Archive for maio \30\UTC 2008

Manuel Bandeira

maio 30, 2008

Em outubro de 1968, morria Manuel Bandeira, um dos maiores poetas brasileiros.

Como uma homenagem, escolhi um poema de Bandeira para publicar.  Mesmo não tendo uma relação direta com o que o blog apresentou e discutiu até aqui, a escolha incidiu sobre um poema que trata do amor. Acho que esse tema foi muito relevante em 1968.

Em cursos desenhados para jovens, tenho usado esse poema para discutir a questão da beleza e a possibilidade de encarar a vida como uma obra de arte (Foucault). Mesmo que não a tenham formulado ou assumido explicitamente, acredito que havia um fundo dessa perspectiva nos sonhos e nas lutas dos jovens de 1968.

MADRIGAL MELANCÓLICO

O Que Eu Adoro em ti,

Não é a tua beleza.

A beleza, é em nós que ela existe.

 

A beleza é um conceito.

E a beleza é triste.

Não é triste em si,

Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

 

O que eu adoro em ti,

Não é a tua inteligência.

Não é o teu espírito sutil,

Tão ágil, tão luminoso,

– Ave solta no céu matinal da montanha.

Nem é a tua ciência

Do coração dos homens e das coisas.

 

O que eu adoro em ti,

Não é a tua graça musical,

Sucessiva e renovada a cada momento,

Graça aérea como o teu próprio pensamento.

Graça que perturba e que satisfaz.

 

O que eu adoro em ti,

Não é a mãe que já perdi.

Não é a irmã que já perdi.

E meu pai.

 

O que eu adoro em tua natureza,

Não é o profundo instinto maternal

Em teu flanco aberto como uma ferida.

Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!

O que eu adoro em ti, é a vida

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1966-O que era doce acabou!

maio 29, 2008

1966.

por José Gregorutti Neto

Todos estavam muito ansiosos com a apresentação musical que faríamos em nossa “formatura” do 4º ano primário/admissão.

Realizamos vários ensaios para o canto de “Disparada” e “A Banda”.
Nos ensaios, alguns professores cantavam entusiasmados com a gente.

Tínhamos 10 anos de idade (fico imaginando hoje como era o nosso canto em uníssono daquelas musicas e os nossos familiares lá… na platéia… felizes e orgulhosos com uma das nossas primeiras conquistas!)

De repente, a notícia: não cantaríamos mais nem Geraldo Vandré/Théo Barros e nem Francisco Buarque de Hollanda!

Ninguém entendeu nada e o silêncio foi geral. Não cantaríamos e pronto! … “mas para meu desencanto o que era doce acabou”.

Na formatura a apresentação musical foi realizada por uma solitária colega que tinha uma bela voz e cantava muito bem. Literalmente, não desafinava com aquele tempo!

Só entendi aquele ocorrido tempos depois… “as visões se clareando, até que um dia acordei”, talvez em 68 com a prisão de alguns familiares.

A censura política cortou e sangrou muitos corações e mentes.

Sodré cão!

maio 27, 2008

por Marta Bellini

A Marta é uma velha colega do curso de pós-graduação em educação da Universidade Federal de São Carlos no início dos anos 80, que hoje batalha como professora na área de educação da Universidade Estadual de Maringá. Contei para ela sobre o blog e perguntei se queria participar como autora. Ela gostou da idéia e para começar mandou a historinha abaixo. Espero que ela continue colaborando. (Antonio Morales )

Sodré cão!

Em 1968 minha escola mudou-se para outro lugar. Porto Ferreira, SP, era pequena, com cerca de 20 mil habitantes. Cidade operária com fábricas como a Nestlé, a Faiança e a fiação (fábrica de fios de algodão).

Saímos de uma escola na área central e fomos para a “periferia” até que a nova ficasse pronta. Para mim, que tinha 12 anos de idade, o caminho era longo. A escola tinha dois andares.

Nunca tinha visto um prédio assim. Na cidade havia um murmurinho diferente. Falavam em terroristas e em comunistas. Meu pai dizia que o Brasil poderia se tornar uma Cuba. Mas, eu não via nada; a atmosfera de Porto Ferreira não mudara. Onde poderia haver comunistas?

Um dia eu soube. Cheguei à escola e olhei para aquele paredão de dois andares e li: Sodré cão! Frase escrita em vermelho, a tinta escorria como sangue na parede. Subitamente entendi: eu estava no meio daquele movimento. 

Ecos da Repressão

maio 25, 2008

 

Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, 1968.

