rejeitada terminantemente pelo presidente João Goulart, seu cunhado. O Partido Comunista Brasileiro, a grande organização da esquerda, de orientação pró-soviética, mantivera até o triste fim do governo constitucional seu atrelamento ao populismo nacionalista, emperrando a organização autônoma dos trabalhadores. Após o golpe de 1964, o Partidão reafirmou sem qualquer autocrítica sua política colaboracionista.

Porém, no Brasil, a euforia dos vencedores seria curta. Através do mundo, a crise capitalista mundial, que se insinuaria nas principais economias mundiais, em 1967, por primeira vez, após longos anos de crescimento ininterrupto, exigia que trabalhadores e assalariados apertassem os cintos, para que o grande capital tirasse suas castanhas do fogo. Desde abril de 1964, os militares brasileiros intervieram nos sindicatos; parlamentares populares tiveram os direitos políticos cassados; militares democratas foram reformados; conquistas sociais foram confiscadas; a renda da classe média e dos trabalhadores despencou devido à violenta política recessiva ditada pelo grande capital ao governo subserviente do ditador Castelo Branco [1964-67].

O desemprego aumentava. A inflação crescia. As classes médias passavam desiludidas para a oposição, após haverem marchado, em março de 1964, com Deus, pela pátria e pela família, convocadas pelo imperialismo, pela Igreja e pelos partidos de direita, preparando a intervenção militar que salvaria o país da “ditadura sindicalista”. Políticos anti-populares, ou que haviam apoiado o golpe, como Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek, marginalizados do poder, uniram-se a João Goulart em uma efêmera “Frente Ampla”, em fins de 1966, ao compreender que os militares pretendiam eternizar-se no poder.

Poder Negro

A situação internacional era tensa e dinâmica. Após o fiasco dos regimes árabes conservadores, com destaque para o Egito, a Síria e a Jordânia, na Guerra dos Seis Dias, contra Israel, de inícios de junho 1967, a guerrilha palestina assumia a luta anti-sionista em lugar das direções conservadoras desmoralizadas. Com a crise econômica chegando aos USA, em boa parte devido aos gastos de guerra, que antes haviam apenas garantido lucros ao grande capital, o movimento pacifista estadunidense questionava duramente a intervenção no Vietnã e os valores do american way of life. O imperialismo yankee era golpeado no próprio ventre. Malcolm X fora assassinado em fevereiro de 1965, em Nova York, mas o black power fortalecia-se e os bairros negros ardiam sob o fogo do ódio da população humilhada. Os hispano-estadunidenses e as próprias populações ameríndias levantavam também a cabeça. No Vietnã, em 30 de janeiro 1968, morreriam os sonhos de vitória militar, com a ofensiva do Ano Ted, durante a qual os vietcongs atacaram mais de trinta cidades sul-vietnamitas e a própria embaixada USA, em Saigon. Entretanto, a classe operária estadunidense mantinha-se imóvel sob a hegemonia do grande capital.

De 31 de julho a 10 de agosto de 1967, reunia-se, em Havana, Cuba, o primeiro encontro internacional da Organização Latino-Americana de Solidariedade [OLAS]. Após teorizar sumária e superficialmente a experiência vivida na ilha, a direção cubana propunha claramente a generalização incondicional da luta guerrilheira rural – “Criar um, dois, mil Vietnãs”. Ainda que em forma confusa e voluntarista, a OLAS rompia o monopólio político soviético, que defendia, na América Latina e através do mundo, a colaboração e subordinação do movimento popular às burguesias nacionais, apresentadas como progressistas. A presença de Carlos Marighella no encontro da OLAS, noticiada amplamente, ao ser conhecida no Brasil, levou à expulsão do conhecido militante comunista do PCB. A captura e morte de Guevara, em 8 de outubro de 1967, na selva boliviana, foi vista com um duro percalço no longo caminho a ser trilhado, e não como resultado das inconseqüências da proposta de início da luta armada por pequenos grupos à margem das lutas e da consciência reais dos trabalhadores.

