33. Gal Costa 1969, o álbum que fechou 1968

 
Caetano Veloso e Gal Costa lançaram em 1967, o álbum “Domingo”, iniciando assim, duas das mais belas carreiras da história da MPB. Álbum delicado, de canções intimistas, de uma poesia que lembrava a Bossa Nova. “Domingo” não acenava para a explosão que viria pouco tempo depois do seu lançamento, quando os cantores mergulharam nas águas turbulentas da Tropicália.
1968 foi o ano do lançamento do primeiro álbum a solo de Caetano Veloso, mas o primeiro disco solo de Gal Costa só iria sair em 1969, devido às agitações políticas e sociais que assolaram o país naquele ano, envolvendo os tropicalistas na roda viva e na ventania histórica que se vivia intensamente. O álbum Gal Costa, que trazia o esplendor da Tropicália, foi todo produzido e feito em 1968, o atraso em seu lançamento, em 1969, oxigenou o movimento tropicalista, estrangulado pela prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Este primeiro álbum solo da carreira de Gal Costa transformou-a em uma solitária musa do tropicalismo, cantando para os seus mestres, exilados ou calados pela ditadura militar. A diva Gal Costa nascia para o Brasil, perpetuando-se até os dias atuais.

 

Divino Maravilhoso, o Programa dos Tropicalistas

A apresentação de Gal Costa no IV Festival da Record, no dia 14 de novembro de 1968, foi o momento de ruptura total da sua imagem até então comportada, sempre de cabelos curtos e de estirpe bossa nova. A cantora surgiu nos palcos do festival vestindo roupas de hippie, cabelos black power e a ousar a soltar os agudos em gritos de protestos. Gal Costa defendeu a música “Divino, Maravilhoso” (Caetano Veloso – Gilberto Gil), que ficou em 3º lugar no festival, a vencedora foi “São Paulo Meu Amor“, de Tom Zé, também ele um tropicalista.

1968 foi o ano dos maiores festivais da música brasileira, que se tornara porta-voz de uma juventude engajada politicamente, querendo derrubar a ditadura militar instaurada no país em 1964. As manifestações estudantis em Paris, em maio, a Primavera de Praga (movimento contra o socialismo soviético na Tchecoslováquia), a prisão dos estudantes da UNE em Ibiúna, todos estes acontecimentos refletiram no festival que Gal Costa cantou “Divino, Maravilhoso”.

Divino Maravilhoso” tornou-se o nome de um programa semanal de televisão da extinta Tupi, dirigido por Fernando Faro e Antonio Abujamra. Apresentado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, o programa foi ao ar de outubro a dezembro de 1968. Um programa totalmente anárquico, com cenas antológicas de Caetano Veloso preso em uma jaula comendo bananas ou plantando bananeira. “Divino Maravilhoso” apresentou nomes de cantores então debutantes no cenário brasileiro, como Jorge Ben, Jards Macalé.

No dia 13 de dezembro, o governo militar decretou o Ato Institucional 5 (AI-5), que dava direito a dissolver o congresso, prender sem hábeas corpus, cassar mandatos e impor a censura, entre outras tragédias. Com o AI-5 a ditadura endureceu ainda mais. Na antevéspera do natal “Divino Maravilhoso” foi ao ar pela última vez, mostrando um provocante Caetano Veloso a cantar “Noite Feliz” com uma arma apontada na cabeça. A apresentação irritou aos militares e à família conservadora que sustentava o regime militar, após tirar o programa do ar, a polícia repressiva do governo prendeu, no dia 27 de dezembro, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os cantores só seriam libertados na quarta-feira de cinzas de 1969, quando são escoltados pela polícia até Salvador, de onde partem para o exílio em Londres. Termina o tropicalismo.
Para não comprometer os apresentadores, as fitas do programa são totalmente destruídas por seus diretores, ficando apenas registrado na memória de quem o assistiu na época. “Divino Maravilhoso” era uma resposta aos bem comportados programas da TV Excelsior: “O Fino da Bossa”, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que foi ao ar de 1965 a 1967, e “Jovem Guarda”, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, de 1965 a 1969. Com “Divino Maravilhoso” o Brasil assistiu à ascensão e à queda do Tropicalismo.

Gal Costa 1969, a Tropicália Pós-1968

Apesar de ter sido lançado em 1969 com o nome de “Gal Costa”, este álbum deve tomar como referência o ano de 1968, pois sua gravação e o seu repertório só poderiam ter acontecido naquele tumultuado ano.

