O triste ano de 1968

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por Mário Lopomo

publicado originalmente no blog São Paulo Minha Cidade

De 1964 a 1968, ia se vivendo, como dizia Jô Soares e Arnaud Rodrigues, numa música feita às pressas na entrega do troféu Roquet Pinto, em 1967.

“Para se chegar à Liberdade, temos que passar pelas ruas Argentina, Cuba, Turquia, Rússia, Chile, passava correndo pelas arcadas e pronto”. Aqui jaz a liberdade! Muita coisa estava acontecendo. A cada grupo de protesto que se fazia, vinha a opressão e acabava com o papo.

No dia primeiro de maio de 1967, na Praça da Sé, festa do dia do trabalhador, os policiais cortaram os fios das caixas de som. Uma pedra foi atirada sabe-se lá por quem e foi bater justamente na testa do governador Sodré, que não perdia uma concentração, tentando explicar como tinha conseguido ser nomeado governador “biônico”.

Um mês depois, um carro bomba explodia em frente ao quartel general do Ibirapuera. Antes de explodir, ele invadiu a barreira do quartel, na Rua Manoel de Nóbrega, sendo perseguido pelo soldado Mário Kosél Filho, juntamente com outro praça, um rapaz de cor negra. Quando o furgão carregado de bombas foi jogado no fosso gramado que protegia o quartel, o soldado Mário foi alertado pelo companheiro para não se aproximar muito.

Mário já tinha descarregado seu fuzil nos terroristas, cumprimento do seu dever, e ainda viu o motorista sair do veículo e ser recolhido por um Volkswagen que estava na cobertura. Quando o furgão estava tombado, encostado na parede do quartel, o soldado se aproximou para ver o que era.

E ai o furgão explodiu. O do soldado ficou mutilado, com partes de seu corpo espalhados por todo lado. Uma das últimas partes de seu corpo foi achado em cima da laje do quartel. Era uma de suas pernas.

Tudo fazia crer que dias piores estavam por vir. Quando o ano de 1968 teve inicio, a coisa começou a piorar. E a receita veio do exterior. Na França, estudantes iam às ruas num protesto que há muito não se via, pois a violência campeava. A triste primavera de Praga, quando a Tchecoslováquia estava a caminho da democracia, era outra coisa que entristecia o mundo democrático. Na Alemanha, também muitos protestos, e aí se espalhou pelo mundo todo.

Não poderia ficar de fora o Brasil. Como dizia Chacrinha, “nada se cria, tudo se copia”. Também por aqui estudantes cismavam em fazer seu protesto. Muitas pichações “Abaixo a Ditadura” estavam escritas com tinta preta e é reprisada até hoje como uma das referências contra o movimento militar de 1964.

A UNE (União Nacional dos Estudantes) teimava em fazer o 30º Congresso Estudantil Anual, que estava proibido pelo governo. Mas seria feito clandestinamente, onde não se sabia, era segredo de estado estudantil.
E o lugar escolhido foi um sítio na cidade de Ibiúna. Tudo estava nos conformes. O congresso seria realizado. O governo nem tinha idéia, pois havia um silêncio a respeito da realização desse congresso.
Os estudantes precisavam suprir o sítio de mantimentos para a comida de todos. Para tanto, foram à cidade para comprar o que comer. Só que estupidamente foram muitas pessoas, vários carros, o que chamou a atenção dos pacatos moradores daquela tranqüila cidade. Uma denúncia foi feita, a polícia se comunicou com o DOPS.

Na caixa d’água, tinha alguém de olho para avisar em caso de a policia chegar. Mas mesmo assim, quando menos esperavam, muitas viaturas e policiais estavam cercando o sitio e todos foram presos. Foi necessário contratar muitos ônibus para levar toda a rapaziada para o DOPS. Ali ficaram os líderes; os demais responderiam ao processo em liberdade.

