47-EM CÂMARA LENTA, DE RENATO TAPAJÓS.

EM CÂMARA LENTA, DE RENATO TAPAJÓS: A PRODUÇÃO DO ORIGINAL, PUBLICAÇÃO, DIVULGAÇÃO E CENSURA

ELOÍSA ARAGÃO MAUÉS
MESTRANDA -HISTÓRIA SOCIAL – FFLCH-USP

A escrita do original no cárcere e o processo de edição

Em 27 de julho de 1977, um funcionário da editora Abril, em São Paulo, era preso à saída da empresa, ao término de seu expediente, sem nem mesmo saber a razão. Seu nome e suas credenciais: Renato Tapajós, jornalista, escritor e cineasta. O motivo alegado apenas horas depois, durante o interrogatório no Dops: o lançamento do romance Em câmara lenta, publicado pela editora Alfa-Omega, naquele mesmo ano. Essa obra de ficção, em que o autor fazia tanto
um balanço crítico sobre a experiência da guerrilha – da qual participara como membro da Ala Vermelha e por isso teve de cumprir pena de 1969 a 1974 -, quanto uma espécie de denúncia dos desmandos do regime militar nos anos 1970, em especial em torno do emprego brutal da tortura, tornou-se o caso exemplar da censura aos livros na época.

Para compreender esse episódio desde o momento da elaboração do original que viria a se tornar o livro Em Câmara Lenta, vamos recuar ao tempo em que Renato Tapajós encontrava-se encarcerado na prisão do Carandiru. Ali, em 1973, ele começou a escrever o romance que, na ocasião, ainda recebia o título “Os mortos não são todos iguais”. Em folha de papel de seda em letras miúdas, ele redigia todas as partes do texto e as dobrava bem pequenas, depois as enrolava em celofane de cigarro e fechava com fita durex para ficar impermeável. Quando os pais visitavam Tapajós no cárcere, levavam a pequena cápsula sob a língua e, dessa forma, com o material escondido saíam de lá, sem que a vigilância pudesse suspeitar de problema algum. Ao
chegarem em casa, seu pai abria a cápsula com o pequeno texto, usando uma lupa para compreender a escritura e a datilografavam, recolhendo e compondo a cada nova visita o original de seu filho. Na época em que Tapajós saiu da prisão, em 1974, todo o original tinha sido datilografado.

A preocupação central de Tapajós quando decidira escrever o original do romance não se restringia a ser intérprete daquelas conflituosas pulsões emocionais que precisava expurgar, de acordo com o termo por ele empregado. Por meio da criação da narrativa literária, ele realizava uma espécie de catarse, uma construção em que igualmente tentava mostrar as agudas tensões existentes no exercício da militância, campo em que numerosas contradições vêm à tona cotidianamente. Uma arguta observação, que serve bem a esse caso, mesmo tendo sido pensada mais como um traço específico do realismo alegórico, é feita por Tânia Pellegrini:

Nesse sentido, um dos personagens mais importantes da narrativa em questão é mesmo o próprio autor que, através de seu relato, sai em busca de uma catarse ao mesmo tempo particular e coletiva, junto ao público. Todavia, a procura de purgação, de descarrego, não minimiza por si essa literatura; explica-a, apenas, assinalando mais um aspecto, parte integrante e indispensável do contexto que a gerou 1.

Uma das razões associadas às contradições citadas por Tapajós é o permanente desafio que o militante enfrenta na luta armada, de modo que a militância não se resume apenas à adesão política a uma causa, mas envolve, de forma muito exigente, outras instâncias de sua personalidade. Assim, sem esquecer dos componentes múltiplos que constituem a militância, como sua faceta existencial, ética e moral, seu fio condutor é o aspecto político, pois é a partir
dele que se tomam as decisões capazes de assegurar a existência da organização. Ao elaborar essa complexa ordem de circunstâncias em narrativa literária, todavia, deparam-se algumas limitações, como a fragilidade estética e certa visão simplista no desenrolar do romance, elementos sublinhados por alguns críticos que desconsideraram o livro de Tapajós.