No Brasil, como na França, na Itália, na Alemanha Federal, no Japão, no México e em tantas outras regiões do mundo, 1968 abriria-se sob o signo da resistência já explícita. A crise econômica de 1967 levara a que o movimento operário brasileiro, lutando contra o arrocho salarial, se recuperasse, minimamente, dos golpes sofridos. Em 16 de abril, mil e duzentos operários da siderúrgica Belgo-Mineira cruzavam os braços, em Contagem, Minas Gerais. Logo, dezesseis mil trabalhadores encontravam-se em greve. O movimento encerrou-se, no início do mês seguinte, com um abono salarial de 10%. No 1° de maio de 1968, outra importante vitória. O governador Abreu Sodré e sua comitiva, convidados por sindicalistas pelegos e do PCB para subir ao palanque da praça da Sé, foram vaiados, escorraçados e obrigados a refugiar-se na catedral paulistana. Os participantes do comício queimaram o palanque e partiram em passeata. No mês seguinte, eclodiram breves paralisações nas montadoras de São Bernardo.

Paris brûle-t-il?

Em maio, fortíssimos ventos europeus avivavam o braseiro nacional. A cidade de Paris e, a seguir, a França, foram convulsionadas pelo estudantado universitário enragé. Muito logo, o movimento operário iniciou dura e longa greve geral. O governo De Gaulle recuou, a ordem burguesa tremeu, falou-se em governo popular, antes que o Partido Comunista Francês canalizasse a mobilização da rua e as ocupações de fábrica para a luta institucional, enterrando-as sob um estrondoso fracasso eleitoral. O maio francês galvanizou o mundo, colocando quase nas sombras as lutas estudantis e operárias igualmente muito duras na Itália e na própria Alemanha Federal, avivada neste último país pelo atentado ao líder estudantil Rudi Dutschke, em 11 de abril de 1968. No mesmo mês era assassinado Martin Luther King, em Memphis, Tennessee. Na França, lutara-se contra o autoritarismo, contra a discriminação, contra os privilégios, pelo socialismo operário e democrático. Uma geração de líderes de vinte anos conquistava a juventude do mundo, com seu radicalismo, inconformismo, desprendimento, coerência — Daniel Cohn-Bendit, Alain Krivine, Jacques Sauvageot, etc.

A vitória cubana impusera o princípio de que a revolução iniciaria pela ação exemplar de alguns guerrilheiros. Em 1967, o foquismo seria teorizado, em “Revolução na revolução?”, pelo jovem francês Regis Debrey, intelectual de rápida vocação guerrilheira de pouco sucesso. Se o foco não pudesse ser lançada no campo, seria iniciado na cidade. Desde janeiro de 1967, o ativismo dos Guardas Vermelhas contra a restauração capitalista, hoje plenamente vitoriosa, prestigiava o maoísmo, sobretudo entre os jovens católicos radicalizados. A ação das organizações trotskistas na França propagandearam o marxismo-revolucionário, o anti-stalinismo, o anti-burocrático, tornando a seguir Ernest Mandel figura pública mundial.

Fragilizado pela derrota de 1964, o PCB explodia em uma constelação de grupos radicalizados. Jovens chegados em boa parte da Juventude Universitária Católica [JUC] e da Juventude Operária Católica [JOC] aderiam à luta anti-imperialista e anti-capitalista. Então, o Brasil conhece uma multiplicidade de pequenas organizações revolucionárias — ALN, PCBR, AP, POLOP, VAR-Palmares, POC, Fração Bolchevique-Trotskista, MRT, etc. – com algumas centenas de militantes, mais comumente de 17 a 25 anos, e abrangência em geral regional. A juventude universitária e secundarista abraçava a luta política, cultural e ideológica, com destemor, magnanimidade e impaciência. Saia às ruas pichando – literalmente, pois, na época, não havia o spray – “Mais verbas e menos canhões”; “Um, dois, mil Vietnãs”, “O povo unido derruba a ditadura”, “Viva a aliança operário-estudantil”. Conscientes que não há prática sem teoria, os jovens militantes liam sem cessar, sobretudo história, economia, sociologia — A revolução russa, de Trotsky; O diário na Bolívia, de Guevara; os três Profetas, de Isaac Deutscher; A revolução brasileira, de Caio Prado Júnior; O livro vermelho, de Mao; os Poemas do Cárcere, de Ho Chi Minh.

