1968

by

 

 

Por Sidnei Sauerbronn

 

Coloquei em vermelho o que eu tenho dúvidas. Está ótimo. É só terminar e mandar.

 

1968. Preguiça de qualquer data comemorativa.

Estou aqui em frente ao Arquivo 68. Um armário de aço verde, cheio de gavetas. Relatos engajados. 1968.

 

No buteco, a coisa mais esperada era chegar ao fim de ano e dizer às meninas um feliz 69.

A revista Veja número1 é desse ano.

A de número Zero trazia o Pelé na capa.

 

Freqüentava um “cursinho” em Santo André. Aprendi a noção da noção da “mais valia”, uma revolução na minha cabeça: as relações entre as coisas ficaram fáceis de entender. Aprendi que o culpado era culpado mesmo. Não era uma mera raiva. No bar lembro-me de uma transmissão em redes pelo rádio. Silêncio. Então Costa e Silva. Medo, cerveja e bauru. Ato número 8.

 

Um professor de origem japonesa (Jorge) explicou-me  algo + ou_ assim sobre a “mais valia”:

Estamos em uma fábrica de vassoura.

Materiais que compõe a vassoura: cabo de madeira, palha, lata e barbante (fios).

  • Madeira custa 20;
  • Palha custa 5;
  • Lata custa 30;
  • Barbante custa10.
  • Local custa 15 ao mês.

TODOS ESSES PREÇOS SÃO FIXOS no mercado. Salário custa  20

Total= 100

 

Vendo a vassoura a 110, para ter lucro. Porém, tem alguém vendendo a 108.

Não sei como o cara tá vendendo por isso. O que faço diminuo no único lugar possível, ou seja, no salário. Vendo a 107, passo a pagar um salário menor.  

Sidão, esse pedaço (do texto) não ficou claro, observa minha mulher lendo o que eu estou enviando ao Kuller.

O salário é o discutível, digo!

 

 

A estrada de ferro Santos Jundiaí era dos ingleses. Os Beatles também. Depois de ouvir o “álbum branco” virei beatle-maníaco.  Mesmo com toda bossa, com toda fossa… A gente vai levando…

Todo sábado. Por que é sábado!

E as pessoas…

Soube que o primo de um amigo meu que era terrorista (foi exilado posteriormente); pretendia tomar a Serra do Mar no caminho de Santos.

 

Mais do que qualquer droga, o que corria solto era música.

Geração que ainda aprendeu sílabas poéticas.

 

Perto da Vilinha em que eu morava (Vila Gabrilli) foi instalado um batalhão militar. Eu, ministrando aula de história em um curso de madureza, repeti a noção de “mais valia”. Tinha um espião, milico. Este resolveu se apresentar. Levantou a blusa de lã. Lá estava um revolver.

 

Se neste momento desse texto tivéssemos que ouvir uma música seria: “Mora na filosofia” do Noel, com Chico Buarque.

 

Quem ficou e quem saiu?

Roteiro que vai de Gabeira, Zé Dirceu, Fernando Henrique.

Sidnei (Sidão) Sauerbronn, Lula e o Zé (o do bar) e Jairo também, ficamos, e, calados. E os que voltaram depois, a maioria uma bela merda!

 

Lembro da ida à USP (1969), vestibular, eu e um japonês, tiros embaixo do carro.

Parou o trânsito.

Lembro de uma revista chamada de “práxis”. Foi a primeira vez que ouvi falar.

Na televisão o festival da música popular brasileira.

Baile com tema havaiano era comum.

Calça Lee.

Lança-perfume. Cachaça e pastéis. Cheiro de fritura.

Coleção de posters.

Música: Single Singers.

Gordini. Lamarca. Bar Beduíno (Santos)?

Cinema: “Um homem e uma mulher”.

TV: Festival.

Bebida: qualquer uma.

Dentista, um puta sofrimento.

“Vivência-experiência” a cada qual.

 

Passei longe da Igreja. Igreja, só quermesse.

Passei perto dos hippies, mas tinha aquela coisa de não tomar banho, não era comigo.

Teve a tropicália. Bom de ouvir, mas não de se cumprir. Como os hippies.

 

Tinha o Ford Gálaxi de um amigo meu, encheu de homens, seis, fomos a Rio Claro. Tocava no rádio “Baby”, com a Gal Costa.

Jhon Lenon falou: o sonho acabou.

Escrevi um telegrama.

 

E tinha a Lizete em Cornélio Procópio. Ela nem imaginava que iria se casar comigo.

Um amigo meu diz eu sou aquele da calça Lee, nas passeatas.

Tic,TAC tic tac. Tic tac. Tac,tic,tac,tic…

Ray Connif – La mer.

 

No trem, indo da estação da Luz para Santo André, um pequeno painel: União Soviética invade a Checoslováquia. Comenta uma senhora: é tá igual aqui.

Duprat com o pinico na mão.

Na vitrola Wandré.

(continua…)

 

 

Agosto de 1968.

