Archive for novembro \29\UTC 2008

Brasil 1968 – do tiro no Calabouço ao AI-5

novembro 29, 2008

 Já publicamos, aqui, um artigo de Jeocaz Lee-Medi, GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968. Em relação a 68, em seu blog ele também já publicou 1968, O ANO DE TODOS OS GRITOS; PARIS, MAIO DE 1968 e PRAGA 1968, FLORESCIMENTO E MORTE DE UMA PRIMAVERA.

Em seu último post sobre o ano, Jeocaz traça um panorâmica de 1968. Para despertar o interesse, reproduzimos, aqui, o início do artigo.

 

O ano de 1968 foi marcado pelas ebulições políticas e sociais que assolaram o mundo. A Guerra Fria instalada após a Segunda Guerra Mundial criou dogmas filosóficos, ideologias revolucionárias, e ditaduras que defenderam dois blocos políticos, o bloco americano e o bloco soviético. 1968 veio e contestou todas as ideologias e sistemas vigentes, atrás da contestação político-ideológica, os costumes sociais da sociedade ocidental vieram abaixo, trazendo novos comportamentos, inseridos na repressão dos governos ditatoriais tanto de direita, como de esquerda.

Se o mundo foi abalado, gerando os tumultos estudantis na Europa, que culminaram com as manifestações de maio em Paris, com a contestação do regime socialista na extinta Tchecoslováquia e a sua Primavera de Praga, no Brasil estas contestações não passaram despercebidas, sendo assimiladas de uma forma convulsiva que culminaria com o fechamento do Congresso Nacional em dezembro e o fio ínfimo de liberdade que ainda se podia respirar sendo finalmente estrangulado.
Liberdade comportamental não rimava com um governo ditatorial. (…)

Para continuar a leitura, clique aqui

1965 – San Juan de Puerto Rico

novembro 26, 2008

bosch13

por Eduardo Galeano

24 de abril de 1965
San Juan de Puerto Rico

Bosch

La gente se lanza a las calles de Santo Domingo, armada con lo que tenga, con lo que venga, y embiste contra los tanques. Que se vayan los usurpadores, quiere la gente. Que vuelva Juan Bosch, el presidente legal.

Los Estados Unidos tienen preso a Bosch en Puerto Rico y le impiden volver a su país en llamas. Hombre fibroso, puro tendón, todo tensión, Bosch se muerde los puños, a solas en el rabiadero, y sus ojos azules perforan las paredes.

Algún periodista le pregunta, por teléfono, si él es enemigo de los Estados Unidos. No; él es enemigo del imperialismo de los Estados Unidos:

—Nadie que haya leído a Mark Twain— dice, comprueba Bosch —puede ser enemigo de los Estados Unidos.

em português:

bosch3<a

24 DE ABRIL DE 1965
San Juan de Puerto Rico

BOSH

A povo se lança às ruas de São Domingos, armado com o que têm,
com o que venha, e investe contra os tanques.Que se vão os
usurpadores, quer o povo. Que volte Juan Bosh, o presidente legal.

Os Estados Unidos prenderam Bosh em Porto Rico e o impedem
de voltar a seu país em chamas. Homem de fibra, puro nervo,
todo tensão. Bosh morde seus próprios punhos, a sós na cela,
e seus olhos azuis perfuram as paredes.

Algum jornalista lhe pergunta, por telefone, se é o inimigo dos
Estados Unidos. Não, ele é o inimigo do imperialismo dos Estados Unidos:

– Ninguém que tenha lido Mark Twain – diz, comprova Bosh – pode ser inimigo dos Estados Unidos.

Hasta siempre Che Guevara

novembro 24, 2008

 

 

Pensei que já tínhamos publicado um vídeo com a música Hasta Siempre Che Guevara.

 Procurando rapidamente nos arquivos antigos, não a encontrei. Assim, mesmo correndo o risco da repetição, aí vai:

Zumbi de Palmares

novembro 20, 2008

zumbi

por Eduardo Galeano

20 de novembro de1695
Serra Dois Irmãos

Zumbi

Profundezas da paisagem, funduras da alma. Fuma cachimbo Zumbi, perdido o olhar nas altas pedras vermelhas e nas grutas abertas como feridas, e não vê que nasce o dia com luz inimiga nem vê que fogem os pássaros, assustados, em revoadas.

Não vê que chega o traidor. Vê que chega o companheiro, Antônio Soares, e se levanta e o abraça. Antônio Soares afunda várias vezes o punhal em suas costas.

Os soldados cravam a cabeça na ponta de uma lança e a levam para Recife, para que apodreça na praça e os escravos aprendam que Zumbi não é imortal.

Já não respira Palmares. Tinha durado um século e tinha resistido a mais de quarenta invasões este amplo espaço de liberdade aberto na América colonial. O vento levou as cinzas dos baluartes negros de Macacos e Subupira, Dambrabanga e Obenga, Tabocas e Arotirene.

Para os vencedores, o século de Palmares se reduz ao instante das punhaladas que acabaram com Zumbi. Cairá a noite e nada ficará debaixo das frias estrelas. Mas, que sabe a vigília comparado com o que sabe o sonho?

Sonham os vencidos com Zumbi; e o sonho sabe que enquanto nestas terras um homem seja dono de outro homem, andará o seu fantasma. Mancando andará, porque Zumbi era manco por culpa de uma bala; andará tempo acima e tempo abaixo e mancando lutará nestas selvas de palmeiras e em todas as terras do Brasil. Se chamarão Zumbi os chefes das incessantes rebeliões negras.

20 de novembro DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Prá Tonga da Mironga

novembro 17, 2008

 

Logo depois do artigo “Quem te viu, quem te vê, MBP!, recebo, por e.mail, o seguinte texto de Olga Maria Salati Marcondes de Moraes, a Olguinha:

Na revista Brasil: Almanaque de Cultura Popular, editor Elifas Andreato, novembro/2008 – distribuída nos vôos da TAM, (você certamente já deve ter visto), a chamada de capa é:

O ano em que o Brasil escureceu – os ideais revolucionários de 1968 interrompidos pela sombra do AI-5.

 Há uma boa reportagem: Cenas de um ano que não terminou, com uma panorâmica sobre os fatos e fotos que tornaram tão significativo aquele ano prá todos nós.

Ao final, faz referência ao livro do Zuenir, já conhecido e também a uma edição de fotojornalismo denominada – 1968 Destinos 2008: A passeata dos 100 mil, de Evandro Teixeira (Textual, 2008). 

Você já conhece? Parece uma composição interessante: o Evandro, que é fotojornalista, retoma as fotos que fez da passeata dos 100 mil em 68, seleciona pessoas que dela participaram e novamente entrevista-as 40 anos depois. Acho que é isso, pois não vi o livro. Vou procurá-lo aqui em Soroca City. Poderia ir para a bibliografia do Arquivo 68, não? 

Caso tenha lido, que tal rabiscar um post?

Pode me mandar prá Tonga da mironga (isto é dos anos 60!)… além de não escrever ainda fico pedindo e sugerindo coisitas!

 Prometo encerrar.

Abraços

Olga

Olguinha, como percebes, mesmo sem ter lido a revista e ainda sem conhecer o livro, rabisquei o post. Estou aprendendo a ser “criativo”. Pode também me mandar prá Tonga da mironga. Mereço.

Küller

Quem te viu, quem te vê, MPB!

novembro 14, 2008

Por Olga Maria Salati Marcondes de Moraes

mpb-fotohistorica

Meses atrás, encaminhei esta foto histórica da MPB a meus jurássicos colegas de faculdade, entre eles Küller, Tonhão, Chico e Eli, a quem o Jarbas carinhosamente denominou “os meninos de Rio Claro”.

Küller me respondeu com um desafio: esta foto daria um post para o Arquivo 68!

O tempo passou e antes que 2008 termine, decidi publicá-la.

Há bom material (Música em 68 e afins) já postado neste blog e muita coisa disponibilizada na INTERNET (estão lá, por exemplo: “Projeto 40 Anos de 68: relembrar, celebrar e entender” – da UFRJ, MIS e Secretaria de Cultura RJ; “A arte engajada e seus públicos”  (1955/1968) de Marcos Napolitano, trabalhos sobre as manifestações culturais e artísticas da época).

A riqueza da foto está em reunir mostra dos cantores/criadores das diferentes tribos existentes à época (clique sobre a foto para aumentá-la).

Quem viveu e cantou os anos 60 sabe que é um time de primeira! E os modelitos também.

31 de março de 1964

novembro 13, 2008

por Eduardo Galeano

31 de marzo de 1964
Río de Janeiro

golpe

«Hay nubes sombrías», dice Lincoln Gordon:

—Nubes sombrías se ciernen sobre nuestros intereses económicos en Brasil…

El presidente João Goulart acaba de anunciar la reforma agraria, la nacionalización de las refinerías de petróleo y el fin de la evasión de capitales; y el embajador de los Estados Unidos, indignado, lo ataca a viva voz.