Dessa forma procedeu a crítica literária normativa em relação a outros romances da década de 1970, cujo mote era essencialmente político, testemunhal ou memorialista, freqüentemente menosprezando a questão do conteúdo inerente a essa literatura. De acordo com o referencial dessa crítica, grande parte da produção de obras ligadas ao relato testemunhal ou que empregava técnicas jornalísticas, assim como o gênero denominado romance-reportagem, era considerada não-literária. Tânia Pellegrini argumenta, no entanto, que não é possível examinar a narrativa produzida naquele período sem considerar a práxis política que intimamente a caracterizava, tendo em vista que “mais do que resíduo, ela chega a ser um signo gerador fundamental e como
tal deve ser levada em conta, em virtude dos efeitos estéticos e ideológicos específicos que engendrou, tanto no nível da produção como no da recepção”2.

Assim, Tapajós destaca uma de suas intenções ao escrever o livro:

Então acho que não há dúvida… quando você está envolvido (…) num processo de luta armada, ao lado dos compromissos políticos, você tem e precisa ter compromissos morais, existenciais, éticos etc., mas na hora de tomar decisões críticas, decisões-chave, o que tem que prevalecer é o raciocínio político porque é o único que pode desatar os nós; os raciocínios morais, éticos e existenciais vão levar sempre para a tomada de decisões românticas, de decisões, no caso da luta armada, suicidas. É a tal história, é preciso muito mais coragem para reconhecer a derrota e depor as armas do que para entrar num tiroteio com risco de morte 3.

De um lado das circunstâncias, o desafio, quase aventura, de escrever na prisão, de outro a possibilidade da recepção, de imaginar quem seria o leitor, aquele que pudesse ser definido como seu público potencial. Em uma primeira hipótese, Renato Tapajós supunha que o romance interessaria a um leitor militante, não necessariamente o que tivesse experiência na luta armada, mas o leitor militante da esquerda, “que tivesse vivido alguma coisa próxima ao contato com a organização, que compreendesse os mecanismos que estão por trás da vivência desses personagens”4. O futuro reservaria ao romance, como mais tarde se pôde verificar, a assimilação de um público leitor bastante diferente daquele imaginado pelo autor.

Finalizado o original, Tapajós iniciou uma espécie de peregrinação a editoras com o objetivo de ter sua obra publicada, tarefa a que dedicou quase dois anos. Da editora Ática recebeu a alegação de que “não tinha condição de bancar politicamente aquele livro, porque ela dependia do mercado didático e podia sofrer represálias que iriam ferir fundo” 5. A limitação se referia ao fato, portanto, de o governo revidar a ousadia com a interrupção das compras de livros didáticos daquela editora para as escolas públicas. Da editora Civilização Brasileira a negativa à edição se deu por meio de uma longa resposta de Ênio Silveira, transmitida por Octavio Ianni, em que alegava não ser ainda o momento oportuno de publicar um livro daquele gênero, porque logo a censura cairia sobre ele, criando graves conseqüências para Tapajós 6.

A certa altura, Tapajós decidiu, a partir da indicação de conhecidos, procurar Fernando Mangarielo, da editora Alfa-Omega, uma casa bem conhecida à época por ter lançado A ilha, de Fernando Morais, obra que se tornou um grande sucesso. Cabe aqui uma breve referência à formação intelectual de Mangarielo7, na qual podem ser detectadas as raízes de seu interesse no trabalho com livros e sua militância por meio dessa esfera cultural como um processo de resistência ao regime militar. Nascido em Recife, Pernambuco, em 1947, Fernando Celso de Castro Mangarielo encontrou, durante seu curso de graduação na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, o espaço que lhe apontou a descoberta da edição de livros, atividade profissional em que pôde sintetizar o gosto pelos temas políticos e culturais, pela promoção e difusão do debate intelectual crítico e por idiomas (espanhol, russo, armênio e francês são os idiomas que conhece). O início desse percurso remonta ao ano de 1968, quando Mangarielo ainda cursava Filosofia naquela universidade e concomitantemente desempenhava a função de diretor da Banca da Cultura, um ponto de encontro de estudantes no Crusp (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo) onde ele também vendia livros. O ofício foi interrompido pela invasão da polícia no local, nesse mesmo ano, circunstância a partir da qual Mangarielo ficou detido por 136 dias, com base no que ficou conhecido pelo nome de IPM (Inquérito Policial Militar) do Crusp.

Um projeto mais arrojado na área dos livros ganharia realidade apenas alguns anos mais tarde, em 1973, quando Mangarielo fundou em São Paulo a Alfa-Omega, uma editora que se notabilizou por publicar obras fundamentais da esquerda, mantendo intensa afinidade com a linha ideológica do PCB (Partido Comunista Brasileiro). O catálogo foi inaugurado em janeiro daquele ano com A idéia republicana no Brasil através dos documentos – elaborado com base
em documentos -, de autoria de Reinaldo Carneiro Pessoa, que era professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na USP (Universidade de São Paulo), da disciplina “História da União Soviética”, do curso de Estudos Orientais, no qual Mangarielo era aluno.

O livro fez sucesso porque foi muito usado em sala de aula, tendo alcançado a vendagem de aproximadamente 1.500 exemplares, em curto período de seis meses, o que era um sucesso para a época. A razão de ser da editora, em que se buscava articular pensamento e ação, teoria e prática – por isso a escolha do nome Alfa-Omega – era dar apoio ao pensamento crítico, propósito que se efetivava, inicialmente, somente entre os professores da Universidade de São Paulo, já que a venda das publicações era dirigida aos colegas de classe do curso de Filosofia. Foi apenas depois de a editora ter se estruturado melhor como empresa8 que passou a fazer livros para outros cursos, mantendo, porém, sua vinculação a temas acadêmicos na área de Ciências Humanas.

Assim, quando o original de Tapajós chegou às mãos de Mangarielo, este comenta que o leu, de uma só vez, e ficou assustado, porque “uma coisa é você conhecer um autor pelos jornais, ou quando nos é apresentado, e outra coisa é você ler um original e se deparar com uma crítica como aquela”9. O passo seguinte foi pedir a apreciação do original a um amigo, versado em textos literários, que chamou a atenção de Mangarielo para as características
cinematográficas do texto. Logo em seguida, Mangarielo deu início a uma ampla pesquisa, estudando se iria assumir aquela publicação, porém àquela altura já bastante entusiasmado com a obra, conforme recorda: “Fiz muitas investigações sobre o livro porque, pode-se notar, é a primeira publicação ficcional sobre o tema, no meio de tantos ensaios”10.

A perspectiva da leitura de Mangarielo sobre o original de Tapajós se concentrou especialmente nos flashbacks e em certas referências que faziam a pessoas que conhecera ou admirava: “(…) eu ficava me dando a cozinha daquilo que lia porque conhecia os companheiros. Assim, embora fosse o primeiro livro de ficção no catálogo, a percepção de um leitor crítico certamente se concentraria além dessa perspectiva…”11.

Dessa forma, sua primeira leitura foi feita para se informar, tanto dos fatos que remetiam a alguns militantes que conhecia, direta ou indiretamente, quanto para reproduzir para os revisores e para a equipe de trabalho o contexto que deu ensejo à produção da obra quanto às condições de criação, no ambiente carcerário. Somente em um momento posterior, ele fez uma leitura mais distanciada, em que “o lia como livro em si”. E em seu desempenho como editor,
Mangarielo afirma que não fazia observações sobre passagens, sobre a linguagem ou o estilo do texto, e assim procedeu em relação ao texto de Tapajós. Comenta que se norteou ao aceitar publicar o livro pelo interesse que tal discurso despertaria:

A quem realmente interessa esse discurso? Percebi que interessava aos críticos da sociedade brasileira. Sempre me coloquei nessa posição e não na de um crítico literário – eu nunca tive competência para isso e não terei. Olho o livro enquanto denúncia, enquanto unidade textual, enquanto intenção. O que eu sei ler no texto tanto de ensaísta quanto literário é o não dito, o que ele não disse, o que ele omitiu, o que ele jogou debaixo do tapete. Se o escritor me provoca essa preocupação, desperta-me isso, já fico com o pé atrás, o que está dito eu julgo objetivamente, sem paixão, sem veleidades estético-literárias ou até mesmo ideológicas12.

A relação entre editor e autor no caso em estudo circunscreve-se a um horizonte específico de atuação, pois se na constituição empresarial de uma editora como a Alfa-Omega a figura do editor é determinante como condutor de toda a linha editorial e da produção do livro, é preciso igualmente considerar sua inscrição como ator, no quadro social daquele tempo, na promoção de debate e resistência contra as arbitrariedades do regime militar, mantendo, portanto, um exercício intelectual e de engajamento13.