1968 trouxe a Tropicália para o cenário musical. Um movimento que mudou a estética bem-comportada da nossa MPB, sendo uma alternativa à Jovem Guarda e à Bossa-Nova, mesclando as duas e o que havia de mais antigo e de mais novo na nossa MPB. O movimento repercute na era dos festivais, levando uma juventude militante contra a ditadura ao delírio.

 Caetano Veloso romperia com esta esquerda militante ao apresentar “É Proibido Proibir“, no teatro TUCA, no meio de uma grande vaia, urros e protestos ele é impedido de cantar e faz um discurso histórico, definitivo, rompendo de vez com a chamada “caretice” da juventude engajada que queria tomar o poder.

O álbum de Gal Costa foi gravado meses antes de ser lançado, pois o clima de insegurança provocado em 1968 adiou esse lançamento. A cantora havia mudado os cabelos curtos, trocou os vestidos tubinhos bem comportados por plumas e um visual hippie. Deixou os agudos tomar conta da voz intimista.
Ainda em 1968 participou do lançamento do álbum manifesto “Tropicália ou Panis et Circenses“, nome tirado de uma tela de Hélio Oiticica, ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes e Nara Leão, participando de três faixas, entre elas a mítica “Baby“.

O álbum “Gal Costa”, lançado em 1969, trazia em seu repertório toda a essência da Tropicália, agonizante naquele momento. Inesperadamente o álbum venderia mais de 100 mil cópias, um grande feito para a época, transformando Gal Costa na única representante da Tropicália. A direção musical do disco é de Rogério Duprat.

O álbum traz a mesma versão gravada no “Tropicália Panis Et Circenses” da canção urbana “Baby” (Caetano Veloso), com a participação de Caetano Veloso, tornando-se a canção mais tocada do disco, revelando a jovem cantora para todo o Brasil, transformando-se no seu primeiro grande sucesso. “Baby” tinha sido feita para Maria Bethânia, que não quis gravá-la. “Baby” fez parte da trilha do filme “Copacabana me Engana“, de Antonio Carlos Fontoura.

No álbum, Caetano Veloso participa ainda da balançada e doce “Que Pena – Ela Já Não gosta Mais de Mim” (Jorge Ben), dueto eloqüente, que nada lembra o encontro intimista da dupla nas faixas de “Domingo”.
Também Gilberto Gil participa em duas faixas: no alegre e provocante xaxado “Sebastiana” (Rosil Cavalcanti), e na adolescente “Namorinho de Portão” (Tom Zé), canção regravada pelo Pato Fu que de tão atual, poderia ser tema da novela adolescente “Malhação”.

Gal Costa grava duas canções da dupla que se tornara fundamental nos bastidores da MPB, Roberto Carlos e Erasmo Carlos: o roque “Se Você Pensa” e a reflexiva “Vou Recomeçar“, que estrategicamente terminava o lado A e começava o lado B do LP, respectivamente.
Um dos pontos altos do álbum é “Não Identificado” (Caetano Veloso), numa época em que o homem estava preste a descer na Lua, uma bela canção na voz de Gal Costa, confirmando aqui o título de maior intérprete de Caetano Veloso. Momento sublime da cantora “caetaneando“.

Na Tropicália há espaço para o protesto, a palavra de ordem, como na provocante “Divino, Maravilhoso” (Gilberto Gil – Caetano Veloso), que por si só daria teses de discussão e, ao mesmo tempo, para canções cantadas em inglês como a pré Flower e PowerLost in The Paradise” (Caetano Veloso).
Um ícone do álbum é a bossa-tropical “Saudosismo” (Caetano Veloso), que Gal Costa canta com a voz de uma musa da Bossa Nova. Aqui há alusões a várias músicas da Bossa Nova: “Eu, você, nós dois“, verso que alude ao começo de “Fotografia” (Tom Jobim). Os refrões da canção são referências explícitas aos sucessos da Bossa-Nova (”Lobo Bobo“, “A Felicidade“), e João Gilberto girava na vitrola, mas a voz era da embriagante Gal Costa.

Uma das mais belas canções do álbum é a urbana “A Coisa Mais Linda Que Existe” (Gilberto Gil – Torquato Neto), uma viagem romântica pela cidade de uma juventude que fazia “…festa e comício” numa época que o grito era encerrado pelo Ato Institucional 5 (AI-5), deixando a Tropicália agonizante.

