Ginásios Vocacionais

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Por Sandra Machado Lunardi Marques

A propósito do post 68 – Dezembro, em Brasília!!, de Olga Maria Salati Marcondes de Moraes, recebi por e.mail o seguinte texto de Sandra Lunardi Machado, também colega do Curso de Pedagogia, turma de 68, da FAFI de Rio Claro (hoje UNESP).

Alga Marinha, por que eu não fui? 6 caipiras em Brasília?

Ainda  bem que foi documentado!

A proposta era avançadíssima – conteúdos nucleados ao eixo – vida/trabalho, ser acolhido na casa dos professores. Perda inestimável!

Mas, esse fato me lembrou de outro: se não me falha a memoria, em setembro de 1968. O Ginásio Vocacional de Rio Claro acolheu um congresso dos Institutos Isolados de Ensino Superior, cercado dos cuidados habituais, ou seja, estudantes em pontos estratégicos, com walkie-talkies (nossos amigos Willie e Richard eram alguns dos vigilantes de plantão) etc. e tal. Pois bem, eu estava na mesa de debates, secretariando o encontro, mas não tenho nenhuma foto do evento.

No estanto, quando entrevistei ex-professores do GV de Rio Claro, vários deles mencionaram o fato, que por sinal  tornou-se uma das provas para a condenação de Maria Nilde: ceder o prédio para um encontro de subversivos.

Naquele ano, todos os Vocacionais sofreram invasões no mesmo dia e hora, planejadas pelo 5º GECAM de Campinas. Nessas ocasiões, eles dispensavam todos os alunos, criticavam o uso da auto-avaliação como prática bolchevista, arrobavam os armários dos professores e apreendiam material subversivo – livros do Paulo Freire, “Geopolítica da fome”, de Josué de Castro, e pasmem, fotos e mais fotos do povo fazendo ginástica numa praça de Moscou, cuja reportagem foi extraída da revista “Manchete”.

Embaixo de uma disputa sórdida pelos rumos da educação pública que opôs , simplificando os termos , defensores da qualificação da cultura a defensores do aligeiramento e da pseudo-qualificação do ensino médio, pavões da USP defendendo sua cria – o Colégio de Aplicação, pais de alunos das classes médias e da elite, cujos filhos perderam sua vaga para os de extratos pobres da população, uma vez que o Vocacional usava porcentagens da representatividade social como um dos critéios de admissão, etc.. A soma de tudo isso levou nossa mais brilhante pedagoga às garras do delegado Sérgio Paranhos Fleury, sob os cuidados do qual ela perdeu a visão de um olho.

Moral da história: ao tentar desqualificar a história, ora tachando os Vocacionais de subversivos, ora de elitistas, a pátria amada nos obriga a cada ano a inventar a roda quadrada, claro. Currículo hoje é um tira-e-põe no mesmo horário, troca troca devidamente aprovado pela alta administração. Cruz credo!

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3 Respostas to “Ginásios Vocacionais”

  1. antoniomorales Says:

    É curioso, mas às vezes tenho dificuldades em lembrar de certos períodos de minha “vida escolar” de modo vívido e completo. Vejo apenas “flashs” entrecortados e as imagens são poucas. Como se fosse uma edição de um filme mais longo cuja maior parte tenha sido cortada. Digo isso a propósito de minha experiência com o Ginásio Vocacional em Rio Claro revivida pela narrativa da Sandra.

    Lembro que no primeiro ou segundo ano do Curso de Pedagogia( 1967 ou 68 ) fiz estágio no Ginásio Vocacional que ainda funcionava em instalações provisórias no Horto Florestal. E posso dizer que foi algo surpreendente ver aquelas crianças debatendo filosofia e governança mundial entre outros temas que abriam os horizontes daqueles meninos e meninas que nem tinham ainda entrado no que se convencionou chamar de adolescência.

    Uma metodologia instigante e muito eficaz para que cidadãos críticos e atuantes pudessem desde cedo entender a complexidade da sociedade em que viviam e do mundo em que o Brasil se inseria. Não podia mesmo sobreviver em uma ditadura que endurecia e se fechava. Era uma rota de colisão com o regime provocando sua morte anunciada.

  2. Carlinhos Medeiros Says:

    Nasci em 1960, mas fui morar em Brasília em 1977, no início do Governo João Figueiredo. Tivemos imemoráveis batalhas com o pessoal do aparelho repressor, saíamos à noite para as pichações, fazíamos greves, e, mesmo com a abertura gradativa ainda respirei ares da ditadura.

    Excelente blog sobre os temas que jamais serão esquecidos pelos que sofreram.
    Um abraço

  3. antoniomorales Says:

    Nesta reunião, dos Institutos Isolados de Ensino Superior, fui um dos estudantes que trabalharam na “segurança” que tinha por objetivo principal ficar de sentinela em volta do prédio do Ginásio Vocacional para caso se percebesse a chegada de “autoridades suspeitas” alertar os participantes para que se preparassem para enfrentar a “repressão”.

    Tudo era de um amadorismo tosco em termos de segurança. Imaginem estudantes cuidando de segurança e naquelas circunstâncias!

    Lembro-me que um dos temas em discussão era justamente a criação da UNESP pelo Governo Estadual na época com governador nomeado pela DITADURA. Nós éramos contra, claro.

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