Memoria del fuego/Memória do fogo

by

02 de outubro de 1968

por Eduardo Galeano

Memoria del fuego é o título de uma trilogia, na qual Eduardo Galeano, escritor uruguaio, nascido em 1940, fornece uma interessantíssima e nova visão da história do continente americano. A trilogia é composta pelos pelos volumes:

1. Los nacimientos
2. Las caras y las mascaras
3. El siglo del viento

Já no prólogo do primeiro volume explica qual é a intenção da trilogia. Diz que espera que “possa ajudar a devolver à história o alento, a liberdade e a palavra e consertar um dos males da América Latina: a usurpação da memória.”

Vamos aqui publicar , do livro, as efemérides, contadas em forma de crônica pelo autor no dia e mês em que ocorreu o narrado, independentemente do ano do acontecido. A fonte do material que vamos utilizar é o site Patria Grande.net através do qual chegamos ao site oficial de Eduardo Galeano.

Os textos serão publicados sempre em espanhol com sua tradução para o português, numa tentativa de contribuirmos para com a restauração dos nexos entre nós brasileiros e “los hermanos” de toda a América Latina enfraquecidos por obra de interesses político/econômicos e outros que sabotam nossa “latinidad” (Antonio Morales).

2 de octubre de 1968

Ciudad de México

 

 

Los estudiantes

 

Los estudiantes invaden las calles. Manifestaciones así, en México jamás se han visto, tan inmensas y alegres, todos atados brazo con brazo, cantando y riendo.

 

Los estudiantes claman contra el presidente Díaz Ordaz y sus ministros, momias con vendas y todo, y contra los demás usurpadores de aquella revolución de Zapata y Pancho Villa.

 

En Tlatelolco, plaza que ya fue moridero de indios y conquistadores, ocurre la encerrona. El ejército bloquea todas las salidas con tanques y a metralladoras. En el corral, prontos para el sacrificio, se apretujan los estudiantes. Cierra la trampa un muro continuo de fusiles con bayoneta calada.

 

Las luces de bengala, una verde, otra roja, dan la señal.

 

Horas después, busca su cría una mujer. Los zapatos dejan huellas de sangre en el suelo.

 

 

 

 Ciudad de México

 

 Revueltas

 

Tiene medio siglo largo, pero cada día comete el delito de ser joven. Está siempre en el centro Del alboroto, disparando discursos y manifiestos. José Revueltas denuncia a los dueños del poder en México, que por irremediable odio a todo lo que palpita, crece y cambia, acaban de asesinar trescientos estudiantes en Tlatelolco:

 

 —Los señores del gobierno están muertos. Por eso nos matan.

 

En México, el poder asimila o aniquila, fulmina de un abrazo o de un balazo: a los respondones que no se dejan meter en el presupuesto, los mete en la tumba o en la cárcel. El incorregible Revueltas vive preso.

 

 

Rara vez no duerme en celda y entonces pasa as noches tendido en algún banco de la alameda o escritorio de la universidad.

 

 Los policias lo odian por revolucionario y los dogmáticos por libre; los beatos de izquierda no le perdonan su tendencia a lãs cantinas. Hace un tiempo, sus camaradas le pusieron un ángel de la guardia, para que salvara a Revueltas de toda tentación, pero el ángel terminó empeñando las alas para pagar las juergas que se corrían juntos.

 

02 de outubro de 1968

Cidade do México

 

 

Os estudantes

 

Os estudantes invadem as ruas. Manifestações assim, no México jamais foram vistas, tão imensas e alegres, todos atados, braço com braço,  cantando e rindo.

 

 Os estudantes gritam contra o presidente Diaz Ordaz  e seus ministros, bonecos com vendas e tudo, e contra os demais usurpadores daquela revolução de Zapata e  Pancho Villa.

 

Em Tlatelolco, praça que já foi morada de índios e conquistadores, ocorre o confronto. O exército bloqueia todas as saídas com tanques e metralhadoras. No curral, prontos para o sacrifício, se amontoam os estudantes. Fecha  a armadilha um muro contínuo de fuzis com baioneta calada.

 

As luzes do sinalizador, uma verde, outra vermelha, dão o sinal.

 

Horas depois, procura seu filho uma mulher. Os sapatos deixam marcas de sangue no chão.

 

 

Cidade do México

 

 Revoltas

 

Tem meio século de idade, porém cada dia comete o delito de ser jovem. Está sempre no centro do alvoroço, disparando discursos e manifestos. José Revueltas denuncia os donos do poder no México, que por irremediável ódio a tudo que vibra, cresce e muda,  acabam de assassinar trezentos estudantes em Tlatelolco:

 

-Os senhores do governo estão mortos. Por isso nos matam.

 

No México, o poder assimila ou aniquila, fulmina com um abraço ou uma bala: aos respondões que não se deixam convencer por esse argumento, manda para o túmulo ou para o cárcere. O incorrigível Revueltas vive preso.

 

Raras vezes não dorme em celas ou passa noites estendido em algum banco da alameda ou sala da universidade.

 

Os policiais o odeiam por ser revolucionário e os dogmáticos por ser livre; os beatos de esquerda não lhe perdoam sua tendência pelos bares. Faz um tempo, seus camaradas lhe puseram um anjoda guarda, para que salvasse Revueltas de toda a tentação, porém o anjo terminou empenhando as asas para pagar a diversão que  freqüentavam juntos.

 

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: