Archive for julho \31\UTC 2008

Cleo e Daniel

julho 31, 2008

Faleceu no dia 23 de maio de 2008, aos 77 anos, em São Paulo, Roberto Freire, “anarquista, escritor e terapeuta” como ele mesmo costumava se apresentar.

Seu primeiro e principal livro Cleo e Daniel (que mais tarde foi transformado em filme dirigido pelo próprio autor) foi publicado em 1966, contudo fui lê-lo apenas em 1969.

“Cleo e Daniel causou um bom estrago nas cartas marcadas da percepção oficial sobre o comportamento da juventude da época, que forçava a barra em busca de novos caminhos. Pela primeira vez se descortinava um mundo subterrâneo e emergente, circunscrito às conversas e tragédias pessoais de um país sob o tacão da ditadura.

O choque de gerações era confundido com um embate ideológico tradicional, entre a ruptura e o acomodamento, e não o acúmulo de problemas humanos intensificados pela urbanização caótica e a escassez econômica.

Era um desencontro de culturas, que tentava colocar debaixo do tapete o vulcão de problemas coletivos como internamentos, choques elétricos, drogas.” (comentário encontrado na internet, sem autoria, (pelo menos não consegui descobri-la) mas que considero muito interessante sobre a obra)

Por uma desses caminhos tortuosos que não sabemos como se encadeiam, voltei a tomar contato com seu nome e sua obra graças a seu filho Paulo Freire, violeiro arretado, homônimo do grande educador brasileiro.

Em uma de suas apresentações no Sesc de Bauru, junto com seus CDs, oferecidos aos presentes lá estava o CD – Roberto Freire, Vida de artista – com poemas de seu pai, musicados por vários artistas.

GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968

julho 24, 2008

Julho 24, 2008

 
“Caetano Veloso e Gal Costa lançaram em 1967, o álbum “Domingo”, iniciando assim, duas das mais belas carreiras da história da MPB. Álbum delicado, de canções intimistas, de uma poesia que lembrava a Bossa Nova. “Domingo” não acenava para a explosão que viria pouco tempo depois do seu lançamento, quando os cantores mergulharam nas águas turbulentas da Tropicália.”

O texto anterior é de um post de Jeocaz, publicado no blog MANIFESTO JEOCAZ LEE-MEDDI. A integra do texto pode ser lida em  GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968 ou em Páginas 33.

AS ARTES PLÁSTICAS NA DÉCADA DE 60 E EM MAIO DE 68

julho 17, 2008

por Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto)

Nas sociedades dominadas pelas modernas condições de produção, a vida é apresentada como uma imensa acumulação de espetáculos, tudo o que era diretamente vivido vira uma mera representação.”

Guy Debord

Maio de 1968 foi a explosão do espetáculo e o encerramento de uma década turbulenta, de muitas mudanças, da tomada de consciência dos desastres do século XX: a violência, a guerra, os campos de concentração, a bomba atômica. O progresso tecnológico sem levar em consideração os direitos humanos, enfim o desenvolvimento à serviço da destruição.

O imperialismo e a ditadura da sociedade de consumo. Jean Luc Godard, em 1967 realiza A Chinesa, um filme político sem desprezar a experiência estética, onde um grupo de estudantes parisienses revoltados com o imperialismo brinca de fazer a revolução. Uma antecipação da organização dos estudantes, com muitas dúvidas e incertezas, em maio do ano seguinte.

A década de 1960 é marcada pela velocidade das vanguardas artísticas, que tem Nova Yorque como capital cultural do século XX. Dentre as manifestações artísticas como Minimalismo, Op Arte, Arte Cinética, Novo Realismo e Tropicália, a Pop Arte surgida na Inglaterra, mas apropriada e difundida pelos norte americanos foi a vanguarda mais decisiva da década.

Sem programa preestabelecido, sem manifesto, utilizando-se do repertório do cotidiano do consumo e da cultura de massa, foi rapidamente transformada em tendência internacional. Isso mostrou o poder cultural dos americanos.

O desafio aos policias e os protestos dos estudantes nas ruas de Paris foi um marco que desencadeou movimentos de contestação, em vários Países, revoltas e guerrilhas urbanas. Estudantes, artistas e intelectuais ocupam as ruas, fazem passeatas. A contra cultura, a revolução cultural. Os artistas plásticos abandonam os museus, as galerias, saem da solidão dos ateliês e se misturam na multidão.

