Le Déserteur

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Le Déserteur é a mais famosa canção antimilitarista. Foi composta por Boris Vian, músico escritor e intelectual francês. Vian nasceu em 1920 e morreu precocemente em 1959.

Le Dérseteur foi escrita em 1954, numa época em que a França estava atolada na Guerra da Indochina (Vietnan). Não era uma canção pacifista. O último verso do poema original dizia: “Prévenez vos gendarmes, que je serai en arme et que je sais tirer” (avise seus esbirros que estou armado e sei atirar). Essa advertência para os perseguidores do desertor nunca foi gravada. Já na primeira versão, a censura começou a implicar com a mensagem de Vian contra a guerra. O primeiro cantor a gravar a canção, Marcel Mouloudji, foi praticamente banido das rádios francesas. Um vereador de Paris pediu censura total de Le Déserteur, e a música foi proibida. A censura cessou apenas em 1962.

Vian escreu uma carta aberta ao vereador que promoveu censura de sua obra. Faço aqui uma tradução livre da citada carta.

Não, Sr. Faber, você não deve olhar para um insulto onde este não existe e, se você o vê, é você que o coloca em minha canção. O que digo não está sujeito a interpretação: eu nunca quis ofender veteranos da I ou II Guerra, nem os Partisans (tenho muitos amigos entre eles), nem as vítimas da guerra (entre elas, eu tive muitos amigos também).  Meus insultos são sempre francos e de coração aberto, embora bastante raros. Nunca insultarei pessoas como eu, civis aos quais foi dado um uniforme apenas para serem mortos como coisas, nada mais, e que tiveram suas cabeças preenchidas por palavras vazias e desculpas sem sentido.  Somente um idiota, não um heroi, luta sem saber o motivo pelo qual está lutando; um heroi é aquele que aceita a morte se souber que ela será útil à causa que defende. O desertor de minha canção não sabe por que; quem irá lhe explicar? Não sei de que guerra você é veterano; mas, se for um veterano da I Guerra, devo admitir que você tem mais talento para a guerra que para a paz. Aqueles que, como eu, tinham 20 anos em 1940, ganharam um belo aniversário de nascimento. Não pretendo ser contado entre os bravos: fui rejeitado por causa de uma doença cardíaca, não lutei, não fui deportado, não colaborei com os nazistas; vivi aqueles quatro anos como um pobre diabo na multidão, e não pude entender porque alguém tem de ter explicações para o que é perfeitamente claro. Hoje tenho 34 anos, e lhe digo: se fosse chamado para defender aqueles que amo, eu lutaria. Mas se fosse chamado a morrer queimado por napalm numa guerra ignóbil, como um obscuro peão numa luta cujas razões são movidas por interesses políticos excusos, desertaria.  Farei minha própria guerrra. O país inteiro se levantou contra a Guerra da Indochina quando todo mundo tomou consciência do que estava acontecendo de fato; todos os rapazes que foram massacrados lá acreditavam estar “defendendo” alguma coisa ou alguém … – como lhes foi dito – bem, eu não os insulto. Fico de luto por eles. Entre eles, quem sabe, havia grandes pintores ou grandes músicos e, sem dúvida, muita gente boa.

Em 1966, Peter, Paul and Mary descobriram a canção e gravaram-na. Le Déserteur acabou se tornando um hino de gente que protestava conta a Guerra do Vietnan e outras guerras nos anos de 1960. Inúmeras gravações, em diversos idiomas, aconteceram. A letra da música sofreu algumas alterações nesse processo, mas continuou a ser um libelo a favor da paz. Segue aqui uma versão do poema em francês:

Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C’est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m’en vais déserter

Depuis que je suis né
J’ai vu mourir mon père
J’ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j’étais prisonnier
On m’a volé ma femme
On m’a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J’irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d’obéir
Refusez de la faire
N’allez pas à la guerre
Refusez de partir
S’il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n’aurai pas d’armes
Et qu’ils pourront tirer

E aqui está a canção, cantada por seu criador, Boris Vian:

 

Jarbas Novelino Barato

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