Meu segurança

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Ano: 1966. Evento: passeata estudantil pelas ruas de São Paulo. Motivo: protesto contra a ditadura. Ponto de partida: Largo São Francisco. Esses dados situam a primeira vez que participei de um ato público contra a ditadura. Não foi propriamente uma passeata, como as muitas que fizemos em 1968. O movimento ainda não estava bem organizado. A ditadura ainda não tinha mostrado todas as suas maldades.

A polícia nos dispersava com relativa facilidade. Mas não desistíamos. De alguma parte surgia uma palavra de ordem para nos reagruparmos em outro local. E assim o fazíamos. Era uma correria de gato e rato, ou, se quiserem, de polícia e estudantes por todo o centro de São Paulo. A manifestação durou umas três horas. Por volta das oito da noite resolvi ir pra casa.

Na época, morava no Jaçanã. Ia chegar tarde e talvez não encontrasse comida. Resolvi parar no meio do caminho e visitar um meio irmão de minha vó materna, tio Onofre. Ele morava pelos lados de Santana e eu tinha certeza que dava para roubar uma bóia da tia Adélia, excelente cozinheira. Além disso, o velho Onofre era um consumidor contumaz de cerveja. Sob um telhado no quintal de sua casa havia mais engradados da bebida que em qualquer depósito de um boteco médio. Decisão acertada. Janta maravilhosa. Depois, um papo comprido, animado por muitos copos gelados da loira mais querida do país. Na conversa nada da manifestação. Apenas coisas de família e estórias profissionais do tio Onofre, grande marceneiro e matuto de Capetinga, MG, vivendo aventuras na cidade grande.

Por volta da meia noite anunciei que estava saindo para pegar o ônibus para Jaçanã. Na época, andar pelas ruas de Sampa tarde da noite era coisa tranquila. Mas meu tio queria que eu chegasse em casa são e salvo. Prontificou-se a me achar um segurança. E assim o fez. Um amigo dele estava indo para os lados da Dr. Zuquim onde eu pegaria o Parque Edu Chaves. E o velho Onofre achou que eu iria fazer a caminhada mais tranquila de minha vida. O segurança ad hoc era um soldado da polícia militar. E lá fomos rua afora papeando sobre coisas da vida. Não sei como  a conversa descambou para o lado da manifestação do dia. Meu segurança tinha participado de toda a correria no centrão. Mas antes de tentar impedir a manifestação, tinha sido convocado para permanecer no quartel desde a véspera. Acordara de madrugada para uma “ordem unida” e ouvira o dia todo discursos dos oficiais contra os comunistas e baderneiros. Resumo:  ficara aquartelado umas vinte horas e correra muitos quilometros atrás dos estudantes. Estava furioso. Entre outras coisas me disse: “eu queria muito pegar um daqueles estudantes; ele ia ver como canta um cassetete!”. Gelei. Ainda bem que eu não lhe dissera que era estudante, muito menos que havia participado da manifestação. Cheguei inteiro ao ponto de ônibus e liberei o meu segurança. Tio Onofre nunca soube do apuro que passei.

2 Respostas to “Meu segurança”

  1. José Antonio Küller Says:

    Jarbas

    Grande retorno, cara. Aguarde minha resposta.

    Imenso abraço

    Küller

  2. antoniomorales Says:

    Ainda bem que não deu com a língua nos dentes, pois “seu segurança” poderia mesmo querer lhe dar uma surra ou coisa pior! Eram tempos cabeludos aqueles. Essa história me trouxe à lembrança o ano de 1969, quando fui obrigado a fazer o Tiro de Guerra. Eu estava no terceiro ano da Faculdade.

    De manhã, das 6 às 8 estava de uniforme verde-oliva, obedecendo as ordens dos sargentos do TG: marchando, se arrastando, atirando com os velhos fuzis. À tarde, participando de passeatas e discussões sobre a organização de atos contra a ditadura militar. Arre!

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