É a poética do gesto, da ação, da coletividade, a utopia da arte / vida como participação do espectador na realização da obra de arte. No Brasil a Tropicália de Hélio Oiticica, foi uma das manifestações mais polêmicas, ao lado de Terra em Transe filme experimental barroco de Glauber Rocha e a peça O Rei da Vela de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso Martinez.

É a década dos Happenings, surgidos com a Pop arte, uma espécie de teatro instantâneo, uma mistura de artes visuais, música e dança, que convida o espectador a participar da obra ou da ação, uma forma de tirar-lo da passividade fazendo-o reagir à provocação do artista e do cotidiano político social. Para Jean Jacques Lebel, autor de vários happenings em Paris: “Nosso primeiro objetivo é transformar em poesia a linguagem que a sociedade de exploração reduziu ao comércio e ao absurdo.”

Artistas rebeldes, engajados, inconformados com a comercialização e exploração da arte e contra as outras formas de opressão da sociedade. No Brasil, os Happenings realizados em espaços públicos das trocas coletivas, foram uma forma utilizada pelos artistas de vanguarda para chamar a tenção da população do que estava acontecendo nas prisões. Manifestações muitas vezes interditadas pela polícia.

Na arte, é o momento da transição da vanguarda para a contemporaneidade. O atestado de óbito da Modernidade. Os procedimentos da arte passam dos polêmicos questionamentos dos suportes tradicionais ao fim do suporte como elemento essencial da obra de arte. É o momento da arte conceitual que vai dominar na década seguinte. Uma arte mais fria, cerebral, menos engajada, voltada para interrogar sua própria natureza. Uma manifestação que aconteceu em vários Países, quase ao mesmo tempo, inclusive no Brasil.

Os agitados anos de 1960 transformaram a imagem das cidades. Em 68, aparecem as primeiras manifestações de graíitis nos muros de Paris, uma nova forma de intervenção urbana. Nas palavras do teórico francês Jean Baudrillard: “…um novo tipo de intervenção na cidade, não mais como lugar do poder econômico e político, mas sim como espaço / tempo do poder terrorista dos mídia, dos signos e da cultura dominante.”

Grafítis anônimos paralelo aos happenings dos artistas. Uma geração de artistas e críticos toma consciência sobre o estado em que se encontra a civilização a sociedade e os regimes políticos e se colocam diante de uma abordagem mais crítica e de certa forma subversiva. O artista assume o papel de revolucionário e faz de sua arte um instrumento à disposição da revolução social. Fazer arte era fazer política. Ação e estética faziam parte das intenções do artista.

Verifica-se no cenário internacional das artes plásticas, já no começo da década de 1960 o abandono das linguagens abstratas, geométrica e gestual, e retorno da figura, ou melhor, uma apropriação da figura como fez a Pop Arte com as imagens divulgadas pelos mídia transformando-as em naturezas mortas da sociedade de consumo.

No fenômeno da nova figuração o que interessa é o significado da imagem e não uma forma representativa. Uma imagem mais alusiva, grotesca e provocativa. A estética do mau gosto desafiando uma sociedade do bom gosto, industrial e politicamente “correta”.

A obra do artista plástico carioca Rubens Gerchman, representa bem esse momento na arte brasileira. Muitas das propostas artísticas da vanguarda brasileira que se desenvolveram entre 1964 e 68 estavam comprometidas em dar respostas ao golpe militar. A nova linguagem figurativa dialogava de forma mais direta com a realidade político social. Em paralelo a uma arte de denúncias, bastante difundida pelos militantes políticos, surgiram outras manifestações de arte coletiva abertas à participação do espectador como as propostas de Hélio Oiticica e os Domingos da Criação organizados por Frederíco Morais.

Em 1968 no Salão de Brasília, o Porco Empalhado de Nelson Leirner, artista paulista integrante do Grupo Rex, não era apenas o questionamento da instituição arte, interrogava as outras instituições da sociedade, naquele contexto político.

A experiência francesa foi palco onde os ideais e as paixões acumuladas explodiram e deu início a uma revolução que mudou a história do século XX. A guerrilha se espalhou pela América Latina, reivindicações de todas as partes e de todos os tipos, liberdade sexual, racial. Nos EUA, os estudantes revoltados com a cruel possibilidade de morrer na guerra do Vietnã, protestaram. No Brasil estudantes em passeata enfrentam a repressão militar, em abril de 1968, a polícia mata o estudante secundarista Edson Luiz no Rio de Janeiro e em dezembro o golpe mortal do governo militar, o Ato Institucional Nº. 5. O auge da repressão. Ninguém mais se sentia seguro.

