Depois de 68, o Bar do Zé

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 Cheguei tarde a um dos cenários mais importantes dos acontecimentos de 1968: a Rua Maria Antonia, em São Paulo. A região em torno dela foi chamada pelo Cláudio Tozzi de “Nosso Quartier Latin“. Quando cheguei, o grito da rua já tinha se calado. Sobrava o brilho e as luzes da noite e os murmúrios nos botecos.

O mapa incluído à direita já estava alterado. O Mackenzie permanecia no mesmo lugar. Continuava à direita, mesmo para quem subia pela Dr. Vila Nova. As unidades da USP já tinham ido para a Cidade Universitária. Um dos exércitos da Batalha da Maria Antônia havia abandonado o campo para o inimigo. Mas, a resistência continuava ativa nos bares.

O Bar do Zé foi o primeiro boteco da Maria Antonia em que entrei. Nada muito político ou boêmio ou romântico. Foi lá que comi um sanduíche na parada para o almoço do processo de seleção para trabalhar no SENAC. O SENAC ficava ali perto. Menos de 50 metros, descendo pela Rua Dr. Vila Nova. Vindo de Rio Claro, recém-formado em Pedagogia, cheguei lá por acaso. Procurava o meu primeiro emprego.

Não sei porque escolhi o Bar do Zé para fazer aquela refeição rápida. Nem o aspecto externo e muito menos o interno o recomendavam. Muito antes das sucessivas reformas por que passou, era pequeno, estreito, escuro, feio… Chegou a ser carinhosamente chamado de “Sujinho”. Naquele dia não sabia que alí,  naquela pequena chapa sobre o balcão, era feito um dos melhores sanduíches da cidade. Aquele lanche, em janeiro de 1972, foi o primeiro de muitos. Não tomei cerveja naquele dia.

Pensando bem, talvez a escolha do local daquela primeira refeição não tenha sido totalmente por acaso. O Bar do Zé tensionava o espaço pela sua posição geográfica. No alto, dividia ao meio a Rua Maria Antonia.  Postado na esquina com a  Dr. Vila Nova, e por ela, dava acesso fácil ao Teatro do SESC, ao Sem Nome e à região das boates e das madrugadas agitadas da Rua Major Sertório.

Pela esquerda, descendo a Rua da Consolação, quase induzia os passos para o Redondo e para o Teatro de Arena. Subindo a Consolação, com uma boa caminhada que pedia apenas pernas fortes, chegava-se ao Bar das Putas e mais adiante ao Riviera e ao Belas Artes.

À direita, em direção ao Makenzie, o Bar do Zé dava acesso à uma sucessão de outros bares que nunca freqüentei. A direita nunca foi a minha direção preferida. De sua posição privilegiada, o Bar do Zé podia ser o início, o descanso ou o término das andanças do dia ou da noite.

O futuro iria revelar que também não foi estranha a combinação do trabalho com o Bar do Zé, que aconteceu já no início. No Bar e Lanches Faculdade, o nome oficial do boteco,  fiz curso de política. Um curso que consistia em tomar contato com distintas posições ideológicas e suas análises do momento. Um curso com uma parte prática importante: examinar as decisões cotidianas à luz de posições políticas definidas. Mas, isso já é outra história.

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9 Respostas to “Depois de 68, o Bar do Zé”

  1. antoniomorales Says:

    Muito bem narrada sua história com o Bar do Zé. Logo depois comecei a frequentá-lo, quando de minha vinda para o Senac-SP em 1972 – e também comi muitos lanches (ótimos) e tomei muita cerveja nessa esquina mais que interessante e de uma diversidade cultural e ideológica impressionante. Uma “grande escola” realmente.

  2. Percival Matos Says:

    Kuller, muito bom o texto. Coincidência, eu também comi meu primeiro lanche no Bar do Zé, que já chamávamos de Sujinho, quando fiz meu primeiro teste de seleção pra entrar no Senac, só que isso já foi em 1975.
    Quem foi meu primeiro entrevistador? Tonhão.
    boas lembranças, e o bar do Zé continua lá, firme e forte. Sempre que posso ainda passo lá para tomar um café expresso.

  3. José Antonio Küller Says:

    Percival

    Obrigado pelo elogio e pelo comentário. Veja que as coincidências continuam. Eu também tenho passado periodicamente pelo Bar do Zé para tomar um café expresso. Mudamos nós, mudou a noite ou tudo mudou?

    Abraços

  4. carlos josé negrelli Says:

    Parabéns amigo Küller; excelente texto. Eu também frequentei muito o bar do Zé, desde os idos de 1970, principalmente nos curtos intervalos para almoço e retornar ao SENAC para as reuniões

  5. Olga M.Salati M. Moraes Says:

    Boa lembrança, Küller! Acho que todos que passamos pela Seleção do SENAC nos anos 70, testados por D. Adelina, experimentamos pelo menos o cafezinho de copo do Bar do Zé. Inté eu! Não fui exceção – direto da Piracicaba. Ainda hoje bato ponto com o Chico, prá comer um lanche (antigo sanduiche) de queijo branco quente, um cafezinho expresso enquanto assisto ao noticiário pela TV a cabo de lá. Quanta mudança, né?
    Outro remanescente sessentista da região é o barbeiro Cândido. Tinha sua barbearia lá pela rua Cesário Motta, acompanhando a movimentação estudantil da época. Girou em diversos endereços e hoje tem um salão maior na companhia dos filhos em frente à praça. Gente fina o Sr. Cândido!

  6. Lila Says:

    Oie,
    Muito bom o texto. Estou fazendo uma pesquisa para desenvolver um roteiro sobre a vida boemia de 68. Vi várias histórias legais que gostaria de ter mais detalhes. Por favor, aguardo um contato. Meu e-mail lissandralaila@gmail.com

  7. Pedro Pelarin Says:

    Oi amigo Küller: nasci e também entrei no Senac alguns anos antes de você (1935 e 1966). Começei a tomar café no bar do Zé, bem antes da disseminização das máquinas de café expresso (no começo italianas), quando freqüentava, na USP da Maria Antonia, os dois primeiros anos do curso de História, antes da mudança para a cidade universitária. Já no Senac, presenciei das janelas laterais esquerdas do prédio o entrevero entre os estudantes da USP e do Mackenzie. É… o tempo passa rápido demais.

  8. Valquiria Says:

    Olá, poxa que legal achar aqui o bar do Zé. Amava os lanches de perú com queijo branco que ele fazia. Frequentei muito esta região. Alguém sabe informar por onde anda o Mid Night, a Cristina, o João Carlos (ele era motorista de ambulância). Nossa quanta gente bacana da época de 84.85,86,87. Que saudades do Zé vendo a foto dele aqui.
    Parabéns a todos que colaboraram e colaboram para que nada fique esquecido. Obrigada, Valquiria

  9. Wendell Silva Says:

    Sempre o bar do Zé! Conheci em 1999 quando comecei a trabalhar no SENAC. Hoje, há mais de 10 anos fora do país, sempre recordo com saudades. Este ano pelo menos pude passar por lá para matar as saudades!

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