Convém ressaltar um possível debate que houve em torno do título que ganharia o livro. É o que se pode inferir a partir do original, intitulado Os mortos não são todos iguais, para o que veio a receber, Em câmara lenta. A mudança, insiste Mangarielo, não foi sugerida por ele, mas sim por Tapajós. Em vista dessa opção, tentava-se escapar de um título acintoso que pudesse chamar, logo ao primeiro olhar, a atenção da censura, bem como, é possível deduzir, resumir o efeito duplo ocultado em um mesmo título. Um deles diz respeito à estrutura narrativa montada como roteiro cinematográfico, conduzida pelo narrador, em diversas passagens, como uma câmera lenta, e outro referente à tortura, procedimento em que se mutila o corpo lentamente, cujo objetivo é “provocar a explosão das estruturas arcaicas constitutivas do sujeito, isto é, destruir a articulação primária entre o corpo e a linguagem”14, conforme assinalam Maren e Marcelo Viñar, psicanalistas que trataram de pessoas vítimas de tortura no Uruguai. Igualmente, considerando os efeitos da tortura e do desafio psicanalítico ao tratar de pacientes que sofreram

o horror daquele processo traumático, eles acrescentam: Sabemos que a tortura conduz, pelo isolamento, punições, sede e esgotamento, a profundas
perturbações orgânicas e psíquicas (estados alucinatórios, de confusão e oníricos). Mas raramente insistimos sobre a natureza da produção psíquica que daí resulta, ou sobre os caminhos pelos quais ela conduz tanto à coerência consigo mesmo, quanto à capitulação diante do adversário. Os testemunhos daqueles que sofreram a tortura concordam sobre este ponto: é na alucinação e no estado onírico que cada um preserva ou trai seus valores éticos. (…) Somente o fato de constatar que o desfecho tem lugar na alucinação, e não em uma escolha lúcida efetuada por um sujeito consciente, é um desafio à reflexão psicanalítica. Estes dois momentos cruciais, a ruptura da relação conhecida com o corpo e a função de apelo inerente à alucinação, estão na
origem da conduta que funciona como resposta ao aniquilamento15.

O lançamento do romance e a investida repressiva

A noite de lançamento de Em câmara lenta, em 10 de maio de 1977 em São Paulo, reuniu um público numeroso, ultrapassando qualquer expectativa. Conforme relatou o autor a Ridenti, “era a primeira coisa que estava acontecendo que pudesse mobilizar a esquerda”16. O evento ocorreu em uma loja de molduras em uma rua do bairro de Pinheiros, em São Paulo, próxima ao prédio da editora, concentrando um público considerável. Para a ocasião, Mangarielo levara 300 exemplares, da edição de mil que já estava pronta (foram tirados 3 mil livros, a cota habitual impressa na época). Mas viu que a saída era muito grande, tendo que mandar buscar mais 300 que guardara em sua casa. “Era um número de vendas expressivo para a época”17, enfatiza o editor. Salvo a tentativa do tumulto feita por uma das pessoas presentes no lançamento, a noite anunciara apenas a face próspera do empreendimento:

Houve uma pequena escaramuça lá, a partir de uma atitude de um cara provocador de direita, mas nós percebemos a cilada na nossa própria sombra, porque na ditadura não se brincava. Ele provocou uma rusga e alguém defendeu o Tapajós antes de uma confusão eclodir. (…) Estou relembrando claramente do cara gesticulando, acusando, mas foi abafado, era minoria, estava sozinho (…). O quiprocó durou uns dez ou quinze minutos. Depois disso, tudo transcorreu tranqüilamente18.

E o livro havia alcançado significativa vendagem em grande parte pela intensa divulgação do caso na imprensa, provocando um movimento pela demanda do romance, a ponto de Mangarielo comentar que “tinha ganhado 1.200 sócios anônimos. Entre 60 e 90 dias eu vendi de 800 a 900 exemplares, o que me permitia pagar o gráfico, o custo total da impressão”19. Quase dois meses depois de lançada a obra, cuja repercussão a excelente vendagem confirmava,
Tapajós sentira surpreso o que significava a advertência de Ênio Silveira. De fato, era ousadia assinar aquele livro, e a resposta veio em 27 de julho, quando foi preso ao sair da editora Abril, onde trabalhava, sem ter idéia do motivo, do qual veio a ser informado horas depois durante o interrogatório. A partir dessas circunstâncias, o aparelho repressivo já se mantinha à espreita e observava a forte repercussão do livro. As informações sobre o fato chegaram ao conhecimento do coronel Antônio Erasmo Dias, então secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, fato registrado na matéria “A prisão do jornalista”, no Jornal da Tarde 20 .

Vejamos o que assinala Ridenti em torno desse episódio:

Tapajós ficou detido um mês e meio, mas não foi torturado. Conta que um delegado disse a ele: “Olha, dessa vez você vai só responder a interrogatório, ninguém vai lhe bater nem nada. Agora, se na sua casa a gente encontrar armas ou material de organização, você vai entrar no cacete”. Como ele não tinha, escapou de apanhar. (…) Tapajós destaca que, nos interrogatórios, era usado um exemplar de seu livro com trechos assinalados, sobre os quais era questionado. Mais tarde, veio a descobrir que eram os mesmos trechos destacados em artigos de Lenildo Tabosa Pessoa, em sua coluna do Jornal da Tarde, na qual o jornalista argumentava que Tapajós e a esquerda de um modo geral continuavam “propondo a luta armada, que queríamos colocar todo o mundo no paredão. Os trechos que ele destacava nos artigos eram exatamente os mesmos sobre os quais eu tinha sido interrogado pelo policial. Até hoje, não dá para saber muito bem qual foi a relação. Eu sei que quem pediu a minha prisão foi o Erasmo Dias, e o executor foi o Fleury, que mandou os tiras dele me pegar. Mas não acredito que o Erasmo Dias tenha lido o livro e feito aquelas marcações todas. Eu imagino que ele recebeu a denúncia do livro já marcado de alguém, aí desse pedaço onde circulava o Lenildo” 21.

Em documento de 20 de julho de 1977, o delegado Sérgio Paranhos Fleury encaminhou a um juiz da Auditoria Militar um ofício comunicando o fato de Renato Tapajós estar cumprindo liberdade condicional por ter infligido a Lei de Segurança Nacional e novamente violá-la com a publicação, pois conforme ele registra: “A obra, cuja análise ora se encaminha, é uma apologia do terrorismo, da subversão e da guerrilha em todos os seus aspectos”22.

Após circular em expedientes internos dos órgãos da repressão, em 27 de julho a ordem de prisão de Renato Tapajós foi assinada pelo coronel Erasmo Dias:

Quando a repressão ia pegar os livros [de autoria de Renato Tapajós], no dia seguinte o livreiro os comprava de mim e eu os entregava sem nota fiscal, para não deixar a marca. Foi por isso que pudemos atender ao maior número possível de pessoas e assim o livro pôde cumprir o seu papel de denúncia, o seu papel social, o seu papel político. Esses dois mil exemplares que ficaram fora da apreensão da polícia foram consumidos depois. (…) Foi isso, consumiram-se o segundo e o terceiro milheiros depois de certo tempo, quando o Renato Tapajós foi solto 26.

A circulação do romance se manteve por meio de tal estratégia, garantindo que os dois milheiros fossem sendo distribuídos, à revelia da ordem de recolhimento então decretada oficialmente. Toda a repercussão do caso pela imprensa só fazia o interesse pela obra crescente 27. Dessa forma, os censores se davam conta de que alguns livros tinham sido apreendidos, mas havia outros, que escaparam às malhas da repressão, pois circularam sem nota:
“O livreiro pagava em solidariedade, pagava até à vista, o desconto na época já era grande, 40% para pagar em sessenta dias, mas eles pagavam à vista. Assim, tinham os livros em mãos e logo agilizavam o pagamento. A livraria Brasiliense, por exemplo – tenho vivo na memória -, comprava dessa maneira”28, enfatiza Mangarielo. O pagamento era feito em cheque ou em dinheiro, ou até se vendia com prazo de um mês para receber, de modo que logo os exemplares eram enviados para distribuidores de todo o Brasil. À época, a Alfa-Omega trabalhava com um ou dois distribuidores em cada estado, o que garantiu a chegada do livro às prateleiras das grandes capitais 29.

