CENAS – 68

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CENA 7- TRAVASSOS…

Meu contato maior com o Travassos aconteceu quando ele era presidente da UEE-SP e eu, universitário/seminarista e, como tal, participava do movimento estudantil, em 1966. Acontece que em 67 saí do seminário, num primeiro movimento, para ajudar meu pai que era feirante e tinha que batalhar pra sustentar os 7 filhos.

E eu ali, nas mordomias da vida religiosa, com voto de pobreza e tudo. Então tive que arrumar emprego e saí do ambiente universitário.

Concentrei as chamadas atividades políticas na Zona Norte, através dos grupos de jovens nas igrejas e de aulas de “religião” em vários colégios; acabei me envolvendo com o movimento dos secundaristas, que era bastante forte… mas disso volto a falar em outras cenas.

É que foi nesse contexto que encontrei o Travassos, pela última vez. Devia ser final de 67 ou começo de 68 e ele já era presidente da UNE.

Nos encontramos na rua, ele vindo sozinho, provavelmente fumando, paletó ao ombro sendo seguro por dois dedos, aquele seu jeito tímido que só mudava nas assembléias e comícios.
– “ E aí? Você sumiu – disse ele
– “Estou aí, na zona norte, dando uma força pro movimento secundarista”(tínhamos acabado de fazer uma grande panfletagem, que teve boa repercussão) – respondi eu.
– “Isso é bom. Boa sorte!”

E foi só. Não consegui puxar um papo qualquer. Eu sempre tive dificuldades em me relacionar com lideranças, autoridades, chefes e patrões.

Lembrando hoje o desenrolar da história: sua prisão em Ibiúna, a soltura no seqüestro do Embaixador Americano, seu exílio, a volta com a anistia… e sua morte besta em acidente … continuo achando o que pensei naquele dia: “Ali vai uma grande liderança.”

Provavelmente seria melhor do que aquelas que sobraram do movimento estudantil da época. Salvo melhor juízo, como diria o Riobaldo do Graciliano.

CENA 8 – VAI SALITRE AÍ?

Na cena anterior, falei das aulas de religião.

Foi um movimento importante de inserção (disse inserção? Disse-o bem,) dos seminaristas na comunidade. Através dessas aulas identificávamos as lideranças, que eram convidadas para a formação dos grupos de jovens de onde saíram grandes lideranças do movimento secundarista e universitário.

Mas a cena a que me refiro aconteceu bem no início dessas aulas, quando a gente mesmo não tinha tanta consciência política.

Estava eu ali, compenetrado com o projeto de conversão daquelas jovens almas, quando uma menina pergunta em voz alta, na frente de todo mundo:
– “É verdade que no seminário eles põem salitre na comida pros padres não sentirem desejo?
(Constate-se que era das mais saidinhas, bonitinhas, ou como direi… gostosa, pronto!)

Sem pensar muito, respondi:
– “Se põem, eu não sei. Mas se estão pondo, não está fazendo efeito”.
Pode não parecer, mas isso foi uma cantada. “Cantata Sacra”

CENA 9 – O SEGREDO DA MÚMIA

O envolvimento dos seminaristas no movimento estudantil não foi uma coisa gratuita ou inconseqüente. Já havia uma movimentação voltada para a inserção social dos seminaristas de maneira conjunta e organizada. Já em 64 nós tínhamos a nossa UNE.

Era uma organização que congregava seminaristas de todo Brasil. Em São Paulo pertencíamos à USMAS – União dos Seminaristas Maiores do Sul. (Jarbas me corrija aí se as denominações estiverem erradas) Tínha USMAS I e II, mas não lembro a abrangência geográfica. Participei de vários encontros: lembro de um nos Verbitas em Santo Amaro.

O que mais lembro é o Seminário Maior do Ipiranga, por causa da múmia.
(O USMAS era um movimento interessante, subdividido em vários Departamentos: Liturgia, Pastoral, Cinema, Movimentos de Jovens…Eu, pra variar, estava no de cinema.)

