Plínio Marcos, o rebelde

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A propósito da publicação da biografia de Plínio Marcos pela Editora Leya.

por Juvenal Alvarenga Junior

PLÍNIO MARCOS foi um rebelde, ponto e vírgula. Porque ninguém é uma coisa só. Plínio foi mais que tudo um rebelde. Sua herança literária é um detalhe e sua melhor obra talvez tenha sido ele mesmo. Foi um rebelde da estirpe de Cazuza, Glauber Rocha, Patrícia Galvão (Pagu), Raul Seixas. Jean Genet, Rimbaud, James Dean e tantos outros que desgastaram suas vidas nas trilhas da contestação.

Temperamentos que se ocupam mais de si mesmos e não lhes sobra tempo para produzir aquilo que o talento, farto neles, tem plenas condições de realizar.. Vejam: nenhum deles deixou grande obra. Alguns, uma só. O exemplo clássico é sempre Mário Peixoto com seu mítico e solitário filme, Limite.

Os rebeldes dessa vertente são revolucionários mas não são políticos. Entre os políticos poucos tem vida longa porque lidam com fogo. Os artistas vivem mais porque lidam com a palavra e outros instrumentos que não são letais em si mesmos.

Geralmente curtem o travo doloroso da melancolia quando sua adrenalina ferve no sangue sem um campo lavrado para germinar. Quase sempre são manietados em suas ações em nome da moral e da harmonia social. Sofrem se o anonimato lhes finca no coração o punhal da indiferença. São notívagos porque a agitação mental lhes rouba o sono.

Esse foi o Plínio marcos que conheci nas ruas de São Paulo e muito mais na biografia muito bem pesquisada e escrita pelo Osvaldo Mendes. Na biografia vê-se que ele escreveu pouco e polemizou muito. Eram sempre dois trabalhos. Escrever as peças, o que lhe era fácil e maneiro. Quando leu Brecht disse sem qualquer modéstia que texto igual àquele escrevia às dúzias.

Depois a sempre longa e tortuosa luta para liberar suas obras na censura. O que algumas vezes lhe proporcionou temporadas nas prisões Essa mesma prisão que foi tema recorrente de suas obras. Esteve permanentemente lutando contra a censura e a barreira das instituições. Batalhando contra as rejeições de um modo geral.

Mesmo assim conseguiu ser um homem dos sete instrumentos. Foi palhaço, ator, teatrólogo, cronista, conferencista, romancista, poeta, camelô e alguma coisa mais. Foi, incrivelmente, bom marido, bom pai e sincero amante das mulheres. E seu amor por elas não turvou sua dedicação e cortesia de marido, nem o afeto de bom pai. Mesmo porque não são sentimentos excludentes. Poucos o compreenderam em vida. E não é certo o lugar que ocupará na posteridade.

Como todo contestador não lhe interessava o amanhã. Para ele era tudo aqui e agora. Do tipo que vendia o almoço para comprar o jantar. Só conheceu o luxo de 5 estrelas quando o governador Mario Covas, seu conterrâneo de Santos, lhe ofereceu a suíte privativa do governo no Hospital das Clinicas. Porém, pouco lhe valeu. Já estava à morte.

Seu teatro agressivo e corajoso é quase sempre feito de flagrantes da vida que ele mesmo viveu. Vida de malandragem, de cais do porto, de madrugadas. Sem vazar para os temas mais profundos da saga humana. Falta-lhe a serenidade da reflexão. Mas lhe sobra a sagaz observação do cotidiano o que não é pouco.

Bem, não sou um “pliniólogo” como o Quartim que privou de sua amizade e lhe conhece melhor a obra. Sou apenas um o observador míope de sua obra através de seus filmes. Poucas vezes o vi no teatro. Algumas na rua.

Uma última vez na sala do Quartim na Editora Senac. Nenhuma na televisão. Nunca lhe pedi autógrafo, mesmo porque ele não dava mesmo. Nem eu sou de colecionar essas tetéias. Por isso estas mal traçadas linhas não servem prá nada. Escrevo apenas porque o Küller, incautamente, sugeriu. Reclamem com ele.

Mas ainda há tempo de lamentar que a noite perdeu um de seus mais autênticos personagens.

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2 Respostas to “Plínio Marcos, o rebelde”

  1. Eduardo Sposito Says:

    Juvenal e Morales,
    Não resisti. Dentro do espírito deste Arquivo, que é o relato do que vivenciamos naquele período, preciso falar de minha relação com o Plínio Marcos. (Devo adiantar que – como dizem os acadêmicos babacas atuais – não foi presencial)
    A única vez que o vi de perto, ele estava vendendo seus livros colocados em cima de uns caixotes, lá nos barracos da Ciencias Sociais da USP. E minha timidez me impediu de ir falar com ele.
    Mas gostaria de contar o que ele representou para mim naquele momento da vida brasileira.
    Começa pela televisão: o personagem que ele representou em “Beto Rockefeller”, novela em que fazia o amigo do personagem do Luiz Gustavo, indicava um tremendo de um ator, com uma nova linguagem, no tom da novela; seus debates com a Conceição da Costa Neves, talvez no programa chamado “Pinga Fogo’ foram memoráveis- discutia-se o uso de palavrão no teatro, por exemplo, a corupção política, a marginalidade…
    Nessa época eu era seminarista, fazendo filosofia num convento católico, mexia com teatro e me veio a idéia de fazer uma auto de natal, na linha da participação popular. Era só um esqueleto de idéias, mas não consegui escrever uma linha. Um amigo, padre Zanella diz ter levado a idéia para o Plínio e ele teria feito um texto chamado “Um dia virá”. Nunca soube se isso foi verdade e nem sei se houve esse texto do Plínio. Mas isso foi me amarrando mais à sua história.
    Acho que assisti na época apenas duas peças: “Quando as máquina param”
    e “Abajur Lilás”. Mas lí quase tudo que ele escrevia, inclusive seus artigos em jornais e revistas alternativas da época.
    Um texto seu que muito me impressionou e que acho profético sobre a marginalidade, foi “Querô”
    Um lado pouco comentado sobre Plínio foi sobre o seu humor: amargo pela vida que se vivia, mas sempre presente. Lembro sobre isso o texto sobre a Figurinha Difícil, que o vi contando várias vezes, mostrando o grande ator que era.
    Pra alegra minha, tenho uma filha que ficando, grávida reservou o nome de Plinio, se fosse menino, em homenagem ao grande autor. Parece que é uma menina, então ela vai ter que tentar de novo
    A qualidade maior na pessoa Plinio Marcos para mim é a autenticidade, o fato de não ter feito concessões e arcado com as consequências.

    Eduardo Sposito

  2. Olguinha Salati Says:

    Juvenal, seus comentários e estilo deixam sempre a sensação de “quero mais”! Vê se “mal traça” algumas linhas vez em sempre por aqui. Abraço.

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