Entretanto, devem ser considerados alguns fatores que contribuíram para o êxito de tal empreendimento. Além de Mangarielo continuar controlando quase todo o processo editorial interno da Alfa-Omega e a despeito de uma ou outra reformulação em suas atividades em conseqüência da censura do livro de Tapajós e de ter a repressão em seu encalço, no âmbito externo ele conseguiu manter uma tácita rede de contatos necessária à saída de numerosos
exemplares de Em câmara lenta.

Sem dúvida, a freqüente divulgação do caso, tanto na grande imprensa como na alternativa, acabou por gerar enorme demanda pelo romance, o que mais do que objeto de desejo (a leitura proibida) tornara-se objeto de consumo de rápida vendagem, propiciando assim retorno financeiro ao editor, aos livreiros e aos distribuidores. Todavia, não se pode esquecer a existência de um componente essencial nessa trama de relações capaz de garantir a circulação do livro da saída da Alfa-Omega até a chegada às livrarias: a solidariedade. Foi ela que garantiu, para além da dimensão das relações empresariais e políticas, o entrosamento entre diversos profissionais, que dela se valiam para enfrentar um sem-número de
dificuldades cotidianas decorrentes de situações de exceção que vinham de longo tempo.

1 PELLEGRINI, Tânia. Gavetas vazias: ficção e política nos anos 70. São Carlos/São Paulo:
Edufscar, Mercado de Letras, 1996. p. 29. 2 Idem, p. 26.
2 Idem, p. 26.
3 Entrevista concedida por Renato Tapajós à autora, em Campinas, em 23 de março de 2007.
4 Idem, ibidem.
5 RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro, Record, 2000. p. 154.
6 Idem, ibidem.
7 MAUÉS, Eloísa Aragão. “A editora Alfa-Omega nos anos de chumbo: Entrevista com Fernando Mangarielo”.
Oralidades: Revista de História Oral, Núcleo de Estudos em História Oral do Departamento de História, FFLCHUSP.
São Paulo: NEHO, ano 1, n. 2, 2007.
8 Na estruturação de tal empreitada, destaca-se a constituição de um seletivo catálogo em que constam autores que
mais se destacaram na oposição ao regime militar, tendo como marco de grande sucesso editorial e político o livro
A Ilha: Um repórter brasileiro no país de Fidel Castro, de Fernando Morais, lançado em 1976. Outras obras
alcançaram sólida repercussão, encabeçando as listas de maior vendagem de não-ficção: A sangue-quente: A morte
do jornalista Vladimir Herzog, de Hamilton Almeida Filho (1978); Cuba hoje: 20 anos de revolução, de Jorge
Escosteguy (1979); e A história me absolverá, de Fidel Castro (1979).
9 Entrevista concedida por Fernando Mangarielo à autora, em São Paulo, em 19 de agosto de 2006.
10 Idem, ibidem.
11 Idem, ibidem.
12 Idem, ibidem.
13 Conforme a avaliação de Heloísa Pontes, esse é um traço geral que permeia o trabalho do editor em âmbito
nacional, particularmente a partir da década de 1930. De acordo com esse entendimento, “o editor brasileiro torna-
se […] uma figura-chave de sua empresa […] Nesse sentido, uma história da indústria do livro, de suas publicações e
do mercado editorial só se torna completa, no caso brasileiro, se acompanhada de uma exposição das trajetórias de
seus editores”. E ainda, para a autora, estes editores, no período 1930-1950, “parecem empenhados em cumprir um
papel social análogo ao dos intelectuais e escritores engajados, ou pelo menos assim se auto-representam”.
PONTES, Heloísa. “Retratos do Brasil: editores, editoras e ‘coleções brasiliana’ nas décadas de 30, 40 e 50.” In:
MICELI, Sérgio. História das Ciências Sociais no Brasil. vol. 1. São Paulo, Vértice/Idesp, 1989, p. 359-60.
14 VIÑAR, Maren & VIÑAR, Marcelo. Exílio e tortura. São Paulo: Escuta, 1992. p. 73.
15 Idem, p. 73-74.
16 TAPAJÓS, Renato apud RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro, Record, 2000. p. 154.
17 Entrevista concedida por Fernando Mangarielo à autora, em São Paulo, em 19 de agosto de 2006.
18 Idem, ibidem.
19 Entrevista concedida por Fernando Mangarielo à autora, em São Paulo, em 19 de agosto de 2006.