Em 1968, por primeira vez no Brasil, a Civilização Brasileira publicava O capital, de Kark Marx. Militantes imberbes devoravam os grossos volumes, de fio a pavio, página por página, sem compreenderem muito. Estudavam-se e debatiam-se os mínimos detalhes da revolução russa, chinesa e cubana, ainda que fosse bem menor o interesse sobre a história do Brasil, sobretudo do período anterior a 1930, durante o qual as categorias da sociologia do capitalismo não eram plenamente funcionais. Pelo país afora, discutia-se e polemizava-se duramente. O futuro estava ao alcance da mão. Abraçavam-se as nuvens, em um assalto aos céus.

A cultura é do povo

A explosão de criatividade invadiu as artes, sobretudo a música, o teatro, o cinema, a produção editorial nacionais. Uma estética radical de raízes tupiniquins garantia momentos de glória ao cinema nacional. Nélson Pereira dos Santos filmara o clássico “Vidas Secas”, em 1963, e Anselmo Duarte conquistara Cannes, com o “Pagador de Promessas”, de 1962. O quase menino Glauber Rocha dirigira “Terra em Transe”, em 1967, e concluiria, em 1969, “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”. Filmaria a grande mobilização carioca de 1968, para projeto cinematográfico jamais concretizado. Bertolt Brecht era uma constante nos teatros nacionais — “Os fuzis da senhora Carrar”; “Galileu Galilei”; “A ópera dos três vinténs”; “Mãe coragem e seus filhos”. A dramaturgia nacional plantava raízes próprias com “Liberdade, liberdade” e “Arena conta Zumbi”, de 1965, “Arena conta Tiradentes”, de 1967, e com encenações explosivas como “Roda-viva”, de 1968, objeto de ataques de grupos pára-militares direitistas.

Em um país de poucos leitores, com a televisão ainda gatinhando, o combate cultural enfuriava, quando se tratava da música popular. Apenas parcialmente inconscientes do papel que cumpriam, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderléia e a turma da “Jovem Guarda” pregavam a despolitização é só pediam “que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá para o inferno”. A esquerda dominava totalmente o campo, com uma seleção que só aceitava craques: Caetano, Chico, Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Vinícius de Morais, etc. Quando dos festivais da canção, a disputa politizada transformava-se em uma quase batalha campal.

Através da música, debatiam-se os projetos para o futuro do país. Em uma época sem cerimônias, iconoclasta, o público levantava-se contra os monstros sagrados que construía, caso ousassem sair da linha, ou do que se pensava que fosse a linha. Em 28 de março de 1968, três dias antes do quarto aniversário do golpe, as polícias militares do Exército e da Aeronáutica invadem o restaurante do Calabouço, no Rio de Janeiro, e disparam, a queima-roupa, contra os estudantes, matando Édison Luís de Lima Souto, de 18 anos. No dia seguinte, sexta-feira, a antiga capital da República pára para que sessenta mil populares acompanhem a despedida ao secundarista. A resposta é violenta.

Por diversos dias, a cidade tornou-se campo de acirrada batalha. De um lado, estudantes e populares. Do outro, polícia e exército. Universitários, secundaristas e populares são mortos. Ao deslocarem-se pelas ruas do Centro, os soldados protegem-se debaixo das marquises dos objetos atirados desde os edifícios. Um policial militar, a cavalo, morre ao receber na cabeça um pesado balde ainda carregando cimento fresco, lançado desde um edifício em construção.