– Você sabe alguma coisa do Caio?

– Soube que ele estava tentando chegar no Uruguai …

Esta história começou bem antes. Em 1960 eu cursava o ginásio. Era o Instituto de Educação Cel. Bonifácio de Carvalho, a melhor escola de São Caetano do Sul, onde nasci e morei até 1972. Escola estadual, pública. Tive de fazer exame de admissão para entrar.

Dentre os colegas da turma havia dois que foram marcantes de forma bem diferente. Um era o “seu” Jaime, um carteiro de 45 anos no meio daquela garotada e que dizia que queria ser advogado. Outro era o Caio, com quem eu não tinha muita proximidade. Era valentão, brigador (fisicamente mesmo). Um dia inesquecível foi quando foi marcada a disputa entre ele e o Sérgio Batista, um negro muito forte, para decidir quem era o melhor de briga. Deu empate.

Num dia de exame oral estávamos vários colegas no pátio esperando pela hora de sermos chamados. O Caio estava muito nervoso, inquieto e veio me perguntar como eu fazia para ficar calmo. Disse a ele que a respiração profunda podia ser útil, pois aumenta a quantidade de oxigênio no sangue, irriga melhor o cérebro e favorece o relaxamento.

Ele resolveu tentar. Fiquei junto dele, praticando respiração. Depois de algum tempo ele estava mais tranqüilo. Foi para o exame oral e se saiu bem. Veio me agradecer.

Terminamos o ginásio e fomos por caminhos diferentes. Ele continuou no “Instituto”, eu fui para uma escola técnica. Em 1966 prestei vestibular para direito na USP e entrei. Em 67, quando começaram as aulas, encontrei na mesma turma em que eu estava aquelas duas figuras. O “seu” Jaime estava lá, mais próximo de seu sonho. E o Caio. Agora sereno, tranqüilo e poeta. E ativista político dos mais engajados, trabalhando na clandestinidade. Durante o tempo em que convivemos na faculdade ele foi uma figura pública apagada, mas muito ativo nos “subterrâneos”.

Em 1968, seguindo a onda dos acontecimentos mundiais, a faculdade foi “tomada” pelos estudantes que demandavam a abertura democrática, eleições, uma constituição digna. Alguns professores apoiaram o movimento. Dentre eles, duas grandes figuras: Gofredo da Silva Telles e Dalmo Dallari. Outros, como Esther de Figueiredo Ferraz, de que depois viria a ser Ministra da Educação, condenaram. Os meses que a ocupação durou foram de muita atividade. Todas as noites tínhamos alguma personalidade que aprecia lá para prestar sua solidariedade aos alunos.

Uma dessas figuras extraordinárias foi Mário Schemberg, professor da Física da USP. Já quase cego, ficou horas conversando com a turma. Um papo que poderia durar meses! Eu trabalhava durante o dia em São Caetano, mas todo final de tarde, assim que saía da empresa, pegava o ônibus e ia para a faculdade. Ficava lá até por volta das onze horas e depois voltava para casa. A pé até o Parque D. Pedro, onde pegava o ônibus. Descia em São Caetano e caminhava cerca de um quilômetro.

A “tomada”, inicialmente tratada com certa indiferença pelos órgãos da repressão, começou a incomodar. As manifestações dos alunos foram para o Largo São Francisco, e aí a polícia reagiu. Numa madrugada em que havia poucos estudantes no prédio, a tropa de choque desalojou a todos. Não houve resistência. A faculdade ficou ainda algum tempo fechada, mas depois reabriu normalmente. Quando voltamos às aulas, reencontrei vários colegas que não via há tempo. Foi a um deles que perguntei:

– Você sabe alguma coisa do Caio?

– Soube que ele estava tentando chegar no Uruguai, mas parece que em Santa Catarina pegaram ele.

Nunca mais se ouviu falar do Caio. Caio Venâncio Martins, estudante de direito, poeta e ativista político. Desaparecido.

Brasil, 1968 – Assalto ao Céu, descida ao Inferno

maio 25, 2008

 “Neste 2008, permanece singularmente pertinente a concepção que sem “ousar lutar”, não é possível vencer e que não há pior derrota que a sofrida sem combate. As jornadas de 1968, no Brasil e no mundo, não constituem simples sucessos históricos a serem narrados. Passados quarenta anos, 1968 permanece como esfinge enigmática, exigindo que sejam desvelados seus complexos sentidos. Como poderoso farol, segue ainda indicando, mesmo muito longe, no horizonte, o caminho seguro a ser seguido.”