20 Eis um trecho da notícia: “O secretário da Segurança Pública, coronel Erasmo Dias, leu o livro “Em Câmara
Lenta”, do jornalista e publicitário Renato Tapajós, e não gostou. Entrou em contato com Brasília e depois com a
3.ª Auditoria Militar. Ao final da tarde de anteontem, o jornalista foi preso por um grupo de policiais da Divisão de
Ordem Social do Deops, quando saía da Editora Abril, acompanhado de sua mulher. Ontem à noite, em seu
gabinete, o secretário da Segurança tomou a decisão de divulgar uma nota oficial sobre o caso, mas depois voltou
atrás e decidiu receber um grupo de jornalistas. Revelou, entre outras coisas, que Tapajós ficará detido em regime
de incomunicabilidade durante dez dias”. “A prisão do jornalista”. In: Jornal da Tarde, 29 de julho de 1977.
Acervo Dops, Arquivo Público do Estado de São Paulo.
21 RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro, Record, 2000. p. 155.
22 Trecho do texto do Ofício n. 818/77, D.O.S, Acervo Dops, Arquivo do Estado de São Paulo.
23 Informação n. 626/77. Secretaria da Segurança Pública/ Polícia Civil de São Paulo. Acervo Dops, Arquivo do
Estado de São Paulo.
24 O advogado Aldo Lins e Silva foi o defensor de Renato Tapajós, e de Fernando Mangarielo e de Claudete
Mangarielo, estes dois últimos proprietários da editora Alfa-Omega. Como elemento de defesa no caso, Aldo Lins e
Silva solicitou um parecer crítico sobre a obra de Tapajós a Antonio Candido de Mello e Souza, então professor de
Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, que fez uma pormenorizada análise do
romance, ressaltando não ser ele subversivo nem mesmo induzir à prática de atos subversivos, conforme afirmavam
os órgãos da repressão judicial.
25 Entrevista concedida por Fernando Mangarielo à autora, em São Paulo, em 19 de agosto de 2006.
26 Idem, ibidem.
27 A tiragem não apenas se esgotara mediante a estratégia formulada pelo editor, como também a leitura se espraiou
com o recurso de cópias xerográficas, feitas em grande número, tanto no Brasil como no exterior, de acordo com o
que expõe Tapajós sobre o assunto: “Eu fiquei sabendo de gente que leu o livro em cópia xerox em Moçambique,
em Angola, na Argélia… Na Europa, várias pessoas, entendeu? Quer dizer, eu não sei quantas cópias xerox fizeram,
mas esse livro circulou muito mais em cópias xerox do que em cópias vendidas pela editora…”. Entrevista de
Renato Tapajós concedida a Mário Medeiros, em 25/11/2004. “Prelúdios & noturnos: ficções, revisões e trajetórias
de um projeto político”. Dissertação de Mestrado, Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da Unicamp, 2006, p. 145.28 Entrevista concedida por Fernando Mangarielo à autora, em São Paulo,
em 19 de agosto de 2006.
29 João Roberto Martins, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos,
comenta como conseguiu um exemplar de Em câmara lenta: “Eu, pessoalmente, comprei o livro de Tapajós logo
que saiu, no segundo semestre de 1977. Para isso, tive que percorrer um certo número de livrarias do centro de São
Paulo, até encontrar um vendedor que confiou em minha aparência de estudante universitário e retirou de uma pilha
que escondia sob o balcão o exemplar que adquiri. Li o livro na mesma noite. No mapa do Brasil, ele me permitiu
localizar onde ficava o inferno”. MARTINS FILHO, João R. “A guerra da memória: a ditadura militar nos
depoimentos de militantes e militares.” In: XXIV Congresso Internacional da Associação de Estudos Latino-
Americanos (Dallas, TX, 27 a 29 de março de 2003). p. 1.

Fontes e Bibliografia
Documentos

Pasta OS 1807 – Renato Carvalho Tapajós, do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Acervo Deops.
Documentos variados empregados na defesa de Renato Tapajós, Fernando Mangarielo e Claudete
Mangarielo, cedidos pelo doutor Aldo Lins e Silva.

Entrevistas concedidas à autora

Renato Tapajós, em Campinas, em 23 de março de 2007.
Fernando Mangarielo, em São Paulo, em 19 de agosto e 2 de setembro de 2006.

Livros e textos sobre o regime militar, censura, memória

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