Cem mil contra a ditadura

A agitação estudantil alastra-se pelo Brasil, com manifestações nas principais capitais. Na quarta-feira, 26 de junho, o movimento alcança seu ápice. No Rio de Janeiro, cem mil manifestantes concentram-se na Cinelândia e desfilam pelo Centro, em uma demonstração permitida pelo governo. Cinqüenta mil pessoas protestam nas ruas de Recife. As grandes manifestações alcançam efeito inesperado. Dias mais tarde, uma comissão da “Passeata dos Cem Mil”, do Rio de Janeiro, é recebida, em Brasília, pelo ditador Costa e Silva. Entre os membros da delegação encontra-se um representante da UNE, entidade colocada na ilegalidade, imediatamente após o golpe. Entretanto, o encontro não tem conseqüências.

A mobilização operária levara a oposição sindical a planejar um amplo movimento grevista para o fim do ano, quando da data-base de importantes categorias. A explosão das manifestações de junho aceleraria a greve. Em 16 de julho, José Ibrahim, presidente do sindicato dos metalúrgicos, de Osasco, de 20 anos, ligado à organização militarista VPR, põe-se à frente de uma paralização da COBRASMA, com ocupação da empresa e aprisionamento dos funcionários graduados, à qual aderem dez mil trabalhadores, de outras indústrias. O movimento exige reajuste de 35%, reposição salarial cada três meses e outras reivindicações. A ditadura militar responde violentamente. Centenas de trabalhadores são presos e despedidos. A COBRASMA é invadida. José Ibrahim mergulhou na clandestinidade, de onde partiria, mais tarde, para o Chile e, a seguir, para a Bélgica. Zequinha, dirigente operário da COBRASMA, é preso e torturado. Após cinco dias, a greve quebrava-se. Uma segunda paralisação, em Contagem, Minas Gerais, em outubro, é reprimida com facilidade. A greve geral do fim do ano jamais seria tentada.

No país, decresce a mobilização. Em 12 de outubro, o movimento estudantil, espinha dorsal da oposição, recebe forte golpe. Subestimando a repressão, a direção da UNE reúne, para seu 30° Congresso, em um sítio em Ibiúna, cidadezinha do interior de São Paulo, milhares de delegados, de todo o país. A prisão dos participantes permite a detenção das direções e o mapeamento das lideranças estudantis do norte ao sul do país. No mesmo dia em que caía o congresso de Ibiúna, era varado pelas balas de um comando militar da VPR, diante de sua residência, em São Paulo, o capitão estadunidense Charles Chandler, funcionário da CIA, estudando Sociologia no Brasil. Os dois acontecimentos ilustravam a orientação que viveria a resistência nos anos seguintes. Ações armadas de grupos de corajosos jovens militantes, isolados socialmente, pretendendo substituir-se ao movimento de massas em refluxo. Em 2 de outubro, na capital mexicana, na Praça das Três Culturas, de duzentos a trezentos estudantes e populares foram massacrados pelo exército e policiais, durante concentração, dez dias antes do início dos Jogos Olímpicos, que se realizaram sem quaisquer pruridos morais.

Sobretudo de 1969 a 1973, organizações de esquerda militaristas, inspiradas no foquismo guevarista, lançariam ações espetaculares — assaltos a bancos; seqüestros de embaixadores e de aviões; execuções de torturadores; guerrilhas rurais etc. — sem que os trabalhadores urbanos e rurais aderissem à proposta de luta armada imediata, milhões de anos-luz longe de suas consciências, necessidades e capacidade de organização, na época. Isoladas, as organizações seriam dizimadas, uma após a outra, pela repressão, que se estenderia igualmente aos militantes voltados para a organização dos trabalhadores e classes populares. Por esses anos, automóveis da nova classe média ascendente invadiam as ruas portanto o autocolante “Brasil: ame-o ou deixe-o”, distribuído pela repressão, simples tradução da consigna direitista estadunidense “America love it or leave it”.