Desde la embajada, palabras de dinero caen sobre los envenenadores de la opinión pública y los militares que preparan el cuartelazo.
Se difunde por todos los medios un manifiesto que pide a gritos el golpe de Estado. Hasta el Club de Leones estampa su firma al pie.

Diez años después del suicidio de Vargas, resuenan, multiplicados, los mismos clamores. Políticos y periodistas llaman al uniformado mesías capaz de poner orden en este caos. La televisión difunde películas que muestran muros de Berlín cortando en dos a las ciudades brasileñas.

Diarios y radios exaltan las virtudes del capital privado, que convierte los desiertos en oasis, y los méritos de las fuerzas armadas, que evitan que los comunistas se roben el agua. La Marcha de la Familia con Dios por la Libertad pide piedad al Cielo, desde las avenidas de las principales ciudades.

El embajador Lincoln Gordon denuncia la conspiración comunista: el estanciero Goulart está traicionando a su clase a la hora de elegir entre los devoradores y los devorados, entre los opinadores y los opinados, entre la libertad del dinero y la libertad de la gente.

em português:

31 de março de 1964
Rio de Janeiro

gordon2

” Há nuvens sombrias”, diz Lincoln Gordon:
– Nuvens sombrias se formam sobre nossos interesses econômicos no Brasil…

O presidente João Goulart acaba de anunciar a reforma agrária, a nacionalização das refinarias de petróleo e o fim da evasão de capitais; e o embaixador dos EUA, o ataca de viva voz.

Da embaixada, palavras de dinheiro caem sobre os envenenadores da opinião pública e os militares se preparam para a quartelada.

Se difunde por todos os meios um manifesto que pede a gritos o golpe de Estado. Até o Lions Club coloca sua assinatura embaixo.

Dez anos depois do suicídio de Vargas, ressoam, multiplicados, os mesmos clamores. Políticos e periodistas chamam o uniformizado messias capaz de por ordem nesse caos. A televisão difunde filmes que mostram muros de Berlim cortando em duas as cidades brasileiras.

Diários e rádios exaltam as virtudes do capital privado, que converte os desertos em oásis, e os méritos das Forças Armadas, que evitam que os comunistas roubem a água. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade pede piedade ao Céu, desde as avenidas das principais cidades.

O embaixador Lincoln Gordon denuncia a conspiração comunista: o fazendeiro Goulart está traindo sua classe na hora de escolher entre devoradores e devorados, entre opinadores e opinados, entre a liberdade do dinheiro e a liberdade do povo.

11 de novembro de 1963 – Há quase meio século!

novembro 11, 2008

faculdade-de-direito-sao-francisco

por Alberto Parahyba Quartim de Moraes

Neste mês de novembro, mais precisamente hoje, dia 11, está fazendo exatos 45 anos que comecei a trabalhar no Estadão, inaugurando uma carreira profissional que bordejou o campo da chamada Comunicação em atividades variadas, até desembocar nesta a que hoje me dedico com muito amor e… crescente desalento: a edição de livros.

É curioso como o curso de toda uma vida pode ser determinado por questões circunstanciais, às vezes por uma simples e fortuita decisão de momento. Estava eu àquela época cursando a Faculdade de Direito da USP, as venerandas Arcadas do largo de São Francisco, e fazia já cerca de um ano e meio que começara a namorar a Mônica.

Foi quando baixou aquela tremenda precisão de casar-me. Pois, como sabemos, naquele tempo só mesmo o casamento, papel passado, permitia a consumação de uma relação de amor romântico.

Meti então na cabeça que tinha que arranjar emprego. Procurei o bom e saudoso amigo e colega de colégio Bandeirantes, Luiz Bueno d’Horta, cujo pai, Arnaldo Pedroso d’Horta, intelectual e artista plástico de renome e prestígio, era colaborador antigo do Estadão, onde fazia principalmente crítica de artes plásticas.

Arnaldo era uma figura suavemente impressionante, de temperamento extremamente reservado, tímido mesmo, homem de poucas palavras e comedido nos gestos, mas cujos olhos claros e olhar firme e sereno revelavam uma extraordinária bondade.

Em sua casa na travessa Umberto I, na Vila Mariana, ele reunia periodicamente um notável grupo de intelectuais e artistas que varavam noites em deliciosas tertúlias regadas a doses generosas e vinho e uísque: Luis Martins, Clovis Graciano, Sergio Buarque de Holanda, Rebolo, Paulo Vanzolini e muitos outros. Luiz e eu, juntos ali a pretexto de “estudar para uma prova”, dávamos sempre um jeito de pegar carona nesses encontros – como ouvintes, é claro. Que raro privilégio!

