Memoria del fuego/Memória do fogo

by

por Eduardo Galeano

 

08 de outubro de 1967

A orillas del río Ñancahuazú

 

Diecisiete hombres caminan hacia la aniquilación

El cardenal Maurer llega a Bolivia desde Roma. Trae las bendiciones del Papa y la noticia de que Dios apoya decididamente al general Barrientos contra las guerrillas.Mientras tanto, acosados por el hambre, abrumados por la geografía, los guerrilleros dan vueltas por los matorrales del río Ñancahuazú.

Pocos campesinos hay en estas inmensas soledades; y ni uno, ni uno solo, se ha incorporado a la pequeña tropa del Che Guevara. Sus fuerzas van disminuyendo de emboscada en emboscada.

El Che no flaquea, no se deja flaquear, aunque siente que su propio cuerpo es una piedra entre las piedras, pesada piedra que él arrastra avanzando a la cabeza de todos; y tampoco se deja tentar por la idea de salvar al grupo abandonando a los heridos.

Por orden del Che, caminan todos al ritmo de los que menos pueden: juntos serán todos salvados o perdidos.

Perdidos. Mil ochocientos soldados, dirigidos por los rangers norteamericanos, les pisan la sombra. El cerco se estrecha más y más. Por fin delatan la ubicación exacta un par de campesinos soplones y los radares electrónicos de la National Security Agency, de los Estados Unidos.

 

08 de outubro de 1967

Às margens do Rio Nancahuazú

 

Dezessete homens caminham até a aniquilação.

O cardeal Maurer chega à Bolívia desde Roma. Traz as bênçãos do Papa e a notícia de que Deus apóia decididamente ao General Barrientos contra as guerrilhas. Entretanto, acossados pela fome, confusos pela geografia, os guerrilheiros dão voltas pelos matagais do Rio Nancahuazú.

Poucos camponeses há nestas imensas solidões; e nem um, nem um só, se incorporou à pequena tropa do Chê Guevara. Suas forças vão diminuindo de emboscada em emboscada.

O Che não fraqueja, não se deixa fraquejar, ainda que sinta que seu próprio corpo é uma pedra entre as pedras, pesada pedra que ele arrasta avançando à frente de todos; e também não se deixa tentar pela idéia de salvar o grupo abandonando os feridos.

Por ordem do Che, caminham todos no ritmo dos que menos podem; juntos estarão salvos ou perdidos.

Perdidos. Mil e oitocentos soldados, dirigidos pelos rangers norte-americanos, lhes pisam na sombra. O cerco se estreita mais e mais. Por fim delatam a localização exata um par de delatores camponeses e os radares eletrônicos da Agência Nacional de Segurança, dos EUA.

Quebrada del Yuro

La caída del Che

La metralla le rompe las piernas. Sentado, sigue peleando, hasta que le vuelan el fusil de las manos. Los soldados disputan a manotazos el reloj, la cantimplora, el cinturón, la pipa. Varios oficiales lo interrogan, uno tras otro. El Che calla y mana sangre. El contralmirante Ugarteche, osado lobo de tierra, jefe de la Marina de un país sin mar, lo insulta y lo amenaza.El Che le escupe la cara.

Desde La Paz, llega la orden de liquidar al prisionero. Una ráfaga lo acribilla.El Che muere de bala, muere a traición, poco antes de cumplir cuarenta años, exactamente a la misma edad a la que murieron, también de bala, también a traición, Zapata y Sandino.

En el pueblito de Higueras, el general Barrientos exhibe su trofeo a los periodistas. El Che yace sobre una pileta de lavar ropa. Después de las balas, lo acribillan los flashes. Esta última cara tiene ojos que acusan y una sonrisa melancólica.

Declive de Yuro

A queda do Che

A metralha lhe rompe as pernas. Sentado, segue lutando, até que o fuzil lhe voa das mãos. Os soldados disputam a tapas o relógio, o cinturão, o cantil. Vários oficiais o interrogam, um após o outro. O contra-almirante Ugarteche, ousado lobo de terra, chefe da Marinha de um país sem mar, o insulta e ameaça. O Che lhe cospe na cara.

Desde La Paz, chega a ordem de matar o prisioneiro. Uma rajada o criva de balas. O Che morre de balas, de traição, antes de completar 40 anos, exatamente a mesma idade e na qual morreram, também a bala, também a traição, Zapata e Sandino.

No povoado de Higueras, o general Barrientos exibe seu troféu aos jornalistas. O Che jaz sobre uma tábua de lavar roupas. Depois das balas, o crivam os flashs. Sua última cara tem olhos que acusam e um sorriso melancólico.

Higueras

Campanadas por él

¿Ha muerto en 1967, en Bolivia, orque se equivocó de hora y de lugar, de ritmo y de manera? ¿O ha muerto nunca, en ninguna parte, porque no se equivocó en lo que de veras vale para todas las horas y
lugares y ritmos y maneras?

Creía que hay que defenderse de las trampas de la codicia, sin bajar jamás la guardia. Cuando era presidente del Banco Nacional de Cuba, firmaba Che los billetes, para burlarse del dinero. Por amor a la gente, despreciaba las cosas.

Enfermo está el mundo, creía, donde tener y ser significan lo mismo. No guardó nunca nada para sí, ni pidió nada nunca. Vivir es darse, creía; y se dio.

Higueras

Os sinos tocam por ele

Morreu em 1967, na Bolívia, porque se equivocou de hora e lugar, de ritmo e de método? Ou jamais foi morto, em nenhuma parte, porque não se equivocou no que na verdade vale para todas as horas, lugares, ritmos e métodos?

Acreditava que temos que nos defendermos das armadilhas da ambição, sem baixar jamais a guarda. Quando era presidente do Banco Nacional de Cuba, assinava Che os bilhetes, para livrar-se do dinheiro. Por amor às pessoas, depreciava as coisas.

Doente está o mundo, acreditava, onde ter e ser significam a mesma coisa. Não guardou nunca nada para si, nem nada pediu. Viver é doar-se, acreditava, e se doou.

 

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