No encontro do Ipiranga, acabei ficando na equipe organizadora do encerramento, quando eram apresentados pequenos shows instrumentais, esquetes, corais, etc. Ficamos eu e o Savioli (o Savioli, mais conhecido depois como “Platão”, professor famoso de Português e Literatura do Equipe Vestibulares e da Letras da USP, teve uma experiência terrível com a repressão. Na época se dizia que morava junto com o “japonês cujo fusca cheio de bombas explodiu na Consolação”)

Voltemos à múmia( nada a ver com o Costa e Silva). Apresentamos uma esquete onde aparecia uma múmia que se mexia quando alguém contava uma mentira. Nem lembro como era o final da piada, porque o engraçado mesmo é que a múmia fora enrolada em lençóis brancos emprestados pelo seminário.

Lençóis que apresentavam bem visíveis umas manchas do que chamávamos de “polução noturna”. Em palavras mais poéticas, resultado de um sonho erótico de algum seminarista, que inevitavelmente usava cueca samba-canção.

Como dizia o velho provérbio latino: “Sêmen retentum venenum est.”

10- CASA DO ESTUDANTE DE VILA MARIA

Tive muitos contatos com o movimento secundarista, em especial na zona norte da Capital. Por isso ouso afirmar que em vários momentos, principalmente quando a repressão aumentou, o movimento secundarista foi maior que o universitário.

Naquele período, de 65 a 69, os movimentos de base com certeza foram mais fundos e radicais. Lembro do CEDOM, do Albino César, do GEPEF, de um colégio estadual do Imirim cujo nome não lembro. Mas o mais ativo era a Casa do Estudante de Vila Maria.

Todos os colégios tinham um grêmio estudantil atuante com eleições acirradas, festivais de música, poesia, artes plásticas,

Em 68 eu dava aulas de Religião no CEDOM, uma escola que mantinha os portões abertos, não precisava obrigar o pessoal a assistir aula (Diziam ao professor: “Se a gente for obrigado a assistir sua aula, como você vai saber se ela é boa?”).Dando uma de velho saudosista, “bons tempos aqueles”.

Hoje o CEDOM é totalmente murado, com apenas uma porta de entrada controlada.Deve ter até cerca eletrônica. E o pior: um muro onde já esteve pichado “Abaixo a ditadura. Anule seu voto”, tem hoje a epígrafe: “Votem em Conte Lopes”

Mas volto à Vila Maria. Sua Casa de Estudante era um modelo para os secundaristas.

Dali saíram lideranças não só políticas, mas culturais, literárias e artísticas. Mesmo quando a repressão era braba, em 69, e a luta arrefecia em outras escolas, a Casa teimava em sobreviver.

Participei ali de um grupo de Teatro, com direito a método Stanislavski, ensaiando uma peça russa (acho que era Tchecov) – “Todos contra todos” do teatro do absurdo. Espalhou-se, mais tarde que o cara que dirigia o grupo, cujo nome não lembro, era agente da repressão.

Acho que a Casa do Estudante de Vila Maria merece a recuperação de sua história, até para entendermos melhor a época.

CENA 11- PREFERÊNCIA NACIONAL

Era uma reunião preparatória para a organização de uma exposição de artes dos estudantes da Zona Norte. Bastante concorrida, com algumas personalidades do mundo artístico apoiando. Se não me engano estava Vera Gertel, mas posso estar misturando tudo.

No intervalo das conversas sérias alguém colocou a questão para saber qual a parte do corpo que você admirava no sexo oposto.

As respostas puritanas, representavam bem a timidez da época: a boca, os olhos, o sorriso, os cabelos… e outras purezas.
Até que o Iozito acabou com a hipocrisia e disse de boca cheia:
-“ A bunda…”

Devo dizer que foi um susto geral, porque não se usava essa palavra em público na época(67). A sorte é que estávamos cheios de Iozitos que foram desmascarando o falso moralismo que nos dominava.

O Iozito era representante da casa do Estudante da Vila Maria e depois foi editor de arte da Cláudia

EDUARDO SPOSITO

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Uma resposta to “CENAS – 68”

  1. Fernanda Says:

    Oi, pai. Te encontrei por aqui. Que pérola este dossiê meia oito! É uma riquíssima fonte histórica. Vou ver se uso em sala de aula. Passei para os meus irmãos, dizendo que o pai havia se misturado com uns velhinhos para escrever sobre a época da ditadura. A Sandra me deu uma bronca, dizendo que estava sendo preconceituosa por chamá-los de “velhos”. De qualquer forma sempre atiçou a imaginação dos mais jovens fantasiar o que teria acontecido com as vidas e as idéias dos jovens daquela época que estão vivos para nos contar a história. Sucesso a todos nesta empreitada!

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