O parágrafo anterior conclui o artigo “Brasil, 1968 – Assalto ao Céu e descida ao Inferno“, de Mário Maestri, que postamos em Páginas 25. O autor tece um panorama dos acontecimentos do ano de 1968, com ênfase nas dimensões políticas e culturais. Mais uma visão sintética que vale a pena ser lida.

68 – Elvis Presley – Memories

maio 22, 2008

Em dezembro de 1968, depois de 8 anos de ausência, Elvis voltou a se apresentar ao vivo. Do show, selecionamos a música Memories, que combina com este espaço e com nossas recordações.

1968 e as novas gerações

maio 21, 2008

1968 continua influenciando as novas gerações. O pequeno coreano, cantando Hey Jude, é demais!

68 – CENAS

maio 18, 2008

por Eduardo Sposito

CENA 13 – O OPOSTO LADO

Eu também já fui da repressão. Pelo menos para a Professora Carmucci, do Curso de Ciências Sociais da USP.

Corria o ano da desgraça de 1969. Depois de dois anos afastado do Movimento Universitário, voltei para iniciar o curso de Ciências Sociais. A Filosofia da USP tinha sido expulsa da Maria Antonia e estávamos precariamente instalados nos famosos Barracos, próximos à Reitoria.

Eu tinha entrado no Vestibular de 68, que era aplicado pela própria Faculdade (antes da Fuvest e antes ainda do esquema Cescem-Cescea-Mapofei). A minha entrada se deu graças ao movimento que fizemos para que os excedentes fossem admitidos.

Eu era um dos excedentes. Excedente era o candidato que consegui a média de aprovação, mas pelo número de vagas não era admitido. Em Ciências Sociais eram 50 vagas. Com a nossa luta passou para 130, em 68. Eu era 0 132º, mas houve duas desistências e eu entrei.

Mas, em 68, eu estava trabalhando para ajudar meu pai e as aulas que eu consegui eram no período da tarde, o horário em que devia cursar a Universidade. Então tranquei matrícula e voltei em 69, quando consegui aulas à noite.

Com essas eu perdi a batalha da Maria Antonia e outras agitações universitárias, já que estava mais no movimento secundarista na Zona Norte. O pessoal do meu tempo de UEE, ou tinha fugido, ou estava preso ou clandestino. Como não tinha feito cursinho, naquele começo de 69 eu não estava enturmado.

Foi aí que a coisa pegou. Era uma manifestação contra a vinda do Rockefeller, realizada dentro do Campus, que consistiu basicamente em vários comícios.

Estava eu, durante a manifestação, conversando com outro calouro, quando sentimos que estávamos sendo observados.

Dentro daquela neurose do momento, fomos identificados como agentes da repressão. Nos dias seguintes houve uma espécie de isolamento. No meu caso foi pior, pois a Carmucci, cismou que tinha me visto no DOPS. O mais engraçado é que eu não conheci a Carmucci! Se encontrasse com ela não saberia.

Depois que a merda foi para o ventilador é dificil limpar a barra. Devagar, fui retomando os contatos antigos e os fatos foram desmentindo a versão. Mas não foi fácil.

Ah! o outro calouro envolvido foi o Laurindo Leal Filho, o Lalo que depois se formou em comunicação, foi da Associação de Docentes e hoje tem um programa sobre a qualidade da TV, no Canal Brasil.

Recentemente encontrei o Lalo no congresso da Associação de TVs comunitárias – a ABCCOM – onde foi fazer uma palestra e lembrei-o do episódio. Ele disse que aquilo foi tão chato pra ele que ele tentou apagá-lo da memória. Me arrependi de ter feito ele lembrar.

Que tempos aqueles! Provavelmente ele pode ter achado que eu era realmente da repressão, pois até eu pensei que ele podia ser.

CENA 14 – FESTIVAIS SECUNDARISTAS

O que alimentou muito o movimento político entre os secundaristas foram as atividades culturais. As escolas de 2º Grau tinham geralmente seu Grêmio ativo, com jornal, grupos de teatro, de poesia, de música e atividades sociais.

Daí para a realização de festivais de teatro e música, interligando as escolas foi um passo. Eu mesmo fui diretor de teatro (vejam só) no Ginásio Comercial de Jaçanã, e participamos com a peça “Procura-se uma Rosa ” do Pedro Bloch no festival do CEDOM (Colégio lider na Zona Norte, citado pelo Chiroque) e no festival estudantil realizado pelo Equipe Vestibulares (cuja atuação naquele momento merece ser estudada).

