Coração de estudante

by

 

“Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu”

(Milton Nascimento  e Wagner Tiso)

 

 

O fim de 1968 trouxe o AI5. O mesmo calendário da explosão dos movimentos libertários marcou o início aos anos de chumbo. A prisão das lideranças estudantis em Ibiúna foi o prenúncio, depois o Ato, depois silêncio ou revolta, depois escuridão.

 

Os jornais e a história registraram e mantém a memória da rebeldia e da repressão. Os que enfrentaram a ditadura manifesta e os que foram por ela reprimidos tiveram registradas as suas lutas e suas desditas. Erigidos em figuras públicas, muitos que lutaram e/ou foram perseguidos tiveram a sorte ou o azar de ter suas trajetórias reveladas e conhecidas. Depois, passado o tempo, muitos foram reconhecidos como vítimas e indenizados pelo Estado brasileiro. Hoje, muitos com méritos, começam a ser tratados como heróis…

 

Alguém disse que é infeliz o país que precisa de heróis. Acho pobre um país que reconhece tão poucos. Há algum tempo, Zumbi. Tiradentes sempre. Quem mais?

 

Mas, quero falar de uma outra coisa. Como todos, acordei em 69 com um “desvio no destino”. De repente, tinha terminado a vivência de um tempo de liberdade. Acabou o tempo de criatividade e de experimentação cultural, de debate e discussão aberta, de manifestação livre, de aprender em liberdade. O “sorriso de menino” se escondeu.

 

O fechamento não foi percebido de imediato. Ele foi acontecendo devagar. Um dia, ouve-se a notícia da prisão de um colega. Logo, outro é dado por desaparecido. Uma reunião, antes aberta, agora é feita às escondidas. Poemas substituem as notícias de jornal. Ídolos indo para o exílio.  Alguém recomenda cuidado com o que se fala. Outro fala de espias e espionagens. Suspeitas rondam todos os cantos… Diminuem os espaços, os tempos e os parceiros de conversa livre. Até no boteco se olha de lado.

 

Foi anoitecendo em todos os quadrantes. Os meios de comunicação foram censurados ou embarcaram no ame-o ou deixe-o. Agora, discutia-se a Bíblia na igreja. O grupo de jovens acabou. Nas casas, livros são queimados ou escondidos. Por resistência, lê-se o Pasquim e outras publicações da imprensa alternativa.

 

Para mim, sobrou a faculdade como único espaço em que o exercício do pensamento e a possibilidade de ação transformadora ainda existiam. Mas, já não era o mesmo território livre. Ali também restrições foram impostas. Não se discute mais a reforma universitária. Cada vez menos o destino político do país é abertamente debatido. Mas, a biblioteca estava aberta e os livros abriam-me outras janelas para o mundo.

 

A minha turma de Pedagogia conseguiu abrir um reduzido mas fértil espaço de autonomia. Inclusive por insistência nossa, quase todos os professores adotaram métodos mais ativos e participativos em suas aulas. Isso enriquecia e ampliava as possibilidades de estudo, de pesquisa, de reflexão e de pensamento autônomo e crítico.

 

Assim, mesmo que menos amplas, as discussões em classe eram mais freqüentes e aprofundadas. E continuavam livres. Assim como meus colegas de classe, discuti as questões educacionais, me envolvi e fui me comprometendo com a busca de soluções para os nossos problemas educacionais concretos. Mesmo que restritos ao campo da educação, sempre tomávamos posição e lutávamos por ela.

 

Era a forma possível de exercício da cidadania. Ao mesmo tempo, sempre que tinha oportunidade, votava na oposição, que de débil foi se fortalecendo.  

 

Essa foi minha verdadeira formação política. Foi a formação política possível e acredito que adequada àqueles tempos. Ela iria influenciar fortemente a vida profissional futura. Daria modelo de um existir em sociedade que perduraria no tempo. Mas, esse já é o tema para um outro capítulo. 

 

Tags: , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: