34. O trágico fracasso da Primavera de Praga

Jan Puhl

No Ocidente, a geração de 1968 é vista normalmente sob uma ótica positiva. Mas os heróis da Primavera de Praga em 1968 vêem a si mesmos como fracassos históricos.

Ninguém se lembra exatamente para qual escritório o novo funcionário de Praga se mudou naquele dia de verão em 1970. Dizem que ele era muito simpático, alto e com um sorriso amigável, e que se instalou no segundo andar de um prédio público cinzento nos arredores de Bratislava. O governo comunista o havia enviado para fiscalizar a manutenção do equipamento florestal na capital eslovaca.

O simpático novo funcionário era um homem chamado Alexander Dubcek. Um ano antes de assumir o novo posto, ele ainda era o primeiro-secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia. Os líderes do Partido o retiraram do poder em abril de 1969, e mais tarde o transferiram para o trabalho na fiscalização florestal. Agora, Dubcek ia de bonde para o trabalho; e às vezes, generosamente oferecia seu assento para o homem do serviço secreto que o seguia de uma forma pouco dissimulada.

Alexander Dubcek foi o herói da famosa “Primavera de Praga”, o levante de 1968 esmagado pelos soviéticos há quase exatas quatro décadas. Dubcek era um reformista que queria dar uma “face humana” ao comunismo. Ele se tornou um ícone na Tchecoslováquia assim como uma esperança para os reformistas de outros países comunistas e socialistas. Mas o experimento da Tchecoslováquia se transformou em tragédia na noite de 21 de agosto de 1968, quando o país foi invadido pelos exércitos das nações do Pacto de Varsóvia. Os estudantes de Praga picharam num muro: “Lenin, acorde, eles ficaram loucos”. Imagens de pessoas desesperadas, sem nenhuma defesa, paradas em frente a tanques de guerra garantiram a atenção mundial e a simpatia pela rebelião da pequena Tchecoslováquia contra a enorme União Soviética.

Um novo tipo de democracia

A Primavera de Praga foi a última tentativa dos reformadores comunistas do Bloco do Leste de livrar seus países dos vestígios do stalinismo e descentralizar o sistema totalitário. Foi um ponto de ruptura histórico com um resultado deprimente. E então, no verão de 1968, doze anos depois da Revolução Húngara e sete anos depois que a Alemanha foi dividida em duas por um muro, uma poderosa ilusão morreu – a ilusão de que o sistema comunista poderia gradualmente evoluir para um novo tipo de democracia liberal.

O contraste entre Leste e Oeste nunca foi tão grande quanto naquela época. Enquanto os tanques entravam em Praga e os membros do movimento reformista eram presos, estudantes na Europa Ocidental tomavam as ruas para reivindicar mudanças mais amplas no governo e na sociedade. Na Alemanha, por exemplo, os manifestantes logo encontraram a amizade do chanceler Willy Brandt, que queria mais democracia e havia embarcado em um programa para melhorar as relações com o Leste.

Desde então, as referências à “geração de 68” têm dois significados bem diferentes. Para aqueles que cresceram no Leste, incluindo a chanceler alemã Angela Merkel, 1968 significa Praga, Dubcek, os tanques e o fim de uma ilusão. Para aqueles que nasceram no Oeste, o mesmo ano faz lembrar o líder estudantil Rudi Dutschke, protestos e o movimento estudantil, assim como o terror da “Facção do Exército Vermelho” de extrema-esquerda. Para os que viveram no Leste, 68 foi um fracasso histórico, enquanto que para o Oeste, o movimento de 68, como um todo, foi uma história de sucesso.

Inspecionando moto-serras

Na Tchecoslováquia, o fracasso do experimento teve conseqüências dramáticas a longo prazo. Autoridades locais do partido, com o apoio de Moscou, forçaram os instigadores do movimento a deixarem suas posições de liderança, um a um. No final, até mesmo o popular Dubcek foi enviado para Bratislava para inspecionar moto-serras.

Com seu nariz proeminente e olhar amigável, Pavol Dubcek lembra seu pai. Quando os soviéticos invadiram a Tchecoslováquia em 1968, o filho de Dubcek estudava medicina em Bratislava. Sentado no sofá na casa de sua avó, ouviu as janelas vibrando enquanto os tanques entravam na cidade. Na época, ele concluiu que toda a família seria deportada para a Sibéria. “E além disso”, diz ele, “nós tínhamos certeza de que eles executariam meu pai.” Afinal, foi o que foi feito com o reformista Imre Nagy depois da Revolução Húngara de 1956.

Mas Alexander Dubcek sobreviveu à invasão de seus companheiros socialistas. Ele e outros reformistas foram afastados para a margem da sociedade com a chamada “normalização”, um eufemismo para a remoção de indivíduos indesejados do poder. Dezenas de milhares de tchecos e eslovacos receberam tarefas como varrer ruas ou esvaziar latas de lixo.

Entre eles estava o escritor Ivan Klíma, que havia abraçado a Primavera de Praga e que, por esse motivo, foi proibido de publicar. Em 1988, logo depois que a mudança política chegou ao país, Klíma escreveu um livro chamado “Amor e Lixo” sobre seus anos como lixeiro. O escritor Milan Kundera deixou a Tchecoslováquia e ganhou reconhecimento mundial com livros como “A Insustentável Leveza do Ser”.

Cestmír Císar é um dos últimos homens vivos que trabalharam com Dubcek. Ele mora no sexto andar de um prédio de concreto da época soviética em Dablice, um empreendimento residencial em Praga, e o apartamento está cheio de livros, do chão até o teto. Císar acabou de publicar sua autobiografia, com 1.300 páginas, na qual ele fala com lirismo sobre o passado. “Nós nos erguemos para trazer de volta à vida as antigas tradições humanitárias tchecoslovacas”, disse. “Os jovens já não sabem mais nada sobre isso.”

