1968 – Memórias da rebeldia de uma universidade

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Quatro dos principais líderes estudantis da UnB
de 1968 contam histórias daquele dia inesquecível

Regina Bandeira e Kennia Rodrigues
Da Secretaria de Comunicação da UnB

Caiu em uma sexta-feira 13 o dia em que o AI-5 foi decretado no País, e os direitos dos cidadãos brasileiros suspensos pelo governo militar de Arthur da Costa e Silva (de 15 de março de 1967 a 31 de agosto de 1969). Nada mais simbólico. Daquele dia em diante, até quando o ato foi revogado, em 31 de dezembro de 1978, a mão da ditadura ficou ainda mais pesada e cruel. Falamos com quatro dos principais líderes estudantis da UnB de 1968 para conhecermos algumas das histórias ocorridas naquele dia inesquecível.

Naquele ano, no dia 29 de agosto, a polícia militar já havia feito um tremendo estrago no campus da UnB. Atrás dos estudantes Mauro Burlamaqui, José Prates, Paulo Sérgio Cassis, Paulo Speller, Samuel Babah, Lenine Bueno Monteiro e Honestino Guimarães, considerados subversivos, salas de aula foram invadidas, cadeiras quebradas, 500 alunos presos na quadra de esporte.

1968paulo_speller1Em 1968, o aluno de psicologia Paulo Speller tinha só 21 anos, mas já constava da lista dos estudantes considerados subversivos pelo governo. No dia em que foi decretado o AI-5, Paulo estava preso há 2 meses no Batalhão da Polícia do Exército (Setor Militar Urbano). Condenado pela Justiça por ter participado do 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), o mineiro passou mais de um ano em várias celas oficiais. Após cumprir sua pena, tentou voltar à UnB, mas foi impedido pelo reitor – que tinha uma lista de nomes proibidos pelo governo. Speller estudou no México, e só voltou ao Brasil 10 anos depois, com a anistia. Apesar de tudo, Speller não se arrepende da nada:

“Faria tudo de novo. Foi um tempo maravilhoso. Éramos ricos de sonhos”, declara.

“Lembro de ficarmos acordados até a alta madrugada na noite do dia 12 especulando o que os militares estariam aprontando. Da nossa cela dava para ver o pátio do Batalhão e ele estava movimentado com tropas e armamentos. No dia seguinte (13), eu e o Lenine aguardávamos o relaxamento de nossa prisão; estávamos ansiosos para voltar para casa. Lembro do advogado dizendo pra gente arrumar a mochila. Pois bem, naquele dia o advogado não apareceu e soubemos, à noite, pelo rádio, do AI-5 que suspendeu todos os direitos, inclusive nosso alvará de soltura”

Paulo Speller
ex-reitor da UFMT, ex-presidente da Andifes e membro do Conselho Nacional de Educação

1968antonio_carpinteroO atual chefe do departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da UnB, Antônio Carlos Carpintero, Carpio, como era conhecido, cursava o 5º período da faculdade de arquitetura em 1968. O rapaz, de origem paulista (nasceu em Campinas), morava em um alojamento na UnB (Oca) e participava do movimento Juventude Universitária Católica (JUC). Após o AI-5, Carpintero se afastou do JUC.

“O clima já estava muito pesado desde o fim de agosto. Estávamos pressentindo algo de estranho. Passei o dia todo circulando no campus, estava cheio de estudantes. Escutamos no rádio o anúncio de que o ministro da Justiça falaria em cadeia nacional a qualquer momento. Á tardinha, fui para a caixinha (no ICC Sul, onde, hoje, funciona a barbearia). Na época, moravam alguns alunos. Lá, eu e mais uns quatro colegas ouvimos a decretação do AI-5. Não fizemos nada na hora. Saí de lá e fui para a Oca, onde morava, com uma sensação terrível de medo. Um medo generalizado, um frio na espinha”

Antônio Carlos Carpintero
chefe do Departamento de Teoria e História em Arquitetura e Urbanismo da UnB

1968jose_pratesEstudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, José Prates tinha acabado de vencer as eleições para conduzir a Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (Feub). Na manhã do dia 13, o sucessor de Honestino Guimarães na direção do movimento estudantil organizava uma mobilização de boicote às inscrições do vestibular: era preciso resgatar o projeto de Darcy Ribeiro, ameaçado pela rigidez do regime militar. A tensão, causada pela incerteza da ditadura, impeliu o grupo a jogar todas as cartas na mesa. Era a última manifestação na UnB antes do AI-5.

“Tentávamos convencer as pessoas a não se inscreverem. Antes mesmo do ato ser assinado sabíamos que alguma coisa estava voando no ar que não era avião, nem urubu (risos). Todos ficaram atônitos quando souberam e na expectativa, esperando o que ia acontecer. Nos reunimos então no gramado próximo à Praça Edson Luís, entre o prédio da FE-5 e a antiga Reitoria. A análise que o movimento fez foi que seríamos presos e aniquilados rapidamente. Por isso, o passo foi recuar, ficar totalmente clandestino. Mas estávamos preparados para tudo, éramos jovens, não tínhamos medo de nada”

José Prates
prefeito de Salinas (MG)

1968xico_chavesXico Chaves era o segundo vice-presidente da Feub. Foi correndo para a casa de um amigo, o Quartinho, que na época fazia maquetes para Oscar Niemayer. O verdadeiro nome do colega de militância ficou esquecido na memória, mas Chaves nunca se esqueceu da severidade que o ato apresentava-lhe no momento. Assistiu o pronunciamento do ato pela televisão, emitido em cadeia nacional. Acabado o comunicado, ele e os amigos foram às pressas para a UnB, pegar tudo o que tinha – livros, roupas – com uma única certeza: a de não saber quando voltaria para casa.

“Depois do pronunciamento fomos para uma área que ficava perto da antiga Reitoria, próximo ao prédio da FE-5. Ali fizemos uma reunião rápida com todo o grupo da UnB procurado pelos militares e pessoas de diretorias e federações estudantis. Tivemos um discussão e chegamos a conclusão que eles (os militares) estavam vindo para matar mesmo. Achamos que a UnB seria invadida novamente. Então, pegamos um pacote de dinheiro da Feub e dividimos para cada um sair de Brasília.. Era mais ou menos cinco da tarde, ainda tinha sol. Imediatamente peguei um ônibus para Belo Horizonte”

Xico Chaves
diretor do Centro de Artes Visuais da da Fundação Nacional de Artes (Funarte)

Matéria originalmente publicada na página da SECOM – Secretaria de Comunicação da UnB.

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