Quarenta e cinco anos do Golpe de 1964

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Jaime Valim Mansan*

Há algum tempo, corrigi um colega que então se referia à “comemoração” dos quarenta anos do Golpe de 1964. Observei que se tratava de “rememorar”, não de “comemorar”; ao que o historiador redargüiu-me o contrário, reafirmando seu entendimento inicial.

Dias depois, dei-me conta de que ambos estávamos certos, já que a adequação ou inadequação dos termos varia conforme a perspectiva político-ideológica de seu enunciador e, no caso específico de 1964, de acordo com o entendimento que se tem daquele evento.

Digo isso porque, como se sabe, há uma importante diferença de sentido entre os dois termos, assinalada inclusive em alguns dicionários de língua portuguesa. Embora ambas as palavras se refiram ao ato de relembrar e fazer relembrar, “comemorar” carrega consigo um sentido adicional de celebração. Celebrar é tornar célebre, ou seja, fazer ser amplamente conhecido e reconhecido. É também exaltar, louvar, festejar algo ou alguém.

Assim, importa rememorar que, há quarenta e cinco anos atrás, neste país, o Presidente da República, João Goulart, foi deposto através de um golpe de Estado, promovido por setores militares e civis da sociedade. Oriundos principalmente da classe dominante, instauraram no Brasil um regime ditatorial que vigorou por vinte e um anos.

Naquela época, para quem ousava discordar, as punições eram variadas: perseguição, cassação, expurgo, tortura física e psicológica, prisão, assassinato, “desaparecimento”, dentre outras medidas legais e ilegais. Ultimamente, há quem diga que, apesar disso, a “ditadura à brasileira” não foi tão ruim assim. Eu discordo.

É importante rememorar tais fatos porque, em tempos em que o Velho se traveste de Novo (“nova política”, “novo jeito de governar”) com o objetivo de se perpetuar no poder, os mecanismos de promoção do esquecimento se tornam cada vez mais velados e, por isso, mais eficazes.

A opção entre “comemorar” ou “rememorar” os quarenta e cinco anos do Golpe de 1964 é mais do que simples questão de nomenclatura.

Independentemente do termo escolhido, trata-se de, no presente, abandonarmos a ilusão da imparcialidade para, compreendendo e assumindo uma posição clara em relação a nosso passado, encararmos o futuro de frente.

  • Professor de História e historiador.

(publicado com a autorização do autor)

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