Archive for the ‘indicação bibliográfica’ Category

Esquina 65

outubro 11, 2008

Para quem “curtiu” o texto 1968, de Sidnei Sauerbromn, é possível ler mais, mesmo antes que ele escreva de novo para Arquivo68. Ele publicou, modestamente designando-se coordenador, em 2006, pela Editora DOCUPRINT, o livro Esquina 65. Vou deixar que o próprio Sidão apresente o livro.

Esquina 65

“Em Novembro de 1965 foi tirada a foto que motivou esta “coletânea”.

Quarenta anos se passaram. Não via ou falava com as pessoas retratadas há cerca de 17 anos.

(…)

A foto mencionada está pendurada em uma parede em meu escritório. Retrata meus amigos. Conheço-os desde a infância, quando existia o Grupo Escolar. São eles, da esquerda para a direita: Savério, Sapo, Moreira, Pergola, Eraldo, Salim, Sidão (eu) e Celsinho.

Pois bem: uma série de motivos tais como nostalgia, insatisfação no trabalho, a necessidade de revê-los e, principalmente, o gosto pela pesquisa foi o que me levou a entrevistá-los, a colher depoimentos de cada um deles. São oito pessoas e, por trás desta foto, o Antonio Candido de Oliveira, que fotografou a turma.

Li alguma coisa sobre a representação fotográfica, a questão dos indícios e ou vestígios para a reconstrução da memória histórica. Assim, estabeleci um roteiro vago para colher os depoimentos e fui a campo.

Em cada depoimento, antes de fazer qualquer tipo de pergunta, apresentava a foto e pedia que falassem o que vinha à memória. 

(…)

Os depoimentos trazem uma série de referências (representações), que acabam sendo interessantes para o leitor que viveu a época ou busca informações sobre esse período.”

 No último parágrafo, novamente, Sidão é modesto. O livro é uma viagem no tempo. As pessoas (personagens, figuras,…) destacam-se da foto e suas falas cartografam um território inscrito em uma época de grandes transformações urbanas, culturais e políticas. A brilhante organização do texto afasta a comum aridez do formato entrevista, ao mesmo tempo que mantém o frescor e a emoção de acontecimentos, vivências e sentimentos que são expostos à luz pela primeira vez. Para quem viveu a época e, acredito, mesmo para quem dela só tem notícia, é uma leitura extremamente envolvente.

 Pensando bem, este blog é quase fruto de Esquina 65. Acho que, mesmo inconscientemente, fui influenciado pelo livro ao propor o tema deste blog. Os companheiros que propuseram o nome do blog não tinham conhecimento do livro. Mas, como forma de representação de um conteúdo, existe algo mais parecido do que Esquina 65 e Arquivo68?

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1968 por ai…

julho 1, 2008

Tenho insistido com vários amigos para que publiquem, neste espaço, suas memórias sobre 1968. No caso de Mouzar, o pedido não chegou a ser feito. Antes dele chegou um livro que cabia inteiro em Arquivo68. Por isso, solicitei ao Mouzar autorização para divulgá-lo aqui.

 

A ilustração a seguir é a cópia da primeira capa do livro: 1968, por aí – Memórias Burlescas da Ditadura, de Mouzar Benedito. Ao lado dela, reproduzimos o texto da contra-capa. A leitura do que vem entre uma e outra é uma viagem divertida no tempo. É também um grande prazer.

 

Um dia, numa palestra de Ariano Suassuna, eu o vi e ouvi louvar a capacidade do brasileiro de gozar os ditadores e a ditadura. Foi assim no Estado Novo, foi assim de 1964 a 85. Sem menosprezar os sofrimentos das vítimas, a indignidade dos ditadores e seus sequazes, o heroísmo da resistência, é preciso ter humor. Ser contra a ditadura e manter a alegria, fazer piadas sobre ela, era uma coisa que incomodava “os homens”.

 

Ao achar no meio de um livro esta foto perdida há muito tempo, me vi nela com uma cara de enorme felicidade, apesar de estar desempregado e na lista negra dos patrões, por conta da militância na imprensa alternativa.

 

Ela não é o que parece. O ano era de 1978, já não havia guerrilha no Brasil. A espingarda é de chumbinho e a pose é só uma pose mesmo. Estava difícil sobreviver, mas não me entreguei.

 

Por tudo isso, apesar do narcisismo (com essa beleza toda?) de colocá-la na capa, acho que é merecedora de fazer parte de um livro sobre “os anos de chumbo”.

 

Mouzar Benedito