Archive for abril \30\UTC 2008

Eu tenho um sonho

abril 30, 2008

Não podia ver findar o mês de abril sem referir-me a dois acontecimentos importantes. O mês de abril de 68 viu calar uma voz que lutava pela igualdade entre os homens. Em quatro de abril, morreu Martin Luther King. Dele, postamos o seu mais famoso discurso em Páginas 19 – Eu tenho um sonho.

No mesmo mês, foi lançado um grito de liberdade no ar. Em 29/04/1968, acontecia, na Brodway, a estréia do musical Hair. Para recordar acesse, em http://www.youtube.com/watch?v=gM5dU-oKFes, uma cena do filme Hair. Nela, você encontrará um ícone daqueles tempos: a música The Age of Aquarius, com Donna Summer.

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Lição do chofer de praça

abril 29, 2008

Na Maria Antônia ocupada a gente tinha mil reuniões da coordenação geral do movimento estudantil (CG do ME), uma ou outra assembléia e atividades culturais alternativas. Mas havia sempre um longo tempo morto. Parte desse tempo podia ser preenchida por um lanche ou uns goles de cerveja no Cientista (boteco, na época, mais in que o Bar do Zé). Outra parte era preenchida por namoros, conversa mole ou papos cabeça para quem deles gostasse. E ainda sobrava tempo naquela ocupação de tempo integral. Por isso, vez ou outra, a gente tentava achar algum compromisso para preencher os espaços mortos que ainda restavam.

Numa dessas tentativas, uma colega me convidou para visitar a tia que morava num dos edifícios mais badalados da Avenida Higienópolis, uma construção ao estilo quarto centenário na altura do número 400. Aceitei o convite. E me lembro até hoje do imenso apartamento, coisa de setecentos metros quadrados e do hóspede ilustre que lá encontramos, Jorge Amado. Lembro-me também de uma decepção. O grande escritor só falou de coisas banais. Eu esperava muito mais, algum papo cabeça sobre literatura ou política, ou alguma história de velhas lutas do Partidão, Mas qual o que, Jorge Amado emendou com minha amiga uma conversa sobre família, como vai fulano e beltrano, saúde da avó (dela) etc.

Porém, o episódio mais marcante dessa lembrança aconteceu no caminho para o apartamento. Minha coleguinha, alegando cansaço, quis ir de taxi. Protestei. Estávamos a quinhentos metros do apartamento da tia. Mas o charme de uma mulher pode mais que a razão. Embarcamos num taxi. A corrida resumiu-se à bandeirada, coisa que hoje ficaria ali por volta do R$4,80. Dei ao taxista uma única nota pequena. Havia um troquinho insignificante. Constrangido com aquela corrida tão curta, disse ao chofer que não precisava me dar o troco. Mas ele me disse algo que até hoje continua a martelar em meus ouvidos;

– Faço questão de dar o troco. Gorjeta é preconceito pequeno-burguês.

Ficou um dúvida. Até hoje não sei se o chofer de praça era um revolucionário ou um espia que circulava no pedaço para vigiar o movimento estudantil.

Jarbas

Da intensidade do evento

abril 28, 2008

Além da UFRJ, pelo menos uma outra universidade federal criou um site sobre os acontecimentos de 1968. Trata-se da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do blog: 68 – O ano que jamais terminará. O site é muito interessante e vale uma visita.

Do blog, escolhi um artigo para replicar em Arquivo68. Ele pode ser visto em Páginas 18: Da intensidade do evento. O texto é da psicóloga Nilza Silva.

Escolhi esse texto porque ele é um bom contraponto para a Página: 1968 na visão de alguns intelectuais brasileiros. Nilza inclui pequenos depoimentos de intelectuais franceses: Gilles Deleuze, Felix Guattari, Michel Foucault e Maurice Blanchot. Vale uma comparação.

Quadrante II – A igreja

abril 22, 2008

Até 1968, fui católico praticante por costume, insistência materna ou medo do inferno. Não me recordo de nenhuma fé firme, nenhum especial fervor religioso ou êxtase espiritual. Para a igreja, sempre fui conduzido por alguém, caminhei meio distraído ou fui atraído por um interesse circunstancial.  

Ao longo da vida, freqüentei três igrejas. Como toda primeira vez, a do bairro de Cascalho, Cordeirópolis (SP), hoje Paróquia de Nossa Senhora de Assunção, foi marcante. Nasci naquele bairro rural. De lá são minhas memórias mais antigas. Tinha sempre missa aos domingos. A nave da igreja, feita imensa nos meus olhos pequenos, ficava densa de música. Só muito tempo depois, ouvi de novo aqueles sons e percebi que eles sempre me encantaram. Eu os amava, então como agora. Hoje, ouvir a  Lacrimosa é um resumo de tudo.

A missa cantada foi o primeiro gênero de música que ouvi. Onde morava não tinha rádio ou luz elétrica. Os fios de distribuição de energia passavam em frente da porteira do sítio, mas não entravam. “Coisas do demônio”: dizia meu avô.  Até morrer, cavaleiro andante em defesa de um mundo em destruição, ele não permitiu que esses e outros arautos da mudança ultrapassassem os limites de suas terras ou entrassem em sua casa.

Em um instantâneo de memória, vejo-me sentado na ponta de um banco nos fundos da igreja de Cascalho.  Ouço a música vinda do alto. Parece que cantada por anjos. Enlevado, olho distraído pelo corredor central. De súbito, o padre abandona o altar. Em um movimento arrebatado, ele é acompanhado por coroinhas paramentados para festas. Em passos de dança, eles movimentam ritualmente os seus turíbulos brilhantes e prateados. Aos berros, caminham em minha direção. Sinto medo. Metros à minha frente, a figura imensa do padre se detém diante de um homem muito agitado. Em meio a uma espessa nuvem de incenso, começa mais um exorcismo.

Cenas quase oníricas de exorcismo são as lembranças mais marcantes daquela época. A coreografia dos coroinhas; o espancamento com o cíngulo; os gestos dos “possuídos pelo demônio”: violentos uma vez, arrogantes outra, desesperados sempre, ora suplicantes, ora submissos, ora soluçantes aparecem difusos na fumaça contraposta à luz dos vitrais.  Gritos enraivecidos e histéricos misturam-se com fragmentos de música.  Hoje, quando me lembro, sinto o perfume inesquecível do incenso.

Até recentemente, acreditei que fui embora de Cascalho a bordo de um desejo de meu pai. Em Rio Claro, a Igreja de Santa Cruz parecia distante dos fins de cidade onde fomos morar, depois de construída a nossa casa. Lá fui aluno de catecismo. Lá fiz a primeira comunhão.

Lembro-me do dia da minha primeira comunhão. A igreja estava intensamente iluminada. Uma grande cruz dominava o altar. Nós todos estávamos vestidos de branco. Tínhamos uma vela acessa nas mãos. Uma alva e longa toalha de linho rendada cobria a guarda dos bancos. Sinto uma intensa expectativa pelo inusitado. Luto com o medo, quase pânico, de morder a hóstia, de pegá-la ou deixá-la cair. De repente, a música… Embevecido, esqueço-me das mãos. Desperto com o forte cheiro de queimado. A freira catequista me ajuda a apagar o fogo que sobe da toalha. Como memória sensorial, o cheiro de pano queimado é tão intenso quanto o gosto da hóstia que receberia logo depois.

Já não muito bem visto, continuei na igreja e nas aulas de catecismo. Delas dependia o ingresso para o cinema da paróquia, mantido pelos Congregados Marianos.  Todo domingo à tarde tinha uma sessão. Tempo mais tarde, todos os sábados, freqüentei as reuniões do movimento infanto-juvenil Cruzada Eucarística. Delas dependia não só o acesso ao cinema como também a possibilidade de jogar no time dos cruzados, nas manhãs de domingo. Fui, por muito tempo, o titular da lateral direita do segundo time. Tinha me acostumado com a posição.

Parecia tão adaptado que minha mãe teve idéias de me fazer padre. Escondido, escutei ela falar com minha avó, em italiano, sobre o assunto. Não sei o que me deu. Sei que fugi. Só no fim do dia, meu tio me encontrou vagando pelas imediações do campo de futebol em que jogava. Nunca mais se falou no assunto. Depois foi um tempo de afastamento: leituras, escola, ciência e apelos da vida desviaram a minha atenção dos assuntos religiosos. Mudei de time. Passei a freqüentar os cinemas comerciais da cidade:Tabajara, o Excelsior e o Variedades.

A igreja voltou a entrar na minha vida no fim da adolescência. Construía-se, a uma quadra de minha casa, a depois Paróquia de Santana. Não me lembro precisamente como mudei de uma igreja para outra. Ao lado das paredes em construção, lembro-me de uma conversa à luz das estrelas com o então padre Mauro Morelli. Se a memória não falha, ele falou do novo papel da igreja. Da necessária luta contra a pobreza. Da importância da participação dos jovens… Era primeira vez que um padre conversava comigo. Era a primeira vez que conversava com alguém que tinha vivido em países que eu apenas tinha visto nos filmes, visitado nos mapas ou estudado nas aulas de geografia.

Logo em seguida, Mauro Morelli se tornou pároco da igreja matriz de Rio Claro. Com ele, um grupo de cinco jovens padres assumiu as outras paróquias da cidade.  Tinha início uma experiência de renovação pastoral inspirada no Concílio Vaticano II, que tinha sido concluído em 1965. Participei do movimento, sem conhecê-lo muito bem.

O que me estimulou a entrar foi a proposta de engajamento na tarefa de transformação do mundo. Depois das experiências anteriores, as mudanças litúrgicas também surpreendiam agradavelmente. Aderi, de pronto, às propostas de participação do leigo e de redução das distâncias hierárquicas. Mesmo assim, o meu envolvimento foi sempre menor do que com o grupo de jovens (Joveunião) que se reunia na igreja, mas não fazia parte dela.

No fim de 1968 ou começo de 1969, não me lembro bem, tudo terminou. Assim como o AI 5 vinha para calar as vozes do quadrante oposto (Quadrante I – A escola), uma decisão episcopal acabou com a experiência de renovação. Todos os novos padres foram, inesperadamente, afastados de suas paróquias. Apenas Mauro Morelli permaneceu por mais algum tempo.