A arte foi proibida na rua, exposições fechadas, como a Bienal Nacional em Salvador e artistas presos ou vivendo na clandestinidade ou no exílio. Fecharam-se as cortinas e o espetáculo passou a ser encenado na obscuridade.

Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto – brasil)
ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO BLOG CONFRARIA DA ALFARROBA

68 nas artes plásticas

julho 16, 2008

Para tratar o tema do Arquivo68 de um outro ângulo e inaugurar uma nova categoria, posto as reproduções de dois quadros do artista português Júlio Pomar.

Julio Pomar - Maio de 1968

Julio Pomar - Maio de 1968

 

Júlio Pomar - Maio de 1968 (CRS - SS), 1969 - Acr�lico sobre tela, 130 x 162 - Coleção de Jorge de Brito (Cascais - Portugal)

Júlio Pomar - Maio de 1968 (CRS - SS) II, 1968 - Acrílico sobre tela, 97 x 130 - Coleção de Jorge de Brito (Cascais - Portugal)

Não deixe eles acabarem com a liberdade

julho 13, 2008

A internet é, por definição, um espaço de liberdade. Por isso, volta e meia, é atacada por gente que nos quer ver submissos, por gente que odeia o vôo das águias e quer tudo reduzir ao vôo das galinhas. Isso está acontecendo agora. Azeredo, senador mineiro [aquele, mesmo…], propôs um projeto de lei que submete a internet ao moralismo e interesses suspeitos. Um projeto de lei contra a liberdade.

Este é um espaço que conta histórias de um tempo em que a ditadura via com suspeita qualquer ato ou pensamento libertário. Este é um espaço de gente que gosta de liberdade. Por isso, queremos unir forças com a petição contra a lei do Azeredo. Se você acha que a internet deve continuar a ser um espaço de liberdade, não deixe de assinar petição contra o mencionado projeto de lei. Para fazer isso, basta entrar no seguinte endereço:

http://www.petitiononline.com/veto2008/petition.htm

Recentemente, nosso amigo, Antônio Morales descobriu Nacha Guevara, uma cantante argentina que merece divulgação. Para acompanhar a campanha contra a lei do Azeredo, segue aqui uma sugestão de fundo musical num clássico cantado por Nacha: Yo te nombro: Libertad.

Batismo de sangue

julho 8, 2008

Esta semana finalmente assisti o filme Batismo de Sangue, baseado no livro homônimo de Frei Beto, que aliás é um dos personagens de seu próprio livro, pois ele fazia parte do grupo de dominicanos que resistindo à ditadura instaurada no Brasil a partir de abril de 1964, deu apoio à ALN, de Mariguela, na luta contra o regime. Foram presos e torturados na prisão e nos porões do sinistro DOI-CODI em São Paulo.

A ação do filme começa justamente em 1968, e termina em 1974, com o suicídio de Frei Tito nos arredores do Convento La Tourette, na França, onde viveu os momentos finais de seu exílio após ser libertado, incluído que foi na lista de presos políticos que foram trocados pelo embaixador suiço sequestrado em 1970. Na Página 32 podem conferir matéria publicada originalmente no jornal Brasil de Fato.

Roda Viva – A historicidade da cena teatral

julho 5, 2008

Küller
Espero tenha gostado (e chorado) com o Liberdade, Liberdade.
Tô enviando mais um texto pro Arquivo68. Espero que você goste também.
Abraço.

Zeca

O referido texto, de Jacques Elias de Carvalho, foi publicado em Páginas 31. Roda Viva – A historicidade da cena teatral.

1968 por ai…

julho 1, 2008

Tenho insistido com vários amigos para que publiquem, neste espaço, suas memórias sobre 1968. No caso de Mouzar, o pedido não chegou a ser feito. Antes dele chegou um livro que cabia inteiro em Arquivo68. Por isso, solicitei ao Mouzar autorização para divulgá-lo aqui.

 

A ilustração a seguir é a cópia da primeira capa do livro: 1968, por aí – Memórias Burlescas da Ditadura, de Mouzar Benedito. Ao lado dela, reproduzimos o texto da contra-capa. A leitura do que vem entre uma e outra é uma viagem divertida no tempo. É também um grande prazer.

 

Um dia, numa palestra de Ariano Suassuna, eu o vi e ouvi louvar a capacidade do brasileiro de gozar os ditadores e a ditadura. Foi assim no Estado Novo, foi assim de 1964 a 85. Sem menosprezar os sofrimentos das vítimas, a indignidade dos ditadores e seus sequazes, o heroísmo da resistência, é preciso ter humor. Ser contra a ditadura e manter a alegria, fazer piadas sobre ela, era uma coisa que incomodava “os homens”.

