Obrigado, Boal

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por Eduardo Sposito

Todos os que naqueles tempos ousamos mexer com teatro tinhamos uma profunda admiração pelo Boal e aprendemos muito com ele. No meu caso pessoal, o “tema” do meu casamento foi buscado no “Arena conta Zumbi”, de Boal e Guarnieri, em especial o texto inspirado em “Na selva das cidades” do Brecht.

Além disso, ainda no seminário católico onde fazia filosofia, numa exibição no palco do teatro paroquial na Igreja Santa Terezinha no Jaçanã, ousamos reproduzir um trecho do “Revolução na América do Sul” do Boal. Vou tentar reproduzir o conteúdo do texto, que foi onde recebi minha primeira aula de sociologia sobre o funcionamento do sistema capitalista.

Era a história de um operário – José da Silva( se não me engano) – que vai pedir um aumento ao patrão, pois seu filho “que nasceu ontem” estava chorando de fome e ele não tinha como comprar o leite. O patrão bonzinho resolve atender o pedido.

O Zé, todo feliz, resolve passar no açougue pra comprar um pedaço de carne, no lugar do osso que ele sempre comprava para a sopa. Aí começa o drama: a carne tinha aumentado de preço. Ele reclama com o açougueiro, que manda ele reclamar com o dono do caminhão, que era o culpado, porque aumentou o frete. O dono do caminhão diz que o culpado era o dono pneu, que tinha aumentado o preço do pneu.

O dono do pneu era seu patrão então ele vai reclamar dizendo que ele era o culpado pelo aumento do preço da carne. O patrão então lhe diz:”O culpado é você que pediu aumento e eu tive que aumentar o preço do pneu.” Aí o Zé conclui: “O culpado não sou eu. O culpado é meu filho que nasceu ontem e estava chorando de fome. Moleque safado: tão novo e já está desorganizando a economia do país.” (Mais tarde o Chico desenvolve o mesmo tema em “Opera do Malandro”).

A imagem que eu tenho do Boal está marcada pelo texto acima. E no curso de Ciências Sociais que fiz depois, pouca coisa foi acrescentada ao que está dito aí. Na hora que estou escrevendo este texto, recebo uma ligação dizendo que a Sheila, do grupo de teatro Desafio daqui de São José do Rio Preto, está muito triste com a morte do Boal. E a Sheila tem só 21 anos. Acho que é a melhor homenagem que o mestre poderia receber.

Obrigado, Boal.

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3 Respostas to “Obrigado, Boal”

  1. José Antonio Küller Says:

    Eduardo

    Dei status de post ao seu comentário sobre a morte do Boal. Achei-o tão bom e pertinente que não podia deixar passar a oportunidade de dar-lhe este destaque.

    Abraços

  2. antoniomorales Says:

    O Boal criou o Teatro do Oprimido. Paulo Freire escreveu Pedagogia do Oprimido. O livro foi escrito em 1968 e publicado em 1970. Não sei precisar se houve influências de um sobre o outro ou se elas foram recíprocas, pois as falas sobre o teatro do oprimido já estão presentes em artigos de Augusto Boal entre 1962 e 1973.

    Na minha maneira de ver são obras e propostas complementares e que possuem uma similaridade surpreendente no campo das idéias e ações cada qual em sua área e com seu enfoque. Um homem de teatro, outro educador. Dois grandes homens!

  3. Eduardo Sposito Says:

    Kuller,
    obrigado de novo.
    Quero aproveitar pra contar mais alguma de minha relação à distância com o Boal. Queria até chamar de “Canto do exílio” ou o Exílio no meu canto, já que nós que não saímos do país porque não éramos tão importantes para a ditadura, tivemos que amargar o nosso cantinho dentro da pátria.
    No ano da desgraça de 69, acabei ficando desempregado. Consegui em 1970 algumas aulas de Português num curso de madureza em Vila Galvão, Guarulhos. Acontece que o curso estava que só dava prejuizo, por isso os sócios abandonaram o barco. Eu não pude porque tinha casado e morava no prédio onde funcionava o dito curso. Acabei herdando o prejuizo e virei proprietário da dívida. Tive sorte pois aumentou o número de alunos e eu conseguia pagar o aluguel e às vezes os professores.
    (A coisa era braba. De manhã eu ia pra faculdade e voltava para casa à tarde, sem café da manhã e sem dinheiro pro pastel de palmito nos barracos da Usp. Alguém aí já andou na rua olhando pro chão pra ver se alguem possa ter perdido dinheiro… já passei por essa no trajeto pelo vale do Anhangabau. Quando sobrava uns trocos, comprava aquela Paçoca da Confiança -era uma delicia: sem muito açucar e feita mesmo de amendoim, sequinha sem ser esfarelenta. Tão boa, que logo tiraram de circulação.)
    Mas o que tem a ver o Boal com isso? É que no curso de madureza, assumimos o papel de promover o que na época se chamava conscientização dos alunos. Tínhamos até assessoria do PCdoB pra isso. Então fizemos um grupo de teatro e fomos assistir um espetáculo no Arena, especial para estudantes. Aí nos encontramos (não presencialmente, como se diria hoje) através dos textos. E o nosso contato foi através do texto do Espetáculo “Chiclete & Banana”, de Boal e Chico de Assis, cujo LP tenho até hoje. É um texto altamente didático sobre o imperialismo cultural atraves da música, mostrando o samba que sai do morro e entra no circuito Miami-Copacabana, fazendo a trilha sonora da politica da boa vizinhança e voltando “pro morro, onde está o meu cachorro vira-lata, minha cuica, meu ganzá.” Mostra a exploração via mambo, rumba, bolero “made in USA”. E introduzindo o famoso samba de Jackson do Pandeiro, conclui: “só iremos mascar o seu chiclete, no dia em que eles comerem a nossa banana.”
    E como dizia o texto do Arena conta Zumbi:
    “Assim passei os dias que me deram pra viver…

    Eduardo

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