Me lembro do último festival realizado no Cedom, no segundo semestre de 68, e por incrível que pareça me lembro das letras e melodias das músicas. Antecipando o que aconteceria com o Vandré, a música mais aplaudida por ser politizada, não ganhou, ficando em 3º. Homenageava o Che, e dizia mais ou menos:

“Ele morreu meu irmão.
Ele morreu mas venceu.
Levanta seu braço
O exemplo está lá.”

A 2ª colocada, num ritmo gostoso, com uma letra ingênua, dizia:

“Blau, blau blau
Caçamba de pau
Gente na janela, gente cara de panela
Gente no portão, gente cara de feijão.

E a 1ª, um sambão falando de amor:

“Ora João, esquece a dor
Daquela morena que te deixou.
Vai e procura um novo amor
Que o samba não acabou

E pra não mais chorar (breque)

Vamos sorria, que hoje é dia de carnaval
e a tristeza vai ter seu final.”

Só não lembro os autores.

O que alimentava aquela garotada? Esta semana, o Frei Betto esteve aqui em Rio Preto na Bienal do Livro [14/05/2008] e usou uma expressão interessante sobre a “geração 68”. Segundo ele, aquela geração “injetava utopia na veia”

CENA 15 – FREIRAS CANTORAS

E por falar em música, me lembro de umas freiras que gravaram um LP de músicas religiosas, que indicam bem a temática do período. Não lembro que freiras eram (isso é coisa pro Jarbas ou pro Cordão), mas lembro da letra inteira de uma das músicas, que convocavam para uma atuação cristã:

“Para mim, o vento que assobia
É noturna melodia.
Mas o pobre meu irmão ouve o vento angustiado,
Pois o vento, esse malvado, lhe derruba o barracão.

Para mim, a chuva no telhado
é cantiga de ninar.
Mas pro pobre meu irmão,
Para ele a chuva fria vai entrando em seu barraco
e faz lama pelo chão.

Como posso ter sono sossegado,
se no dia que passou os meus braços eu cruzei?
Como posso ser feliz,
se ao pobre meu irmão, eu fechei o coração
meu amor eu recusei?”

Podia ser meloso, mas embalava a “opção pelos pobres”.

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores

maio 18, 2008

 

Por mais “batida ” que seja,  a postagem de “Prá não dizer que não falei das flores” é inevitável. Em post de fevereiro, Orlando já tinha se referido a ela. Prá não dizer que esquecemos dela, aí vai…

Como o senhor vê a conjuntura atual?

maio 15, 2008

 

O que ocorria é que o fim do mês não chegava….Compromissos com a família, em Ribeirão Preto, o aluguel do quartinho que eu dividia com o Gilberto e os gastos com alimentação e transporte eram superiores ao salário que recebia mensalmente. Assim….

 

Dona Eulália, uma das nossas professoras no Curso de Especialização em Quinta e Sexta Série, interrompeu a aula por alguns minutos para nos dizer que seu marido estava recrutando pessoas “de bom nível”, como o nosso, para um trabalho altamente qualificado de vendas.

 

No sábado de manhã, estávamos, uns dez ou mais professores, em um amplo e bonito escritório, na Praça da República. Eu havia, muito a contragosto, deixado de ir jogar futebol com o time de uma fábrica de componentes automotivos de Osasco para ir à procura daquela nova fonte de renda.

 

Desacostumado que estava com reuniões protocolares, com gerentes engravatados, secretárias loiras e bem vestidas, sentia-me um pouco fora de meu ninho…. Mas, estava gostando de tudo aquilo: serviram café, bolachinhas, suco de laranja, além de mil e um “sinta-se à vontade, por favor”, “é com orgulho que a XXX INCORPORADORA os recebe aqui, em seu espaço”, “dentro de alguns minutinhos, o Dr. Jorge e o Dr. Wanderlei os receberão em nosso auditório…”  

 

Arlete estava linda: maquiada, com um “tailler” rosa, de saias muito justas desenhando o corpo perfeito:

 

– “Nossa, mulher, como você está bonita!”, disse.

 

– “Estou, não,…sou!”, respondeu,  irônica.

 

  “Escuta, Arlete, por que você não vai assim tão linda para o curso?”

 

– “Você vive, mesmo, no mundo da lua…temos que amassar argila, cortar e aparar madeiras nas aulas de Trabalhos Manuais e eu lá, de saia e blusa, tem cabimento?”

