Augusto Boal

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O dramaturgo e diretor teatro Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado- 02 de maio, aos 78 anos.

O trabalho do carioca Boal, que também era ensaísta e teórico do teatro, ganhou destaque nos anos 1960 e 1970, quando esteve à frente do Teatro de Arena de São Paulo e criou o Teatro do Oprimido,
pelo qual foi internacionalmente reconhecido por aliar arte dramática à ação social. Para ler mais sobre Augusto Boal
clique aqui

Veja aqui vídeo mostrando homenagem a Augusto Boal, por ocasião de seu aniversário em 24 de março de 2009.

Leia também: CARTA DO MST A AUGUSTO BOAL.

Entrevista com Augusto Boal em Página 38

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4 Respostas to “Augusto Boal”

  1. Eduardo Sposito Says:

    Todos os que naqueles tempos ousamos mexer com teatro tinhamos uma profunda admiração pelo Boal e aprendemos muito com ele. No meu caso pessoal, o “tema” do meu casamento foi buscado no “Arena conta Zumbi”, de Boal e Guarnieri, em especial o texto inspirado em “Na selva das cidades” do Brecht.
    Além disso, ainda no seminário católico onde fazia filosofia, numa exibição no palco do teatro paroquial na Igreja Santa Terezinha no Jaçanã, ousamos reproduzir um trecho do “Revolução na América do Sul” do Boal.
    Vou tentar reproduzir o conteúdo do texto, que foi onde recebi minha primeira aula de sociologia sobre o funcionamento do sistema capitalista.
    Era a história de um operário – José da Silva( se não me engano) – que vai pedir um aumento ao patrão, pois seu filho “que nasceu ontem” estava chorando de fome e ele não tinha como comprar o leite. O patrão bonzinho resolve atender o pedido.
    O Zé, todo feliz, resolve passar no açougue pra comprar um pedaço de carne, no lugar do osso que ele sempre comprava para a sopa. Aí começa o drama: a carne tinha aumentado de preço. Ele reclama com o açougueiro, que manda ele reclamar com o dono do caminhão, que era o culpado, porque aumentou o frete. O dono do caminhão diz que o culpado era o dono pneu, que tinha aumentado o preço do pneu. O dono do pneu era seu patrão então ele vai reclamar dizendo que ele era o culpado pelo aumento do preço da carne. O patrão então lhe diz:”O culpado é você que pediu aumento e eu tive que aumentar o preço do pneu.”
    Aí o Zé conclui: “O culpado não sou eu. O culpado é meu filho que nasceu ontem e estava chorando de fome. Moleque safado: tão novo e já está desorganizando a economia do país.”
    (Mais tarde o Chico desenvolve o mesmo tema em “Opera do Malandro”)
    A imagem que eu tenho do Boal está marcada pelo texto acima. E no curso de Ciências Sociais que fiz depois, pouca coisa foi acrescentada ao que está dito aí.
    Na hora que estou escrevendo este texto, recebo uma ligação dizendo que a Sheila, do grupo de teatro Desafio daqui de São José do Rio Preto, está muito triste com a morte do Boal. E a Sheila tem só 21 anos. Acho que é a melhor homenagem que o mestre poderia receber.
    Obrigado,Boal.

  2. Marta Bellini Says:

    Não conheci o Boal pessoalmente. Conheci o Guarnieri. Posso dizer que foram meus professores. Ainda me recordo, com 20 anos ou um pouco mais assistindo uma peça em São Paulo e o personagem do Guarnieri perguntou ao auditório: Alguém aqui está revoltado? Alguém aqui quer se manifestar? E eu quieta. Juro, até hoje me arrependo de não levantar a mão, o braço e corpo todo.

  3. Romário José Borelli Says:

    Romario José Borelli

    Augusto Boal estava no auge de sua efervescência criativa quando foi preso pela ditadura no Brasil, em 1971. Havíamos chegado havia pouco da Argentina, onde tínhamos feito uma longa temporada de sucesso com Arena Conta Zumbi.

    Para a viagem a Buenos Aires, Boal já fizera questão de levar, com o elenco do Zumbi, seu grupo experimental Teatro Jornal. Era o momento no qual ele começara a romper com as formas clássicas de teatro e com seus próprios ajustes ao teatro brechtiano. Surgiam assim formas de trabalho teatral menos comprometidas com o espetáculo tradicional, menos formais, ajustadas a qualquer espaço e realizadas por qualquer pessoa que quisesse ou precisasse se expressar. Ou seja, os recursos teatrais usados por “não atores”, de onde surgiram os seus Teatro Jornal e Teatro Invisível, que finalmente desaguaram no Teatro do Oprimido.

    Mas Augusto Boal foi muito mais que o criador dessas formas teatrais. Ele foi um agitador cultural como ninguém, que via em tudo uma possibilidade de expressão e a implementava com celeridade e precisão. Sua fala sempre ligeira quase não dava conta de seu raciocínio ainda mais rápido. Ele era sempre guiado pelo visionarismo, no bom sentido da palavra, e sempre dirigia seu foco para onde outros ainda não tinham percebido que havia alguma coisa. Foi assim com o show Opinião (1964), onde brilharam Nara Leão, Maria Bethânia, Zé Keti e João do Vale (com texto de Paulo Pontes, Oduvaldo Vianna Filho e Jaime Costa), que se tornou um marco na cultura brasileira e abriu caminho para os musicais; foi assim com Arena Conta Bahia, onde lançou Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa. Foi assim com o “sistema coringa”, em que adaptava a estrutura do “corifeu” e do próprio “coro” do teatro grego a uma busca de expressão do teatro brasileiro. Lançou toda uma teoria a respeito, que estruturava a dramaturgia de Arena Conta Tiradentes, escrito com Gianfrancesco Guarnieri, seu grande parceiro. Também escreveram juntos Arena Conta Zumbi, que fez enorme sucesso no Brasil e no exterior. Os espetáculos se tornaram marcos na luta contra a ditadura.