Arnaldo me apresentou ao professor Oliveiros S. Ferreira, grande jornalista e mestre em Ciência Política na USP e na PUC-SP, que na época, se não me falha a memória, coordenava o trabalho da enorme equipe de colaboradores nacionais e estrangeiros que o jornal publicava diariamente.

Numa segunda-feira, 11 de novembro de 1963, comecei a trabalhar, como copydesk, na Subsecretaria (hoje seria Editoria) de Política.

A editoria em que fui alocado era, talvez, a terceira mais importante do jornal naquela época, depois da Internacional (o Estadão – lembram-se? – só publicava notícias internacionais na primeira página!) e a de Economia. Ambas comandadas por experientes jornalistas estrangeiros: Giannino Carta, pai do Mino Carta, na primeira e Frederico Heller na de Economia.

A Política era chefiada pelo Celso Leite Ribeiro, o amável Celsinho, além de funcionário membro do grupo dos “amigos da casa”, pois era genro do dramaturgo Abílio Pereira de Almeida, íntimo dos Mesquita. Celsinho foi uma das vítimas, em 1974, do trágico acidente com o avião da Varig que caiu num campo de cebolas perto de Paris, levando para além do combinado também figuras conhecidas como o cantor Agostinho dos Santos e o ex-ministro, então senador Filinto Muller, execrado chefe da polícia política da Ditadura Vargas.

Sob a chefia do Celsinho formávamos uma pequena equipe de quatro redatores, entre nós um discreto e simpático sujeito magrinho e precocemente careca que anos depois viria a se tornar tragicamente conhecido em todo o país: Vladimir Herzog.

Foi o começo de uma carreira que rapidamente deu certo. Tão certo que, menos de dois anos depois, diante da evidência de que já tinha uma profissão e nela estava me dando muito bem, abandonei a faculdade no terceiro ano, depois de tê-lo repetido por excesso de faltas e falta de interesse.

E, pior…, quero dizer, muito melhor: levei ao altar, em outubro de 1965, a loira e bela – inteligentíssima também, está visto – herdeira de nobre estirpe amazonense que até hoje aquece o meu coração e me ilumina os dias. De todos os privilégios, o maior!

Depois de 68, o Bar do Zé

novembro 8, 2008

 Cheguei tarde a um dos cenários mais importantes dos acontecimentos de 1968: a Rua Maria Antonia, em São Paulo. A região em torno dela foi chamada pelo Cláudio Tozzi de “Nosso Quartier Latin“. Quando cheguei, o grito da rua já tinha se calado. Sobrava o brilho e as luzes da noite e os murmúrios nos botecos.

O mapa incluído à direita já estava alterado. O Mackenzie permanecia no mesmo lugar. Continuava à direita, mesmo para quem subia pela Dr. Vila Nova. As unidades da USP já tinham ido para a Cidade Universitária. Um dos exércitos da Batalha da Maria Antônia havia abandonado o campo para o inimigo. Mas, a resistência continuava ativa nos bares.

O Bar do Zé foi o primeiro boteco da Maria Antonia em que entrei. Nada muito político ou boêmio ou romântico. Foi lá que comi um sanduíche na parada para o almoço do processo de seleção para trabalhar no SENAC. O SENAC ficava ali perto. Menos de 50 metros, descendo pela Rua Dr. Vila Nova. Vindo de Rio Claro, recém-formado em Pedagogia, cheguei lá por acaso. Procurava o meu primeiro emprego.

Não sei porque escolhi o Bar do Zé para fazer aquela refeição rápida. Nem o aspecto externo e muito menos o interno o recomendavam. Muito antes das sucessivas reformas por que passou, era pequeno, estreito, escuro, feio… Chegou a ser carinhosamente chamado de “Sujinho”. Naquele dia não sabia que alí,  naquela pequena chapa sobre o balcão, era feito um dos melhores sanduíches da cidade. Aquele lanche, em janeiro de 1972, foi o primeiro de muitos. Não tomei cerveja naquele dia.

Pensando bem, talvez a escolha do local daquela primeira refeição não tenha sido totalmente por acaso. O Bar do Zé tensionava o espaço pela sua posição geográfica. No alto, dividia ao meio a Rua Maria Antonia.  Postado na esquina com a  Dr. Vila Nova, e por ela, dava acesso fácil ao Teatro do SESC, ao Sem Nome e à região das boates e das madrugadas agitadas da Rua Major Sertório.

Pela esquerda, descendo a Rua da Consolação, quase induzia os passos para o Redondo e para o Teatro de Arena. Subindo a Consolação, com uma boa caminhada que pedia apenas pernas fortes, chegava-se ao Bar das Putas e mais adiante ao Riviera e ao Belas Artes.