 

Aceitei suas objeções, mas continuei achando que ela deveria ir maravilhosa daquele jeito para o curso: “um desperdício não ir assim tão bonita”, pensava.

 

Fomos gentilmente convidados, por uma das secretárias, para a reunião no auditório. Munidos com microfone, retroprojetor e cartazes coloridos, os senhores “doutores” Jorge e Wanderlei nos aguardavam a postos, em uma mesa à frente do auditório. Cerimoniosamente, depois das boas vindas, doutor Wanderlei, elegantemente vestido, foi ao cerne da questão:

 

– “…trabalhamos com uma das mais modernas ferramentas de alavancagem do capitalismo moderno: trata-se da colocação, no mercado de ações, de títulos de projetos de construção do maior parque hoteleiro do Brasil … e, ao proprietário dos títulos, há, ainda, a possibilidade de utilizar o gasto com sua aquisição como parte do débito do Imposto de Renda de sua empresa, usufruindo, de maneira inteligente e dentro das normas tributárias, do benefício fiscal da lei ….E atentem para nosso objetivo: a XXX INCORPORADORA sonha ter seus papéis na “ualistriti” em futuro breve.”

 

Enquanto doutor Wanderlei falava, doutor Jorge, o marido da dona Eulália, não tirava os olhos das pernas da Arlete. Aquele balofo, com uma barriga enorme teimando em explodir a camisa de linho, impecavelmente branca, sorriso de vendedor no rosto enorme, me fez pensar, enciumado: “gordo sem vergonha, desgraçado!”

 

Ao ter a palavra passada pelo doutor Wanderlei, com a voz grave e empostada, o doutor Jorge explica o trabalho:

 

– “Vocês terão o nobre trabalho de fazer contatos, em visitas previamente  agendadas por nossas secretárias, para apresentação, a empresários, do plano de aquisição de nossos títulos de capitalização….Do total de vendas, vocês terão um percentual progressivo de participação, que se inicia com um ponto vírgula dois e chega a três pontos percentuais… Isto vai garantir, com certeza, uma remuneração infinitamente superior ao que, hoje, vocês recebem como professores e, melhor ainda, como vocês trabalharão como autônomos, estarão livres de qualquer contabilização e tributos….”

 

Usava, para sua exposição, transparências, gráficos e um entusiasmo ingênuo, do tipo: “logo, logo,  todos ficaremos ricos, muito ricos mesmo, com direito a carros novos, teatros, viagens ao exterior…”

 

Ao doutor Wanderlei, coube finalizar a reunião; e o fez cerimoniosamente:

 

   “Quero muito agradecer o apoio e a participação de vocês em nosso programa e lhes desejar boa sorte neste novo projeto profissional em que estão se engajando… Uma última recomendação que a experiência como empresário me permite fazer: procurem “aquecer”, inicialmente, a entrevista com os empresários e, também, demonstrar segurança e domínio do assunto que irão apresentar. Sugiro que, logo após os cumprimentos de praxe, tomem a iniciativa, começando a entrevista de negócios com um “Como o senhor avalia a conjuntura atual?” Empresários adoram falar a respeito da conjuntura. Estou muito confiante e…assim, mais uma vez, quero agradecer a presença de vocês, tenham um bom dia e, por favor, sintam-se  em casa, aqui na XXXX INCORPORADORA.”

 

À saída, as elegantes secretárias e o doutor Jorge entregaram, a cada um de nós, uma pasta contendo apostilas e prospectos dos títulos de capitalização. Além da bonita pasta, Arlete recebeu e  – o pior de tudo, para mim – aceitou o convite para ir almoçar com o doutor Jorge.

 

Da praça da República, fui até a  Biblioteca Mário de Andrade, onde, depois do empréstimo, por uma semana, do Memórias Póstumas de Brás Cubas, fui à seção de consultas, resolver, de vez, o significado de “CONJUNTURA”. O de “ualistriti” ficaria para depois, já que a timidez me impedia de perguntar, à  bibliotecária, a grafia correta,  em inglês. Mas, isto já estava resolvido: na segunda-feira, falaria com a Helenir, uma colega de curso que se preparava para entrar em Letras-Anglo na USP,  e ela resolveria,  não só apontando a grafia correta daquela  palavra, como, também, traduzindo-a. Afinal, com “feedback”, havia sido ela quem, cordial e gentilmente, havia me socorrido. Além disso, a Arlete, ao me ver confabulando com a Helenir, tenha lá, talvez,  uma pontinha de ciúmes, espero…. 

