Freire, Veja e Romano

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Não li, nem vou ler a sujeira que a Veja publicou sobre Paulo Freire. Meu estômago, delicado e sofrido, não aguentaria a &**& urdida pelo panfleto direitista que já teve o nome de revista. Mas, ao ler o texto de Anita, viúva do grande educador brasileiro, minhas lembranças sobre certos fatos e gentes foram avivadas. Não fiquei espantado quando li a informação de que o Roberto Romano apoiou as diabrites do Civitta sobre Freire [não adianta muito malhar as pseudo-repórteres que assinam a matéria, a Veja é hoje um instrumento de propaganda política de seu dono que ainda anda vendo comunistas comedores de criançinhas por todos os lados]. Mas vamos ao que interessa, o Romano.

Conheci a figura no velho IFT (Instituto de Formação Teológica de São Paulo). Na época, um frade dominicano recém saído das hostes da JEC (Juventude Estudantil Católica). E já era extremamente crica. Sei disso porque a peça me foi indicada para um encontro que eu teria com as lideranças estudantis da AP. Para a grande maioria dos leitores preciso contextualizar as coisas antes de voltar ao hoje ‘filósofo da Unicamp’.

A AP (Ação Popular) era um grupo político de esquerda nascido de rachas com a hierarquia da Igreja Católica. No início dos sessenta, o bispos do Brasil quiseram cortar as asas (políticas) da da Ação Católica, particularmente da JUC (Juventude Universitária Católica). A moçada peitou os hierarcas, mas a JUC praticamente deixou de existir. Em seu lugar apareceu um movimento mais engajado politicamente, a AP, cujos quadros eram quase todos velhas lideranças dos movimentos estudantis da Ação Católica. No ambiente de 1968, os quadros mais conhecidos eram Catarina Melloni e Travassos. A Ação Popular, apesar de sua inclinação marxista, continuou a ter certa áurea cristã. Por essa razão, as lideranças estudantis da AP tinham como favas contadas os estudantes de teologia como seus apoiadores. Mas os teólogos de 67/68 acabaram se inclinando para o lado do Partidão. As duas maiores escolas de estudos teológicos de SP, Seminário Metodista de Rudge Ramos e IFT, estavam fechados com o Zé Dirceu e tinham cadeira cativa na CG (coordenação geral do movimento estudantil), o órgao criado pela UEE (União Estadual dos Estudantes) para promover as agitações de 1968. Mas a AP não desistia. Apelava para sentimentos cristãos a fim de ter de volta as escolas de teologia. Num destes apelos, na qualidade de presidente em exercíco do diretório acadêmico do IFT (o presidente licenciado era Frei Tito), fui intimado a comparecer num encontro do povo da AP. Não quis ir sozinho. Consultei o Tito para saber quem deveria levar com o objetivo de melar de vez nossas relações com os apedeutetas (apelido nada carinhoso que o povo da CG havia arranjado para os militantes da AP). Sugestão: Roberto Romano.

E lá fomos para o encontro num auditório do Sedes Sapientiae, hoje PUC da Marquês de Paranaguá. Creio que o Celsinho, da FEI, foi quem nos conclamou a apoiar a AP em nome de princípios cristãos. Argumentei com certa delicadeza, sem comprar briga, que iríamos continuar nossa aliança com o Dirceu. Eu era amigo de muitos dos estudantes ali presentes. Lembro-me até hoje, com carinho, do Celso, da Vera, da Catarina e da Lígia. Mas Romano queria briga. Pediu a palavra e fez uma catilinária violenta contra a AP. Coisa fora de propósito. Fiquei impressionado. O homem era de uma acidez espantosa. Útil na ocasião, mas inteiramente fora de medida.

Nunca mais vi o Romano. Muitos anos depois, um amigo comum, me falou da peça. Caracterizou o filósofo como um maníaco que escreveu sua tese em Paris procurando derrubar um trabalho do Magno (dominicano que se refugiou na França logo depois do assassinato do Marighela). O Magno, porém, nunca soube que o Roberto Romano estava a combatê-lo, e se soubesse apenas daria boas e sadias risadas. Toda essa sanha do Romano se explicava por dois motivos: o trabalho do Magno, que não conheço, devia ser muito bom, e a vaidade do ‘filósofo da Unicamp’ não tinha (nem tem) limites. Acho que tal vaidade é o que explica o apoio à Veja na crítica descabida que esta fez a Freire. Fujo um pouco de meu modo de sempre compor, encerrando com uma recomendação: não leiam nem ouçam o Romano.

Na foto, um registro de conversa com Paulo Freire. Vejam que na época eu ainda tinha cabelos negros. O gringo a meu lado é o grande educador dinamarquês, Steen Larsen.

