11 de novembro de 1963 – Há quase meio século!

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por Alberto Parahyba Quartim de Moraes

Neste mês de novembro, mais precisamente hoje, dia 11, está fazendo exatos 45 anos que comecei a trabalhar no Estadão, inaugurando uma carreira profissional que bordejou o campo da chamada Comunicação em atividades variadas, até desembocar nesta a que hoje me dedico com muito amor e… crescente desalento: a edição de livros.

É curioso como o curso de toda uma vida pode ser determinado por questões circunstanciais, às vezes por uma simples e fortuita decisão de momento. Estava eu àquela época cursando a Faculdade de Direito da USP, as venerandas Arcadas do largo de São Francisco, e fazia já cerca de um ano e meio que começara a namorar a Mônica.

Foi quando baixou aquela tremenda precisão de casar-me. Pois, como sabemos, naquele tempo só mesmo o casamento, papel passado, permitia a consumação de uma relação de amor romântico.

Meti então na cabeça que tinha que arranjar emprego. Procurei o bom e saudoso amigo e colega de colégio Bandeirantes, Luiz Bueno d’Horta, cujo pai, Arnaldo Pedroso d’Horta, intelectual e artista plástico de renome e prestígio, era colaborador antigo do Estadão, onde fazia principalmente crítica de artes plásticas.

Arnaldo era uma figura suavemente impressionante, de temperamento extremamente reservado, tímido mesmo, homem de poucas palavras e comedido nos gestos, mas cujos olhos claros e olhar firme e sereno revelavam uma extraordinária bondade.

Em sua casa na travessa Umberto I, na Vila Mariana, ele reunia periodicamente um notável grupo de intelectuais e artistas que varavam noites em deliciosas tertúlias regadas a doses generosas e vinho e uísque: Luis Martins, Clovis Graciano, Sergio Buarque de Holanda, Rebolo, Paulo Vanzolini e muitos outros. Luiz e eu, juntos ali a pretexto de “estudar para uma prova”, dávamos sempre um jeito de pegar carona nesses encontros – como ouvintes, é claro. Que raro privilégio!

Arnaldo me apresentou ao professor Oliveiros S. Ferreira, grande jornalista e mestre em Ciência Política na USP e na PUC-SP, que na época, se não me falha a memória, coordenava o trabalho da enorme equipe de colaboradores nacionais e estrangeiros que o jornal publicava diariamente.

Numa segunda-feira, 11 de novembro de 1963, comecei a trabalhar, como copydesk, na Subsecretaria (hoje seria Editoria) de Política.

A editoria em que fui alocado era, talvez, a terceira mais importante do jornal naquela época, depois da Internacional (o Estadão – lembram-se? – só publicava notícias internacionais na primeira página!) e a de Economia. Ambas comandadas por experientes jornalistas estrangeiros: Giannino Carta, pai do Mino Carta, na primeira e Frederico Heller na de Economia.

A Política era chefiada pelo Celso Leite Ribeiro, o amável Celsinho, além de funcionário membro do grupo dos “amigos da casa”, pois era genro do dramaturgo Abílio Pereira de Almeida, íntimo dos Mesquita. Celsinho foi uma das vítimas, em 1974, do trágico acidente com o avião da Varig que caiu num campo de cebolas perto de Paris, levando para além do combinado também figuras conhecidas como o cantor Agostinho dos Santos e o ex-ministro, então senador Filinto Muller, execrado chefe da polícia política da Ditadura Vargas.

Sob a chefia do Celsinho formávamos uma pequena equipe de quatro redatores, entre nós um discreto e simpático sujeito magrinho e precocemente careca que anos depois viria a se tornar tragicamente conhecido em todo o país: Vladimir Herzog.

Foi o começo de uma carreira que rapidamente deu certo. Tão certo que, menos de dois anos depois, diante da evidência de que já tinha uma profissão e nela estava me dando muito bem, abandonei a faculdade no terceiro ano, depois de tê-lo repetido por excesso de faltas e falta de interesse.

E, pior…, quero dizer, muito melhor: levei ao altar, em outubro de 1965, a loira e bela – inteligentíssima também, está visto – herdeira de nobre estirpe amazonense que até hoje aquece o meu coração e me ilumina os dias. De todos os privilégios, o maior!

Uma resposta to “11 de novembro de 1963 – Há quase meio século!”

  1. José Antonio Küller Says:

    Quartim

    Que bom tê-lo por aqui. Depois da “curtição”, lendo seu texto, ficou um gosto de quero mais!

    Grande abraço!

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