Das variações e limitações da memória 2

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Não consigo, de imediato, formar uma imagem clara dos sonhos que tinha ao entrar no curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia e Letras de Rio Claro, em 1968. É difícil separar esses sonhos dos de agora. É difícil pensar na pessoa que fui sem a interferência daquela que me tornei. No entanto, é importante fazer um exercício de recordação isento da vivência posterior. Isso permitiria precisar a influência da vida universitária, dos acontecimentos de 1968 e dos anos seguintes na fixação dos valores que orientariam a trajetória futura.

Para este espaço, penso que não vale a pena fuçar na busca daqueles sonhos mais pessoais e juvenis: amores, trabalhos, feitos, aventuras, heroísmos, glórias e reconhecimentos… Percebo que consigo recuperar com mais facilidade tais sonhos. Talvez porque tivessem ficado congelados na memória. Nela protegidos dos embates da vida e da labuta que viriam depois.

Para a proposta do Arquivo68, é importante a recuperação dos sonhos políticos. Dos sonhos referentes ao destino e o futuro da sociedade em que vivia e vivo.  Neste caso, sinto necessário um esforço maior para a separação do ontem e do hoje. Constato, já no início da introspecção, que a minha formação política era parca para produzir grandes e elaboradas visões de futuro.

A considerada boa escola pública da época contribuiu muito pouco nessa formação. Mesmo este pouco foi mais conseqüência de eventos extracurriculares. Lembro especialmente de uma montagem da peça Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Flávio Rangel, feita pela nossa turma do terceiro científico noturno. A montagem venceu um concurso de teatro, promovido pelo Instituto de Educação Joaquim Ribeiro, em 1967(?). Observe-se que, se o concurso foi promovido pelo colégio, a escolha da peça foi da turma.

Na construção de meus sonhos políticos, mais que a escola, as leituras foram decisivas. Desde menino, lia desesperadamente. Li a Bíblia três vezes. Lia tudo que me caia nas mãos, especialmente romances. Dois deles marcaram-me especialmente: a trilogia Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado, e Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo.

O trabalho com meu pai na feira livre, desde os 12 anos, foi outra vivência marcante. Ele me permitia um contato freqüente com o campo e com os problemas vividos pelos pequenos produtores rurais, que nos vendiam os produtos que depois comercializávamos. Permitia também o contato com pessoas de diferentes classes sociais, seus valores e seus preconceitos. Trabalhava na feira ainda em 1968. Frequentemente entregava, pela manhã, na cantina da FAFI, as laranjas que me seriam vendidas como suco, à tarde. É compreensível que a música Menino das Laranjas, cantada por Elis Regina, me tocasse então.

Finalmente, a igreja progressista e o grupo de jovens (JOVEUNIÃO) foram uma influência política marcante.

Que sonho esse conjunto de influências ajudou a construir? Acho que nada de muito diferente dos ideais da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, com ênfase especial para a liberdade e para a igualdade econômica. Um repúdio às grandes disparidades de renda e à pobreza. Ainda não tinha formulado, escolhido ou valorizado nenhum instrumento ou mecanismo político que ajudasse a concretizar o sonho. Mas só a aspiração à liberdade já era muito para aquele tempo.

Küller

2 Respostas to “Das variações e limitações da memória 2”

  1. Antonio Morales Says:

    Já sabia que você era um “rato de biblioteca”. Só não sabia que isso era anterior à Faculdade. O colégio e instituto de Educação Joaquim Ribeiro, onde estudou, era uma referência de qualidade na cidade.

    Logo ao chegar em Rio Claro, em meados de 67 conheci alunos de lá e professores que falavam sobre ele. Na época isso era comum. Me refiro a escolas públicas que mantinham um ensino com excelente padrão de qualidade. Hoje, veja a que ponto chegamos!

    Quanto a mim, partilho essa qualidade(defeito?) de “rato de biblioteca” que se acentuou na Faculdade, dada a total impossibilidade de meus pais comprarem os livros que eu precisava. A solução era se “enfurnar” na biblioteca e usar ao máximo as possibilidades de empréstimo que ela fornecia. Deve ter acontecido o mesmo com você.

    O teatro também marcou minha conscientização política e abriu novos horizontes para as tentativas de compreensão da sociedade e suas contingências políticas.

    Em 68(69?) fui para São Paulo com colegas assistir no Teatro Oficina a peça Galileu Galilei de Bertold Brecht e vi na cantina da Faculdade travestida em teatro, a peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto com música de Chico Buarque. Isso tudo em plena luta do movimento estudantil com a Ditadura.

  2. Dinâmica de encerramento: liberdade, liberdade. « Germinal – Educação e Trabalho Says:

    […] em Arquivo68, outro blog que ajudo a editar, no post Das variações e limitações da memória 2, a peça teatral Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Flávio […]

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