5 Respostas to “Freire, Veja e Romano”

  1. segisvaldocaldo Says:

    José, fiquei com algumas dúvidas no seu relato: se a “inteligenzia” teológica católica estava com o partidão, o que os levou, especialmente os dominicanos …, aos braços do Marighella ?? Desilusão com o imobilismo do partidão ?? Birutas ao léu ??
    E o que os levava a criticar a Ap ??, ter ela radicalizado?? e que terminou no Araguaia, alinhada com o PC do B ? Inclusive a militante da Ap , Elenira, colega da Catarina, lá foi assassinada.
    Agora o inefável Romano me lembra, o lacerda , de malévola memória…

  2. José Antonio Küller Says:

    Segisvaldocaldo

    Passo a resposta à Jarbas Novelino, que postou o texto. Por ser acontecimentos fora de minha vivência e da minha reflexão, tenho dificuldades em te responder de uma forma que não seja superficial.

  3. jarbas Says:

    Caro Segisvaldo,

    Não tenho uma resposta pronta e acabada para suas perguntas. No anos sessenta havia rachas aos montes. Da época lembro-me de uma observação do Frei Beto: “cada livro de esquerda novo publicado na França produz mais uma dissidência no Brasil”. Dessa fartura de dissidências não escaparam as faculdades de teologia, católicas e protestantes. No caso da AP, como disse, uma das coisas que nos afastou da dita cuja foi certa insistência em vincular prática política com movimentos que nasciam religiosos. Muitos de nós queriam simplesmente fazer política. E havia também algumas coisas ligadas a origem de classe [boa parte dos seminaristas eram de origem proletária e viam a AP como um movimento de gente de classe média, de filhinhos de papais]. Falei em Partidão para encurtar história. Em 68 já havia montes de dissidências do velho PCB. Muitos teólogos se alinharam com diversos movimentos, alguns deles nascidos tsambém no berço da AP. Nada monolítico. No IFT, particularmente, a ala mais radical se desgarrou do movimento estudantil e foi para as fábricas(muitos de meus companheiros viraram operários). Se birutismo houve, não foi dos teólogos, foi da esquerda brasileira de modo geral. Mas acho que uma crítica post factum é muito cômoda e não se preocupa em olhar para a história.O excesso de dissidência a meu ver não se deu por falta de convicções, mas por vontade de fazer o que achávamos mais correto, o mais compromissado com o povo brasileiro. Alguém dirá que isso era puro romantismo. Acho que sim, mas que mal há em ser romântico?
    O espaço aqui é curto para uma análise do que andou rolando na época. O que eu quero deixar registrado é que algumas faculdades de teologia eram altamente politizadas. E as duas que cito no meu post foram fechadas pelas respectivas hierarquias (a metodista em 196) e o IFT (católico) em 1969.
    Com a radicalização da ditadura, radicalizou-se também a esquerda. A luta armada quase que se impôs como forma de resistência. Nesta perspectiva, acho eu, é que deve ser vista a adesão de militantes de origem católica, muitos deles religiosos, à ALN. Noutro contexto, mas numa direção parecida, Camilo Torres (padre guerrilheiro colombiano) havia aberto uma janela de militância política de aliança com movimentos políticos sem raízes católicas (ou cristãs).
    Como já disse, não pretendo dar respostas completas para suas perguntas. E, no post que você comenta, eu quis apenas registrar algumas lembranças, sem preocupação com memórias exatas ou com interpretações de um cientista político (coisa, aliás que não sou nem quero ser). Jarbas Novelino.

  4. Eduardo Sposito Says:

    Velho(no bom sentido) Jarbas,
    Como dizem os manos da comunidade que frequento :”Demorô!”
    Agora já não me sinto sozinho nessas recordações meiaoitianas.(orra, meu!) A sua participação foi muito oportuna. E você sabe que preciso de suas observações para descobrir o sentido daquele meu/nosso passado comum.
    Apareça mais.
    Já devo ter citado em outras passagens, minha dificuldade pessoal em me relacionar com chefias e lideranças. Apesar de ter convivido com grande parte do pessoal que você cita, não tinha na época a compreensão do que ocorria nos “centros de decisão”. e algumas ações de que participei adquiriram mais sentido a partir de sua narração.
    Apesar de estar mais próximo de ser cientista político(devido à “deformação” universitária que tive), também não quero sê-lo. E acho que a grande riqueza deste nosso Arquivo é justamente juntar as visões, interpretações e vivências do período para que cada um possa passear por elas e montar sua própria interpretação, sem depender da interpretação pessoal e unilateral de algum cientista político.

    Eduardo

  5. Camila Says:

    A deformação da informação, é um péssimo ponto no jornalismo.

    abraço professor.

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