 

Acessei um dicionário e anotei na apostila que havia recebido:

 

CONJUNTURA: substantivo feminino. 1    combinação ou concorrência de acontecimentos ou circunstâncias num dado momento; circunstância, situação
Ex.: <c. favorável> <c. adversa> 1.1    conjunção de elementos de que depende, num dado momento, a situação política, econômica, social etc. dum país ou de um grupo de países ou de uma região; situação, quadro.

 

Tomei, frente à Mário de Andrade,  o 942 – Jaçanã – Cidade Universitária,  para  voltar ao quarto em que morava,  em Pinheiros.

 

Revi as anotações feitas na Mário de Andrade e agora já dominando, claramente, o significado de CONJUNTURA, ia imaginando possíveis respostas para o “como o senhor avalia a conjuntura atual?”:

 

            O Sérgio, com certeza, responderia “a conjuntura está favorável à tomada do poder pelos operários; a vitória, com certeza, virá logo;”

 

Arlete, belíssima em seu “tailler” cor de rosa, provavelmente almoçando um contra-filé a cavalo, diria “a conjuntura está melhorando tanto que não voltarei mais para o  interior.”

 

E eu? O que eu responderia?

 

            Bem, na verdade, eu diria….“não sei avaliar como está a tal da conjuntura; aliás, detesto essa palavra, não gosto de títulos de capitalização, não entendo nada de bolsa de valores e nem sei mesmo se quero entender… O que quero, mesmo, é ser professor primário…Estou muito mais é querendo saber como foi o jogo do nosso time de fábrica contra a Siemens…Que porra de conjuntura o que…só quero ser feliz.”

 

Desci do ônibus na Benedito Calixto e fui para a pensão de uma boliviana, onde almoçava. Comida pouca e ruim, a “mistura” daquele dia restringia-se a duas almôndegas do tamanho de uma bolinha de ping-pong.

 

E a Arlete, lá, comendo um contra-filé a cavalo… “Será que ela vai ter coragem de pedir dois ovos?  E o garçom, de paletó branco e gravata borboleta preta, com uma mãos nas costas, cerimonioso,  usando duas colheres na outra mão, segurando, malabaristicamente , o enorme bife e,  para encher o prato, depois, também com duas colheres em uma só mão, colocar as batata fritas,  e ela dizendo, polidamente, “para mim, basta, obrigada”, para, logo depois, corajosa,  “furar” os ovos com a ponta do garfo e fazer a gema escorrer e colorir de amarelo-ouro o grosso contra-filé – e não estas “bolinhas de ping-pong” daqui da pensão… No final, talvez, fazer uma massinha  com o miolo do pão que sobrou e limpar o prato da mistura da gema e da gordura que ficou do bife ….E será que o doutor Jorge não vai deixar, de propósito, cair seu isqueiro no chão só para apanhá-lo e aproveitar para ver,  por debaixo da toalha da mesa, as lindas pernas da Arlete? … “Velho gordo, desgraçado, casado, deixa em casa a mulher para ficar com sem-vergonhice com moça solteira…”

 

Chegaram na pensão, onde também almoçavam, “por mês”, quatro ou cinco mórmons, com suas camisas brancas, de mangas curtas, e gravatas pretas. Com certeza, eles saberiam o significado de “ualistriti”. “Será que pergunto a eles o que isso significa? Não…isso é tarefa para a Helenir, vai ser muito melhor.”

 

            Dona Vitória, a dona da pensão, retira os pratos e olha, curiosa, para a  minha pasta com as apostilas.

 

             – “O que foi, dona Vitória?”, pergunto, mal humorado.

 

– “Mui preciosa”, responde, apontando para a pasta.

 

Os mórmons levantam a cabeça, deixam de comer e ficam a olhar a pasta…

 

“Preciosa o que?…merda de pasta”, penso… Levanto, dou um seco “tchau” e saio.

 

Coloco a pasta debaixo de um dos braços, enquanto a outra mão procura, nos bolsos da calça, o maço de cigarros “Continental” e a caixa de fósforos. Resolvo que só vou acendê-lo na padaria da esquina com a Cardeal Arcoverde, onde me espera um café bem doce…

 

Peço o café, acendo um “Continental”, retiro o Memórias da pasta e inicio, ali mesmo no balcão, sua leitura.

 

Termino o cigarro e o café, enfio o Memórias debaixo do braço, jogo, na lixeira da padaria, a pesada e “preciosa” pasta e vou-me embora para meu quarto.