Participei de um movimento de rebelião contra a medida do bispo. Fiz parte de uma comissão que foi discutir a decisão no palácio episcopal, em Piracicaba. Como ato final, ajudei a organizar uma grande reunião do bispo com os paroquianos de Santana. Dela me recordo de uma cena. Depois de muito explicar e não convencer, o bispo disse: como é duro ter ouvidos e não ouvir! De pronto, um humilde paroquiano retrucou: como é duro ter boca e não poder falar! Não conseguimos muito mais do que isso. A renovação radical tinha terminado. Com ela, as facilidades para o funcionamento do grupo de jovens foram diminuindo. A Joveunião acabou.

Uma visão laica do mundo, que começou a ser construída na escola fundamental, foi se firmando. As leituras de filosofia, sociologia, psicologia, antropologia, história, política,…, solicitadas ou estimuladas pelo curso de Pedagogia complementaram a tarefa. A igreja tinha um papel cada vez menos relevante como explicação e mapa de navegação no mundo. A redução do papel político, o retorno a um culto mais convencional e o estreitamento dos limites de participação popular foram me afastando também da última ligação que ainda restava: a missa dominical. Aos poucos, abandonei a igreja católica e tornei-me agnóstico.

Em 1968, foram destruídas quase todas as pontes com minha vida anterior. Que pontes com minha vida futura seriam construídas a partir daí?

Utopia Militar 1968

abril 18, 2008

No anexo vai o arquivo que peço para você, por favor, acrescentar ao Arquivo 68. É um texto de Daysi Lange Albech, chamado Utopia Militar 1968. Acredito que ele tenha sido originalmente  publicado em: http://www.portoalegre.rs.gov.br/publicacoes/porto_virgula/memoria.html  É sobre o movimento estudantil que espero, seja útil e gere polêmica.

Zeca

1968: A torre do Banespa x 2008: a torre do Santander

abril 15, 2008

  

1968

Foi em 1968 que iniciei, em São Paulo, minha participação junto a um movimento operário de Osasco, do qual Sérgio, meu colega de curso, era uma das lideranças. Era um grupo pequeno, formado por representantes de diferentes fábricas da cidade, e seus  participantes não ficavam implicando e nem mesmo nos questionando pelo fato de sermos professores e não operários: éramos, simplesmente, aceitos como trabalhadores.

 

Suas principais lideranças eram vinculadas ao Partido Comunista Brasileiro e o grupo buscava desenvolver ações não só nas fábricas, mas, também em favelas, clubes de futebol. Dava para sentir, em seus participantes, uma certa “birra” com o pessoal do movimento estudantil: “filhinhos de papai, que não agüentam um “pum” do Fleuri”, diziam.

 

Dois “quadros” que pertenciam ao grupo haviam sido presos durante ações de mobilização, em suas respectivas fábricas, e a principal discussão que ocorreu, naquela reunião de domingo à tarde, foi relativa a como denunciar  “a toda a sociedade, a prisão de nossos companheiros.”

 

Uma das ações propostas, e aceita, foi a de imprimir panfletos, relatando o acontecido, e “soltá-los” da torre do Banespa, no centro de São Paulo. Sérgio foi designado o responsável pelo planejamento e operação desta ação.

 

– “Topa?”

 

– “Sim, topo.”

 

            À época, usávamos umas bolsas feitas com plástico grosso e zíper: eram nelas que carregávamos nossas apostilas, livros e cadernos. Numa manhã da semana seguinte, eu aguardava pelo Sérgio, em frente aos Correios, com minha bolsa recheada, não pelas apostilas e cadernos de sempre, mas por dois pacotes de panfletos impressos, em papel vagabundo, em Guarulhos. Haviam sido trazidos pelo Sérgio, um dia antes, e passados para minha “guarda”, no banheiro da escola onde estudávamos. Sérgio me encontrou em frente aos Correios e trazia,  em sua pasta, duas garrafinhas com meio litro de álcool cada, o suficiente  para encharcarmos os pacotes de  panfletos e deixá-los no parapeito da torre: a evaporação do álcool e o vento se encarregariam do resto. “Deus queira, pensava eu”, ansioso.

 

Chegamos,  juntos, ao hall do Banespa e anunciamos nossa intenção de visitar a torre, para “ver São Paulo inteira, lá de cima”. Por causa do sotaque caipira, fui o porta voz:

 

          – “Somos do interior e estamos passeando aqui…Meu primo, que trabalha no Banespa, em Botucatu, foi quem nos orientou para este passeio. Ele disse que é lindo.”

 

– “Como se chama seu primo?”

 

– “Paulo, trabalha no Banespa lá de Botucatu.”  

 

Lá fomos nós. Utilizamos um silencioso elevador, até o vigésimo-sexto andar, onde aguardamos, no amplo hall, um outro, que nos levou até o trigésimo-segundo. Dali, “a pé”, subimos dois ou três lances de escada e alcançamos a torre.

 

O dia estava nublado e havia duas pessoas visitando a torre: “tomara que saiam logo”, pensava eu, nervoso.

 

A bolsa com os panfletos pesava…

 

Fomos, Sérgio e eu, para o lado que avistava a  Zona Sul e conversamos um pouco, na tentativa de nos acalmarmos mutuamente. De lá, com o rabo do olho,  vimos que os dois outros visitantes iniciaram a descida,  pelas escadas.

