1968 – A anti-tese

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68-france-brasil

por Eduardo Sposito

A idéia básica é tentar mostrar o que representou aquele ano – aquele período – para um jovem que viveu a agitação numa cidade grande e fugir um pouco das grande teses sociológicas e políticas que já foram feitas sobre o período. (Aliás, acho que esta é a grande contribuição deste Arquivo.)

A primeira afirmação contraditória (e herética, espero): a luta aqui desenvolvida não tinha nada a ver com o “maio de 68” na França e na Europa.

Digo isso do ponto de vista daquele jovem envolvido nas lutas que se travavam contra a ditadura e para a construção do socialismo sonhado e imaginado, antes de 68.

O máximo que podia representar aquilo que acontecia na França, na Europa toda e até nos EUA com o poder jovem, e o fato de estimular nossa luta.

Nossa identidade era mais com os movimentos da América Latina (Tupamaros, Montoneros, Sendero Luminoso, Mir…) com Cuba, Vietnã e até a China…

As palavras de ordem para a grande massa jovem vinha da música, poesia, teatro, cinbema, literatura e artes em geral, produzidas aqui e na América Latina.

Nossas fontes eram Chico, Caetano, Gil, Vandré, Boal, Guarnieri, Thiago de Mello, Dom Helder, Guevara, Vitor Jarra, Violeta Parra, Neruda, Zé Celso, Josué de Castro, Celso Furtado, Paulo Freire, Darci Ribeiro, Caio Prado, Nelson Werneck, Glauber, Marighela, Lamarca… (Pode parecer uma salada ideológica… e era mesmo.)

O maio de 68 nos pareceu (já naquela época) uma tentativa da jovem esquerda européia de participar do que estava ocorrendo no terceiro mundo, em especial no Vietnã, em Cuba e na América Latina. O filme “A Chinesa” do Godard, me parece, demonstra isso. Mas era um movimento burguês, como demonstram entrevistas atuais com as lideranças da época, especialmente Cohn-Bendit.

A verdadeira revolução que estava acontecendo entre nós(conforme tentei demonstrar numa das Cenas-68, citando Roberto Freire) era a incorporação em nosso dia-a-dia do modo de viver socialista, na construção do coletivo. Para nós não só o trabalho, a produção seria socializada, mas o amor, os sonhos tenderiam para o coletivo. O amor pela pessoa amada era um símbolo e uma concretização do amor por toda a humanidade(As relações com a Igreja do Vaticano II e com as CEBs eram muito fortes.)

Quem não entender isso, não vai entender porque tantos jovens renunciaram à propria vida, muitos morrendo nas mãos da reperessão e das guerrilhas urbana e rural.Costumo dizer que não queríamos tomar o poder; queríamos apenas fazer a revolução

(Infelizmente em muitos países só se tomou o poder e não se fez a verdadeira revolução: não se mudaram as relações de produção da vida, que levariam à mudança nas relações sociais etc.. Mas não adianta, ninguém mais acredita no velho Marx)

Aqui também houve o equívoco da tomada do poder (como se fosse possível resistir naquele momento ao imperialismo americano) e as lideranças usaram esse potencial revolucionário dos jovens na aventura de derrubar a ditadura( que não era o inimigo: era apenas a forma que o inimigo (o capitalismo) assumia naquele momento.)
E o verdadeiro potencial revolucionário foi de roldão com a derrota da luta armada.

Quarenta anos depois, olhando aquilo que passamos, o drama não é achar que fomos derrotados. É perceber que estávamos certos. A revolução ainda está aí por se fazer. E ele tem que ser feita, para não tornarmos verdadeira a frase do Ivan Lessa no saudoso Pasquim:” o ser humano é inviável”.

E hoje, depois de 10 meses de imersão total na minha “comunidade de base” na periferia de Rio Preto, constato que a revolução não só é necessária, mas viável. Os “manos e as minas” não se cansam de me mostrar os caminhos a serem percorridos. Faltam apenas os caminhantes e a canção ( Entra a trilha sonora :”A Estrada e o Violeiro” de Sidney Miller, na voz de Nara Leão:”Sou violeiro caminhando só…)

Mas não desanimo. Da próxima vez a gente chega mais perto

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Uma resposta to “1968 – A anti-tese”

  1. José Antonio Küller Says:

    Eduardo

    Que bom ler você de novo por aqui. Se a longa ausência for explicada pela “imersão total na minha “comunidade de base” na periferia de Rio Preto”, você está para sempre perdoado.

    Um grande abraço

    Küller

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