Sem lenço nem documento

Em 28 de setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção, da Globo, em São Paulo, acompanhado pelos Mutantes, Caetano Veloso apresenta a música “É proibido, proibir”, vestido de roupas de plástico colorido, com colares exóticos no pescoço, enquanto um jovem estadunidense, ainda mais psicodélico, salta e berra no palco, como parte da coreografia. Da competição participava a canção finalista “Caminhando” [“Para Não Dizer que Não Falei das Flores”], de Geraldo Vandré, que se tornaria uma espécie de hino da resistência. “Vem, vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer.” As históricas vaias que recebe Caetano Veloso certamente interpretavam a consciência do público, formado quase exclusivamente por jovens, do distanciamento cada vez maior de parte da intelectualidade da resistência em refluxo.

Em 1972, Elis Regina cantaria querer apenas “uma casa no campo, do tamanho ideal …”. A defecção de seu parceiro Jair Rodrigues – “O morro não tem vez/ e o que ele fez já foi demais/ Mas olhem bem vocês/ Quando derem vez ao morro/ Toda a cidade vai cantar./” – seria ainda mais bucólica. Nos anos seguintes, apenas alguns artistas continuariam segurando a peteca e cutucando a onça com vara curta. Entre eles, sobretudo Chico Buarque, atacando nem que fosse com um despretensioso roquezinho, no estilo “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, ou com composições clássicas e duras como “Fado tropical”, com Ruy Guerra, de 1972-3, ou “Cálice”, de 1975, com Gilberto Gil. Seu “Apesar de você”, de 1970, tornaria-se o hino da luta final contra a Ditadura e da esperança de uma reparação dos crimes por ela cometidos que até hoje não se concretizou – “Hoje você é quem manda/ Falou, tá falado/ Não tem discussão”; “Você vai pagar e é dobrado/ Cada lágrima rolada/ Nesse meu penar”.

O ano, que nascera sob o signo da vontade popular, concluía-se sob o tacão militar. A resistência iniciava sua descida aos infernos. Em 29 de agosto de 1968, tropas policiais e militares, poderosamente armadas, invadiam a Universidade de Brasília. As cenas registradas pela imprensa lembravam a ação das tropas de ocupação nazistas. Estudantes são obrigados a marchar com as mãos à cabeça e a deitar-se, sob as miras das armas. O golpe seria desferido dias mais tarde. Um anódino pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, em 2 e 3 de setembro, pedindo o boicote da população ao desfile de Sete de Setembro, serve para que os militares apresentem o pedido de levantamento da imunidade do parlamentar, a fim de instaurarem o processo que desagravaria o pundonor castrense arranhado. Em 12 de dezembro, o Congresso Nacional rechaça o pedido aviltante. No dia seguinte, 13 de dezembro de 1968, o governo liquida o que restava de liberdade democrática. O caso Márcio Moreira Alves era uma justificativa. No início do ano, em abril, o brigadeiro João Paulo Burnier propusera ao Parasar, serviço de salvamento da Aeronáutica, uma ampla campanha terrorista, com execuções individuais e atentados de massa, para fechar de todo o regime. O plano fora frustrado devido à oposição do capitão-aviador Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, castigado e reformado pelo seu destemor. O Ato Institucional nº 5 cerrou o Congresso, as Assembléias Legislativas, suspende o habeas-corpus, fortaleceu a censura, preparou o caminho para a repressão, para o aprisionamento, para a tortura, para a eliminação dos opositores.

