Para além dos quadrantes e de 68: a quintessência

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O número quatro feito coisa

ou a coisa pelo quatro quadrada,

seja espaço, quadrúpede, mesa,

está racional em suas patas;

está plantada, à margem e acima

de tudo o que tentar abalá-la,

(…)

mas a roda, criatura do tempo,

é uma coisa em quatro, desgastada

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

Desde Um ou vários Quadrantes em 1968, venho experimentando recordar e analisar a minha vivência em 1968 a partir dos lados de um quadrante inscrito na paisagem urbana da cidade de Rio Claro, Estado de São Paulo.

Dentro do exercício, já foram visitados todos os lados do quadrante. Dessa viagem pelo espaço e memória, foram publicados os textos: A Escola, A Igreja, O Jogo e Nosso Lar.

 

O fechamento e a ausência de linhas de escape são características das forças e análises postas em quadrante. Para superá-los, é necessário iniciar um movimento que parta do centro e que, circulando em espiral crescente, una os quatro lados em oposição em uma construção pessoal, criativa e original: a quintessência.

 

O caminho dessa construção sempre aponta para um confronto com a sombra, com o mal, com o inconsciente, com o desconhecido. No caminho da construção pessoal, da individuação, é preciso submergir no próprio inferno para emergir transmudado em si mesmo.  

 

No universo simbólico da humanidade, existem arquétipos que são representações simbólicas desses processos extremos de transformação das forças reunidas em configurações de simples ou dupla oposição. Um deles é o mito do herói.

 

O herói parte em uma jornada em busca de seus objetivos e de sua glória. Do ponto de vista psicológico, a viagem é análoga ao processo de desenvolvimento individual rumo à vida adulta. Na jornada heróica, o protagonista sempre se defronta com um obstáculo, em geral o monstro antes nunca vencido (o mal, a sombra…).

 

Penso ser possível uma analogia entre o mito do herói e os jovens que éramos em 68. Na busca de um sonho individual ou coletivo de transformação social, de criação de um mundo mais humano e mais justo, jovens defrontaram-se, ao final de 1968, com forças aparentemente invencíveis. De AI5 foi chamada uma das faces visíveis do monstro.

 

No mito do herói, existem duas possibilidades de superação do obstáculo. Numa delas, o herói luta com o monstro e o vence. Na outra, ele se submete. Para os jovens progressistas, essas eram as alternativas à escolha, ao final de 1968.

 

Alguns optaram pela luta armada. Em geral, foram os politicamente mais definidos. Envolvidos ativamente com o movimento estudantil. Engajados em partidos ou grupos de esquerda. Viveram o mito do herói de uma forma que eu jamais vivi ou viveria. Desses, não sei quantos foram mortos. Outros foram exilados ou exilaram-se. Alguns se ocultaram. Pelo menos na primeira batalha, todos foram vencidos.

 

A submissão foi o caminho de uma maioria de outros jovens. Muitos, como eu, tinham uma incipiente formação política, desligados de movimentos organizados, recém-chegados na arena da luta. Parte dessa maioria acomodou-se. Acredito que muitos outros viajaram comigo durante uma imensa noite na escuridão da barriga da baleia, como Jonas na história biblica.

 

“Numa história do tipo daquela de Jonas, o herói é engolido e levado ao abismo, para depois ressuscitar; é uma variante do tema da morte-e-ressurreição. A personalidade consciente entra em contato com uma energia inconsciente que ela não é capaz de controlar, precisando então passar por toda uma série de provações e de revelações de uma jornada de terror no mar noturno, enquanto aprende a lidar com esse poder sombrio, para finalmente emergir, rumo a uma nova vida” (Joseph Campbell – O Poder do Mito, p.155).

 

Acredito que foi o que fizemos no tempo. Como o poder sombrio não estava dentro e não era inconsciente, a luta foi travada no teatro do mundo e não no da consciência. O cotidiano passou a ser o campo de batalha. Uma luta pacífica, silenciosa e subterrânea mantida em todas relações e encontros. Em todas as oportunidades e circunstâncias.

 

Para mim, a luta já começou em 1969. O seu palco foi o quadrante da frente e da esquerda (FAFI, segundo ano de Pedagogia), transformado no ponto de confluência de toda a minha energia vital e de todos os meus esforços. Mas, isso já é matéria para outro capítulo de história a ser contada ou de memória a ser revolvida.

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