 

Revolution (tradução)

The Beatles

Composição: Lennon / McCartney

Revolução

Você diz que você quer uma revolução
Bem, você sabe..
Todos nós queremos mudar o mundo
Você me diz que isso é uma evolução
Bem, você sabe
Todos nós queremos mudar o mundo
Mas quando você fala em destruição,
Você já sabe que não pode contar comigo
Não sabe que vai acabar tudo bem?
Tudo bem.. tudo bem…
Você diz que você tem a solução real
Bem, você sabe..
Todos nós adorariamos ver o plano
Você me pede uma contribuição
Bem, já sabe..
Todos nós fazemos o que podemos
Mas se você quer o dinheiro para pessoas que só tem odio na mente
Tudo o que posso dizer, irmão, você vai ter que esperar
Não sabe que vai acabar tudo bem?
Tudo bem, tudo bem
Você diz que você mudará a constituição
Bem, você sabe..
Todos nós queremos mudar a sua cabeça
Você me diz que isso é a instituição,
Bem, você sabe..
É melhor você libertar sua mente
Mas se você vai andar com fotos do camarada Mao
Também não vai convencer a ninguem
Não sabe que vai acabar tudo bem?
Tudo bem, tudo bem….
Ah, ah ah ah ah ah ah ah ah ah
Tudo bem, tudo bem, tudo bem
Tudo bem, tudo bem, tudo bem
Tudo bem, tudo bem, tudo bem
Ah, ah ah ah ah ah ah ah
Tudo bem, tudo bem

NADA BEM, porém… eu tive um sonho…outro  dia vi a Nara Leão e ela me disse: você não é de muita opinião.

Eu respondi:

Vamos até o Riviera.

 

[continua…].

 

Sidão

Tags: , , , , , , , , ,

7 Respostas to “1968”

  1. José Antonio Küller Says:

    Sidão

    Por exigência de edição do blog, dei um título ao seu texto que, você querendo, posso mudar.

    Recebi o texto com enorme satisfação. Você não tem idéia de como ele chegou em um momento importante. Já estava um pouco desanimado dessa empreitada. O número de autores não estava aumentando como eu tinha previsto de início. Salvo um ou dois, os demais autores estavam rareando seus textos. As dificuldades da vida aumentando…

    Seu texto chegou para mudar meu ânimo. Volto à luta, companheiro.
    Obrigado mais uma vez.

    Um abração

    Küller

  2. antoniomorales Says:

    Küller…poderia me dizer algo sobre o Sidão?
    Eu não conheci? Imagino que ele frequentava
    o Bar do Zé. Deduzo pelo trecho em que cita
    o Jairo.

    Noutro trecho ele cita uma viagem para Rio Claro.
    Alguma ligação?

    Outra coisa: está desanimado da empreitada?
    Por que? Isso é assim mesmo. Tem altos e baixos.
    Não vamos desistir por isso não. O blog pode até
    ficar menos dinâmico em termos de postagem, mas
    não considero isso motivo para desistir.

    abraço
    antonio morales

  3. José Antonio Küller Says:

    Tonhão

    Sidão foi meu colega de trabalho no CENAFOR e, ainda hoje, trabalha na Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) , da Secretaria de Educação de São Paulo. A FDE surgiu de uma fusão do CENAFOR, da Fundação do Livro Escolar (FLE) e do setor ou órgão (autarquia?) de construção e manutenção escolar da Secretaria da Educação. Ela “herdou”, inclusive, os funcionários que o CENAFOR e a FLE tinham na época. Sidão entre eles.

    Quando estava no CENAFOR, Sidão me era simpático, mas ainda não amigo do peito.

    Como você deve saber, saí do CENAFOR para ser diretor da área de infratores da FEBEM. Fui convidado para participar de um projeto de transformação da instituição para o “bem estar do menor”. O projeto era mudá- la de assistencialista e violentamente repressiva para uma organização educativa. Isso nos idos do governo Montoro. Como diretor da Divisão Técnica III (a divisão era responsável por vários presídios, o Amin sabe), indiquei e tive, durante algum tempo, o Jairo de Oliveira como meu assistente. Você o conheceu no SENAC SP. Trabalhava, em 1972, época em que você entrou no SENAC, com o Juvenal Alvarenga, hoje nosso colega de grupo no Yahoo. Chegou a ser nosso diretor.

    Fiquei pouco tempo na FEBEM. A tarefa era muito grande para o tamanho do homem. Vendo em retrospectiva, a missão parece ser maior do que qualquer homem ou mulher. Com minha saída, Jairo assumiu o meu lugar. Logo depois, ele também foi embora. O projeto educativo que tinha mobilizado muitos educadores foi abandonado. Pela impotência dos educadores? Por interesses políticos? Que interesses? Hoje, já não importa…

    Mas, a idéia de um projeto educativo para os jovens marginalizados ressurgiu, transformada, logo depois. Desta vez foi o Jairo quem me convidou. Acabei compondo com ele e mais quatro educadores a equipe dirigente da Escola Oficina do Parque Dom Pedro. Uma escola para crianças e jovens que moravam na rua, especialmente na Praça da Sé.

    Para a implementação, a equipe escolar foi contratada pela FLE. Por razões que agora não vem ao caso, a Escola Oficina foi desativada. Isso aconteceu na mesma época da criação da FDE. Jairo, como funcionário da FLE, acabou sendo “herdado” pela FDE. Eu também, que tinha saído da Escola Oficina antes da desativação, depois de algum tempo, passei a prestar serviços de consultoria à FDE. Assim nos reencontramos.

    O reencontro acabou resultando em compridas conversas (Jairo e Sidão; Jairo e eu; Jairo, Sidão e eu, Sidão e eu) e a respeito de tudo e de nada, ao longo dos anos. Conversas que criaram uma identificação, aproximaram e estreitaram ainda mais modos de ver o mundo. Conversas muitas vezes regadas à cerveja (daí o Bar do Zé) . Nem sempre. Não necessariamente. Pelo que me lembro, Sidão tinha amigos ou parentes em Rio Claro e passava por lá às vezes. Não nos conhecemos lá. Apenas uma coincidência. Significativa?

    Muito tempo de convivência. Atos e testemunhos de respeito. Cuidados. Ajudas. Jeito carinhoso no trato… Depois, Jairo adoeceu mais. Depois, Jairo morreu. Agora, com intervalos maiores do que seria gostoso, continuamos nos encontrando. Acho que posso dizer que Sidão eu somos amigos. E, se somos, tenho orgulho de ser amigo de uma cara como ele. Acho que o texto em que inserimos esse comentário diz um pouco(?) dele.

    Ao terminar o parágrafo anterior, percebo que simplifiquei o enredo e que estive a escamotear os fundamentos da construção de uma amizade. O que une duas pessoas e mantém uma amizade ao longo de uma vida? Não sei, tenho preguiça de sondar ou pouca coragem de dizer. O tema já foi objeto de muita escrita e prosa. Está muito além de um comentário, de um post, ou de uma tese.

    O velho Ordonhes (é assim que se escreve?), meu primeiro (e seu) diretor no SENAC, dizia que para se conhecer uma pessoa é necessário comer um saco de sal juntos. Comi um saco de sal com Sidão. Com você quase isso. Ele passou no teste. Você também.

    OBs: Não estou muito satisfeito com a formulação do último parágrafo, mas é alguma coisa por aí.

    Respondo à última pergunta em outro comentário. Este já está muito longo.

  4. antoniomorales Says:

    Sabia algumas coisas de sua “saga”. Infelizmente estivemos
    distantes por muito tempo e eu ia sabendo das coisas sobre
    você em pedaços descontínuos, com buracos de anos entre
    eles, que amigos comuns reportavam.

    Apesar disso nossa amizade se manteve e como você diz
    é difícil explicar como isso acontece. E acabamos de uma
    certa maneira a retomando por fatores difíceis de analisar e
    circunstâncias diversas.

    Arriscando um pouco eu diria que algo que mantém as amizades,
    entre outras coisas, é o partilhar de certos valores em comum que
    resistem ao tempo e á distância.

    Em tempo: salvo engano, ORDOÑEZ se escreve assim.

  5. Armando Says:

    Legal o post. Eu tinha apenas doze anos em 68 mas mesmo assim pude me sentir envolvido pelo clima de rebeldia e efervescência cultural daquele ano histórico.

    Fiquei me perguntando, pela forma como foi descrito o ambiente e a agitação no Bar Riviera, se ele não teria sido a inspiração para o trio Sá, Rodrix e Guarabira quando compuseram “Blue Riviera”, música que considero antológica e faz parte do meu repertório sentimental.

    Apenas para registro, a título de curiosidade: no nº 641, de 17/12/1980, da Revista Veja, com a matéria de capa sobre a morte de John Lennon, no corpo da matéria há uma tradução feita por Millôr Fernandes da musica “Revolution”. No verso onde aqui consta como “… Não sabe que vai acabar tudo bem? …” a tradução do Millôr diz: “… Você não sabe se tudo isso vai dar certo…” Não tenho comigo a letra original em inglês, mas dentro do contexto a segunda versão me parece que soa melhor.

    Volto a parabenizá-los pelo blog, já li alguns posts bem legais, e voltarei mais vezes. Um grande abraço.

  6. sidnei (sidão) Says:

    Armando,
    a tradução do Millor deve ser a correta.
    Mas, você há de compreender que foi por causa desse deslize que a Nara me convidou a ir ao Riviera para debater a dúvida: vai acabar bem? OU, vai dar certo?

  7. marilu Says:

    Sidão
    Que delicia “ler” vc…minha memória afetiva a toda: morei em santos, perto so bedíno, estudei na usp, vivi os anos rebeldes…e sou de conrelio, como a sua Lizete! rsrs Bjaoooooooo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: