Archive for the ‘Atos de solidariedade’ Category

Uma bandeira no Chá

março 24, 2008

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O movimento andava meio recolhido. Parecia que a ditadura tinha conseguido calar a boca de todo mundo. Aí, no Calabouço, mataram um estudante. A notícia gerou indignação. Passeatas com milhares de pessoas pipocaram Brasil afora. Aqui em São Paulo, quase dez mil pessoas foram para as ruas. Houve muita coisa espontânea. A violência da ditadura gerou protestos de gente que até então andava acomodada. As manifestações não obedeciam a rigidez da correção política com a qual as lideranças de esquerda sonhavam.

Fui para as ruas depois de uma assembléia marcada por um tom emocional no IFT (Instituto de Formação Teológica de São Paulo) . Éramos uns cem estudantes de teologia. Quase todos fomos para a passeata. A cada passo, cantava-se o hino nacional. E a multidão gritava a pleno pulmões: “Mataram um estudante, podia ser seu filho”. O episódio me jogou na militância full time. A partir do protesto pela morte do Edson Luís, comecei a atuar na CG (coordenação geral do movimento estudantil), deixando as aulas de lado, passando horas sem fim na Maria Antônia ocupada e tentando aumentar a base do movimento em contatos com faculdades isoladas da Grande São Paulo. Mas todas essas explicações estão me tirando do foco. O que quero mesmo é narrar uma cena de 68 que não me sai da memória.

Quarenta anos depois, vejo com nitidez aquele moço sobre o topo de um dos pilares do Viaduto do Chá. Ele estava lá em cima (na minha memória o topo de metro e meio de uma das colunas do viaduto parece ter muitos metros). Destemido, sem se apoiar em nada, aquele moço agitava uma imensa bandeira do Brasil. Cantava, como todos nós, o hino nacional mais uma vez. E até hoje, acho que ele era a síntese do nosso protesto. Parecia não ter qualquer receio. Agia como um herói que levantava um estandarte com muita coragem e dava assim coragem a todos nós. E tudo isso é uma construção de memória que foi crescendo com o tempo. Não me lembro de mais nada daquela passeata, mas o moço corajoso agitando nossa bandeira lá no alto continua a ser uma imagem que ainda posso ver como se as coisas tivessem rolando agora (a cena, aliás, fica mais nítida, cada dia que passa). Quem era ele? Não era nenhum líder. Ninguém conhecido. Era apenas um cidadão indignado e corajoso. Para mim era e sempre será um herói.

Jarbas

De volta para o Ceará

fevereiro 19, 2008

República da rua Dr. José Cândido de Sousa, 58, Jardim Novo Mundo. Anos 1968/9. Uma experiência ousada dos padres agostinianos naqueles tempos de aggiornamento da Igreja. Doze estudantes de teologia e três padres desgarrados receberam um sobradão para viverem de modo bastante independente, sem as amarras tradicionais do seminário e do convento. Apesar de pertencermos a uma mesma e tradicional ordem da Igreja, vivíamos naquela casa como estudantes de qualquer república digna do nome. E no clima intensamente politizado da época, fazíamos escolhas que os demais companheiros de casa desconheciam. Por razões de segurança ninguém curiosiava em demasia as inclinações políticas de cada um.

A república recebia hóspedes inusitados. Em 1994 encontrei-me com Emiliana Casagrande e ela me relembrou um episódio do qual me havia esquecido. Ela se casara com um de nossos antigos companheiros de ordem, o Delfino, no Interior do estado do rio de Janeiro. Na viagem de núpcias em 1968, o casal passou uns dias na república da rua José Cândido de Sousa!

Um dia, no finalzinho de 1968, Zé Agostinho, conhecido como “O Anjo” desde que atuara em “As Troianas” no TESE (Teatro da faculdade Sedes Sapientiae) em 1965, chegou em casa com três rapazes do Ceará. Disse-nos que eles eram militantes da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e estavam precisando de abrigo. Aceitamos os cearenses. Eles se integraram à república. Semanas depois um deles, menino pequeno e magro, se foi para um alojamento mais próximo do centro da cidade. Perdemos contato com ele por algum tempo.

Uma noite o pequeno cearense apareceu em casa. Tinha ferimentos generalizados pelo corpo e estava apavorado. Contou-nos que fora preso numa incerta da polícia e passara a noite anterior apanhando e sendo interrogado numa delegacia. Deve ter contado que era da UBES e vinha do Ceará. Os meganhas soltaram-no numa travessa da Consolação com o seguinte aviso: “volte para a sua terra até amanhã, caso contrário você corre o risco de ser morto num ‘atropelamento”. Ele nos disse que não havia entregue nossa república. Por isso estava ali à procura de socorro, uma vez que nem a UBES nem seu grupo político poderia ser buscado naquele momento.

Saí à procura de gente que pudesse levantar uma grana para a viagem do cearense. Não consegui ajuda. No dia seguinte fui até o convento dos dominicanos e conversei com o Tito Alencar sobre o que seria possível fazer pelo seu conterrâneo. Armamos um esquema de retirada do menino magrinho. Mas ainda faltava a grana. O Tito sugeriu que pedíssemos ajuda à Therezinha Zerbini. Fomos até a casa dela. Obtivemos a ajuda necessária. Mas faltava ainda retirar o cearense de São Paulo. Não podíamos colocá-lo num ônibus sem a necessária cautela e segurança. Bolamos um plano de viagem por etapas. Em cada ponto do caminho, o cearense, se necessário, poderia se alojar em alguma casa religiosa de confiança. A primeira etapa seria São Paulo/Rio. Viajei com o menino até o Rio, onde eu poderia utilizar uma das casas dos agostinianos  como abrigo. Verificamos a segurança. Tudo parecia OK. Decidimos então que não seria preciso uma viagem por etapas. Assim, despachei o moço da UBES diretamente para Fortaleza e voltei para São Paulo. Três dias depois recebemos telegrama vindo do Ceará com a senha para “cheguei bem, estou em segurança”.

Jarbas