A coisa ia de mal a pior. Eu, como andarilho inveterado, estava sempre pelo centro da cidade. Chegava sempre pelas vinte horas. O Anhangabaú era o piso inicial das minhas caminhadas. Uma noite estava insustentável permanecer no centro. Uma barulheira infernal, sirenes ecoavam por todo lado.

Parece que um carro com estudantes tinha explodido na Rua da Consolação com dois rapazes dentro, um de origem oriental. Quando estava para atravessar a Rua Formosa, caminho que eu fazia, pois por aqueles lados era onde a coisa mais fedia, e eu queria ver de perto, eis que um brucutu da força pública se punha bem a minha frente. Parecia um tanque de guerra. Piscava luzes por todo lado. Voltei correndo para casa. Uma das poucas vezes que fui dormir cedo nos tempos de andarilho.

Passado aquele burburinho, eis que outra refrega estava acontecendo. Era na Rua Itambé com a Maria Antonia. Uma verdadeira guerra entre a filosofia da USP x Mackenzie. A coisa ficou por uma semana daquele jeito. Bombas eram atiradas de lado a lado. Eram fogos de artifício, bombas molotov de fabricação caseira, pedras, paus, fogos de artifício e armas de fogo. E um desses tiros acertou o estudante José Guimarães, de 20 anos, um secundarista do colégio Marina Cintra, da Vila Mariana, do outro lado da cidade.

O barulho maior era de fogos de artifício, o que facilitava quem usava arma de fogo. Milhares de universitários e secundaristas, chefiados por José Dirceu, presidente da UEE (União Estadual dos Estudantes), espalhavam o terror pelas ruas do centro da cidade de São Paulo, trazendo nas mãos pedras, paus e alguns rojões gritando “slogans” contra o governo, assustando os paulistanos que circulavam pela cidade. Viaturas oficiais foram apedrejadas, amassadas e até incendiadas. A força pública e o DOPS passaram a intervir, efetuando prisões inclusive de jornalistas.

No dia seguinte à morte do estudante José Guimarães, os estudantes realizaram uma grande passeata pelas ruas da cidade. A força pública, mais uma vez, se fez presente em massa, agora com armamento pesado, fuzis, metralhadoras, bombas de gás lacrimogêneo e cinco carros de combate. Além dos estudantes, estavam artistas de teatro que tinham seus espetáculos invadidos pela policia repressora (como aconteceu em julho, durante o espetáculo Roda Viva, no teatro Galpão). Juntando-se a eles, ou o povo consciente, ou os baderneiros de sempre.

A passeata saiu da Praça da República, seguindo pelas avenidas Ipiranga, São João. Na Barão de Itapetininga, uma chuva de papel picado saudava os manifestantes. Mas quando ele entraram no Largo São Bento, o cassetete cantou feio. A tropa de choque da força pública os esperava ali. E aí foi um Deus nos acuda: saiu borrachada para todo lado, gente gritando, uma correria infernal, com bombas de gás explodindo em todos os cantos; cenas lastimáveis foram vistas naquele dia.

A maioria que conseguiu escapar foi para o Largo do Anhangabaú, quando atingiram o largo da memória promoveram um comício relâmpago e depois quebraram os vidros do Citibank. Quando eu retornava da Rua Maria Antonia diante daquele absurdo de briga entre duas faculdades, estava atônito: “meu Deus, isto parece o Vietnã”. Não era o Vietnã. Era a própria cidade de São Paulo em estado diferente do que se podia imaginar, uma autêntica cidade em guerra.

Bastante indignado com o que tinha visto, voltei para casa. Quando estava esperando a abertura do semáforo da Rua São Luís com Consolação e Ipiranga, vi uma mulher chorando. Ela retornava para casa, depois de mais um dia de trabalho como faxineira dos escritórios daquela área da cidade, como muitas outras que trabalhavam depois do horário comercial, das 18 às 22 horas.

Em seu desespero, dizia, bastante assustada: “Meu Deus, que coisa horrorosa! Eu vi um menino morto, ali na calçada perto do Mackenzie, um outro estava ferido com o rosto sangrando”. “Não queria estar na pele dessas mães. Até quando vai durar isto? Há uma semana que essa turma briga sem parar”, dizia ela a quem estivesse por perto.

– Sabe quando isso vai acabar, senhora? – disse-lhe eu, em voz bastante alta. Quando estes nossos políticos criarem vergonha na cara. Eles têm medo de se expor para não serem cassados ou presos, e mandam seus filhos fazerem essa baderna toda, sabendo que eles, sendo menores, não serão presos e responsabilizados por esses atos.

– A senhora já ouviu falar em Wladimir Palmeira?

– Não, garoto. Não ouvi falar não – respondeu ela.

– Pois eu lhe digo. É filho de um político lá do nordeste. Ele e o presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) gritam, esbravejam, fazem passeata pelo Brasil todo. Logo será preso, aí vai levar um pau. E depois dizer que só estudante é perseguido e preso pela policia. Coisas de mártir da democracia.

– A senhora leu o jornal da tarde de hoje?

– Não, não li não.

– Pois bem. Lá tem uma reportagem dizendo que o presidente da UEE (União Estadual dos Estudantes), José Dirceu, é um estudante desocupado, mora no CRUSP e vive às custas dos estudantes, que ficam nos semáforos pedindo dinheiro para financiar suas idas e vindas. Sua função nas horas vagas é dar em cima das meninas idiotas que acham que ele é o maioral. Amanhã ou depois vai aparecer como arauto da democracia.

E assim dizia eu àquela simplória senhora, que de política não sabia nada, coitada. Ou melhor, que bom que ela estava de fora.

As noites de 1968 já não eram as mesmas de dois anos antes, quando a gente circulava livremente por todas as ruas do centro de São Paulo, sem o perigo de tomar um tiro pelas costas. Os boêmios eram felizes e circulavam por todos os bailes da cidade: Badaró, Som de Cristal, Cartola Clube, Club Homs e até o famoso Vila Sofia, no longínquo bairro de Socorro, em Santo Amaro.

No João Sebastião Bar, nos bares da Rua Nestor Pestana, onde a TV Excelsior estava na corda bamba. Nos bares da Galeria Metrópole; lugares estes onde muita letra foi feita para os festivais de música popular e os shows do Teatro Paramount. São Paulo era o centro da cultura brasileira, a alegria era contagiante, com a turma da jovem guarda dando seu recado simples e gostoso.

E para quem não gostava daquele movimento que mudava radicalmente os costumes de uma sociedade, até então conservadora, tinha o fino da bossa com a alegria e o sorriso permanente de Elis Regina. Isso tudo tinha ficado para trás, as nuvens estavam cada vez mais cinzentas.

As noites de 1968 estavam tristes, até a lua não brilhava como antes; mesmo estando cheia, ela não reluzia a felicidade dos namorados, mesmo porque eles também estavam macambúzios cabisbaixos. Havia sempre o medo que algo viria em cima da cabeça de alguém. Resolvi voltar para casa, passei pela Rua Sete de Abril e comprei um jornal Diário de São Paulo.

Fui direto na coluna de Paulo Bonfim. Poesia nessa hora faz muito bem. Parece que o poeta andava muito aborrecido. Não estava nos seus melhores dias. Em sua coluna, ele parecia bastante melancólico, escrevia pensamentos os quais intitulou de Fragmentos.

“Os telefones andam assombrados, tocam e apenas o silêncio responde.

Há dias em que sofro de ausência e de presença, criaturas, objetos e fatos me parecem estranhos e irreais.

Ando farto de lucidez, faminto de sonhos, que não consigo sonhar.

Em armazéns subterrâneos, as palavras colhidas ontem principiam a apodrecer.

Há momentos eternos em dias efêmeros.

Enquanto houver no mundo um homem querendo impor ao outro a verdade, não haverá paz.