 

Imediatamente, iniciamos nosso trabalho: retirei um dos blocos de panfletos da bolsa e o encharcamos, rapidamente, com álcool, deixando-o no parapeito da parte sul da torre; o outro bloco ficou, também encharcado, na parte norte.

 

Guardamos as garrafinhas de álcool, uma delas com algum conteúdo, e iniciamos a descida, pelas escadas. O cheiro de álcool, na bolsa do Sérgio, era forte, o que nos levou a um banheiro, no trigésimo segundo andar, para jogar, em um vaso sanitário, o conteúdo restante. Demos descarga e Sérgio aproveitou para molhar o rosto e pentear seus cabelos crespos.

 

Tomamos o elevador para o vigésimo sexto andar e, no hall, ficamos aguardando por outro, que, finalmente, nos deixaria no térreo. Aqueles segundos, ou minutos, de espera, no hall do vigésimo-sexto andar, pareciam horas: o elevador nunca chegava e o tempo não passava. Minhas axilas estavam molhadas e pequenas gotas de suor corriam pelo peito, sob a camisa, fazendo uma coceirinha gostosa. Aí entendi porque Sérgio havia molhado o rosto e os cabelos: seu rosto e peito eram puro suor.

 

Chegou o elevador, que nos deixou no térreo e, logo depois, aguardávamos, no Anhagabaú,  a “tempestade” de panfletos que denunciaria,  a toda a sociedade progressista de São Paulo, a prisão de nossos companheiros. Por segurança, nós  nos separamos e fiquei em frente aos Correios, “vigiando” a zona norte da torre.

 

Nada!

 

Naquele momento, o sol aparecia, forte, sob as nuvens, e a neblina ia, aos poucos, sumindo… “Será que colocamos álcool demais? Por que está demorando tanto a evaporação? Será que falta vento? Deus do céu, ajude-nos”, pensava.

 

Foi aí que Deus resolveu ajudar e o “milagre” ocorreu: não uma “tempestade” de panfletos, mas uma “garoazinha” de papéis caindo no Anhangabaú. Algumas  pessoas pegavam, outras, distraídas,  ignoravam.

 

A ansiedade havia passado e eu me sentia confortável.

 

Resolvi, então, caminhar pelo Anhangabaú, apanhar, distraidamente, um panfleto e ler, demonstrando surpresa e indignação.

 

Puxei conversa com um senhor que havia me visto apanhando o panfleto:

 

– “Nossa!!! Está  “falando” que tem dois operários de Osasco presos, aqui no Dops”;  eu disse, ao mesmo tempo em que  lhe ofereci o panfleto.

 

Procurei acompanhá-lo durante a leitura. Leu rapidinho, só o acompanhei por uns dez passos, e com ares de desinteressado, me devolveu e não disse nada além de:

 

– “Não jogue na rua, para não emporcalhar ainda mais a cidade.” 

Desconcertado, apanhei o papel de suas mãos  e  guardei em minha pasta, agora vazia.

 

Encontrei-me com o Sérgio, perto do Mappin, em um ponto de ônibus, no qual tomamos o “929 – Largo da Concórdia – Cidade Universitária –”   e fomos, com a alma leve, assistir às aulas do  nosso curso de Especialização para Professores de Quinta e Sexta Série.

 

 

2008

 

No hall do Santander, há, agora, além do lustre de cristal que, segundo o panfleto colorido que apanhei na recepção, “se destaca, com 13 metros de altura, 2 metros de diâmetro, 900 lâmpadas, 10 mil peças, pesando cerca de 1,5 tonelada” ,  uma exposição permanente de obras de arte.

 

Correntes com elos de plástico amarelo formam um corredor para organizar a fila dos interessados na visita à torre. Entro na fila que tem, à minha frente, quatro ou cinco pretendentes, como eu, à visita. Antes de chegar a minha vez de ser atendido, percebo que, a todos, será pedido um documento de identidade, que uma ficha será elaborada e que a atendente, manipulando uma camerazinha minúscula, solicitará que se coloque o rosto em determinada posição para a fotografia. Para um rapazinho que estava pouco à minha frente, é solicitado que deixe sua mochila na chapelaria.

 

Retiro, de minha mochila, a carteira de motorista e  entrego-a à atendente, em resposta ao seu pedido de “um documento de identidade, por favor.” Depois, tive de fornecer o número de meu telefone residencial e obedecer ao “olhe para câmara, por favor, vamos fazer uma foto do senhor.” Obedeço, sorridente: gosto de sair sorrindo em fotos.

 

– “A mochila, senhor, por favor, queira deixá-la na chapelaria.”

 

– “Gostaria de levá-la comigo: tem meus documentos, meu celular e, também, dinheiro.” Na verdade, o que havia de importante na mochila era um exemplar do Sentimento do Mundo, da Coleção Grandes Escritores Brasileiros, da Folha de São Paulo, do mineiríssimo Drummond, comprado, há pouco, em uma  banca…

 

             – “Não pode, senhor. Questão de segurança. Tire dela o que o senhor quiser, e  pode deixá-la em nossa chapelaria; é superseguro.”

 

O que eu queria, de fato, era testar a possibilidade de visitar a torre com minha mochila e, como todo velho chato, continuo:

 

           – “Mas…”

 

– “Por favor, senhor, não insista, veja a fila que está se formando atrás do senhor.”

 

Deixo minha mochila e recebo uma senha para retirá-la na volta:  “E o que faço com meus panfletos?”, penso.

 

            Enfrento outra fila para aguardar a autorização para subirmos, o que só ocorreria quando o grupo que está na torre descer, segundo nos informa a moça de uniforme preto  e revólver na cintura.

 

            – “Está liberado, senhores…é só seguir a segurança, por favor.”

 

No elevador que nos levará até o vigésimo sexto andar, uns dez interessados na visita: duas venezuelanas, com sua guia, o rapazinho da mochila, um casal de rapazes falando inglês que, aproveitando o aperto do elevador lotado, se tocam e se olham de maneira apaixonada.

 

Como há quarenta anos atrás, no vigésimo sexto andar, temos que ir para o hall e aguardar outro elevador,  que nos levará  até o trigésimo segundo andar. Aproveito para folhear o panfleto que havia recebido no hall de entrada, colorido, com fotos e informações: a altura da torre é de 161 metros, é possível avistar de sua altura até quarenta quilômetros, foi inaugurada no dia…

 

Chegamos ao trigésimo segundo e me recordo do hall. Outra espera até que o grupo que está na torre desça. Aproveito para visitar o banheiro, onde, há quarenta anos, fizemos, Sérgio e eu,  “xixi” de álcool.

 

Todos assinam um “livro de presença”, onde descubro a nacionalidade das venezuelanas e a do simpático casal de jovens ingleses.

 

Uma outra segurança, morena bonita, também com seu uniforme negro e revólver na cintura, dá a ordem:

 

– “Podem subir, senhores…boa visita.”

 

Aguardo todo o grupo: quero ser o último a subir os três lances de escada.

 

A torre continua extremamente igual: suas pastilhas cinzas e o seu guarda corpo largo, tão adequado para acolher panfletos embebidos com álcool e sonhos…a cidade enorme, agora não muito estranha para mim, lá embaixo, e o barulho rouco de seus carros, de suas pessoas…

 

Deixo o grupo com o seu emaranhado de comentários: “olha ali..é o Copan?, veja o mercado municipal, it´s beautiful, mui lindo”…e desço para o triogésimo segundo. Ali, nova espera: não posso descer só para o hall do trigésimo segundo andar, tenho que aguardar o restante do grupo, me informa a linda segurança, com seu uniforme negro e seu revólver na cintura. Ela me oferece uma cadeira, que aceito e onde sento e releio o panfleto colorido.

 

               A bela segurança fala ao rádio, com sua colega da torre:

 

            – “Horário de visita encerrado, peça ao pessoal que desça, câmbio.”

 

A resposta vem rápida:

 

– “Pessoal descendo, câmbio.”

 

– “TKS”.

 

Fomos autorizados a descer até o trigésimo segundo andar. No hall, outra vez em fila de espera, até ouvirmos, com um bonito timbre, da segurança: “por favor, senhores, podem tomar o elevador. É só seguirem a segurança: muito obrigado pela visita.”

O mesmo ritual de fila, espera e rádios de comunicação, com seus “câmbios” e “TKSs”, se repete no vigésimo sexto.

 

             No térreo, a outra segurança e seu revólver, também bonita, mas não tanto quanto a do trigésimo segundo nos pede, com voz calma,  que lhe entreguemos os crachás.

 

             Vou até a chapelaria e retiro minha mochila vazia: sem panfletos, sem sonhos… só o Sentimento do Mundo, do Drummond.

 

Vou até o prédio dos Correios, agora, totalmente reformado, lindo, à espera de uma tempestade ou, mesmo, de uma garoazinha.

 

            Nada….

 

Na boca, um gosto amargo de derrota: minha geração fracassou.  

 

Defendendo tese

abril 11, 2008

Ao contrário do que acontece nos meios acadêmicos, essa tese é pra provocar antíteses, e não para contemporizar.

Para variar, deixa eu dar uma pequena radicalizada.

(Houve um tempo em que não tinha coragem de expor idéias, perante toda a certeza que encontrava na posição dos outros. E na década de 60 isso acontecia muito.

A sorte é que minha filha não herdou essa timidez e defendeu sua tese de mestrado sobre a formação de conceito em Vygotski, encarando o comodismo das teses sobre o tema e comprando uma briga enorme.Foi pela Unesp de Bauru.)

Feito o comercial, vamos à contundência:

A Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base formam o conjunto teórico-prático mais radical e revolucionário do período.

Esse negócio de dizer “do período”, vai por conta da minha antiga timidez. Acredito que não tem comparação, pela coerência e profundidade da proposta.

Quando comentei com o Luiz Carlos que ia defender esta tese, ele me emprestou o livro do Frei Betto, “Fidel e a Religião”. Seguindo o estilo do Comandante, li o livro em duas noites. Então me convenci mais ainda desta tese. O interesse que Fidel demonstra pela Teologia da Libertação é bastante sintomático.

Acho que a maior contribuição do Marx é o seu pensamento filosófico, fundado no materialismo dialético, superando nossa tradição de pensar limitada pela lógica formal de Aristóteles cristianizado pela Escolástica.