    Seu teatro invisível era uma forma de teatro relâmpago, em que um ou mais atores realizavam, num espaço público, uma performance não revelada como teatro. Por exemplo: dois atores conversavam num balcão de café e um começava a contar como tinha acabado de passar por uma ação truculenta da polícia, enquanto os demais frequentadores do café ouviam, mesmo disfarçadamente. Isso servia como denúncia da truculência policial.

    Um caso famoso do teatro invisível deu-se em Milão, onde um casal de atores do grupo do Boal saiu desfilando pelas galerias de um shopping center e o ator puxava a atriz por uma coleira. Outros atores, disfarçados como frequentadores do shopping, fizeram uma intervenção, provocando uma discussão com aquele que puxava a coleira. Isso envolveu mais frequentadores, veio a polícia e armou-se uma grande polêmica, que serviu para trazer à tona o debate sobre a sujeição e a humilhação das mulheres.

    O próprio Augusto Boal acabou sendo “vítima” do teatro invisível, quando atores suecos fizeram uma intervenção em um de seus seminários em Estocolmo e, vestidos como policiais, o “prenderam”. Depois de muita discussão, que culminou com a violência da polícia e a burocracia do Estado que não tinha liberado o seminário, eles se identificaram e o “soltaram”.

    Esse era o Augusto Boal, cidadão brasileiro conhecido e respeitado em todos os países, dramaturgo, teórico de teatro, diretor, poliglota.

    Escrevi-lhe algumas vezes quando ele estava na cadeia. Era uma situação estranha, pois não sabia o que escrever e o pouco que tinha para lhe dizer tinha de passar por minha própria censura, antecipando a leitura dos carcereiros que lhe entregariam a carta. Então, já mandava a carta aberta para não lhes dar trabalho. Eu não tinha que esconder que era do Teatro de Arena, o que provavelmente eles sabiam. Como sabiam também que eu não representava nada, que não era ninguém senão um jovem perplexo (22 anos), que demonstrava respeito e solidariedade por alguém que sofria. Dizia-lhe apenas que confiasse que estávamos levando o Zumbi e o Teatro de Arena da melhor forma e contávamos com sua volta quanto antes.

    Não foi tão fácil. Boal continuou preso e o Arena saiu do Brasil com passaportes alterados para não chamar atenção para nossa condição de artistas de teatro, com a agravante de sermos do Teatro de Arena. No espaço para profissão dos antigos passaportes, tínhamos profissões diversas. Eu era “comerciário” num passaporte triste que ainda tenho. Note-se que a informatização e unificação das informações do Estado ocorreu bem depois; na época, era mais fácil burlar as cancelas da ditadura.

    Na França, começamos uma campanha pela libertação de Boal aproveitando o Festival de Nancy, em 1971. Duas pessoas se destacaram nessa luta: o ator Antonio Pedro, que, além da militância política, tinha um ótimo domínio do francês; e Jacques Langue, que era diretor do Departamento de Cultura da Universidade de Nancy e anos depois foi ministro da Cultura de François Mitterrand e ministro da Educação de Jacques Chirac.

    Boal foi solto e foi nos encontrar em Paris. Não é necessário dizer o que isso significou. Um dos momentos mais especiais de minha vida foi quando me sentei com ele num café de Montmartre. Ele pediu “deux balons rouges, s?il vous plaît”. Não tínhamos nada a dizer. Restava degustar a taça de vinho tinto.

    Boal seguiu sua trajetória brilhante pelo mundo, abrindo caminhos, iluminando cantos escuros de nossas mentes. Visionário, não poderia deixar de ser socialista, sempre comprometido com a libertação do homem. Sabendo que o sistema opressor, este sim, é invisível, quando não é uma ditadura escancarada, criou formas e técnicas para denunciá-lo. Criou um método para que o homem usasse os elementos básicos dessa arte milenar que é o teatro para libertar-se do sistema econômico, dos tabus dos sexo, da opressão da convivência com os demais, da religião, da burocracia e de qualquer humilhação. Ao contrário do que muitos pensam, sua vida não foi dedicada ao teatro. Usou o teatro para dedicar-se aos direitos humanos.

    Isso vale à pena mais que tudo no mundo. Foi o que Boal nos ensinou. Essa foi sua missão.

    *Dramaturgo, musicista e historiador. Autor, entre outras, da peça O Contestado. Músico do Teatro de Arena, fez as peças Arena Conta Zumbi, Arena Conta Tiradentes e Feira Paulista de Opinião. Também como músico, trabalhou em Roda Viva, de Chico Buarque

  4. Ainda mais uma vez Boal « Arquivo68 Says:

    […] com o comentário de Romario José Borrelli feito a respeito do post de Antonio Morales sobre Augusto Boal. Por Romario José […]

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