O refluxo da mobilização popular tinha raízes muito mais profundas do que a repressão. Elas haviam passado despercebidas a uma oposição formada, em sua grande maioria, por jovens que apenas despertavam para a vida política. Desde inícios de 1968, após anos de recessão, a economia nacional expandia-se. A super-exploração dos trabalhadores, o ingresso de capitais internacionais, a reorientação da produção para a exportação, a abertura de novos mercados, etc. relançavam a produção interna. O desemprego caía, a acumulação de capitais crescia, o empresariado nacional apegava-se ao regime que permitia aumentar fortemente seus ganhos. Agora, para os empresários, falar em democracia e direitos sindicais era uma indecência. Ao contrário, eles pediam, com insistência, mais repressão, chegando a financiar e participar diretamente da tortura, junto a policiais e militares. Nas décadas seguintes, a população nacional pagaria pateticamente a conta social e econômica do Milagre. Em meados de 1968, a expansão econômica e a repressão policial ganhavam vastos setores sociais, sobretudo das classes médias, para uma posição de apatia, se não de apoio inicialmente tíbio, a um regime militar que lhes prometia realizar os mais queridos desejos.

A queda da inflação, financiamentos habitacionais acessíveis, empréstimos a baixo custo permitiam que importantes setores das classes médias conquistassem o sonho da casa própria, do primeiro automóvel, da primeira viagem à Europa. Nos anos seguintes, ao visitar o Velho Mundo, os filhos do Milagre manteriam-se distantes dos apestados banidos e exilados que eventualmente encontravam. Em 1969, em “Pequeno burguês”, Martinho da Vila, criticava o movimento estudantil, festejando a possibilidade de formar-se nas universidades pagas, incentivadas pela Ditadura: “Dizem que sou burguês/ Muito privilegiado /Mas burgueses são vocês/.” Também explícitos eram Dom e Ravel, em 1970, com “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/. Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil./ Ninguém segura a juventude do Brasil.” O claro sucesso de público dessas músicas registrava os novos ventos.

Em um cenário de progressão social, as classes médias fechavam comumente os olhos para a super-exploração das classes operárias e para a repressão da oposição. Os militantes que haviam nadado como peixe na água, por entre uma população alçada contra o regime militar, sentiam-se agora como lambaris na frigideira. Nas Universidades, eram apontados com o dedo; antigos companheiros trocavam de calçada, para não serem vistos ou falarem com o famigerado subversivo. A expansão econômica neutralizaria importantes setores operários. Os baixos salários e os altos ritmos de produção foram vistos como uma quase libertação, por trabalhadores recém-chegados do campo. Jornadas de doze e mais horas de trabalho permitiam a aquisição de produtos de consumo durável, antes fora do alcance do orçamento popular — televisor, refrigerador, etc. Sobretudo a expansão da indústria metal-mecânica criaria uma jovem aristocracia operária, bem paga relativamente. Ela se confrontaria, poderosamente, com o regime, mais tarde, em fins dos anos 70, quando o retorno da inflação corroeria os salários.

Ousar lutar, ousar vencer

A modernização conservadora do país originaria um funcionalismo público federal bem remunerado, empregado nas grandes estatais, em expansão. O crescimento selvagem do ensino privado superior diminuía a pressão social devido à falta de vagas nas universidades públicas. As universidades federais foram reorganizadas, segundo padrões estadunidenses. Por primeira vez, criava-se uma burocracia acadêmica, bem paga e bem financiada, que mergulharia, em grande parte, por mais de uma década, em um calmo e cômodo apoliticismo travestido de neutra cientificade.

Isolados socialmente, insensíveis ao novo contexto nacional, as organizações armadas travaram, a partir de 1969, o combate nas trevas a que se refere Jacob Gorender, em seu livro homônimo, pequeno clássico sobre aqueles duros anos. Presos entre o confronto dos grupos armados e a repressão, as organizações que não haviam se deixado arrastar pela aventura militarista, tiveram suas possibilidades de intervenção duramente diminuídas, no contexto do confronto armado que se vivia no país. Incapaz de apresentarem um projeto político que interpretasse as necessidades das amplas massas e apresentasse formas de luta e de organização adaptadas à época, crescentemente isolada, a militância de esquerda caiu combatendo, foi aprisionada, tomou o caminho do exílio ou procurou sobreviver, na dura situação de ditadura. Nos mais duros momentos, agoniados pelo peso da derrota, centenas de militantes permaneceram no país, organizando a resistência como podiam.