(Aliás, acho que ainda precisamos fazer uma discussão que ficou adiada no SENAC, sobre as mudanças que ocorreriam na educação se chegássemos à lógica dialética, pelo menos.)

Se estudarmos os textos da Teologia da Libertação, em especial os de Leonardo Boff, – vide abaixo – encontraremos poucos resquícios escolásticos. Ouso dizer que foi quem melhor se utilizou do método marxista de pensar a realidade. O mesmo vale para o Paulo Freire…

Bom, mas deixa essa parte pro Jarbas e pro Cordão. No meu tempo de estudante de filosofia e teologia, o padre Olinto sempre me chamava de superficial. E acho que tinha razão.

Talvez o meu forte sejam as CEBs. Participei das discussões e das primeiras experiências sobre a implantação das Comunidades Eclesiais de Base, que eram mais radicais do que o que se implantou depois. (Radicais no sentido de enraizamento).

Lembro que saí do seminário, que era uma ordem religiosa, para ajudar meu pai financeiramente, mas deveria voltar daí um tempo e dentro da proposta das CEBs. Fui conversar com o bispo de Santo André, Dom Marcos Barbosa, que já realizavam experiências nesse sentido.

A proposta era bem radical: o seminarista, ou o padre, tinha que ir morar numa comunidade em condições de igualdade em moradia, arrumar um emprego, começar a conviver com a população, apresentar-se como possível líder religioso e esperar ser aceito ou escolhido por ela.

Era para isso que eu teria voltado, se eu não tivesse perdido a fé.

Esse processo de imersão total não estava presente só nas CEBs. Outros movimentos influenciados pela Teologia da Libertação tinham o mesmo caráter. Lembro por exemplo a experiência dos Padres Operários, que foram presos em Osasco. (Precisamos lembrar do Pe.Soligo. Volto a falar sobre ele.)

O interessante é que vou dirigir uma unidade da Secretaria da Educação de Rio Preto, inserida num bairro da periferia que surgiu de um desfavelamento na cidade, e, como estou sozinho, mudei-me para o bairro e vou fazer a tal da imersão. Será que voltei a ter fé?

Como diriam os “Paralamas”: “Só não se sabe fé em quê…”

As Comunidades de Base foram tão importantes para a história recente que muitos grupos cresceram a partir delas, como o próprio PT, a pastoral da terra, o MST…
O próprio PCdoB se utilizou delas na década de 70.

Para não mentir sozinho, vou reproduzir um trecho da Introdução do livro “Teologia do Cativeiro e da Libertação” do Leonardo Boff. Além do mais ele faz uma boa análise do que ocorreu dos anos 60 para os 70. O livro é de 75.


“A década de60 viu a concepção e a gravidez da práxis e da idéia de libertação. Chegou à sua culminância nos Documentos de Medellin, em 1968. A partir desta data se fizeram sentir reações profundas por parte dos mantenedores da situação vigente.

A década de 70 está sendo marcada na América Latina, nascedouro da Teologia da Libertação, pelo predomínio da ideologia da Segurança nacional, com conseqüências que atingiram significativamente quadros da Igreja.

Não são poucos os que proclamam o aborto daquilo que foi concebido na década anterior. Um certo sentimento de desesperança invadiu muitos grupos comprometidos. A instituição da Igreja participou do desconcerto geral provocado pela ascensão dos regimes fortes.

Nem sempre se pode dizer que soube alimentar a esperança de quantos confiavam nela. Há os que constatam, ao nível dos altos escalões eclesiásticos, um sofrido vazio profético, tanto mais sofrido quanto mais urgente. Muitos profetas foram dizimados à vista de seus pastores.

Sem embargo, não se perdeu a perspectiva da libertação. Ganhou terreno nas bases; impôs-se já à reflexão da Igreja universal, refletindo-se no sínodo dos Bispos de 1974, como uma maneira diferente de se fazer teologia, de se considerar o conteúdo da revelação e da tradição e de se orientar a práxis pastoral. Agora ganhou seu verdadeiro contexto: o cativeiro.

Numa situação geral de catividade há que se pensar e trabalhar de forma libertadora. Há pouco lugar para a euforia dos anos 60, quando se podia sonhar com uma arrancada espetacular de libertação popular.

A teologia da libertação em regime de catividade tem outras tarefas do que em gozo das liberdades conquistadas. Há que semear, preparar o terreno, manter firme a esperança, consolar as vítimas, minorar as dores e lutar a favor dos direitos humanos violados.

(…)Junto com esta libertação em regime de cativeiro emerge um novo estilo de ser Igreja. Verifica-se uma verdadeira eclesiogênese, ainda não explicitada teologicamente mas uma real igreja que nasce do povo.”

Assim consegue-se entender a reação da direita da igreja, encabeçada pelo Cardeal Ratzinger…

Eduardo Sposito

The Beatles – uma pequena história

abril 11, 2008

Postei, em Páginas 16. The beatles – uma pequena história, disponível em http://www.bravus.net/beatles/, de onde também foi copiada a ilustração. Lá se diz que o fim dos Beatles começou em 68. Então…

Zeca

1968…as primeiras impressões e experiências em São Paulo

abril 11, 2008

Impossível não me lembrar da calma silenciosa do Rio Ribeira de Iguape ao transpor, pela ponte Euzébio Matoso, as poluídas e malcheirosas águas do Rio Pinheiros. Passava, diariamente, por ali, no ônibus Luz / Jardim Bonfiglioli, para freqüentar o curso de Especialização em Quinta e Sexta Séries, no Butantã.

 

Abrindo um parêntese: em 1968, eu já era professor efetivo, com o direito de freqüentar cursos de especialização oferecidos pelo antigo Serviço de Expansão Cultural da Secretaria da Educação na condição de comissionado, o que significava receber normalmente o salário de professor enquanto estudava. Fecha o parêntese.

 

O curso tinha duas turmas: uma de manhã e outra à tarde – na qual fui matriculado – e era freqüentado por professores primários das mais diferentes regiões do Estado: Valparaizo, Presidente Prudente, Santos, Taubaté, Osasco…A maioria dos participantes era do sexo feminino, claro; na turma da tarde, do sexo masculino, apenas eu e um professor de Osasco, o Sérgio.

 

Eu conhecia São Paulo apenas de passagem, em minhas idas e vindas de Ribeirão Preto para Registro, e a cidade me fascinava. Ribeirão Preto já havia me educado o suficiente para não mais ficar parado nas calçadas, olhando os “arranha-céus”, e eu já utilizava, sem medo e confortavelmente,  elevadores, mesmo aqueles que não possuíam ascensoristas a pilotá-los. E como se isso não bastasse, na elegantíssima Biblioteca Cultural Altino Arantes, frente à Praça XV, a principal de Ribeirão Preto, quase ao lado do Cine Teatro Pedro II,  a bibliotecária Adalgisa – inesquecível, tanto pela beleza como pelo rigor na cobrança de eventuais atrasos na entrega dos livros – havia me ensinado o suficiente para que eu pudesse me matricular na Mário de Andrade, que tinha sua seção de empréstimo de livros em uma pequena entrada pela Avenida São Luiz. Bastava, para obter a ficha de “sócio”, uma conta de luz, comprovando o endereço, e, a partir daí, o direito, como na Altino Arantes, a empréstimos, por uma semana, do livro escolhido. E as semelhanças se encerravam  por aí: a bibliotecária não tinha a beleza da Adalgisa e foi, creio, responsável pelo estereótipo que, pejorativa e maldosamente, passei a ter das bibliotecárias: empertigadas e com os cabelos encharcados de laquê, para moldá-los ao famoso “o boi voou”…Uma pena, pois o acervo para empréstimos era ótimo, melhor, mesmo, que o da Altino Arantes.

 

Fui morar em Pinheiros,  com um outro professor, de Presidente Prudente, o Gilberto, em um quarto de empregada, no número nove de uma simpática vila com vinte e duas casas.

 

Foi por ali que comecei a descobrir São Paulo. Impensável, até aquele  momento, para mim, morar perto de gente famosa e, por isso, estranhava, assim como aguardava, ansioso, o momento de contar para meu irmão, estar a tão poucos metros do vizinho Nelson Gonçalves, a quem via sempre. E na mesma vila, em outro quarto de empregada, o da casa quinze ou dezesseis, não me lembro ao certo, vivia uma auxiliar de enfermagem do Hospital das Clínicas: era autora de um livro autobiográfico, que relatava, principalmente, seus tempos de prostituição e a luta para sair, ainda jovem e bela, daquela profissão. Li seu livro e nos tornamos amigos.

 

Assim, meus horizontes iam mudando: as planícies verdes, cobertas pelos bananais,  até alcançar a serra, no  morro de Votupoca, iam sendo substituídas por prédios e luzes, pela  avenida São João,  por cinemas e mais cinemas, viadutos, semáforos, pelo Pacaembu, pelo Copan, pela  feira de arte na Praça da República… e por muito mais que tudo isso: o ainda desconhecido, à espera do prazer das descobertas que iam sendo feitas, aos poucos, mas diária e constantemente. Foi um repentino salto, do silêncio ao burburinho.

 

A amizade e o respeito pelo Sérgio, o professor de Osasco, teve início durante as aulas e seus intervalos; sentia que compartilhávamos  valores e ideais, e nas discussões que surgiam durante as aulas, ficavam  claras  suas divergências do restante do grupo. Nessas discussões políticas, Sérgio era incisivo e emitia, sem medo e censura, suas opiniões, o que o colocava, frontal, embora cordialmente, em choque com a maioria do grupo. Procurei por ele no intervalo: 

  “Admiro sua perseverança…em meus quatro anos de experiência como professor, admito meu desalento.”

 

– “Te entendo, e sei que não adianta; também não acredito em uma postura mais engajada dos professores mas ….”

 

– “Conte com meu apoio, Sérgio…”

 

– “Acredito mais em um movimento do qual participo em Osasco, com operários”, disse ele.  “Lá a coisa tem mais a ver.”

 

– “Imagino…”

 

– “Teremos lá uma reunião neste domingo.Topa ir?”

 

– “Topo.”

 

Fomos interrompidos por um bando de colegas. Era sexta-feira e vieram nos convidar para ir  até o “cu do padre”, beber. Devo ter ficado corado ao ouvir “cu do padre” proferido, em alto e bom som, por uma mulher, porque Sérgio, percebendo, veio em meu socorro: “é um boteco nos  “fundos” da Igreja de Pinheiros”, disse ele, sorrindo e carregando forte na pronúncia de  “fundos”.