A rua está ficando exausta de meus passos.”

Quando a primavera brasileira estava prestes a chegar, quando as árvores ficariam mais verdes, as flores desabrochariam, havendo perspectiva de dias mais felizes, eis que a infelicidade, um deputado, o Márcio Moreira Alves, resolveu estragar tudo.

Deputado que era, pensando que tinha imunidade parlamentar e, portanto, podia falar o que bem queria. Disse em alto e bom som na tribuna dos deputados em Brasília que ninguém deveria comparecer ao tradicional desfile de Sete de Setembro, dia da pátria. Disse mais: “Para que as jovens formandas não convidassem cadetes de qualquer área das forças armadas para paraninfos nas festas de formaturas.”.

Pronto, mais um estopim a ser aceso. O governo militar pediu licença à câmara federal para processá-lo. Muitas seções se davam, ou não, permissão em processar o parlamentar. Numa seção histórica, estavam presentes 372 parlamentares, 249 da Arena e 123 do MDB. Não compareceram 37 deputados, dos quais 32 governistas e 5 do MDB.

Os arenistas Veiga Brito e Edmundo Monteiro não votaram por chegarem após o encerramento da votação. Após a contagem dos votos, o presidente da câmara, deputado José Bonifácio, anunciou o resultado: 216 deputados rejeitaram o pedido para processar o deputado Márcio Moreira Alves, e 141 optaram por processá-lo, 12 se abstiveram de votar (todos da Arena). Sendo assim, a Câmara dos Deputados resolveu não permitir que o deputado fosse processado por ter imunidade parlamentar.

Ao final da reunião, foi uma baderna. Gritos de viva a liberdade. A campainha da presidência era tocada com insistência pedindo silêncio. Os deputados puseram-se a cantar o Hino Nacional Brasileiro. Até o presidente da câmara, o arenista José Bonifácio, se levantou e, respeitosamente, também cantou. Uma grande festa da “democracia” brasileira.

Festa essa que durou pouco, porque numa reunião às pressas, o governo, presidido por Artur da Costa e Silva, assinou o ato institucional nº 5, fechando o congresso e, conseqüentemente, fechando tudo, naquele dia 13 de dezembro, que foi considerado o último ato político do ano.

No dia 31 de dezembro daquele ano, foi ao ar a última edição do repórter Esso, sob forte emoção do locutor Roberto de Oliveira que, por segundos, teve que ser substituído por um outro que estava ao lado, retomando logo a seguir a última leitura de um dos mais laureados noticiários. Ouvíamos também, pela ultima vez, sua característica musical. 1968 é, também, considerado o “Ano que não terminou”.

e-mail do autor: mlopomo@uol.com.br

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2 Respostas to “O triste ano de 1968”

  1. Ismael Says:

    Lopomo, uma delícia essa sua crônica cara!
    Despe-se a ideologia e outras mentiras do ser humano e gente vê a vida com outros olhos. Hoje todos criticam José Dirceu pelo que ele faz, mas se lerem essa sua crônica, verão que ele foi muito menor que a importância que lhe dão.
    Em cada esquina que a gente passa, em cada papo, em cada d~´alogo aparentemente sem importância, deixamos nossa marca, que pode ser boa ou má. Assim vamos tecendo essa enorme teia de conhecimentos que vão compôr nossa personalidade.
    Seus passos estão nestas esquinas, como os meus também, porém bem depois de 68, que foi um grnade ano.
    Que a vida lhe seja sempre generosa, é o que deseja um cara que leu sua crônica de graça pela Web.

  2. Leandro Lituano Says:

    ESTUDANTE DESOCUPADO É UMA INCONGURÊNCIA MEU CARO.Sou a favor da democracia e admiro que lutou por ela , apenas vejo rancores e alienações na história do País.Fazer sua parte é muito mais do que olhar da janela a vida passar , comprando flores para enterrar nossa vitalidade e força de luta quando existe esperança.

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