A ditadura do capital, que parecia vacilar, em 1968, manteria-se ainda por longos anos, até 1985, quando a mobilização operária e popular conquistaria, finalmente, a redemocratização sem, porém, obter, no momento da transição, o direito a eleições diretas, conhecendo uma nova derrota, ao substituir-se ao regime militar governo que manteve no essencial as modificações institucionais empreendidas nos vinte anos de ditadura, em desfavor das classes subalternas, em favor dos privilegiados. De certo modo, simplesmente, “se mudava tudo, para que tudo ficasse igual”.
Aprofundada pela vitória da ofensiva neoliberal internacional de fins dos anos 1980, quarenta anos mais tarde, nesse 2008, a derrota de 1968 pesa ainda poderosamente sobre a vida nacional. Aquelas jornadas memoráveis são cada vez mais lembradas para, ainda com nostalgia condescendente, assinalar os muitos erros, os inúmeros enganos, para sugerir que jamais se devia ter combatido, que a batalha fora perdida, de antemão – como é o caso de Zuenir Ventura, em seu best-seller 1968 : o ano que não terminou. Neste 2008, permanece singularmente pertinente a concepção que sem “ousar lutar”, não é possível vencer e que não há pior derrota que a sofrida sem combate. As jornadas de 1968, no Brasil e no mundo, não constituem simples sucessos históricos a serem narrados. Passados quarenta anos, 1968 permanece como esfinge enigmática, exigindo que sejam desvelados seus complexos sentidos. Como poderoso farol, segue ainda indicando, mesmo muito longe, no horizonte, o caminho seguro a ser seguido.

Bibliografia sintética

ABREU, João Batista de. As Manobras da Informação: análise da cobertura jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Rio de Janeiro: Mauad, 2000.
ALMEIDA JR., Antônio Mendes de. Movimento Estudantil no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1981. (Tudo É História, 23.)
ALVES, Márcio Moreira. 68 Mudou o Mundo: a explosão dos sonhos e a guinada conservadora num ano que valeu por décadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993
GORENDER, Jacob. Combate nas trevas: A esquerda brasileira. Das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Ática, 1987
MARTINS FILHO, J.R. A rebelião estudantil: México, França e Brasil. Campinas: Mercado de Letras, 1996.
NÓVOA, Cristiane, NÓVOA, Jorge. Carlos Marighela: o homem por trás do mito. São Paulo: UNESP, 1999.
PONGE, Robert. [Org.] 1968: o ano das muitas primaveras. Porto Alegre: SMCPOA, 1998.
SANFELICE, José Luís. Movimento estudantil: A UNE na Resistência ao Golpe de 64. São Paulo: Cortez, 1986.
SANTOS, N.História da UNE: Depoimentos de Ex-Dirigentes. São Paulo:, Livramento, 1980.
SOUZA, Luiz. A.G. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984
SYRKIS, Alfredo. Os Carbonários: Memórias da Guerrilha Perdida. São Paulo, Global, 1980
VENTURA, Zuenir. 1968: O Ano que Não Terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

• Mário Maestri, 59 anos, é doutor em História pela UCL, Bélgica. É professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. Esteve preso, em 1968, quando estudante, e viveu, como refugiado, no Chile e na Bélgica, de 1971 a 1977. E-mail: maestri@via-rs.net

2 Respostas to “25. Brasil, 1968 – Assalto ao Céu, descida ao Inferno”

  1. antonio digigov Says:

    insubstituível Ibrahim . é tudo o que posso dizer. e força sempre….

  2. antonio digigov Says:

    Mario , esse maravilhoso estudo que fizeste nos leva a refletir…e temos a certeza deque se permanecermos ao lado do povo contra a burguesia, nos seremos vitoriosos.
    .
    abracos comunistas

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