 

Terminadas as aulas, tomamos um ônibus e fomos para o tal do  “cu do padre”. Era um boteco que, soube depois, fazia uma das melhores “batidas” de São Paulo. Dependurados em suas vigas, empoeiradíssimas, havia queijos, garrafas de pinga, salaminhos, garrafas empalhadas de vinho. A lenda era a de  que o seu proprietário só eliminaria a poeira quando o Corinthians fosse campeão… “Vai demorar muito”, disse,  sarcástico, Sérgio, palmeirense fanático.

 

No balcão, Arlete cochichou com o rapazinho que fazia as bebidas:

 

– “Na minha, de abacaxi, você não põe pinga, viu?”

 

– “A senhora quer com vodka?”

 

– “Não, menino…quero a minha sem pinga, sem nada, bem docinha.”

 

E me olhando de soslaio, marota:

 

– “Detesto ficar zonza.”

 

Segui sua receita, só que pedi a minha com morangos: mais sensual, pensei.

 

Arlete era uma linda mulher: alta – com um metro e oitenta, magra, rosto coberto de sardas marrons, cabelos negros, cacheados e fartos.

 

Sérgio pediu “antes uma purinha, para esquentar”, que foi tomada de um gole só, e me procurou para combinar a reunião de domingo, orientado-me em relação ao ônibus que deveria tomar, onde descer e onde o encontraria. Pediu outra “purinha”, para continuar esquentando, e só depois desta é que pediu batidas: “coisa de mulher, muito doce”, dizia, sempre sorrindo, mas, pelas repetições, gostava muito e não se embriagava fácil.

 

Arlete e eu ficamos conversando: era do interior e fazia o curso com o objetivo de conseguir vir para São Paulo, pois não suportava mais a vida em sua cidadezinha.

 

Na porta da pensão em que morava, devo ter exagerado nos carinhos:

 

– “Estamos em um local público” , sussurrou ela.

 

– “E então…como faremos?” 

 

– “Vamos subir, o pessoal do São Paulo não está aqui hoje.”

 

A pensão onde morava era próxima do “cu do padre”. Esta pensão, onde ela dividia um quarto com outra professora, prima do dono, tinha como principal cliente o São Paulo Futebol Clube, que alugava a maioria de seus quartos para jogadores que vinham do interior. Naquela sexta-feira, o clube havia viajado para jogar, deixando vazios grande parte dos quartos do andar de cima. Passei, depois daquela sexta-feira, a ver com outros olhos e interesses a coluna de esportes dos jornais.

 

Na manhã seguinte, acatando decisão da Arlete, tive que sair da pensão bem cedo,  por volta das 6h da manhã… Subi, a pé, a Teodoro Sampaio, em direção ao meu quartinho. Diferentemente de outras situações semelhantes, naquela manhã, não senti a menor vontade de confissão do pecado cometido, prenúncio do processo de meu divórcio com a Igreja.

 

Havia muito sol naquela manhã e, na Teodoro Sampaio, movimento apenas nas padarias: tudo o mais fechado, pouca gente, um ônibus ou outro que subia em direção ao centro. E eu fui caminhando, com as mãos enfiadas nos bolsos das calças, feliz por demais…um sentimento de felicidade tal que me deixava confuso, a ponto de, em certos momentos, não acreditar em tantas e tão boas emoções e fazer  um esforço grande para tudo registrar, para de nada esquecer…

 

Entrei em uma padaria, na esquina da Teodoro com a João Moura, e pedi um pingado e um pão com manteiga na chapa. Veio rápido o leite quente com café bem doce, o pão com a manteiga derramando na bandejinha de alumínio, e me pus a comer, enquanto continuava a viver minha felicidade.

 

– “Este ano promete”, pensei. 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro…

abril 9, 2008

Em 1968 iniciei minha vida universitária na Faculdade de Letras, da UFRJ, na época na Avenida Chile.

Após um curto período de ilusões e expectativas me vi num turbilhão de acontecimentos no mínimo assustadores, para quem queria dar seus primeiros passos na vida política do país.

Aulas eram suspensas, panfletos (termo proibido na época) apareciam em nosso material sem que soubéssemos como… e dessa forma fomos entrando no clima…

Lembro de uma vez que fomos orientados por lideranças da faculdade para ficar em grupo, em local estratégico, porque um dos nossos amigos estava sendo interrogado e poderia sair da sala do diretor preso. Nada impediu a prisão, e numa tremenda confusão outros alunos também foram pegos.

 As ausências eram sentidas a cada dia, algumas sem retorno…

 O ar era pesado, e bastava uma simples reunião de mais de dois estudantes na biblioteca, para imediatamente “seres estranhos”, sem nenhuma discrição, circularem entre nós. Aliás, eles estavam sempre entre nós…    

Imagine que certa vez fui parada por uma senhora na rua que, apavorada, me aconselhou a mudar de caminho, pois mais à frente havia muitos policiais e eu corria risco, já que estava com livros nas mãos!!

 É, amigo, não podemos deixar que esse triste período caia no esquecimento. Ainda há muito a ser esclarecido e essa discussão deve acontecer de geração a geração, para não corrermos mais riscos

 Regina Pimenta