Císar juntou-se ao Partido Comunista em 1945, quando tinha 25 anos. Ao contrário do que acontecia em outros países da Europa Oriental, os comunistas eram populares na Tchecoslováquia altamente industrializada depois da 2ª Guerra Mundial.

“Criando uma atmosfera de abertura”

Na época, depois do trauma da invasão de 1938 pela Alemanha nazista e a subseqüente divisão da Tchecoslováquia, parecia razoável para muitos tchecos e eslovacos formar uma aliança estreita com a União Soviética. Afinal, foram os poderes ocidentais que haviam dado carta branca a Hitler ao assinar o Acordo de Munique, que levou os nazistas a anexarem uma parte da Tchecoslováquia conhecida como Sudetenland.

Durante a Primavera de Praga, Císar foi integrante do Comitê Central do Partido Comunista, responsável pela educação, cultura e ciência. Foi ele que aboliu a censura – um movimento que o tornou um dos políticos mais queridos do país. “Queríamos superar o medo e criar uma atmosfera de abertura”, diz hoje. “Apenas colocamos em prática o que as pessoas estavam pensando.” Quando os tanques chegaram, Císar também teve de deixar sua posição no governo. Mais, tarde passou a sobreviver como varredor de rua.

Depois que a Primavera de Praga foi derrotada, a Tchecoslováquia caiu no silêncio. “A devastação mental e moral através do ‘processo de normalização’ foi o pior, mais do que a própria invasão”, diz Vojtech Mencl, encarregado de analisar os eventos entre 1967 e 1970 pelo novo governo democrático pós-1989. “A covardia moral tornou-se pré-requisito para a vida privada, a política era vista como suja e perigosa.”

O resultado, diz ele, foi que as coisas ficaram praticamente calmas em Praga, diferentemente de Budapeste ou Varsóvia, até novembro de 1989. A “Revolução de Veludo” da Tchecoslováquia não começou até que o Muro de Berlim fosse finalmente derrubado.

Depois de 1989, os regimes comunistas gradualmente entraram em colapso. Entre os reformistas da Tchecoslováquia de 1968, apenas Dubcek assumiu um pequeno papel político na nova revolução – mas os ideais da Primavera de Praga foram deixados para trás. Os novos líderes em Praga viram os socialistas de 68, já velhos, como sonhadores que haviam sacrificado suas vidas por um experimento fadado ao fracasso. O acadêmico Eduard Goldstücker, membro eslovaco da geração de 68, notou com decepção que a Primavera de Praga foi “enterrada” duas vezes: uma depois de 21 de agosto de 1968, e novamente depois do outono de 1989.

Terceiras vias

Os tchecos e eslovacos, em resumo, estavam cansados de experimentos. Eles queriam a liberdade – e sobretudo a prosperidade – do Ocidente o mais rápido possível. Foram liberais como Václav Klaus, atual presidente da República Tcheca, que levaram o país para uma nova direção. Klaus não acreditava em uma “terceira via” moderada, numa síntese do comunismo com o capitalismo como Dubcek havia imaginado. “Todas as terceiras vias levaram ao terceiro mundo”, disse Klaus certa vez.

Dubcek, ícone da Primavera de Praga, atingiu uma fama breve por fim. Nos excitantes dias de novembro de 1989, ele ficou ao lado do presidente Václav Havel, então recém-eleito, em uma varanda sobre a Praça Wenceslas em Praga, recebendo a aclamação das multidões. Dubcek, de 68 anos, tornou-se então porta-voz da Assembléia Federal, um cargo simbólico sem poder político. O novo herói da época era Havel, escritor e dramaturgo que se tornou uma figura política só depois de 1968. Em 1977, Havel foi co-autor do “Charter 77”, um manifesto contra os abusos aos direitos humanos no governo comunista da Tchecoslováquia.

Em 1º de setembro de 1992, Alexander Dubcek viajava de carro de Praga para Bratislava como passageiro. Cerca de 90 quilômetros do meio do caminho, próximo à cidade de Humpolec, o BMW saiu da estrada. Era um trecho estreito da estrada e o tempo estava bom – o que é estranho, diz seu filho Pavol.

O herói tragico da Primavera de Praga ficou gravemente ferido no acidente e morreu dois meses depois. Alexander Dubcek, ainda uma figura popular em seu país, está enterrado no principal cemitério de Bratislava.

Tradução: Eloise De Vylder


Visite o site do Der Spiegel

6 Respostas to “34. O trágico fracasso da Primavera de Praga”

  1. adoreiiiiii Says:

    adoreiiii!!!!

  2. josemir Says:

    Respirar este ar de justiça serve para reabrir nossa reflexão ao nosso pleito político 2010… 2° turno… liberdade ou coesão?

  3. João cisar da cruz Says:

    EU SOU NETO DE OTACAR CISAR

  4. João cisar da cruz Says:

    EU GOSTARIA DE CONHECER A HISTÓRIA.

  5. Carlos Almeida Says:

    Deixo o meu agradecimento a quem traduziu, datilografou e postou aqui para leu ler. Eu era adolescente na altura, e as imagens na TV, cujo dramatismo o preto e branco acentuava, despertaram-me para o mundo. Obrigado por esta humidade que agora escorre dos meus olhos cansados.

  6. Carlos Almeida Says:

    Deixo o meu agradecimento a quem traduziu, datilografou e postou aqui para leu ler. Eu era adolescente na altura, e as imagens na TV, cujo dramatismo o preto e branco acentuava, despertaram-me para o mundo. Obrigado por esta humidade teimosa que agora escorre dos meus olhos cansados, enquanto algumas dessas imagens se acendem na memória.

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