 

Ao achar no meio de um livro esta foto perdida há muito tempo, me vi nela com uma cara de enorme felicidade, apesar de estar desempregado e na lista negra dos patrões, por conta da militância na imprensa alternativa.

 

Ela não é o que parece. O ano era de 1978, já não havia guerrilha no Brasil. A espingarda é de chumbinho e a pose é só uma pose mesmo. Estava difícil sobreviver, mas não me entreguei.

 

Por tudo isso, apesar do narcisismo (com essa beleza toda?) de colocá-la na capa, acho que é merecedora de fazer parte de um livro sobre “os anos de chumbo”.

 

Mouzar Benedito

 

1968 por Mouzar Benedito

julho 1, 2008

A texto a seguir é de Mouzar Benedito e foi publicado originalmente no site da Fundação Perseu Abramo. Falamos mais de Mouzart em outro post. A caricatura é de Paulo Caruzo.

 

Eu estudava Geografia na USP, onde entrei em 1967, e tinha completado 22 anos. Na noite de 13 de dezembro, estava com amigos no Centro de Vivência do Crusp (Conjunto Residencial da USP), onde morava, vendo TV, à espera de notícias que a gente sabia que não seriam boas. E vieram muito piores. Era a ditadura pra valer, explícita. Entendemos na hora que começaria uma fase de horror. Muitos queimavam ou enterravam livros “comprometedores”. Meus três colegas de apartamento e eu decidimos sair esparramando esses livros por casas de gente sem envolvimento político, para pegar depois que a poeira baixasse. Nunca mais vimos esses livros. Apagamos da memória esses endereços.

Na mesma noite, de madrugada, a direita já se manifestou: um bando do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e de militares passou de carro pela avenida entre o Crusp e o rio Pinheiros dando tiros em nossa direção. Alguns tiros de fuzil atravessaram as paredes de tábua de uns poucos apartamentos. Aí fizemos barricada em volta do Conjunto, mas nada adiantou. No dia 17, uma força militar enorme, preparada para a guerra, cercou o Crusp, que junto como o prédio da Filosofia da Maria Antônia concentrava a contestação estudantil ao regime militar. Fomos presos. Eu fiquei quatro dias no presídio Tiradentes e algumas horas no Dops, onde fui interrogado e fichado, porque acharam material “subversivo” na cabeceira da minha cama: uma revista Paz e Terra com foto de Dom Hélder Câmara na capa. Quando saí, fui buscar minhas coisas no Crusp e vi que nossos apartamentos tinham sido saqueados pela polícia e pelo exército. Sobrou, de tudo o que eu tinha, uma malinha de livros ensebados, que não valiam nada pra serem vendidos nos sebos, e uma de roupas velhas. Aí fui preso mais uma vez, pelo exército. Mas tudo suave. A tortura que foi instituída a reboque do AI-5 chegou um pouquinho depois. “Tive sorte”, posso concluir.

Na Secretaria dos Transportes da Prefeitura, onde trabalhava como técnico em contabilidade, fiquei com fama de terrorista, já que tinham tentado me visitar no Tiradentes e eu estava incomunicável. O que se seguiu foi um tempo (anos!) de enorme insegurança. A cada dia, tínhamos a notícia de algum amigo ou conhecido que tinha sido assassinado pela repressão, ou se exilou ou foi preso e estava sendo torturado. Para usar uma expressão atual, ficávamos sempre nos sentindo a “bola da vez”, pois bastava alguém falar seu nome na tortura ou acharem seu endereço na caderneta de um preso para você se tornar um “perigoso terrorista”. A tensão era permanente. O país ficou parecendo insuportável, mas ao mesmo tempo tinha uma coisa melhor que hoje: a esperança. Mesmo perseguidos e ameaçados, tínhamos a esperança de mudar o Brasil para melhor. Acreditávamos que derrotaríamos a ditadura e tudo mudaria…

Outra coisa que tínhamos certeza nos tempos de vigência do AI-5 era que do nosso lado, das vítimas e dos lutadores, estávamos os bons. Do outro estavam os maus. Fernando Henrique Cardoso e muitos outros professores da USP foram aposentados com base no AI-5. Ele se auto-exilou no Chile. Nós, estudantes, fizemos muitas manifestações a favor dele e dos demais aposentados pela ditadura que tinha como expoentes civis uma gente horrorosa, tipo ACM, Maluf, Sodré, Marco Maciel e Sarney. Nós arriscamos nossa pele defendendo, entre outros, FHC contra essa gente. Que ironia, hein?

Mouzart Benedito