À direita, em direção ao Makenzie, o Bar do Zé dava acesso à uma sucessão de outros bares que nunca freqüentei. A direita nunca foi a minha direção preferida. De sua posição privilegiada, o Bar do Zé podia ser o início, o descanso ou o término das andanças do dia ou da noite.

O futuro iria revelar que também não foi estranha a combinação do trabalho com o Bar do Zé, que aconteceu já no início. No Bar e Lanches Faculdade, o nome oficial do boteco,  fiz curso de política. Um curso que consistia em tomar contato com distintas posições ideológicas e suas análises do momento. Um curso com uma parte prática importante: examinar as decisões cotidianas à luz de posições políticas definidas. Mas, isso já é outra história.

1964 – Bolívia

novembro 7, 2008

por Eduardo Galeano (en Memoria del fuego)

6 de noviembre de 1964
La Paz

 

Sin pena ni gloria, como el presidente del Brasil, también el presidente de Bolivia, Víctor Paz Estenssoro, sube al avión que lo lleva al exilio.

El aviador René Barrientos, dictador parlanchín, domina Bolivia. Ahora el embajador de los Estados Unidos participa en las reuniones de gabinete, sentado entre los ministros, y el gerente del la Gulf Oil redacta los decretos de economía.

Paz Estenssoro había quedado solo de toda soledad. Con él ha caído, al cabo de doce años de poder, la revolución nacionalista.

Poquito a poco la revolución se había dado vuelta hasta quedar de espaldas a los obreros, para mejor amamantar a los nuevos ricos y a los burócratas que la exprimieron hasta dejarla seca; y ahora ha bastado un empujoncito para derrumbarla.

Mientras tanto los trabajadores, divididos, se pelean entre ellos. Actúan como si todos fueran laimes y jucumanis.

Al norte de Potosí

A toda furia pelean los indios laimes contra los indios jucumanis. Los más pobres de la pobre Bolivia, parias entre los parias, se dedican a matarse entre ellos, en la helada estepa al norte de Potosí. Quinientos han caído, de ambos bandos, en los últimos diez años, y son incontables los ranchos incendiados.

Las batallas duran semanas, sin tregua ni perdón. Se despedazan los indios por vengar agravios o disputando pedacitos de tierra estéril, en estas altas soledades adonde fueron expulsados en tiempos antiguos.

Laimes y jucumanis comen papa y cebada, que es lo que la estepa, a duras penas, les ofrece. Duermen echados sobre cueros de oveja, acompañados por los piojos que agradecen el calor del cuerpo.

Para las ceremonias del mutuo exterminio, se cubren las cabezas con monteras de cuero crudo, que tienen la exacta forma del casco del conquistador.

em português:

6 de novembro de 1964
La Paz

Sem pena nem glória, como o presidentedo Brasil, também o presidente da Bolívia, Victor Paz Estenssoro, sobe no avião que o leva ao exílio.

O aviador René Barrientos, ditador falador, domina a Bolívia. Agora o embaixador dos EUA participa das reuniões de gabinete, sentado entre os ministros, e o gerente da Gulf Oil redige os decretos de economia.

Paz Estenssoro havia caído só de toda solidão. Com ele caiu, ao fim de doze anos de poder, a revolução nacionalista.

Pouco a pouco a revolução deu voltas até cruzar espadas com os trabalhadores, para melhor amamentar aos novos ricos e aos burocratas que a espremeram até deixá-la seca; e agora bastou um empurrãozinho para derrubá-la.

Entrementes, os trabalhadores, divididos, lutam entre eles. Atuan como se todos fossem laimes e jucumanis.

Ao norte de Potosi

Com toda fúria lutam os indios laimes contra os indios jucumanis. Os mais pobres da pobre Bolívia, párias entre os párias, se dedicam a matar-se entre eles, na gelada estepe ao norte de Potosi. Quinhentos já caíram, de ambos os lados, nos últimos 10 anos, e são incontáveis os ranchos incendiados.

As batalhas duram semanas, sem trégua nem perdão,. Se despedaçam os indios para vingar insultos ou disputando pequenos pedaços de terra estéril, nestas altas solidões de onde foram expulsos em tempos antigos.

Laimes e jucumanis comem papa e cevada, que é o que a estepe, as duras penas, lhes oferece.Dormem jogados sobre couros de ovelha, acompanhados pelos piolhos que lhes agradecem o calor do corpo.

Para as cerimônias do mútuo extermínio, cobrem as cabeças com chapéus de couro cru, que tem a forma exata do casco do conquistador.