Gal Costa”, de 1969, é a Tropicália que ressurge das cinzas com, segundo Eduardo Logullo: “canções de temáticas urbanas, doces reflexões anarquistas, constatações, citações, provocações, balanço..”
Como era preciso ter atenção, tudo era perigoso, já nada era tão divino ou maravilhoso. Os iconoclastas Gilberto Gil e Caetano Veloso deixavam o Brasil. Sem os amigos, Gal Costa ficava solitária na representação da Tropicália, e encerrava o mais tropicalista de seus álbuns com a confiante e espiritualista “Deus é o Amor” (Jorge Ben):

“Todo mundo vai embora
Mas a chuva não quer parar
Ninguém mais quer ficar
Só eu, sozinho, vou me molhar
Mas eu tenho fé que a chuva há de passar
E aquele sol tão puro
De manhãzinha bem quentinho há de chegar
E os passarinhos vão cantar
Pois a alegria vai voltar
E todo mundo que foi embora vai voltar
Agradecendo a Deus todo mundo vai rezar e cantar
Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade
Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade.”

Ficha Técnica:

Gal Costa
Philips
1969

Direção musical: Rogério Duprat
Estúdios: Scatena e Reunidos
Arranjos: Rogério Duprat, Gilberto Gil e Lanny
Layout: Gian
Direção de produção: Manuel Barenbein

Faixas:

1 Não identificado (Caetano Veloso), 2 Sebastiana (Rosil Cavalcanti) Participação: Gilberto Gil, 3 Lost in the paradise (Caetano Veloso), 4 Namorinho de portão (Tom Zé) Participação: Gilberto Gil, 5 Saudosismo (Caetano Veloso), 6 Se você pensa (Erasmo Carlos – Roberto Carlos), 7 Vou recomeçar (Erasmo Carlos – Roberto Carlos), 8 Divino, maravilhoso (Caetano Veloso – Gilberto Gil), 9 Que pena (Jorge Ben) Participação: Caetano Veloso, 10 Baby (Caetano Veloso) Participação: Caetano Veloso, 11 A coisa mais linda que existe (Gilberto Gil – Torquato Neto), 12 Deus é o amor (Jorge Ben) 

Veja também:

 GAL COSTA:

 http://jeocaz.wordpress.com/2008/03/09/gal-costa/

 TROPICÁLIA:

 http://jeocaz.wordpress.com/2008/03/05/tropicalia/

 FA-TAL – GAL A TODO VAPOR: O ÁLBUM DA GERAÇÃO DO DESBUNDE:

http://jeocaz.wordpress.com/2008/03/24/fa-tal-gal-a-todo-vapor-o-album-da-geracao-do-desbunde/

 O ENCANTO DE GAL COSTA NA VIRADA CULTURAL:

 http://jeocaz.wordpress.com/2008/05/02/o-encanto-de-gal-costa-na-virada-cultural/

TEMPORADA DE VERÃO – AO VIVO NA BAHIA: TRÊS VOZES DO BRASIL

http://jeocaz.wordpress.com/2008/06/08/temporada-de-verao-ao-vivo-na-bahia-tres-vozes-do-brasil/

3 Respostas to “33. Gal Costa 1969, o álbum que fechou 1968”

  1. jeocaz Says:

    Que bom que pude colaborar com um arquivo tão rico sobre um ano tão conturbado como o foi 1968. Um ano para refletirmos, sem nunca dele ter saudades!

    Nos quarenta anos de 1968 preparei alguns artigos, que dividi em
    INTRODUÇÃO: “1968 O ANO DE TODOS OS GRITOS” (já publicado)
    ARTIGO 1: “PARIS, MAIO DE 1968” (já publicado)
    ARTIGO 2: “GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968 (já publicado)
    ARTIGO 3: “PRAGA, PRIMAVERA E INVERNO” (por publicar em agosto)
    ARTIGO 4: “BRASIL 1968, DOS MOVIMENTOS AO AI-5” (por publicar mais adiante)

    Quanto ao álbum de Gal Costa, que me inspirou o artigo acima, ele foi lançado em 1969, mas preparado e gravado nos turbilhões de 1968. Foi o último suspiro da Tropicália, e um retrato do ano que terminou mais cedo para o Brasil e a sua democracia!

    JEOCAZ LEE-MEDDI

  2. José Antonio Küller Says:

    Jeocaz

    Obrigado pela contribuição. Vou procurar ler e recomendar seus outros artigos já publicados sobre 1968. Estarei também atento aos lançamentos futuros.

    José Antonio Küller

  3. ademar amancio Says:

    Adorei o artigo,a gal nesta época tinha a voz belíssima.

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