A SOMBRA DE MAIO DE 1968

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José Ribamar Bessa Freire
18/05/2008 – Diário do Amazonas

Maio de 2008. Uma chuva fina cai sobre Paris, onde me encontro por razões de trabalho. Escrevo a crônica dominical, depois de passar o dia flanando pelos becos e vielas do Quartier Latin e pelo cais à margem do rio Sena, com seus quiosques de livros usados e algumas raridades. Busco vestígios da revolta de maio de 1968, considerada por alguns analistas como “o acontecimento histórico mais importante do século XX”.

Aqui, há quarenta anos, os estudantes ocuparam as universidades, fizeram assembléias e discursos incendiários, picharam os muros, ergueram barricadas, brigaram com a polícia e realizaram quase diariamente manifestações de rua, com um saldo de muitos presos e feridos. O epicentro desse terremoto foi, justamente, o Bairro Latino.

Numa dessas passeatas, no dia 24, eles marcharam em direção à Bolsa de Valores arrancaram as grades de ferro, derrubaram os portões, invadiram e tocaram fogo no prédio, incendiando tudo que havia lá dentro: móveis, documentos, formulários e registros de cotação de ações. De lá, voltaram pro Quartier Latin, onde travaram com a polícia uma das mais violentas batalhas das jornadas de maio.

A foto colorida do templo do capitalismo em chamas, iluminando a noite parisiense, tinha – que a Polícia me perdoe! – tanta beleza e tanta força simbólica, que ganhou manchete em todos os jornais do mundo. Foi capa da revista Newsweek, com a legenda “French Revolution 1968”. Nesse momento, a revolta estudantil já havia se alastrado por fábricas, usinas e escritórios, enfeitando pátios com bandeiras vermelhas. A França estava totalmente paralisada, com mais de dez milhões de grevistas.

Maio de 1968 veio, efetivamente, questionar tudo: o sistema educacional, o regime de trabalho, a sociedade de consumo, a religião, a repressão sexual, o autoritarismo do Estado onipotente, os costumes, a mesmice, os modelos tradicionais de casamento, a estrutura familiar, o papel da mulher, a dominação machista, o sistema capitalista e sua política conservadora e até mesmo os sindicatos e os partidos políticos que foram atropelados pelos acontecimentos.

A conjuntura internacional estava marcada pela invasão das tropas norte-americanas ao Vietnã. Os manifestantes parisienses, contrários à guerra, celebravam a liberdade, a juventude, a igualdade, a utopia, a revolução, os direitos humanos, a solidariedade, a paz e o amor, como cantou Georges Moustaki: “Vem, meu amor, escuta essas palavras que vibram sobre os muros do mês de maio. Elas nos dão a certeza de que podemos refazer nossa vida, de que podemos ser livres e que tudo pode mudar um dia”.

Ah, as pichações vibravam, efetivamente, sobre os muros! Maio de 1968 foi – como escreveu Raymond Aron – uma ‘maratona de palavras’, fruídas por jovens de todos os países, que queriam “a imaginação no poder” e faziam reivindicações audaciosas: “Sejamos realistas, exijamos o impossível” ou “Criemos comitês de sonhos”. Os estudantes substituíram o lema do Manifesto Comunista de Marx: “trabalhadores do mundo, uni-vos” por “trabalhadores do mundo inteiro, divirtam-se”. A contestação atacava o coração do sistema: “a mercadoria é o ópio do povo”.

O que sobrou de tudo isso? Cadê os revolucionários que queriam mudar o mundo? Quarenta anos depois, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, declara que vai liquidar a herança de maio de 68. Entrevistado por um jornal, Moustaki deu uma resposta digna de um ‘soixante-huitard’, de um ‘meia-oito’: “Se o presidente insiste tanto em acabar com essa herança, é porque ela está viva e continua importante, incomodando e contradizendo o presidente. Vai ver, ele só pensa assim, porque não consegue gozar. É uma pena, porque tem uma mulher tão bonita”.

Procuro maio de 1968 em todos os lugares, inclusive nos museus. No sábado, dia 17 de maio de 2008, a França celebra “a noite dos museus”, que abrem suas portas até meia-noite, com entrada gratuita e intensa programação. O Museu da Prefeitura de Polícia de Paris anuncia uma exposição, com fotos de seus arquivos, intitulada “Proibido de lembrar: os acontecimentos de maio de 68”, e que foram tiradas pelos próprios meganhas. O cartaz diz: “Maio de 68: enfim o ponto de vista das forças da ordem”. Vou lá conferir e sou informado por uma polícia feminina que a exposição foi cancelada “pour des raisons qu’on ne peut pas expliquer”. Será que o Sarkozy censurou?

A mulher fardada – apesar da farda ela é até gostosinha, com o perdão das leitoras por esse pecado machista – nos convida a ver a exposição permanente do Museu da Polícia. Lá dentro, as fichas de Voltaire e Saint-Just presos várias vezes na Bastilha, a repressão contra a comuna de Paris, a ocupação alemã na segunda guerra e a violência contra os judeus, além de outros documentos sobre os grandes crimes da França: assassinatos com requintes de crueldades, roubos, etc. Deixamos o museu frustrados pelo ocultamento de maio de 1968.

Continuo procurando nos calçamentos do boulevard Saint-Michel, onde não encontro um só buraco que me faça lembrar as pedras arrancadas pelos estudantes para apedrejar a polícia. “Sous les pavés, la plage”, eles picharam, na época, nos muros da Sorbonne, indicando romanticamente, ironicamente, que debaixo dos paralelepípedos arrancados, era possível descobrir uma praia de areia branca.

Lá, na praça da Sorbonne, me detenho em uma bela exposição de fotos de Marc Riboud, que dão uma idéia do que foram as barricadas estudantis. Uma delas mostra os estudantes arrancando os paralelepípedos com o ferro das grades que foram arrebentadas. Em outra foto, os manifestantes, qual cruzados de um novo tempo, usam grandes tampas redondas das latas de lixo como escudos. Sartre aparece numa terceira foto dentro do auditório da Sorbonne, no meio de uma enorme confusão.

Estou admirando as fotos e eis que de repente ouço uma música, em português, me chamando para a luta. Alguém canta um hino revolucionário, mais incendiário do que a marselhesa: “vamos à luta, lutar para vencer, se for preciso lutar até morrer, lutar com disciplina e destemor, mostra para o mundo o teu valor”. Antes de pegar meu paralelepípedo, olho pra trás e vejo a prima do poeta Thiago de Mello – a Marilza – que mora em Paris. O que ela cantava era o hino do Nacional Futebol Clube de Manaus, cuja primeira estrofe é revolucionária. Mas a segunda quebra o encantamento: “Tua torcida estará sempre a teu lado, sempre fiel, meu clube adoraaaado”.

Mais tarde, demos de cara com uma passeata de estudantes secundaristas, protestando contra a supressão de 12 mil vagas na educação nacional. Depois, passamos em frente ao Liceu Vigée-Le Brun, em Montparnasse na hora do recreio. O alarido alegre das crianças, os gritos de meninos brincando atravessam os muros do colégio e ganham o boulevard Pasteur, me confortando e me dando uma esperança de que maio de 1968 está presente na existência desses meninos e no coração dos secundaristas e que tudo pode mudar um dia, como canta Moustaki.

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